Gerlandy Leão

 

Não lembro a primeira vez que a notei, nem porque nunca perguntara sobre a sua origem. Demorou cerca de um ano para que eu ouvisse algo a seu respeito. Só sei que era impossível está no quarto e não percebê-la. Eu sempre me admirava com aquela frase incompleta no quarto dele. Provavelmente foi escrita com um corretivo, a frase é interrompida por um adesivo que cobre as duas últimas palavras… “Não me deixe pois…”. A palavra pois é uma conjunção que liga frases, portanto pede uma resposta ou explicação. Não se termina uma frase com “pois”, a não ser em “Ora, pois” . Por que será então que estava incompleta? O que viria, afinal, abaixo daquele adesivo? Hoje recordo disso e me acho tão desligada, parece tão óbvio a resposta.

 

Sempre foi assim o nosso triângulo, ele, a frase e eu. Todos os dias por tantos meses ela estava conosco, imexível, intocável. “Não me deixe, pois… Não me deixe, pois…”. Enquanto eu estivesse no quarto, em algum deslize meu, olharia para a porta e tornaria a ler. Creio que ele nunca percebeu minha curiosidade, com certeza nunca me percebeu perdida olhando-a. Mas parecia inconsciente, não que me incomodasse a sua presença ou me importasse em saber a resposta, mas me incomodava o fato de não ignorá-la e sempre lê-la. Era impossível não notá-la.

 

Em um dia simples estávamos deitados no chão e novamente me vi lendo a frase, mas lendo não mais apenas em pensamento, minha leitura foi sonorizada. Ele me perguntou o que eu havia falado, então o indaguei : Não me deixe pois o que? Rapidamente ele respondeu numa simplicidade, pois te amo! e continuou a sua conversa, falando outro assunto. Me senti gélida, assustada e sem nenhuma reação. Ele que já me conhecia suficiente para saber que eu preferiria tirar minhas conclusões a perguntá-lo , resolveu falar que uma ex namorada havia escrito a frase. As únicas palavras que consegui externar depois disso foi: coitada! e você a deixou…

 

A partir de então comecei a viajar em meus pensamentos e mesmo que quisesse não poderia ignorar sua presença no nosso quarto. De repente ela deixou de ser uma mera frase incompleta para se tornar alguém. Seu nome eu não sabia e nem queria especular. Agora o que eu me perguntava era o que então essa frase ainda fazia na porta de seu quarto? por que não fora apagada? qual o valor dela em sua vida? O que a frase o fazia recordar? Teria sido ela que escrevera a frase para ele ou não seria o inverso? às vezes eu pensava que em algum momento de dor e sofrimento ele mesmo tenha escrito como expressão de amor e agora não poderia apagar porque ainda sentia-se preso. Arrancá-la lhe causaria dor e ainda deixaria marcas tal como uma tatuagem. Por que seria que a dona da frase então não estaria mais ali?

 

É, realmente pensei. Ela não estava mais ali. Achei-me tola por me preocupar com isso. Eu não tinha nenhuma frase pichada em suas paredes, mas sempre tentava lembrá-lo com um TE AMO. Espero que ele nunca cole um adesivo por cima.

 

Inspiração: A frase existe mesmo

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