junho 2007


Gerlandy Leão

O Adeus

 

 

 

Aquele olhar é a mais bela lembrança que eu tenho do meu amante Incubus. Vencida a insônia finalmente nos reencontrávamos em mais um sonho que se mostrou no meu sono mais longo desde que o conheci. Aproximou-se de mim com passos lentos e olhar firme meio desconfiado e abraçou-me tão forte. Parecíamos dois loucos de saudade que não se viam há muito tempo. Algo havia mudado, na verdade a cada encontro apresentávamos algo diferente e agora eu apresentava a minha paixão camufalda em uma mera vontade de tê-lo.

 

Meus sentimentos não impediram de perceber que meu Incubus começava a eleger uma nova personagem especial para suas viagens noturnas. Sentia que em breve teria de dividir a atenção dele com outra e em pouco tempo já não seria mais tão especial. Ah! porque me deixara apaixonar por este demônio? Ele havia sido tão gentil me permitindo viver e eu só teria que me divertir, só deveria aceitá-lo como um Incubus, superior e com desejos além de mim. Mas não me incomodava ser a última amante, só temia ser a última amada.

 

Naquele reencontro sentia que ao movimentar mais um passo talvez seria meu último passeio, pois uma nova entrega seria forte para meu coração e este provavelmente não resistiria por muito tempo. Por isso, pela primeira vez lhe disse não, mesmo olhando sua emoção mediante minha recusa, mesmo lutando contra minha vontade de dizer sim, tentando evitar que o amasse mais ainda. Retornou depois para mim apenas como uma visita a alguém querida. Lá estava ele tão gostoso e irresistível , impossível fora confirmar o não. Eu amaldiçoei aquele sentimento mas ele me rendeu um delicioso sabor.

 

O seu corpo deitado sobre o meu encontrou o encaixe perfeito aumentando minha certeza de que havíamos sido feitos um para o outro.  Que sintonia! Mesmo que tudo se mostrasse contrário ali era o nosso momento e eu era a mulher mais amada do mundo. Com minhas pernas o empurrava para mais dentro de mim e minhas mãos deslizavam por suas costas procurando encontrar firmeza. Eu consegui elevar o quadril para mais perto dele em um movimento rotatório ordenando-lhe que apenas obedecesse ao meu comando. Este foi se tornando mais intenso e preciso e fui sentindo, fui alcançando, fui chegando até explodir de prazer. Fitando bem no fundo dos seus olhos expressei mistura de lágrimas de alegria e sorriso de satisfação, não querendo que ele saísse de dentro de mim, desejando que repousasse ali do jeito que estava me olhando e segurando minhas mãos. Eu tentava relaxar meu corpo e acalmar o tremor das pernas e segurar meu leve e bobo sorriso que pelo menos impediu-me de dizer-lhe: Te amo. Seria melhor assim, eu tinha um propósito de evitar o crescimento deste sentimento, mas a belíssima experiência me fizera ainda mais refém.

 

Tudo era tão bonito e mágico numa reunião de selvageria e civilização. Hora ele me colocava de costas sussurrando loucuras ao meu ouvido, hora ele cobria-me de frente falando apenas com seu olhar. Ele mostrava força e eu delicadeza, ele era um demônio e eu ser humano, ele era carne e eu alma, ele era a fera e eu a ferida, ele era Incubus e eu menina. Mas não me deixava expor, eu estava feliz demais e só queria pelo menos mais um segundo ao seu lado.

 

Meu demônio deu-me atenção, cuidado, carinho que a cada gesto seu fazia-me apaixonar-me mais pela sua forma de falar, por suas histórias, por seu sorriso e tudo que vinha dele. Ele era uma metamorfose que apresentava-se às vezes sobrenatural depois como um simples homem assim como eu.

 

Os nossos planos de nos vermos em todos sonhos começara a ser ofuscado pela dúvida de sua visita. Fui surpreendida pela frase dita de jeito tão simplório “quando possível, nós nos teríamos”. Como quando possível? Até ali nós fazíamos estes momentos, não esperávamos milagres, mas agora ele planejava visita a outros sonhos enquanto minhas noites ficariam defasadas pela sua ausência.

