Reflexões


Gerlandy Leão

Minha cadela deu cria em véspera do dia das mães. Confesso que não é uma cena agradável de se ver. Ela teve uma gravidez fácil e manteve o corpitcho enxuto, e foi exatamente por isso que fui surpreendida no meio daquela tarde. Estava meio tristonha e procurando um lugar pra ficar. Nem me toquei quando percebi que  ela não quis o almoço e ainda vivia invadindo meu quarto. “Pichuleta! Saia já daqui”, mas ela não queria sair tão facilmente debaixo da minha cama. Depois de vários gritos em cima dela,  resolve se retirar com um filhote pendurado. Eu havia interrompido o nascimento do seu filhinho. Óbvio que sensível como eu sou, aquela cena me chocou e simplesmente não sabia o que fazer.  Pensei ver  um aborto espontâneo.

Entre choros e gritos, minha irmã chega da rua e me acode (a mim, porque eu estava nervosa), enquanto nossa cadelinha  dava um show de segurança. Nascido o primeiro filho, minha irmã resolve me deixar sozinha mais uma vez . Burrice nossa, uma cadela não dá a luz a um só  apesar da barriga pequena. E lá vem a cadela desesperada enquanto os dois filhotes gritavam também. “O que é Pichuleta? Vai cuidar dos teus filhos” . Sei que ela tava tentando e  a via com um carinho todo especial beijando os filhotes, mas ao mesmo tempo sentia seu desespero. Essa cadela me deu trabalho, gritava e subia em cima de mim com um olhar de dor. No meio do desespero ligo para a louca da minha irmã aos berros: “ela vai morrer, ela ta sofrendo” e a insensível tenta me confortar: “ela sabe o que fazer”. Sei, elas sempre sabem o que fazer, mas parecia não entender o que a natureza fazia com ela e eu muito menos. Em vez de lhe dá a mão , apenas chorava e ligava para minha mãe e a desnaturada de minha irmã. No final das contas ela teve 6 filhinhos lindos. Até hoje estou chocada com aquela imagem de dor.

Agora, no mês de maio que homenageia as mães, apesar de ter passado o segundo domingo de maio, fico pensando sobre a maternidade. Ontem estive em uma programação da igreja em homenagens às mães e achei algo curioso. Muitas canções, frases e homenagens diversas se limitam a agradecer à Mãe pelo sangue, por carregar na barriga. E fiquei pensando como é equivocado. Para mim o espírito materno não está em carregar criança no ventre. Lembrei na hora da minha cadela e como senti medo mesmo de dá cria a um ser. Lembro da dor que  ela sentiu e imagino o quanto deve ter sido traumático no entanto ela não  tem sido atenciosa e fica fugindo dos pirralhos. Prefere dormir longe deles, talvez por isso seus cãezinhos  tenham falecido . A coitada ta magra e sem força de cuidar deles. Às vezes a admiro pela força que teve na hora de parir, outra hora eu não entendo porque ela não se mostra uma mãe mais atenciosa. E é por isso que fico pensando na maternidade e não cultuo esse lance de “sou sangue do seu sangue”.

Posso até parecer desnaturada, mas esse espírito materno não me encanta  apesar de achar a   gravidez muito bonita. Penso em ser mãe, mas não necessariamente em carregar alguém em mim. Penso nas possíveis desvantagens de se carregar uma barriga. Estava dando uma zapeada na net no álbum de algumas conhecidas grávidas e poucas conseguem se manter belas. E posso parecer insensível e/ou fútil (os que me conhecem sabem que não sou), mas 9 meses de gravidez implica pelo menos 3 retoques a menos da minha raiz, mais os meses que amamentarei, querendo ou não isso vai mexer sim na minha auto-estima. E o incômodo de levar aquele barrigão para cima e para baixo. Apesar de errado adoro dormir de bruço, onde colocaria o bucho quando estivesse deitada?

Confesso que se eu descobrisse hoje que não herdei os genes da Dona que  convivo há 27 (ou seja, minha deusa, minha rainha, minha linda mãezinha), eu não morreria. Ouço falar da importância do ventre, dos cuidados na barriga dentre outros, mas minha lembrança mesmo (e olha que minha memória é ótima) é de quando era criança. Não consigo lembrar de está mergulhada em algum lugar especial onde era alimentada ou ouvir alguma musiquinha. Recordo mesmo das brincadeiras, dos cuidados.

Meu instinto materno está mais em cuidar do que contribuir com genes. Aos que me conhecem sabem que não é novidade que tenho uma irmã adotada e que também penso em adotar uma criança depois dos 30 anos. A experiência de ser irmã de alguém que não tem meu sangue foi muito importante , meu amor por ela mesmo não sendo de mãe ultrapassa qualquer relação com o sangue. Quero ser mãe, mas não necessariamente parir, o que não quer dizer que não vá engravidar. Só digo que não é minha prioridade, não estou planejando barriga, mas se um dia me dê na telha que vai me fazer bem engordar um pouco mais e ter umas estrias a mais e sentir um chutinho dentro de mim, talvez eu opte por isso.  Ou se me der uma doida e eu passar a valorizar os genes, talvez faça como a Sarah Jessica Parker e MAthew Broaderick e contrate uma mãe de aluguel. Xi, havia esquecido um detalhe, não tenho a grana que eles têm.

Deve ser por isso então que não resumo a  importância por ser sangue do meu sangue, assim como não resumo a importância do pai por ser doador . Fosse assim  o Bicó que rodeou a Pichuleta por vários dias para conquistá-la e impedi – la de conhecer alguém legal, seria um grande pai e estaria ao seu lado enquanto os filhotes nasciam, no entanto esse cachorro fazendo jus a sua espécie não se deu ao trabalho de tentar saber como ela estava . Ludibriou nossa  inocente cadela e sumiu no mundo. Agora ela se vira, bem que ela poderia ter largado por ai ou ido atrás dele o obrigando a cuidar das crias “toma que o filho é teu”. Mas não faz isso, apesar de assustada e parecer desnaturada, ta levando pouco a pouco.

Ser mãe é muito belo e admiro e aplaudo a todas que levam esse exercício e embelezam a vida.

Há mais de um ano fiz  um post sobre Maria, mãe de Jesus e vez outra recebo e-mail ou comentários de ameaça. Já me irritei e dessa vez uma me chamou atenção. Não que ela seja a mais importante, mas pela a insistência dela. Não se conformou em  ver minha paciência em responder aqueles que tentam me corrigir ou evangelizar e continua na sua repetitiva luta em me converter.

Pensei em apenas responder nso comentários, mas creio que ficou longo e fica mais fácil dividir com os demais o que aconteceu. Só quero que fique claro, eu não sou má e nem como criancinhas.

Transcrevo o comentário descrito aqui

Quando comecei a ler o seu texto, durante todo o tempo orava a Deus pedindo o derramento do Espírito Santo sobre você, sem o qual vc. continuará assim (seca). Desculpe-me, mas vc. vai chegar ao ponto do esgotamento sem a presença do Espírito Santo (sei disto porque já passei por isto).
Pode ser teóloga, mas “não tem fé”!
Leu a Bíblia, mas não sentiu Deus agindo em sua vida através da sua Palavra.
Recomendo o exercício espiritual “A BÍBLIA NO MEU DIA-A-DIA DO PADRE JONAS ABIB”. PROVE E VEJA SE DEUS FALA OU NÃO EM SUA VIDA ATRAVÉS DESTE TRABALHO.
CONCORDO EM GÊNERO, NÚMERO E GRAU COM O 1º COMENTÁRIO (ISABEL);
LEIA SABEDORIA DE SALOMÃO (CAP. 13, 1 à 9)
Sim, naturalmente vãos foram todos os homens que ignoraram a Deus, ……..

Quanto ao Dr. Augusto CURY, os frutos falam por si só. As suas obras são de uma espiritualidade indescritível.
Como psicólogo, analisou Jesus, e interpretou como o homem “Jesus” conseguiu superar os momentos limitrofes vividos e amar as pessoas como amou.
O preço dos seus livros são insignificantes. Até livros de bolso ele tem, com preços mais acessíveis ainda.

Deus a abençõe e que o Espírito Santo te ilumine.

Vamos por parte. Estava de recesso, por isso não respondi mais cedo.

Acredito que vai ficar repetitivo. É a história “vou falar de novo, novamente mais uma vez”.

