Gerlandy Leão

 

Ser acordada no meio da noite com a mensagem de parabéns e desejo de felicidade é muito bom. Era dia, embora escuro, quando comecei a repensar sobre minha vida. Eu pensei nas pessoas que fazem e fizeram a minha vida, penso nos familiares, colegas, vizinhos, amores, amigos… penso nos rostos que só eu conheço, penso nos rostos que não conheço. penso nas pessoas próximas e nas pessoas afastadas, estas eu classifico em três grupos. Aquelas que se foram, isso mesmo, as falecidas, aquelas distantes geograficamente e aquelas distantes emocionalmente. A ausência de ambas me incomoda.


Das que não respiram mais o mesmo ar que eu, dói a certeza de que nunca mais as reencontrarei para receber um abraço, para conversar e fazer várias atividades juntas. Sei que não mais as verei, pois embora não seja atéia, não creio na ressurreição. Não creio em um reencontro no futuro onde o mundo será melhor sem dor e a perda de entes queridos, portanto um adeus definitivo já foi dado a nomes que eu não esquecerei jamais.


Das pessoas que estão separadas geograficamente, a dor é parecida, mas alividada pela sensação do reencontro. Suas presenças me fazem feliz, me deixam alegre ou mesmo que me pertubam. Fica agora só a torcida para que chegue o dia que eu possa novamente ter próximo a mim as sensações que me agradam com a presença dessas pessoas queridas.


O grupo das pessoas separadas emocionalmente me incomoda muito mais porque não tenho certezas, posso vir a voltar a falar mas posso nunca mais manter contato. É como se de algum modo eu fizesse uma reflexão e sentisse que tivesse falido como ser humano. Me incomoda saber que alguém que já conviveu comigo hoje prefira distância ou em outro caso, eu preferir distância de alguém que eu tenha amado. Me cobro por que não tentei mais para que eu pudesse dá certo como amiga. E foi exatamente este grupo que mais me preocupou esta noite.


Próximo de mim estão aqueles que lembram de mim e fazem de tudo para continuar próximos e expressarem o que sentem, tem aqueles que não lembram de dizer que gostam de mim (mas eu não tenho nenhuma duvida disso) e têm aqueles que fazem questão de não dizer porque vai contra os princípios religiosos. Com isso concluo que cada pessoa tem o seu jeito diferente de me amar. Sei que um desejo de feliz aniversário não é prova de amor, mas a quem lembra de mim me sinto lisongeada, aos que esquecem eu perdôo aos que se recusam (embora me amem) eu martelo a cabeça.


Tudo bem que eu tento ser tolerante e respeitar as questões religiosas de todo mundo, mas vamos e convenhamos, o que Deus ganha impendindo que você comemore com o seu amigo? a resposta que recebi foi que a gente tem que pensar em Deus e no momento que a gente comemora aniversário a gente desvia o pensamento do ser supremo para o ser humano. O argumento é fraco me fez pensar também.


Hoje o raio solar trouxe conforto, mas inquietações. Eu me perguntava se era odiada e comprovei também que sou querida. E cheguei a uma conclusão quanto a Deus não gostar da gente comemorar aniversário. É que ele não tem amigos sinceros como eu tenho, ele tem ciúme do que nós temos então faz ameaças. Ele quer que pensemos nele o dia todo, que o louvemos a cada respirar pois senão nos castiga. Ele criou anjos que não têm outra função senão louvá-lo e o homem com livre arbítrio (mesmo com uma opção) para que também apenas o louve. Eu não gostaria de ser adorada o dia todo, por todo o mundo e nem me sentiria ofendida se um deixasse de me adorar, mas desde que fosse por livre arbitrio e não por medo de outro.


Parece confuso, mas resumidamente, eu sei que sou diferente dele. Bem não estou com blasfêmia, não quero comprar briga. Não imponho uma forma de amar só quero respeito e sinceridade. Deus quer que o amemos acima de tudo, eu só quero ser amada, não importa a intensidade ou comparação com outros. E eu me sinto feliz porque sei que tenho amores sinceros. Não faço terrorismo caso não seja lembrada e também não digo o palavrão em forma de verbo conjugado na terceira pessoa do sujeito indeterminado (o famoso foda-se) para os que não me amam.


Sou feliz pelas pessoas que amo e que amei, pelas pessoas que me amam e me amaram. Sei que é sincero pois não tenho poder divino para castigar ou abençoar as pessoas. Não só no meu aniversário mas todos os dias acordo feliz, mas hoje é uma data muito divertida. Acho que deve ser por isso que Deus se zanga, ele não aniversaria, não recebe carinhos sinceros, não recebe ligações espontâneas, a não ser das pessoas pedindo algo em troca ou daquelas com medo de um raio em sua cabeça.


No fundo no fundo eu tenho pena de Deus. Ele não aniversaria porque é eterno, então seria terrível contar seus dias. Deve ser chato ficar vendo ao longo desse tempo as pessoas se distanciarem, as pessoas morrerem e você lá intacto.

A minha saudade é tamanha que não aguentaria viver eternamente sem as pessoas que eu amo, por isso hoje quando eu faço ¼ de século sinto-me alegre por saber que estou vivendo e aprendendo, pois não sou um ser acabado e perfeito e aprendo com as boas e as más situações e principalmente com os amigos, eles embelezam a vida.


Agradeço a todos e faço uma releitura de Goethe “Mundo! que és tu para um coração sem AMIGOS*?

*amor

Inspiração: Meu aniversário também, não queria perder a oportunidade de escrever algo hoje. Ele que se recusa a comemorar comigo minha data especial. Ah! e Deus, no fundo no fundo ele é um cara legal. É o pobre menino rico.


Anúncios