 

Tomei a decisão de dizer-lhe que não o esperaria mais, melhor seria passar minhas noites sem aguardá-lo ou mesmo esperando por uma mera coincidência. Eu já o amava muito para pedir-lhe algo como ficar comigo. Ele amava a sua liberdade e eu precisava colocar-me no meu lugar. Não queria que tivesse de ser desleal comigo, por isso tomei aquela decisão. Sei que ele estava confuso, não sabia até mesmo se queria continuar como Incubus, tentando optar, assim como o Superman em um dos seus episódios, abrir mão de seus poderes para deleitar-se com sua amada. Mas Superman sabia o que queria ao escolher a sua amada Louis Lane, quanto ao meu Incubus…

 

Agora meu demônio, depois de compreender minha decisão, me levava de volta para o meu mundoe me deixou deitada com os sintomas de suas vítimas. É certo que não ele mas nosso amor a ele nos enfraquece e e esgota toda nossa energia e vitalidade. Eu chorava devido aquele vazio em mim e toda a saudade me sentindo como a mocinha que depois de tantas aventuras ao lado de King Kong é deixada em local para sua própria proteção, mas entende que o perigo ao seu lado devolve mais cores à sua vida, mesmo assim o adeus era necessário. Eu fiquei no meu mundo enquanto ele retornava ao su, agora mais desconhecido para mim.

 

De fato, sei que fui especial e creio que onde quer que esteja ele jamais me esquecerá e nem eu a ele. Estou de volta à vida, aos meus papéis, às minhas canetas, meus óculos e minha escrivaninha e celebro a vida e como forma de agradecimento eu registro esta bela aventura que vivi.

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Gerlandy Leão

Insônia

 

 

O último encontro com meu demônio amante me dera a certeza de que teríamos muitos sonhos juntos. Para isto bastava eu favorecer o nosso encontro perfeito que seria através do meu adormecer, algo bem simples pensava eu. Mas para nós nada fora fácil, pois desde o início pulamos alguns muros que nos impedia assim como Montecquio e Capuleto. Cada um de nós tinha uma vida adversa. Ele- um Incubus- em seu mundo, com sua missão, em suas companhias enquanto eu era apenas um ser humano que tão facilmente se amedrontava. Ele deveria cumprir o seu dever ao me possuir só uma vez, afinal este era o desafio, assim que realizado não tinha porque repeti-lo. Mas me deixara viva e me ensinara a pedir e clamar por ele só talvez não imaginasse que eu clamaria tanto.

 

Aquilo que seria tão simples tornou-se empecilho. Minha ansiedade impediu-me de dormir. Por tantas vezes eu girei na cama inquieta falando “feche os olhos, feche os olhos” … Mas só alcançava poucos segundos que me pertubavam ainda mais. A cada fechar e abrir de olhos eu via o meu demônio tentando se aproximar. Ah! maldita insônia que me tirava sempre de sua presença. Num vai e vem de cochilos eu o encontrava. Uma vez estávamos deitados distanciados por cerca de sete palmos um do outro. Mudos apenas nos olhávamos, levantei-me e tentei pegar em sua mão, mas acordei. Não aceitava aquilo e sabia que precisava adormecer urgentemente pois cada contato frustrado me enchia de mais vontade.

 

Fechei os olhos e encontrei o seu olhar…

Fechei os olhos e lhe expus meus anseios…

Fechei os olhos e meu demônio me respondia “Agora quem ficou doido para devorar-te foi eu, invadir no meio da noite seu quarto e tê-la para mim em toda sua volúpia. Ah! queria está aí. Teu Incubus quer possuir-te inteira”

 

Em um novo fechar de olhos lá estava ele me esperando, não perdi muito tempo e provei imediatamente dos seus beijos. Sabendo da leveza do meu sono coloquei sua mão entre minhas pernas, tentando extrair o máximo daquele momento. Fui surpreendida novamente quando já começava a entrar em êxtase e a ausência de sono interrompeu-nos. Deitada eu tentava de qualquer forma dormir. Minha inquietação incomodava até minha companheira de quarto que me perguntava o que acontecera comigo. Obviamente não adiantaria falar sobre um ser que ela jamais acreditaria existir.