Meire, não estou seca, só não mais compartilho da sua fé. Fique a vontade para pedir que o ES derrame sobre mim. O que eu acho engraçado é que ele é tão bonzinho que precisa que alguém que ore. Pense comigo, se ele fosse tão bom ou se tivesse tanto poder, ele não precisaria de sua oração. Aí você me diz, “mas depende da pessoa querer”. Sendo assim, sua oração é desnecessária, seja trabalhando pelo espírito santo ou por mim. A sua oração só faz bem a você, como o cristianismo que apesar de se esconder nessa história de amor ao próximo nada mais é que uma religião individualista. Veja se concorda comigo.

Vocês pregam não por amor ao próximo, mas porque é mandamento de Jesus e serão cobrados. Logo têm medo de queimar torrarem no fogo do inferno então vêm com o marketing e busca por novos fiéis. Veja sou boazinha, nem falo na possibilidade de terem as igrejas lotadas, com dizimistas e poder de decisão na sociedade, já que a maioria dessa seria composta de cristãos. Fui romântica, e creio que sejam boas pessoas que almejam ir para o céu.

Não os critico, mas ao mesmo tempo em que digo acreditar que apenas têm medo do tridente do cão (eu sei que isso não é citado na bíblia, mas é a cultura popular fazer o que né ), vejo que se aborrecem quando alguém é contrário aos seus pensamentos e o que fazem: “Espero que deus faça justiça”. Entende-se por justiça, o juízo final “onde ele virá não como advogado, mas como juiz, para nos sentenciar” (Sim Meire eu leio, estudo, acreditava na bíblia).

Ah, como adoram o sentimento de vitória. Melhor seria ver um descrente se convertendo às suas palavras e dando a sensação de certeza, de que não são palhacinhos, de que existe o que se crer. É bom a certeza que existe e que deus faz (é uma música da Cassiane que eu até cantei muitas vezes, bunitinha). Mas se a pessoa não se converter tem a outra possibilidade que enche seus olhos de alegria. A sensação de subir para o céu e sentir-se vingados ao ver os otários torrando aqui na terra para que falem: “bem que eu disse”. Parecem menininhos mimados: “Olha aí pai (deus), o pessoal só ta falando mal do sinhô, e você num vai fazer nada”.

Para encerrar sobre essa história de espírito santo e sobre suas falsas orações, espero que você fique bem. Se quiser orar, ore, o que você faz com seu tempo é assunto seu.

Pode ser teóloga, mas “não tem fé”!

Eu passaria muito tempo discutindo sobre fé. Mas prefiro substituir a fé pelo pensamento positivo pelo bem estar (não lembro se com hífen ou sem hífen, maldita Reforma ortográfica). Eu acredito na vida e tenho muitas dúvidas mesmo sobre ela, tenho dúvidas até sobre divindades. Se existem ou não, se foi feito pelo Unicórnio, pelo Chá ou pelo Papai Noel eu não sei, mas tenho uma certeza: o deus descrito na bíblia é tão lenda quando Saci Pererê. E a Bíblia é um belíssimo livro de ficção.

Ops, falei que a bíblia é ficção… então não me venha citar passagens tiradas de lá como se fossem verdades para eu aceitar. É a mesma coisa da minha irmãzinha me dizer, “comer cimento é bom porque eu digo que é”. Isso não tem lógica né. Aí você procura algumas passagens bíblicas estranhas e quer entender e simplesmente somos calados com frases de que existem coisas que não entendemos. Mais uma coisa que lembra minha irmãzinha: “Por que isso… Porque mesmo, porque sim”. Quem tem um mínimo de senso não se satisfaz com essa resposta.

Outra coisa, você trabalha com a idéia de haver apenas um deus e ignora todos os outros possíveis. Já parou para pensar que você é quase atéia… Você não acredita nos deuses africanos, assim como um ateu, não acredita em deuses hindus, assim como um ateu. Sendo cristã você só acredita em um deus a menos do que o ateu.

“Quando você entender porquê rejeita os outros deuses, entenderá porquê rejeito o seu…” Stephen Henry Roberts.

Dr Cury

Já disse, sou fã do cara. Ele vende o que escreve e se dar muito bem. Mesmo que venda barato ou pouco ele tem nome. Jesus dá dinheiro. Perceba, tudo que tem seu nome é vendável. E me fala em de espiritualidade… por favor, percebo que és mais ingênua do que meu sobrinho de 1 aninho. Cury analise um personagem fictício, assim como Capitu, Emma Bovary, Otelo, Odisseu dentre tantos outros famosos, só não tantos quanto Jesus, além de não despertarem tanto interesse quanto Jesus. Isso porque não foram vendidos como salvadores.

Este era um assunto que eu não queria tratar. Até porque se perceber no meu artigo eu trabalho com a hipótese dele surgir, outras pessoas são mais cruéis com vocês, pois defendem que ele não existiu. Eu digo que existiu, mas não sei se ressuscitou. No entanto como homem sua importância deu-se por Maria, ela sim, jogada de lado, representa o que a igreja quer. Uma mulher submissa e que tenha nada de sexo. Só que a própria bíblia se contradiz. Dou uma de Cury e analiso uma personagem fictícia com base em alguns relatos e o que concluo é que de santa ela não tinha nada, mas era forte, firme e decidida a criar um filho como salvador do mundo. A idéia pegou: até hoje tem gente que acredita.

Gerlandy Leão

Medo, muito medo. Desde de 1º janeiro tenho a sensação de ser perseguida por uma caneta para me corrigir. Tudo por culpa dessa Reforma ortográfica. E pensar que me orgulhava tanto por saber acentuar, aliás por no jogo do bicho da Língua Portuguesa só saber acentuar. Foi por isso que nunca mais vim, foi por isso que nunca mais escrevi nada. Mentira, é brincadeira. Estive ocupada e no tempo livre com preguiça.

O mês de dezembro foi maravilhoso, me apaixonei e desapaixonei; ganhei dinheiro e gastei tudinho; viajei e retornei; presenteei e fui presenteada; me preparei para ir embora e acabei ficando; emagreci e engordei novamente; revi Zeca Baleiro e conheci Reginaldo Rossi.

Dezembro foi legal, só confirmou o que o ano de 2008 significou para mim. Voltarei com mais frequência.

Gerlandy Leão

E não é que sobreviveu.

Este espaço que vos escrevo, completou um ano no ultimo dia dez. A idéia era publicar algumas bobagens que eu tinha, mas no decorrer dessas surgiram outras idéias. Continuo com várias guardadas e com uma preguiça imensa, mas acho que a gente deve escrever independente de que gostem ou não. Vejo que é muito importante o que faço principalmente para mim. Fui reler meus textos depois de tanto tempo e me senti uma mera leitora, nem lembrava mais como havia chegado até aqui.

Quem me conhece sabe da minha paixão por contos e as dúvidas que eles deixam em nossas cabeças. Depois de algumas críticas continuo dizendo que não vou mudar nenhum final, no entanto achei por bem fazer um um final alternativo para os principais textos que escrevi. Fui fazer umas visitas e reencontrei vários personagens, eis alguns:

a vendedora de bolo…… recebe uma encomenda de manhã cedo

a pia ……………………….. é instalada no quarto sem torneira por perto

a rua………………………… voltou a ser sondada

o cadeirante……………… caiu ao tentar se adaptar e voltou rastejando para a velha amiga cadeira

a lagarta………………… nunca mais apareceu

a flores………………….. enfeitaram outras covas

a frase…………………… nunca mais será vista

As mães………………… são o grande apoio dos filhos

a forma geométrica…. expulsou um de seus pontos

a menina……………….. continua boiando pelas águas tentando aprender a nadar

a mulher……………….. encontrou um pai para o filho, mas desistiu de concebê-lo.

o casal………………….. separou-se, juntou-se, separou-se de novo e estudam um retorno

a figueira………………. insiste em achar que está seca, mas continua alimentando quem a procura

A pipa………………….. Teve uma queda maior, mas soube que está tentando se consertar novamente.

A janela……………….. virou lembrança, agora prefiro portões.

As viagens…………….. ganharam novos planos

O Incubus……………… ah o Incubus!

Quero agradecer desde já aos meus poucos mais fiéis leitores (ai como sou chata), principalmente aqueles que participam ou escrevendo seus comentários aqui ou discutindo comigo. PArabéns ao Contos da Serpente, me ajudou bastante no último ano.