 

Meu Incubus devia pensar que agia assim propositalmetne. Ele comunicou-me em um dos meus breves retornos “Ah! isso é maldade! que maldade! Agora estou louco, não paro de pensar, te quero hoje, agora, já”. Disposta a fazer o que fosse preciso, senti mais uma oportunidade chegando ao perceber o meu corpo relaxando leventemente. Frente a frente com meu amante ficamos nos olhando por um bom tempo, sei que ele não acreditava que ainda conseguiríamos algo, por isso o peguei de surpresa quando parti para cima dele puxando-o pela sua mão e o empurrando-o contra a parede. Com uma fome inexplicável e sem precisar me despir, beijava-o enquanto roçava o meu sexo ao dele. Fiz com que me pressionasse com a face na parede enquanto beijava-me as costas e arrancarra-me as roupas de baixo. A minha preocupação em acordar não me deixava ficar por muito tempo na mesma posição, virei-me então e o puxei para dentro de mim, só a sua mão sobre a minha boca impedia o soar do meu gemido. Eu queria provar mais do seu sabor até que desci implorando que ele derramasse sobre mim o seu gozo. De fato ele chegou a me ouvir mas paralelo a isto despertei-me mais uma vez. Na minha cama, blasfemava e clamava por meu Incubus, pois embora satisfeita não estava saciada.

 

Pós este episódio a insônia reinou por alguns dias, mas me deu uma trégua de poucas horas. Pareci participar de várias baterias de uma gincana, em uma tremenda correria para alcançar minha adorável criatura. Enfim atraí o sono mas teria de pular algumas barreiras e me vi como triatleta vencendo provas, galgando degraus. Driblei todas dificuldades para esperá-lo parecendo um noivo no altar que aguarda ansioso e perturba-se com o atraso da noiva.

 

Quando apareceu, encontrou-me com uma expressão que alternava alegria e exaustão, fruto das frustrantes experiências, da insônia e das etapas cumpridas para chegar até ele. Vários pensamentos fundidos me encheram de nervosismo. Expus-lhe o meu temor de não conseguir manter-me sonolenta por muito tempo e não queria mais iniciar algo com o perigo de ser abortado, como nas últimas vezes, antes que pudesse experimentar novamente aquela sensação deliciosa que ele me permitira na noite do meu sono profundo.

 

Acalmou-me e indagou-me se ainda o queria. Minha afirmativa foi suficiente para nos entregarmos mais uma vez à nossa vontade. Pela primeira vez senti que jogávamos de igual para igual e em minutos não havia nem sombra de temor, pudor ou qualquer sensação que me fizesse travar. Eu era dele por completo e ele me servia obedecendo a todas minhas vontades. Tudo belo entre nós, tivemos nosso momento interrompido mais uma vez, porém desta vez, embora rápido conseguimos o que almejávamos.

 

A experiência tinha sido maravilhosa mas começava a sentir algo. A dor da despedida já era externada a ele por lágrimas. Mesmo sabendo do reencontro na noite seguida, sabia que o hiato de uma parte do dia era suficiente para deixar um vazio dentro de mim. Agora eu o desejava não só com o corpo, mas sobretudo com o coração. Não queria apenas os minutos permitidos por um breve dormitar e sim a sua entrega. É certo que a agora eu havia sido saciada mas não estava mais satisfeita.

 

Enfim, descobri a cura para a minha insônia. Para dormir precisaria apenas parar de querer dormir, só precisaria dá espaço para as coisas agirem naturalmente sem preocupações e assim seguirem ao meu favor. Deveria abrir mão da ansiedade e conformar-me com as noites que não tivesse sua presença… infelizmente eu não estava preparada, havia me apaixonado.

Gerlandy Leão

O Sonho

Dede

 

 

Depois de alguma espera adormeci pesadamente e sonhei. Aspirei a vontade de reencontrar meu amante que não demorou cumprir sua promessa de ter-me. Desta vez não veio me ver mas o poder que tinha sobre mim levou-me até ele. Creio que um encantamento me fez voar ao seu mundo desconhecido por mim. Essa foi uma experiência única e solitária consolada pela certeza do prêmio final. Parecia ter utilizado algo como um pó mágico saído dos contos de fadas que me dera o poder de ser elevada às alturas. Apesar deste momento fantástico, minha viagem foi desacompanhada, é como se Peter Pan em vez de se aventurar apenas tivesse mandado me buscar para morar consigo na Terra do Nunca.

 

Não hesitei, apenas obedeci… não ao demônio mas ao meu próprio apetite. Apesar do desejo senti medo pois ao chegar ao seu mundo me vi abandonada e esquecida por meu Incubus. Afinal o que estava fazendo? Sozinha, fiquei girando procurando por ele, desistindo e tentando acordar e voltar para o conforto do meu querido e real quarto, mas não conseguia. Parecia que o encanto havia me jogado em sono profundo impedindo-me de recuar do objetivo que mais almejava durante tantos sonhos.

 

Lá estava eu em terra firme, refém da ausência do meu Incubus. Até quando me deixaria esperando? Mas ele apareceu com um misto de homem, demônio e deus. Tive receio porque ele era demais para mim. Pensei que pudesse voltar atrás todavia assim como em um pesadelo eu não tinha mais controle e não pude despertar. Não sei como, mas num piscar de olhos estávamos em um espaço tão maravilhoso que mediante a energia dos nossos desejos dava uma beleza única resultando num local suficiente e perfeito para nós que em equivalência ao mundo real não seria apenas cinco mas dez estrelas.

 

Creio que recebi dose extra de encanto ao perceber que estava a dois palmos de altura do chão, onde meus pés tentavam alcançar mas não conseguiam. Minha respiração ficava a cada segundo mais ofegante e meu coração a ponto de explodir. De fato eu estava hipnotizada e sei que se pudesse ver meu rosto certamente me depararia com uma expressão de susto que se transformava em satisfação pouco a pouco. Sentia seu toque e aguardava sempre mais. Seu poder sobre mim era tamanho que eu não precisava expor o que sentia ou precisava, ele simplesmente me lia.

 

Foi quando finalmente ele deitou meu corpo que simplesmente obedecia à sua superiodade, afinal ele era um Incubus e eu uma mera mortal. Apesar de nossas diferenças e do seu poder ele estava ali para me servir. Sabedor dos meus desejos ingênuos, tomou o meu corpo e me fez cair em tentação ao me deitar, me despir, me tocar, me enlouquecer.

 

Meu Incubus não deixou escapar uma parte do meu corpo a ser visitava por sua boca quente. Eu gemia e enlouquecia a cada segundo, agora torcendo para que nunca mais acordasse. Ele provou de meu sabor de uma forma feroz e ao mesmo tempo delicada que só tinha a ação de segurá-lo com minhas mãos puxando-o entre minhas pernas para que não me deixasse enquanto não morresse. Sentia que eu tentava inverter as coisas, agora eu queria drenar suas energias. Eu era uma mistura de tranquilidade e loucura mantendo-me viva, sabedora da minha resistência. Num instante senti que ele era uma parte de mim e eu era parte dele e como em uma dança o movimento formava o nosso sincronismo que parecia se eternizar. De modo firme pegava em meu quadril e puxava para si não deixando espaço para uma fulga caso pretendesse .

 

Repentinamente ele me mostrou o que perturba tantas vítimas. Ele me fez alcançar o prazer máximo quando bruscamente fui elevada ao céu em milésimos de segundo, percorrendo uma distância extema. O retorno violento e prazeroso ao inferno me deixou em transe, mas ao voltar a mim em vez de morrer e pedir socorro eu pedia por mais. Me transformei em uma criancinha pedindo para brincar em um brinquedo perigoso, ignorando ou na verdade desconhecendo a ameça deste ato para o coração.

 

Ah! meu coração. Este não aguentaria por muito tempo. Despertei violentamente, sentindo-me sugada para meu mundo real, até as dores de enfado do meu corpo eu sentia como se tivesse realmente vivido. Voltei a mim ainda na metade da noite, mas eu não conseguia mais cerrar os olhos. Durante o resto da madrugada minha companhia fora apenas as lembranças, eu só procurava acalmar minhas pernas, meu coração, minha mente. Na minha cama a sua mensagem me dava consolo… “Perfeita! perfeita! você é simplesmente perfeita. Tudo foi maravilhoso, especial. Você é especial, minha melhor surpresa”.

 

Meu Incubus me fez morrer e me fez voltar. Eu não sobreviveria a uma mudança tão drástica não fosse pela sua companhia. Me sentia eleita e sabia que se estava viva era porque não seria apenas por um sonho, pois o que ocorrera entre nós provava que não nos distanciaríamos tão cedo. Eu me sentia especial, muito especial.