Gerlandy Leão

Você já tentou não orar pelo menos um dia sequer? Essa foi a pergunta mais importante que vi nos últimos 10 anos. E prosseguiu: Não digo um dia, mas pelo menos deixar de orar pelo menos um período? Fiquei parada naquela página do livro que lia. E quis perguntar: é comigo que você está falando? Não era comigo, era com uma personagem do livro que lia “Do Nazismo para Cristo”. Este foi exatamente um daqueles resultados em que o tiro saiu pela culatra. Quando recebi esse livro de um amigo, a idéia era reforçar minha fé.

O livro relatava a vida de uma cristã que se tornou nazista e algum tempo depois se converteu ao cristianismo novamente. Uma personagem nascida em berço cristão se ver seduzida pela vida e ao longo do livro narra seu sofrimento longe dos braços da igreja ao se entregar aos prazeres da carne e às ideologias mundanas. Logo seu intuito era dizer: não saia desse caminho, pois fora dele é muito perigoso. Teria surtido efeito comigo não fosse por essa única frase.

A autora fala (o livro é narrado em primeira pessoa) que, diante as dúvidas de sua espiritualidade, ouviu uma pergunta muito perigosa de sua professora:

Minha querida, você já tentou não orar pelo menos um dia sequer? [...] Se você passar uma manhã sem sua prece verá que mal algum te acontecerá. A autora queria falar: meus queridos leitores, aquela era uma armadinha do inimigo. Eu comecei a ver como deixava de orar um dia não me acontecia nada de mau, logo poderia viver uma vida assim. Mas não cedam meus irmãos, não caiam em tentação.

A essa altura eu só repetia: um dia, será que consigo pelo menos um dia? Ela ficaria desesperada se me visse, ou até tentaria dizer, não foi isso que eu quis dizer, mas já era tarde. Depois disso ainda li umas páginas, mas nem cheguei a terminar a leitura do livro de bolso com suas poucas páginas, mas ele já tinha cumprido a sua missão, pois nenhum outro livro herege havia conseguido comigo o que esse evangélico conseguiu.

Igual a um robô programado para fazer tarefas diárias assim fui por muito tempo executando orações todo dia e praticamente o dia todo. Não havia um dia sequer que minhas orações fossem esquecidas de serem realizadas e não se tratava apenas de simples palavras, Deus me ajude, obrigado meu Deus ou me salve. Realizava todo um ritual diariamente mantendo a marca nos joelhos que orgulhosamente chamávamos o sinal da ovelha. De manhã cedo ao despertar me ajoelhava e pedia a ele que não deixasse que tivesse uma cobra embaixo da minha cama. Para depois voltar do banheiro limpa e pura para me ajoelhar verdadeiramente com aquelas palavras pesadas admitindo que vinha,

por meio destas reconhecer que somos lixos diante da tua magnitude e soberania e que não somos merecedores de nada. Para depois agradecer pelo pão, pela vida, pelos céus, pela terra e tudo que neles há, e principalmente pela salvação e por ter enviado o filho amado para morrer na cruz por mim e então pedir que não faltasse o pão aos órfãos e viúvas e que protegesse as autoridades e minha casa.

Sabedora de que se tratava de um pedágio para um bom dia, porque quebrar isso seria como ser um computador sem antivírus, logo ele não tinha obrigação de nos proteger, não deixava de cumprir esse ritual. Sei que isso não foi fácil, digamos que fiquei nervosa, com medo e esperando a qualquer momento acontecer algo de mau comigo. Passei pela primeira prova. Algumas pessoas que o leram viram apenas: Saia da linha e estarás ferrado! (para não falar a outra palavra com F),

Essa experiência não me tirou da igreja imediatamente, mas apenas me abriu novos horizontes. A partir daí, a pequeninos passos, fui compreendendo outras coisas ao ponto de um dia perguntar aos céus se eles não se cansavam de tanta bajulação. Pensei em mim e que me irritaria se ouvisse uma pessoa me agradecendo todos os dias por um presente que dei no dia do nascimento. Ou se a mesma ficasse se humilhando para mim, ou mesmo se todo dia me pedisse para eu dar algo que eu já vou dar mesmo, (sim porque é assim que aprendemos, ele vai nos dar, mesmo assim devemos clamar e pedir).

Além da literatura ouvir algumas palavras hereges em certos filmes me deixou balançada. As palavras proferidas pelo magnífico Al Pacino em Advogado do Diabo sobre Deus me pertubou bastante: “Ele fica mijando de tanto rir! Ele é um sacana, um sádico!”. Tentava levar na esportiva, mas não dava. Dogma e suas bincadeiras com as regras, colaborou também bastante com o que penso hoje. Laranja mecânica e a sensação do que a instituição fizera comigo me deixava maluca, mas dentre tantos importantes Matrix me deu uma chance de saber que eu podia optar realmente entre a ignorância e o conhecimento. Bendito Platão e seu mito da caverna. Vivia analisando sobre isso no meu quarto, conversando comigo sobre minha transformação.

E assim foi durante muito tempo. Fui evangélica durante muitos anos e respeitei durante todo o tempo que fui seguidora. Não fui tentada pelos desejos carnais, mas sim pela necessidade de conhecimentos, com uma mudança de dentro para fora. Pouco a pouco fui rompendo tentando não escandalizar ao grupo de pessoas tão queridas que conheci e conheço, pessoas maravilhosas que apesar de nossas diferenças e de muitas vezes não respeitarem minha decisão, continuam amadas por mim.

A vida fora da igreja não foi fácil, muitos ainda duvidaram da minha saída pensando se tratar de empolgação, apesar de eu nunca ter afirmado não ser mais. Não é fácil dizer sou uma ex evangélica, as pessoas não te dão crédito. Sempre acham que você apenas está afastada, que um dia retornará e que está apenas aproveitando um pouco a vida, ou que vocÊ foi fraca, que não enfrentou seus problemas, que deveria ter mais fé, que deveria esperar no senhor e blá blá blá. Ignoram o teu conhecimento e que você não é uma empolgada para sair “para farra” ou para “passar batom nos lábios”, mas que há algo mais forte que é a sua mente.

Tentei por muito tempo, conter minha vontade de mostrar “meus desejos” para não relacionarem minhas ações à uma evangélica incompleta. E isto nunca me ocorreu. O tempo que vivi foi com paixão, e quando as dúvidas começaram a me assolar, pouco a pouco fui me desvinculando. Só agora consegui retirar a capa que me expresso sem medo. Mesmo assim ainda passo por situações curiosas.

Muitos ainda me vêem como evangélica. No meu bairro ainda sou chamada por Irmã. Se alguém quiser me encontrar por lá não pergunte por meu nome, procure pela Irmã mais velha, filha do Irmão motorista. Sim, porque evangélico não tem nome.

Uma vez um senhor chegou lá em casa perguntando: é aqui que mora o Irmão? – É sim. Respondi. Aí ele pediu que o chamasse. Então perguntei-lhe: o meu pai, o meu irmão ou o meu tio? E ele respondeu-me: o que vende remédio. E eu prossegui: ah, então é o Irmão vizinho que mora aqui ao lado. Não é piada, garanto.

E quando ando com minha irmã, são os comentários. A irmãzinha e a irmãzona. E se minha mãe estiver junta é a Irmã, mãe das irmãs ou ao contrário, as irmãs filhas da Irmã.

Outro dia estava em uma festinha com vestimenta totalmente contrária à adotada pela igreja, ou seja, bermuda, blusinha, brinco e ainda estava dançando. Uma garota perguntou se eu era evangélica. Foi uma pergunta absurda, mesmo assim lhe indaguei o por quê da pergunra. Ela confirmou: “por causa do seu jeito”. Jeito? Que jeito minha gente? Outra vez um rapaz me disse, conheço evangélico só pelo olhar, você é crente? Tal foi o meu susto, pois falou do meu olhar, logo do meu olhar que não é nada inocente, aí vem alguém e me afirma que tenho um olhar de crente.

Aí lembro de um professor que eu adorava conversar e, às vezes aborrecido, soltava um “Porra” para mim e dizia: Teu defeito é que tu ainda é muito cristã. Outro amigo me cobrava que eu me impusesse mais, porque eu era muito humilde, porque aceitava tudo o que me diziam. Por muitas vezes brigou comigo devido as minhas citações bíblicas, ignorando que toda a minha formação tinha sido baseada na bíblia, ignorando toda a minha herança “cultural” – Calma gente! não é assim. Outro se incomoda porque “guardo as coisas para mim”. Dentre muitas outras provocações que ouvi e ouço, só tenho uma resposta para ambos: ocorre comigo algo parecido com o apóstolo Pedro.