 

Inspiração: explicada no texto anterior

Gerlandy Leão

 

 

Definições

Dede... rotada

Dede

 

 

 

 

Ah! Incubus.

Essa história sobrenatural me ocorreu há muito tempo, registrá-la é de fato um milagre, pois as vítimas deste ser não resitem muito tempo depois de um encontro.

 

Incubus do verbo incubare significa “deitar-se sobre”. Em resumo, são demônios machos que visitam mulheres mortais e têm sexo com elas durante a noite. As pessoas relatavam visitas durante a madrugada por essas criaturas que as seduziam durante o sono. Estas só davam conta de sua presença quando o ato sexual já estava em andamento ou ao acordar utilizando o demônio como culpado pelo aflorar de sua libido. O Incubus foi apresentado pela igreja como ser maligno que significava pecado devendo, portanto ser evitado. Sua aparição viria em forma de sonho ruim ou pesadelo onde ele drenava a energia da mulher para se alimentar, e na maioria das vezes deixava a vítima morta ou então viva, mas em condições muito frágeis.

 

 

Parecida mais uma história para assustar, este personagem me despertou o interesse por algum tempo, mas era impossível para mim tê-lo próximo um dia e principalmente ser escolhida sua vítima. Sabia da sua existência, mas me sentia afastada do Incubus pelo menos por dois motivos, primeiramente porque eu não acreditava em todo seu poder, mas caso estivesse frente a frente com ele saberia me defender. Acreditava que poderia exorcizá-lo apenas medindo forças. Tal foi o meu engano quando percebi já estava no meu quarto ansiosa por sua visita.

 

Lembro quando raramente via a sua imagem e me chamava atenção por ser diferente de todos que eu tinha visto. Apesar disso não conseguia defini-lo ou caracteriza-lo fisicamente e tão pouco ele me atraia pois eu havia bloqueado qualquer contato com alguém principalmente com um demônio. Sua aproximação se deu por meio de palavra. Eu lia seus sinais em todo lugar que ia, e nossas simples frases tornaram-se em expressões exatas. Eu ficava assustada e inquieta com a sua aproximação e não conseguia entender como pouco a pouco senti-me seduzida por saber mais dele e por querer um minuto de sua atenção. Com o tempo ele não parecia mais uma ameaça ou um ser destinado a sugar minha energia e vitalidade, ao contrário, tinha em mim uma defensora obstinada a sempre falar bem dele mesmo o conhecendo tão pouco.

 

Certo dia ele surpreendeu-me com seu modo direto de se expor. Depois de me pedir desculpas declarou-me o que pretendia fazer comigo detalhadamente. Respondi de modo educado com um sorriso meio temeroso, meio admirado que ele estava absorvido. Não alimentei nenhuma esperança a ele mas não pude deixar de alimentar algo em mim. Ora, tal atrevimento não teria passado impune se ele não tivesse se aproximado de uma forma ímpar a despertar-me curiosidade.

 

Fui tomada por um forte desejo de encontrá-lo e passei a sair à sua procura por todas as noites. Fazia de tudo para estar alerta. Havia me despido de todas as minhas defesas e almejava por um momento com ele. Foram noites e noites solitárias e nenhum encontro com Incubus, nem em palavras e nem fisicamente. Parecia que quanto mais eu o queria mais impossível ficava encontrá-lo.

 

Tentei manter-me acordada bravamente como sentinela porém uma noite não resisti e fui apanhada por um sono e caí na cama. Mal fechei meus olhos fui surpreendida pelo meu Incubus à porta do meu quarto com seu delicioso sorriso e olhar tocando em meu joelho para que eu despertasse. Tal foi minha alegria, parecia não acreditar no que via e o puxei para mim. Eu o queria muito e arrisquei demonstrar isto. Percebi que utilizava a estratégia errada, pois não precisaria ir atrás desta criatura, ele viria até mim e eu teria apenas de adormecer para que ele atacasse em meus sonhos.

 

Ah! este demônio levou-me do meu recinto. Percebi como se deixasse uma outra de mim deitada e dormindo. Eu deixaria alguém limitada para o segui sem medo. Desci por umas escadas até as profundezas, enquanto o seguia minha vontade aumentava juntamente com minha coragem. Sentia-me pronta para deleitar-me com este demônio que agora parecia inofensivo, mas ao mesmo tempo faminto. Finalmente parecia termos encontrado o ambiente favorável para nosso suave prazer. Depois de olhos nos olhos e boca na boa, fomos surpreendidos pelos primeiros raios solares do dia que o enfraquecem. Eu teria de voltar urgentemente para dentro de mim e ele deveria retornar ao seu hábitat.