Na noite do julgamento de Jesus, Pedro foi indagado três vezes por três pessoas diferentes. Embora negasse, ninguém acreditava, porque ele tinha o jeito e o olhar de seguidor, ele tinha todos os aspectos de seguidor. Pedro não conseguia negar o que era. Mesmo naquela noite tendo cometido algo considerado tão criminoso quanto os que chibataram seu mestre, mesmo ele realmente questionando até que ponto poderia aceitar um deus ser crucificado, mesmo ele querendo desistir daquilo que acreditava, ele não conseguiu negar completamente. As palavras não expressavam o que ele tinha enraizado em seu comportamento e seu jeito de agir. Por outro lado os demais discípulos do mestre se aborreceram com sua atitude de negar. De um lado para alguns as palavras não eram necessárias, já que seu comportamento dizia o contrário e do outro uma simples palavra tinha um poder muito grande.

Pedro, coitado de Pedro.

Pedro, a pedra a qual Jesus disse que faria alicerce de sua igreja, estava numa pior porque se preocupava com o que os outros pensavam. Imagino que ele deve ter sofrido muito sem decidir qual lado da força seguir.

Acho que passei pelo mesmo ou com algo parecido com o ocorrido com Pedro. Sempre preocupada com o resultado de minhas palavras com medo de mostrar exatamente o que acreditava, cheguei a atuar cenas patéticas, de tirar peças de roupa, ou maquiagem, quando via alguém da igreja, ou mesmo pôr aquela calça (considerada uma peça proibida no meio evangélico que eu freqüentava) para que meus demais amigos não debochassem de mim. Isso durou muito tempo, e muitos me cobraram uma atitude, para que eu não fosse hipócrita, sem entender que muitas vezes a hipocrisia é necessária para o equilíbrio da sociedade.

Fiquei por muito tempo preocupada qual resposta dar a ambos os lados, mas isto mudou, graças a mim. Hoje me sinto mais segura e sem medo de ser ou crucificada por romanos, ou desprezada pelos amigos cristãos. Não sou São Pedro e nem preciso mais provar para ninguém o que quero ou o que não quero, ainda bem, eu é que não queria ter um monte de gente me seguindo.

inspiração: So um desabafo mesmo. Há cinco meses estava saindo para o serviço e na porta de casa abaixei a cabeça e comecei a orar. A priori fiquei assustada com meu gesto, mas depois vi como ainda estou acostumada a ser robozinho, mas devagar chego lá.
dedicado: a todos que conseguiram fazer uma leitura além, em especial a você por ter me emprestado aquele livro.

Gerlandy Leão 

 terra.jpg Foi uma loucura este início de ano. Com certeza o começo mais intenso que tive na vida. Mas não esqueço meu bloguinho. Será até quando poderei te dá atenção? Ainda nem completou um ano, ainda ta mamando e eu já penso em deixá-lo. Bem, deixar não vou, mas ficou tão paradinho. Nem foi mesmo por falta de assunto já que tenho alguns textos digitados, mas acho que esperava uma grande inspiração para escrever o primeiro texto do ano: ela não veio.

Já que Dona inspiração anda vagabun… ops, vagueando por aí, resolvi pelo menos aproveitar alguma coisa. Fui tão mal educada, não apresentei nenhum cartãozinho de Feliz Ano Novo aos meus poucos, mas fiéis leitores (UI!!) Sim, porque apesar de não desejar Feliz natal (apenas respondo). Para um novo ano eu desejo que seja boa a virada p todo mundo. Não só ela mas todas posições, ou não, o resto dos dias. Isto, todos os dias sejam cheios de realizações e todos blá blá blás.  

Nossa, eu tive um reveillon incrível acompanhada por amigas que me fizeram companhia o ano inteiro NA ALEGRIA E NA DOR, mas não é um casamento, apesar de solteiras, somos hetero. Foi a primeira vez que eu bati o pé em casa. Todo ano lá estava na igreja cantando “Cristo cura sim”, este ano foi o contrário. Tou indo, fui!!  Apesar de ano passado ter viajado, com certeza se tivesse ficado, teria passado na igreja. Este ano foi diferente. Conquistei muitas coisas, inclusive respeito (apesar de muitas brigas), através do Não concordo, mas respeito. Ótimo!  

Oh minha gente, outra diferença de um  ano a outro. Reveillon passado ouvi como primeira música do ano “Quem é o gostosão daqui”, foi bom (apesar de estranho), imagina este ano que 10 minutos depois da queima de fogos vejo-o entrar maravilhoso, agitando com seu jeito carismático, sua voz única e letras divertidas. De quem eu falo? Só perdôo mesmo os que não me conhecem. Era ele, meu Zeca Baleiro. Foi seu segundo show que tive o prazer de ver e óbvio que me fez apagar a decepção do primeiro.

Terminado o show, hora de voltar para casa 2:30 da manhã. Não duvidem, eu amanheci acordada sim este ano, mas na net. Ah, o que eu não faço por uma conversa agradável?  Oh, grande Heráclito, se um homem e o rio não são os mesmos depois de um mergulho imagina depois de um ano? Posso afirmar que acompanhando o movimento de translação do planeta Terra, mergulhei inúmeras vezes no rio e a cada dia me encontrava mais.  Nunca é tarde para desejar, mas quero que todos meus amigos tenham seus objetivos realizados ou pelo menos encaminhados durante este ano. E que 2008 seja muito melhor do que ano passado. Ano de 2008 todo mundo vai molhar o biscoito… eu sei é uma rima escrota, mas não podia deixar passar em branco.

Gerlandy Leão

 

Estive olhando o meu arquivo de publicações no mês de novembro e pensei: Daqui alguns anos quando retornar a ler vou pensar que este mês estava tomada por um espírito lúgubre. Já expliquei que cresci achando a morte até legal, uma vez que se tratava da passagem daqui para um mundo melhor. Apesar disso, é óbvio que sofria pela ausência da pessoa, fosse as que me deixaram, fosse as que deixaria com a minha morte.

Mas por que novembro? novembro inicia com os finados, porém não quero deixá-lo marcado como um mês fúnebre para mim. Ao contráio, tenho que louvar vidas maravilhosas deste. Então por que falar de morte se posso falar de vida? Tenho uma prima que nasceu nasceu dia 2, um primo no dia 9, minha irmã-melhor amiga dia 22 e este ano fui presenteada com um sobrinho que nasceu dia 10.

Receber a notícia de ser tia nem sempre quer dizer que você está velha, a exemplo, minha irmãzinha que tem 9 aninhos e já se tornou titia mesmo sendo nossa caçulinha. Mas isto não me livra de cair na real de que estamos envelhecendo cada dia mais rápido. Há dez anos comemorava meus 15 anos (com direito a todos rituais bregas). Essa data demorou tantao chegar, mas foi só o tempo de amarrar o cabelo já estava com 20 anos, depois num instalar de dedos estava com 25. Minha nossa senhora, (é minha ou é nossa?) é provável que num piscar de olhos eu seja trintona.

Sei que tempo é relativo, inclusive li há alguns dias de uma pessoa com minha idade que para um adolescente somos “uma tiazona de 25 anos, para um coroa, uma gatinha de 25 anos”. Mas não gosto nem de um nem do outro. Detesto conflitos de gerações, por isso, que eu me lembre nunca fiquei com uma pessoa mais nova ou mais velha 3 anos do que eu. Não é que eu force não querer. é que acabo não me interessando. Na verdade me interessei uma vez. Eu tinha 18 anos e ele 14. Um pirralho né? mas era daqueles bem nutridos, que aumentam a idade e conseguem enganar. O garoto vivia no meu pé, e eu tive uma conversa com ele: “Olha aqui meu filho, você é uma fofura, mas me procurre daqui 4 anos, quando você tiver pelo menos 18 anos e assim não serei acusada de pedofilia; Pode me ligar no dia do teu aniversário, a gente toma um sorvete juntos”. Ele topou o acordo e o menino crescia em graça, saúde e charme (parece narração bíblica).Ao completar 16 anos eu quis quebrar o acordo porque ele já estava irrestível. Mas segui firme no meu proposito.

Dois anos depois eu descumpri o acordo, pois estava namorando e não é só por questões de fidelidade, é que quando me apaixono fico aquela monogâmica que só tem olhos para o amado. Então o pirralho que já era um rapagão não me atraía. Mas como prêmio de consolo ele ficou com minha irmã. Que horror né? mas não foi sacrifício para nenhum dos dois e eu não fiquei como tratante.

Pois é, lembrei dele porque ele é pai agora. Poxa até aquele que eu desprezei por ser menino é pai, meu irmão, um ano mais novo que eu é pai. Minhas amigas de infância, exceto uma, as demais são todas mães. E é por isso que eu penso estou envelhecendo. Foi isso que eu sempre pensei, não tenho medo da morte, tenho medo da velhice, uma velhice solitária, sem pessoas legais ao meu lado. Lembro de uma cena do filme Caçadores de emoção, quando um personagem diz que deseja morrer ao surfar na maior onda do mundo: Eu não desejo chegar mesmo aos 30 anos. Ele radicalizou é certo, mas ele queria uma vida mais agitada e se morresse fazendo gostava o deixaraia feliz. Melhor morrer jovem e feliz que velho e amargurado. Até porque as pessoas não choram com morte de velhos, é muito raro você ver alguém emocionado com essa perda, tá todo mundo esperando mesmo. Quanto aos jovens, entram na história.

Aí me disseram para eu fazer um filho e assim ter garantido uma companhia na velhice. Que horror, fabricar um ser humano para isso. Deixo isso para pensar depois . Tem tanta gente necessitando de carinho e amor. Vou fazer filho para me fazer companhia? Falando em filho lembro novamente do meu sobrinho. Por que todos bebês são lindos? Foi tão emocionante vê-lo entrar pela porta, tão indefeso, tão cheiroso, igual à minha irmãzinha, entrou em casa nos braços de minha mãe com um par de olhos arregalados e com mãozinhas que pareciam palitos de fósforos, olhando para o teto, olhando para mim. Ah tã linda, a recém nascida mas linda que eu já vi. Também lembro quando fui visitar minha irmã mais velha no hospital. Puxa, eu lembro do nascimento da minha irmã de 22 anos que é três anos mais nova que eu. A minha irmãzinha agora é uma irmãzona e eu? e eu?

Pois é este o meu medo. Não é da vida, não é da morte, não é da velhice é da solidão ou será não? Ao mesmo tempo será mesmo gracioso, ser uma velhinha bonitinha com um monte de gente ao meu redor segurando o bolo e soprando as velinhas de cem anos por mim porque eu já não tenho força.

Aff é melhor nem pensar. Enquanto não fico velha, vou ao recreio. É clichê essa frase, mas vou me finalizar com ela: A vida é curta então curta a vida.

inspiração: e eu sei lá. só besteiras mesmo


Gerlandy Leão

 

 

velorio.gifJá fui repreendida, teve gente me perguntando que diabos me ocorreu por eu estar falando só em morte. Tenho algo com a morte que não sei explicar. Não sinto medo da morte, sinto medo do morrer e, sobretudo de quem continua vivo, pois tenho certeza que faria falta sim. Sempre tive mania de morte, “esperando a morte chegar”. A primeira pessoa que lembro de ver morta foi minha Tia-avó que faleceu na minha casa. Peguei até umas flores no jarro na casa da minha vizinha para colocar no caixão, mas o velório foi bem calmo. Ninguém chorava, a parente mais próxima que ela tinha era minha mãe que já havia conhecido adulta e já em estágio de doença avançado, logo não tinham nenhuma intimidade ou chegaria a sentir falta. Ela morreu sozinha na casa dela, que horror. Nenhum filho, nenhum amigo, ou parente mais próximo por perto. Disso aí eu tenho medo, de não ter ninguém para segurar uma velinha na minha mão e chamar o padre para me dar extrema unção quando eu tiver velhinha.


Também tinha medo da dor da morte, do gelo nas pernas, ou da pancada, mas imagino que em vida a gente também sente dores tão fortes que assim estamos preparados. Mas da morte em si não tenho tanto medo, talvez porque cresci acreditando que esta era só um estágio, uma saída daqui para ali e logo logo nos reencontraríamos com entes queridos. Chegava até a brincar dizendo que queria morrer antes dos 30, olha a idéia da criança. É, a gente não pode escolher, mas se pudesse escolheria morrer de modo bem rápido, sem perceber tipo “dormir e acordar morto”. Ui! Pensei agora, Putz grila eu vou morrer antes de ver a construção da máquina de viagem ao tempo, que maldade. A morte é sim algo bem triste, doloroso, mas eu penso que a eternidade é pior. Sinceramente me pergunto o que diabos a gente iria querer fazer por toda vida. Como disse Paulo Autran é a morte que embeleza a vida, pois sabedores de que não estaremos aqui sempre, procuramos aproveitar cada momento. Mas concordo também com João Ubaldo Ribeiro que a gente podia ter pelo menos duas vidas, uma para ensaiar e outra para viver de verdade, já pensou como seria legal?


Apesar dessas análises sempre tive respeito pela morte alheia. E me emocionava, seja lá quem fosse. Era morte? eu chorava. No interior é muito comum as visitas à casa de mortos. O povo passava tempo, só batendo papo enquanto o morto ficava lá no meio da casa com aquela cruz em metal na cabeceira do caixão no caso de católicos ou uma Bíblia em velórios de evangélicos. Engraçado, agora lembrei, a cidade se dividia igual na Irlanda entre católicos e protestantes. Pois bem, era muito comum ver pessoas passando pela rua, olhar aquela muvuca e adentrar na casa só para olhar a cara do morto deitado. Às vezes ficavam um pouco mais, bebiam um café, fumavam cigarros, tomavam cachaça, batiam papo, contavam piadas, era uma festa.


Não sei que graça tinha ver morto, mas eu já vi bastante quando criança, aliás, quando eu era mais corajosa do que hoje. Fui inserida neste mundo de caça-mortos por Sr. Menino (leia mesmo Seu Menino), sinceramente não lembro de ninguém que tivesse tanta fascinação por mortos como ele. Era meu vizinho da frente lá na minha cidade natal. Uma figura bem caricata, um olho torto e o outro fechado que dava umas risadas mexendo todos os músculos do rosto e fechando todos os olhos. Vivia mordendo palito de dente, ou coisa nojenta, naquela época eu nem me tocava, mas hoje acho horrível aquilo. Ostentava uma barriga imensa e ainda gostava de andar sem camisa. Puxava de uma perna, era careca em cima e tinha uns cachinhos atrás na nuca. Era um Mister Esquisito, mesmo assim não tinha medo dele, ao contrário eu até gostava daquela criatura que parecia ter saído de histórias como Corcunda de Notre-Dame ou Frankenstein.

Ele vendia dindin (suquinhos, sacolés, fraus, chupa-chupa, geladinho dentre outros), por isso andava pela cidade inteira para poder ter um bom lucro. De manhã cedo eu saía para escola e ele para as vendas e me falava todo animado: “Ei Morena, como será o dia hoje? Será quem já morreu?”, e eu sorria: “Sr. Menino será que hoje o senhor encontra algum?” e ele todo esperançoso dizia que encontraria sim, pois todo dia morria alguém no mundo, só precisava ser encontrado. Parece loucura dele, mas no almoço nós já tínhamos os lugares para ver. Montava na garupa da sua bicicleta e íamos a cada lugar. Quem ler, deve imaginar que se trata de um ser insensível, mas em muitas vezes eu o vi emocionado.


Víamos todo tipo de mortos, desde os “de morte morrida como os de morte matada”. Chegava lá eu me sentava na cadeira, ele saía sondando a morte do indivíduo, depois já vinha falando para o povo a célebre frase: “morreu como passarinho”. E consolava as pessoas dizendo que tinha sido a vontade de Deus, que ela estava agora ao lado dele. E que a Virgem Santíssima estava feliz com a presença da pessoa no céu. Houve uma vez que chegamos e o “morto ainda estava vivo” (que loucura mas é verdade). O povo todo na rua, a casa lotada o carro fúnebre na porta da casa dele com o caixão e ele ainda vivo segurando uma vela, que eu tinha medo de queimar a mão dele, enquanto soltava gemidos de dor. Não sei se foi opção dele em não querer morrer no hospital, mas lá estava ele gritando e o homem da funerária olhando para o relógio, esperando se ele não ia logo expirar. Chegamos a ir em hospitais procurando falecidos, lembro de duas pessoas na pedra do necrotério, uma mulher toda enrolada e um rapaz recém chegado com olhar na minha direção, parecendo pedido de socorro. Eu vi esses dois de manhã cedo porque tinha ido fazer exames, aproveitei e fui procurar por lá.