 

Contrariada retornei ao meu quarto e forma de ser humano. Despertei-me rapidamente e sentada na minha cama sentia pulsar forte o meu coração. Havia sido só um sonho e resultado de tantas informações sobre este ser ou me ocorrera uma experiência sobrenatural? Realmente eu deveria ter ficado exausta de tanta curiosidade, mas era hora de interromper essa viagem. De fato ele não existia.

 

Minha incredulidade só durou até o café da manhã, quando eu o pressenti tão próximo. Não me restou dúvidas quando percebi que verdadeiramente ele me escolhera, me queria e não desistiria enquanto não me tivesse. Agora a lembrança do seu cheiro, seu olhar, seu toque, sua voz me deu certeza da sua existência. A mim só restava aguardá-lo. Sabia que o dia não estava tão longe.

 

Inspiração: Sonhos, literatura, filmes, músicas, diálogos, a realidade e a ficção que fundidos viraram meu texto. Há quem acredite em ETs, há quem acredite em pedaço de gesso. Todo muito acredita em algo esquisito, eu acredito em Incubus.

Imagem: Agradeço a Hilderlande que tão gentilmente aceitou ser personagem da minha história.

Gerlandy Leão

 

 

 

#9

Depois que fatiou o pequeno bolo, o colocou em uma bandeija de plástico e cobriu com a tampa. Deu banho nos meninos e os pôs para dormir. Não demoraria voltar, seria apenas o tempo que duraria o recreio de uma escola pública próximo à sua casa.


Dirigiu-se ao colégio esperançosa, aquele bolo não era apenas o resultado de suas últimas moedas, ele marcava o início de um negócio grandioso e uma oportunidade para seus três filhos pequenos. Tudo o que tentara fazer não encontrava êxito. Impossível seria encontrar emprego sendo semi-analfabeta e o seu joelho enfermo já não aguentava o serviço de faxina. Por enquanto sobrevivia do auxílio de programas sociais do governo, mas naquele dia resolveu investir sua última economia que seria a sua refeição.


No caminho podia vizualizar o fermento de sua idéia. Hoje 12 fatias de bolo, amanhã em vez de desfrutar de algum lucro investiria em mais dois e assim, teria o dobro do que arrecadaria hoje. Depois levaria suco, com certeza as pessoas iriam querer lanche completo. Animava-se com o que conseguiria com suas vendas. Em breve ela faria mais bolo e não precisaria deixar os filhos sozinhos em casa, poderia retirar alguma verba para pagar algum menino para vender em seu lugar. Pelos cálculos que fazia poderia em breve levar mais opções de lanche e logo precisaria alugar algum ponto. Compraria os equipamentos para erguer sua padaria e lanchonete. Algo simples no mesmo lugar, mas que traria bastante renda para seu lar.


Podia imaginar as novas roupas das crianças, não precisaria mais pechinchar em algum brechó, roupas usadas por outras pessoas. Almejava poder entrar em um shopping e comprar aquelas roupas alegres que ela tanto namorava. Ofereceria oportunidade de estudo às suas crianças em uma boa escola. Alegrava-se em saber que não teria mais de dizer “agora não”, quando um filho dissesse que estava com fome. Poderia consertar pelo menos a porta da casa que não fechava, embora não tivesse o que ser roubado, ela temia por sua segurança. Realizaria o sonho de entrar em um cinema, enfim os cálculos que fazia com o resultado das vendas daquelas fatias de bolo lhe abriria caminho para a felicidade.


Ao chegar no portão principal do colégio, onde ficaria com sua bandeija à espera dos alunos, deparou-se com um grande número de vendedores, talvez com os mesmos problemas, talvez com os mesmos sonhos. Foi empurrada por alguns ao som de “aqui é o meu lugar”, “o que você está fazendo aqui?”, “é bom proucurar outro ponto para você”… Os alunos preferiam comprar lanche na mão de pessoas conhecidas mesmo assim conseguiu vender três fatias.