Depois das visitas voltávamos para casa passando o jornal para todo mundo. Claro que não ia todo dia, afinal eu era uma criança tinha que brincar e estudar também, mas eram bem comum as visitas. Uma vez olhamos um rapaz que foi acidentado e haviam enfaixado a cabeça dele. Ele havia tentado subir no ônibus em movimento e caiu, infelizmente ocorrendo o pior. Com este fiquei impressionada mesmo passando vários dias sonhando com aquela faixa na cabeça do menino e no desespero de sua mãe.


Nos dias seguintes Sr. Menino passava e gritava: “Vamos hoje Morena”. Mas eu me escondia, hoje não. Foi quando comecei a ver que a coisa era séria. Fazia aquilo com tanta inocência e Sr. Menino continuava com aquela minha mente de criança. Era uma fuga acredito, tenho certeza que ele tinha medo de morrer sozinho e dava aquilo que queria receber. Acho que ele queria receber visitas na morte, já que vivia tão sozinho em vida, e a diversão que encontrava era ser um caça-mortos. Pelo menos havia se destacado em meio às pessoas fazendo algo diferente. Mas aí ele queria me influenciar só porque eu simpatizava com ele, aí já é demais.


Deixei essa vida, mas fico muitas vezes pensando como ele. Imagino quem nunca pensou no dia do seu velório. Será que vou ta bem visível? Será quem aparecerá? Quem irá ficar chocado? Quais os comentários que sairiam a meu respeito? Tenho certeza que muitas pessoas, assim como eu gostariam de ver sua morte, para depois voltar e puxar o pé do povo. Eu te vi. Não me engana mais. Tem muita gente que acredita ser possível, mas eu não. Mas posso imaginar que no meu velório sairiam coisas legais sobre mim, não por se tratar de minha pessoa, mas é que todo morto vira bonzinho de uma hora para outra, como diz Zeca Baleiro “é mais fácil cultuar os mortos do que os vivos”. Ah, quando eu morrer quem puder fale aos meus entes queridos que estou num lugar melhor e que no último instante eu me converti, não é por mim, nem ligo para ideologia no leito de morte, mas sei que seria mais confortável para eles acreditarem que um dia me reencontrarão no céu mesmo que isto seja mais impossível do que barrar o aquecimento global. E aos meus amigos não religiosos podem consolar dizendo que a vida foi bem vivida e que eu não queria me eternizar mesmo, com certeza estarei bem ao contribuir com o planeta Terra com a matéria do meu corpo. Quanto ao Sr. Menino, ele ta vivinho bulindo, diminuiu mais de procurar por mortos, acho que foi porque encontrou uma companheira para acender as velinhas no dia do seu velório. É, não falta meia para pé nenhum.

 

Inspiração: Aquele senhor existia mesmo, tou dizendo.

Gerlandy Leão

 

 

 

maria_e_jesus1.gif

 

 

A publicidade foi certeira, tenho certeza que todo mundo concordando ou não deve ter se interessado em participar daquela palestra. “Maria, a maior educadora da história” era o tema da ministração da palestra por aquele autor da área de “administração de auto-ajuda”. Boa estratégia, utilizam nomes de pessoas muito admiradas, adoradas, idolatradas, veneradas e tudo de ada, da História para ganhar o povo.

 

 

Detalhe, a palestra não seria apresentada em uma igreja cristã, e sim em uma universidade, isso mesmo, era um evento científico e o público seria a “cabeça pensante da sociedade” (embora fosse aquelas famosas caça-níqueis). Entendi, observando a que público se dirigia, que se tratava de: eduque seu filho e/ou seus alunos como Maria educou Jesus de Nazaré. Agora para tristeza de todos não assisti a mesma, então não posso tecer nenhum comentário ok? Errado. Tenho certeza que minhas previsões sobre as falas dele seriam apresentadas certeiras. O imagino vestido em sua roupa formal, segurando um microfone sem fio, de vez em quando ajeitando a gravata ou os óculos, com seu sorriso cativante. Aí se vira para a apresentação em Power point, projetada pelo Data show, aponta com aquela canetinha vermelha alguma citação, e mostra alguma figura de Maria segurando Jesus.

 

 

Enquanto mostra a relação da mãe com o filho ele vai convencendo a platéia que maravilhada anota todas as suas observações, inclusive seus suspiros, concordando: para termos um mundo melhor devemos seguir os exemplos da educação mariana. Pronto, todos os educadores presentes no recinto sairão convencidos que devem cuidar de um messias que veio ao mundo para salvar a humanidade. E os problemas que assolam nosso querido planeta Terra desaparecerão num passe de mágica.

 

 

Sinceramente nessa história toda só concordo que Jesus surgiu por causa de Maria. Ela é, como eu posso dizer de modo simplório, “muito massa”. Não é à toa que aplicou a maior migué da humanidade. Maria criou Jesus como um deus, ele cresceu ouvindo da sua relevância para salvação da humanidade dentre outras coisas. Ouviu tanta coisa de Maria que acredito até a própria já se convencia da veracidade. As coisas pouco a pouco foram dando certo. Aos 12 anos Jesus desapareceu em Jerusalém por cerca de 2 dias. A cidade estava em festa e ele simplesmente evaporou. José e Maria ficaram loucos da vida procurando o menino por tudo quanto foi lugar. Foi encontrado muito tempo depois no templo falando com doutores da lei.

 

 

 

Quando Maria chegou e foi tentar dá-lhe uma bronca por ter saído sem avisar e ainda a deixar nervosa (claro, toda mãe em sã consciência ficaria preocupada, pensando que o filho teria sido seqüestrado) foi ela que recebeu uma resposta mal criada. “Mulher, que tenho eu contigo. Não sabe que estou na casa do meu pai”. Ela ficou caladinha. Em vez de darem atenção para essa indelicadeza, as pessoas preferem olhar para a cena em que ele dava aula para doutores. Ora, não é bem assim. Não é que o menino soubesse mais do que aqueles homens, mas eles se admiram com aquela conversa. De onde esse garoto tirou essa história de filho de Deus? De onde ele veio. É certo que era muito inteligente, estava sendo criado o tempo todo para falar isso. Maria estava sempre lhe dando as tarefas. Apesar de admirarem a inteligência, em momento algum eles o viram como Messias ou quiseram segui-lo. Vejam como Maria colaborou para que o menino pudesse pôr em prática seus conhecimentos.

 

 

Outra marca de Maria na vida de Jesus foi na apresentação de seu primeiro milagre descrito em João 2:1-11. Acho aquela cena estranha, mas interessantíssima. Maria começa a botar pressão no filho: “olha o vinho acabou”. E ele lá na festa olhando não sei o que, e lá vinha ela novamente. “Meu filho o vinho acabou”. E ele nem se mexe. “Jesuuuus, O vinho acabou!!!” E ele mui delicadamente, como daquela vez no templo, responde: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”. Mas insistia com ele e ainda falou aos discípulos: “fazei tudo quanto ele vos disser”. E mandou o pessoal preparar o recinto, claro, tratava-se de um espetáculo. Como uma fiel assistente de palco que deixa tudo no ponto para o mágico levar a fama, aquela mulher ordenou que eles seguissem, mas na verdade ela mandou foi um aviso para Jesus: de hoje não escapa. Já tem 30 anos que tenho te preparado para este momento e você quer ficar só aí? Já teve o tempo que te dei desde seu aniversário de 12 anos. Agora é hora de mostrar serviço, tenho falado para todo mundo quem é você e você vai provar é agora. Essa é grande chance. Jesus, mesmo tendo sido duro com ela há poucos segundos, resolveu obedecer. Ele nunca sabia o que fazer sem o cuidado de sua mãe.

 

 

Uma das coisas que mais me chama atenção é por que aquele milagre besta? Transformar água em vinho? A própria bíblia fala para não gastar dinheiro naquilo que não é pão. E por que se embriagavam? E por que estaria Maria e Jesus preocupados em alimentá-los, ou melhor embriaga-los? Seria milagre dar bebida ao povo para se divertir? Então por que hoje é tão condenado? E tem outra, este me parecia ser um milagre bem fácil. Creio que até eu conseguiria, isso porque, se observarmos a festa estava no fim, a galera já estava doidona, então não conseguiriam distinguir que vinho era e de onde viera. Querem ingerir qualquer coisa desde que não tenha que voltar logo para casa. O povo queria continuar bebendo, o jeito que estavam tão loucos se dessem água só com algum produto alcoólico despejado dentro eles não diferenciariam… Hum que interessante!! Algo despejado nos vasos de água? Não teria sido isso então, um Alakazam Alakazum e vupt… eis que os olhos ébrios não visualizariam algo caindo dentro dos vasos. Por favor, não me crucifiquem, foi só uma hipótese. Mas eu não estava lá para duvidar, embora vocês também não estivessem para acreditar. Então estamos empate. Depois do primeiro milagre foi fácil aparecer os outros, a fé e a Consciência coletiva se encarregaram de dar resultados.


Comparando Maria com outra mãe

 

 

Eu bem disse que Maria é a grande responsável pelo surgimento de Jesus. Será que aquele palestrante falou sobre a presença dela nos milagres, ou como ela o influenciou? Queria ter um pouco mais de tempo, para estudar minuciosamente cada detalhe e procurá-la por todas passagens bíblicas, mas creio que isto ficará mais para frente melhor seguir em diante antes que eu perca a minha idéia central. Estou me inspirando, acho que vou preparar uma palestra, pena que não terei tanto público como aquele guru.

 

Além de Maria, encontramos uma personagem interessante na história que merece destaque, Olímpia mãe de Alexandre – o grande, e nem por isso ela é considerada santa, óbvio, ela não era cristã. Sim, os méritos não são apenas de Filipe – o pai, ou da bela educação que recebeu de Aristóteles (que educação viu?). Mas, sobretudo a insistência de sua mãe numa tarefa que ele tinha que cumprir. O pouco que estudei sobre Alexandre foi em forma de fichamento para passar no vestibular, sobre suas conquistas mesmo assim ensaio algumas falas mesmo sabendo que apesar de inúmeros estudos sua vida pessoal ainda bem misteriosa.

 

 

Assisti a um filme importante (para variar um pouco) e achei muita semelhança com a história de Jesus. Não é aquele com a Jolie, o Farrel e o Kilmer, e sim de 1956, estrelado por Richard Burton. Belíssima história me chama atenção desde o início quando a mãe fala que ele é filho dos seus deuses, e os profetas alimentam isso falando sobre profecias e que ele será vitorioso, que vai ter grandes conquistas. Claro esse lance de filho de outro pai desperta o ciúme de Filipe que ao contrário de José não acreditava no mesmo deus dela. Bem, não preciso me ater ao filme, não preciso narrá-lo, mas cito alguns momentos interessantes. Percebe-se que ela está sempre presente na vida do filho algumas vezes até o usando para atacar ao marido. Sei que Alexandre cresce sabendo que tem um propósito, se sentindo um deus que terá algo grandioso na vida. Durante todas as suas conquistas, que todos nós sabemos não foram poucas, vai se convencendo cada vez mais de sua missão na terra e que não é um ser humano comum como os demais.

O ponto máximo do filme para mim é quando ele está morrendo, e sabedor da morte vira-se a uma pessoa querida e lhe pede para queimar seu corpo e jogar as cinzas no mar para que ninguém o encontre e assim, acreditem que realmente se tratava de um deus. Pede à pessoa que leve essa mensagem a todas as pessoas, pois acreditava veementemente que o tempo se encarregaria de convencer ao mundo da sua divindade. Coincidência importante: ele também faleceu aos 33 anos. A História se encarrega de mostrar porque não ele, mas Jesus que imortalizado. Talvez eu discorra sobre isso um outro momento.

 

E a educação?

É impossível não fazer comparações, apesar de mundos diferentes, formas diferentes de conquistas e berços extremos, Jesus e Alexandre receberam a mesma educação de suas mães. Ambos tinham mães que os davam um pai superior, portanto cresceram sabendo, buscando e vivendo conforme esses ensinamentos. Qualquer conquista tinha sido presente do pai.

 

Deixando de apontar comparações parte-se para o proposto. Só comecei a discorrer sobre o presente assunto porque me perguntei: é Maria a maior educadora da História? e Queremos mesmo criar milhares de Jesus? Não concordo que ela seja, até porque como já mostrei antes dela já havia um nome que utilizou o mesmo método. Logo ela não foi a única. Creio até ter havido outras que tentaram, mas digamos que os filhos não chegaram a ir tão longe mesmo pensando serem filhos de deuses.

 

Outra coisa que acho perigosa é utilizar este método (considerado de Maria) como algo a ser adotado. Aí você me diz, mas ela valorizou as competências do filho, eu digo, não. Ela fazia pelo filho. Ela dizia que este tinha uma responsabilidade, mas era ela a secretária que administrava tudo, organizava, fazia contatos e se esforçava ao máximo para que tudo saísse correto. Mas ela o expôs tanto o deixando vulnerável aos inimigos, ao ponto de mesmo inocente, sem a presença da mãe, não saber se defender, pois não sabia colocar suas idéias. Apenas aceitou todas as calúnias, todas as acusações injustas entendendo como a “vontade de deus”. Mesmo assim sentiu medo e tenho certeza que lá no fundo acreditava que seria poupado, portanto preferia pensar que ele faça segundo sua vontade, do que responder às indagações do júri. Nos últimos suspiros, segundo a Bíblia, já sem nenhum jeito de salvação apenas indaga: Deus, por que me desamparaste? Se fosse eu dizendo isso, todos pensariam que eu estava blasfemando, mas deixemos isso de lado.

 

 

Acredito que esta superproteção juntamente com a historia de falar para filhos e/ou alunos que um mundo será melhor através de ações sobrenaturais não cai bem. A pessoa vai crescer sempre esperando um resultado dos céus e aceitando-os como deus quer. Ou seja, esta é a minha missão. Vou viver melhor em um outro mundo, sem crime, sem pobreza, sem maldade, enquanto isso, a pessoa não aprende a se defender e mesmo a ajudar ao outro. Naquela época as pessoas estavam angustiadas e clamavam por mudanças radicais que livrasse aquele povo oprimido, em vez disso ele falava de um lugar no céu onde as ruas seriam de ouro e cristal e não haveria fome, dor, morte… Equivale a hoje um amigo com fome me pedir algo para comer e eu lhe dizer, por que quer esse pão que perece? Um dia você terá um banquete que nunca cessará.

Não sou pesquisadora da área da educação, mas tenho algumas leituras, ou melhor, observações que me levam a crer que devemos educar não nos preparando para uma vida no porvir, mas sabendo lidar com os problemas aqui onde aprendemos e devemos ter tempo e procurar um meio de corrigir os erros por aqui mesmo.

 

Inspiração: A palestra, dia da padroeira do Brasil, dia dos professores. Publiquei logo antes que terminasse o mês e Não tento convencer ninguém da verdade ou mesmo da divindade. A leitura é livre para os que acreditam ou não.

Já estava com o texto pronto quando encontrei um dia nesse em uma livraria o livro: Maria, a maior educadora da história. As palestras geram isso. Quando tiver oportunidade, procurarei ler para comprovar minhas hipóteses.

Imagem: http://pasteol.br.tripod.com/maria_e_jesus.gif

Gerlandy Leão

 

“Aquilo que escrevemos não vale aquilo que deixamos de escrever”.

A citação do velho Drumonnd pode ser compreendida não no sentido de desprezar nossos registros, mas de realmente valorizar o que pretendemos escrever, de valorizar o que desejamos e o que nos inquieta. A universidade é um dos lugares muito propícios para o desenvolvimento destas escritas, mas precisamente científicas.

 

Não tenho dados para apresentar, mas é indiscutível que cotidianamente a universidade produza, por meio de seus pesquisadores, vários textos importantes [ou talvez nem tanto] para a ciência e para sociedade.

Dentre essas produções destaca-se o Trabalho de conclusão de curso- TCC ou como é mais conhecido a famosa monografia.

Mas o que é mesmo uma monografia? Foi uma das minhas perguntas ao encarar este grande desafio. Quem nunca tremeu diante dela? E por que temer?

Simplificando, a monografia nada mais é do que o trabalho de um aluno sobre um determinado tema, escolhido por este próprio aluno. Mas é exatamente aí onde está o problema. O tema é escolhido pelo aluno.