Voltou para casa e à noite jantou juntamente com seus filhos as 9 fatias que sobrara das vendas. Foi para a rede, chorou muito, fechou os olhos e dormiu.


Inspiração: Leitura contemporânea de Elias e a Viúva de Serepta (Reis 17, 8-24) e um fato curioso que eu vi na infância.

Imagem: Achei a imagem perfeita no flickr. É como se eu tivesse vendo a porta da casa dela, e sem contar que o número nove parece que tá lá de propósito. http://www.flickr.com/photos/ubu/537830/

 

 

Gerlandy Leão


– Oi minha deusa!

 

Antes que o rapaz pudesse dar-lhe um beijo de cumprimento foi interrompido.

 

– Você está 4 min atrasado. Estou vendo que não é capaz de cumprir sua palavra.

– Mas Ana Maria, o que são 4 minunti…

– Não tem mas, fica aí quietinho. Não quero ouvir desculpas esfarrapadas.

 

 

Depois disso, o rapaz não teve outra alternativa senão silenciar-se e sentar-se em uma cadeira ao seu lado. Por algum tempo pensou em falar algo, mas por temer ser repreendido preferiu não incomodar sua leitura. Quase um minuto depois, o silêncio foi interrompido.

 

 

– Luís José, você não me ama mais?

– Hã? o que?

– É que você ficou aí todo caladinho, nem quer conversar comigo.

– Foi você mesma que me mandou ficar calado. E eu tive que…

– Ah! mas não tem problema meu amor. Toma o teu presente.

 

 

Empolgada e risonha jogou um objeto embrulhado em papel de presente nas pernas do rapaz.

 

 

– Ô amor, obrigado.

– Parabéns bebê!

– Parabéns?!?! estamos comemorando o que mesmo querida?

Chorosa e incrédula a garota respondeu:

– Ai Luís José, não acredito, assim me magoa. Você esqueceu o nosso aniversário de 5 meses e 3 dias de namoro, que somados dão 8, o nosso número da sorte.

– Não é isso meu amor, eu lembrava sim. E, e, é…, não comprei presente mas é…, sim, sim, eu vim fazer uma surpresa. Isso, isso mesmo uma surpresa de, é… Ah! sim, vamos jantar num lugar especial.

– Luís José você é muito tonto. Porque não me avisou logo para eu me preparar. Estou com o cabelo horrível e essa roupa… ah, não.

– Que é isso meu amor? você está linda. Mas se não quiser ir podemos fazer um simples lanche ali na…

– O que? acha que eu não mereço um jantar decente só por que não estou com o cabelo escovado?

– Ai Ana Maria não foi isso que eu quis dizer…

– Mas disse! E agora não vou para lugar nenhum. Estou nervosa, quero comer aquele bombom de maracujá lá da pracinha.

Determinado a agradar a amada, no caminho o moço pára em uma floricultura para comprar-lhe alguns botões de rosa. Aos prantos a moça o acusa.

– Você deve tá me confundindo com alguém Luís José. Você sabe que minhas flores preferidas são violetas e não rosas.

– Mas Ana Maria, até onde eu sei todo mundo gosta de rosas.

– Rosas têm espinhos e machucam. Pelo visto você não me conhece mesmo.

– Tudo bem, tudo bem. Moça troque as rosas pelas violetas.

 

A namorada pendurou-se no rapaz, abraçando-o e beijando-o, quando falou baixinho.

– Olha só Luís José. Veja como aquela mulher ali é linda.

– Não tou vendo.

 

 

Tentando fugir de confusão, o rapaz fingiu não ver ninguém.

 

– Tá cego? Aquela ali de vestidinho verde.

Com o mesmo temor, tentou desconversar.

 

 

– Não acho tanto.

– Tá dizendo que eu tenho mau gosto? Quer dizer que não sei diferenciar o que é feio e o que é belo?

– Tá bom minha querida, deixa eu ver melhor. É, realmente é uma mulher lindíssima.

– LUÍS JOSÉ! Você não tem vergonha? Paquerando uma mulher na minha cara. Seu galinha! Está tudo acabado.

 

 

 

Dito isto, empurrou o rapaz e foi-se embora.

 


INSPIRAÇÃO:
Dia dos Namorados chegando. Os nomes são dos meus avós paternos e maternos. De agora em diante sempre q denominar alguém vou utilizar seus nomes.