 

Durante os anos de estudo somos preparados [ou talvez nem tanto] para redigirmos sobre determinados assuntos. Encaramos cerca de seis disciplinas por semestre onde cada professor exige no mínimo um trabalho por cada uma dessas. Ao chegarmos ao último semestre do curso já tiramos de letra como escrever trabalhos. É possível até fazer um tutorial de como fazer trabalho acadêmico. Basta escolher algumas frases tão bem conhecidas, tais como: “Vive-se no mundo marcado por grandes transformações…”; “ É preciso atentar-se para os novos paradigmas…”; “Desde tempos primórdios …”; “Atender às necessidades de informação…” e por aí vai. Só para se ter idéia, nas duas últimas disciplinas que assisti na universidade, a turma dividia-se em quatro equipes onde ao longo da mesma foram apresentados três seminários em cada uma. Como quase todas as equipes introduziram seus trabalhos falando a mesma coisa, tive que ouvir estas frases pelo menos umas vinte vezes, isso em um semestre em apenas duas disciplinas, perceba o tormento.

 

Mesmo assim o trabalho é como podemos dizer, bem legalzinho, era bem feitinho, bem normalizado etc. Com certeza atendia às perguntas do mestre e nos garantia boas notas.

Aí perguntam-me, o que isso tem a ver com a minha primeira proposta de redigir sobre a dificuldade de escrever monografia? Tem a ver exatamente com o processo de decidir como iniciar a monografia. Nos trabalhos acadêmicos damos conta de várias páginas em duas semanas e na monografia pena-se para arrancar uma lauda do cérebro, mas o pior, o maior desafio está já no próprio projeto.

 

É que agora, infelizmente só dependemos de nós. É a hora da nossa maior pergunta. E agora professor? “ E agora? Te vira”. Agora não tenho mais as perguntas do professor para responder. Agora sou eu quem deve fazer as perguntas. É a hora que pergunto o que devo fazer. Qual a qualidade do meu trabalho. O medo me assolou (e acredito a muitos que me lêem) exatamente pela preocupação em desenvolver um trabalho que não seja simplesmente engavetado. Assola-me o medo de ter um trabalho tão medíocre ou tão ruim que possa até ganhar o prêmio Ignobel. Só abrindo um parêntese, para os que não o sabem que acredito serem poucos, este prêmio está para o Nobel assim como o Framboesa está para o Oscar. Trata-se de uma premiação de pesquisas científicas realmente sérias que aparentemente, depois de concluídas não apresentam muitas vantagens para a ciência e para a sociedade em geral (existem muitas por aí assim). O ignobel é composto por várias categorias tais como o Nobel. Conta-se que existem os cientistas que vão à cerimônia de entrega do prêmio. É aquela história: “Falem mal, mas falem meu nome”. Mesmo com toda essa gozação em cima dos caras (embora utilize este termo tão informal, que fique bem claro que se trata de doutores) eles devem ser louvados pelo menos pelas indagações que fizeram e que comprovaram.

 

 

Uma coisa eu sei, não pretendo ganhar nenhum prêmio a não ser o de ver o meu trabalho concluído. Se eu conseguir sair da primeira linha com certeza deslancharei rumo à, pelo menos, qüinquagésima página.

 

 

A conclusão que tirei ao aceitar o desafio de escrever meu TCC foi realmente descobrir o que eu realmente queria saber. Se estiver confuso, explico. A maior dificuldade de se fazer uma monografia é realmente saber realizar as perguntas corretas. Achamo-nos o máximo quando entregamos aquele trabalho enorme, bem redigido e normalizado e achamos que isto é prova de que o TCC não será bicho de sete cabeças quando chegar o momento. Os bolsistas de iniciação científica então devem ser os que mais se sentem preparados para tal. Mas na hora H, não é bem assim. Por que será? Acontece que quando somos apenas freqüentadores de aulas temos apenas tarefas a cumprir. Quando somos bolsistas temos apenas as perguntas do nosso orientador a responder. E se você está achando que o que quero dizer é: Perguntar é mais difícil do que escrever, você acertou em cheio. Podem até não concordar comigo, mas é provável que respeitem meu pensamento. Acredito que existem respostas para tudo o que quisermos no mundo, só que às vezes não indagamos corretamente. Perguntas mal feitas podem deixar uma pessoa perdida em um local por horas. Perguntas mal feitas podem atrasar uma pesquisa por muito tempo. Perguntas mal feitas podem nos impedir de alcançarmos e recebermos algo. São iguais piadas bobas como por exemplo: “você tinha isso? Por que não me disse? Oras, porque você não perguntou”.

 

Mas o que capacita a perguntar de forma correta? Só as informações que temos a respeito. E agora até lembro-me de uma cena de um filme que assisti, passado em um futuro bem distante. Um cientista morre e um policial tem um desafio de descobrir se este se suicidou ou foi assassinado. O policial afobado (como sempre) acredita já ter as repostas, mas percebe o quanto está enganado e que o problema está na sua forma de fazer perguntas. Não contarei o final do filme, mas é certo que só depois de muitas informações, ele é capaz de alcançar a meta e descobrir o enigma, através de uma seqüência de perguntas e respostas concomitantemente. Aos interessados o nome do filme é: Eu, Robô.

 

Às vezes agimos assim tal como esse policial. Chegamos afobados ao professor com nossa empolgação, concluindo tudo. Vou falar sobre isso e aquilo, aí ele quebra nossas perninhas e nos perguntamos. Onde estamos errados? Estamos errados por não termos informação suficiente sobre um determinado assunto. Se não temos leitura, já era, vamos escrever sobre algo que alguém já escreveu há séculos. E a ciência ficará só se repetindo (mas será que isso é ciência mesmo? Taí uma boa pergunta) sendo difícil o desenvolvimento da sociedade.

 

Não será por isso que nunca tenham encontrado respostas para tantas perguntas que temos? Tal como a cura da Aids e câncer, como acabar a fome, como fugir da morte, como transformar algo em ouro e assim por diante. Será que realmente não existem respostas para tais perguntas?

 

 

E agora acrescentando ao meu texto, destaco que não adianta nada responder tais indagações se não soubermos o que fazer com as informações. É melhor manter-se encoberto do que apenas fazer um trabalho para inflar o ego do pesquisador (que é o que tem ocorrido muito ultimamente). A sociedade precisa das nossas pesquisas em todas as áreas do conhecimento, e percebo que a monografia tem que ser mais do que um simples Trabalho de conclusão de curso. Ela pode ser encarada como um passo importante na resolução de um problema. Gostaria de ser útil com meus textos, mas também com minhas ações.

 

Por enquanto tenho poucas perguntas a fazer, talvez ninguém me responda. Por isso estou em uma grande enrascada, e agora mais do que nunca. Por que acabo de defender a importância das minhas indagações e no momento a única que tenho é o que você está pensando agora ao ler meu pequeno texto. Pelo menos sou humilde ao admitir minha limitação (fazer um pouquinho de graça). Posso escrever aqui livremente sem medo de sanções ou de interrogações, mas para encarar a banca examinadora a coisa é mais difícil. Até porque eles têm cada pergunta. Acho que deveriam se preparar mais. Em muitos casos parecem que nem lêem o trabalho direito e/ou não prestam atenção na defesa do aluno e já vêm com as famosas “por que o céu é azul?” enquanto o teu trabalho fala da importância do lápis.

 

Para não cair nas armadilhas da banca só tenho algo a fazer. Submeter-me à tutela do professor. E agora professor o que eu faço? Entrego um trabalho que já foi perguntado inúmeras vezes por inúmeras pessoas, que já sei até a conclusão, antes dos dados serem recolhidos, e saio respirando rumo à colação de grau ou dou uma de revolucionária e corro o risco de não terminar uma pesquisa que seria tão importante [ou talvez nem tanto]? Por onde começo? Por que não responde professor? Será que enfim o professor cansou de dar a reposta? Será que enfim ele resolveu acreditar no aluno? Então finalmente posso sentir-me importante para a ciência? Talvez nem tanto.

 

Inspiração: Um certo dia, tive de sentar e escrever meu projeto de conclusão de curso. Não tinha nada que fizesse sair uma linha aproveitável. Aí comecei a escrever isso aqui. A gente se desespera mas consegue. Já defendi meu trabalho há um ano. Dia dos professores está chegando e como ultimamente ando sem inspiração, vou publicando este aqui mesmo.

Próxima Página »