Gerlandy Leão

Insônia

 

 

O último encontro com meu demônio amante me dera a certeza de que teríamos muitos sonhos juntos. Para isto bastava eu favorecer o nosso encontro perfeito que seria através do meu adormecer, algo bem simples pensava eu. Mas para nós nada fora fácil, pois desde o início pulamos alguns muros que nos impedia assim como Montecquio e Capuleto. Cada um de nós tinha uma vida adversa. Ele- um Incubus- em seu mundo, com sua missão, em suas companhias enquanto eu era apenas um ser humano que tão facilmente se amedrontava. Ele deveria cumprir o seu dever ao me possuir só uma vez, afinal este era o desafio, assim que realizado não tinha porque repeti-lo. Mas me deixara viva e me ensinara a pedir e clamar por ele só talvez não imaginasse que eu clamaria tanto.

 

Aquilo que seria tão simples tornou-se empecilho. Minha ansiedade impediu-me de dormir. Por tantas vezes eu girei na cama inquieta falando “feche os olhos, feche os olhos” … Mas só alcançava poucos segundos que me pertubavam ainda mais. A cada fechar e abrir de olhos eu via o meu demônio tentando se aproximar. Ah! maldita insônia que me tirava sempre de sua presença. Num vai e vem de cochilos eu o encontrava. Uma vez estávamos deitados distanciados por cerca de sete palmos um do outro. Mudos apenas nos olhávamos, levantei-me e tentei pegar em sua mão, mas acordei. Não aceitava aquilo e sabia que precisava adormecer urgentemente pois cada contato frustrado me enchia de mais vontade.

 

Fechei os olhos e encontrei o seu olhar…

Fechei os olhos e lhe expus meus anseios…

Fechei os olhos e meu demônio me respondia “Agora quem ficou doido para devorar-te foi eu, invadir no meio da noite seu quarto e tê-la para mim em toda sua volúpia. Ah! queria está aí. Teu Incubus quer possuir-te inteira”

 

Em um novo fechar de olhos lá estava ele me esperando, não perdi muito tempo e provei imediatamente dos seus beijos. Sabendo da leveza do meu sono coloquei sua mão entre minhas pernas, tentando extrair o máximo daquele momento. Fui surpreendida novamente quando já começava a entrar em êxtase e a ausência de sono interrompeu-nos. Deitada eu tentava de qualquer forma dormir. Minha inquietação incomodava até minha companheira de quarto que me perguntava o que acontecera comigo. Obviamente não adiantaria falar sobre um ser que ela jamais acreditaria existir.

 

Meu Incubus devia pensar que agia assim propositalmetne. Ele comunicou-me em um dos meus breves retornos “Ah! isso é maldade! que maldade! Agora estou louco, não paro de pensar, te quero hoje, agora, já”. Disposta a fazer o que fosse preciso, senti mais uma oportunidade chegando ao perceber o meu corpo relaxando leventemente. Frente a frente com meu amante ficamos nos olhando por um bom tempo, sei que ele não acreditava que ainda conseguiríamos algo, por isso o peguei de surpresa quando parti para cima dele puxando-o pela sua mão e o empurrando-o contra a parede. Com uma fome inexplicável e sem precisar me despir, beijava-o enquanto roçava o meu sexo ao dele. Fiz com que me pressionasse com a face na parede enquanto beijava-me as costas e arrancarra-me as roupas de baixo. A minha preocupação em acordar não me deixava ficar por muito tempo na mesma posição, virei-me então e o puxei para dentro de mim, só a sua mão sobre a minha boca impedia o soar do meu gemido. Eu queria provar mais do seu sabor até que desci implorando que ele derramasse sobre mim o seu gozo. De fato ele chegou a me ouvir mas paralelo a isto despertei-me mais uma vez. Na minha cama, blasfemava e clamava por meu Incubus, pois embora satisfeita não estava saciada.

 

Pós este episódio a insônia reinou por alguns dias, mas me deu uma trégua de poucas horas. Pareci participar de várias baterias de uma gincana, em uma tremenda correria para alcançar minha adorável criatura. Enfim atraí o sono mas teria de pular algumas barreiras e me vi como triatleta vencendo provas, galgando degraus. Driblei todas dificuldades para esperá-lo parecendo um noivo no altar que aguarda ansioso e perturba-se com o atraso da noiva.

 

Quando apareceu, encontrou-me com uma expressão que alternava alegria e exaustão, fruto das frustrantes experiências, da insônia e das etapas cumpridas para chegar até ele. Vários pensamentos fundidos me encheram de nervosismo. Expus-lhe o meu temor de não conseguir manter-me sonolenta por muito tempo e não queria mais iniciar algo com o perigo de ser abortado, como nas últimas vezes, antes que pudesse experimentar novamente aquela sensação deliciosa que ele me permitira na noite do meu sono profundo.

 

Acalmou-me e indagou-me se ainda o queria. Minha afirmativa foi suficiente para nos entregarmos mais uma vez à nossa vontade. Pela primeira vez senti que jogávamos de igual para igual e em minutos não havia nem sombra de temor, pudor ou qualquer sensação que me fizesse travar. Eu era dele por completo e ele me servia obedecendo a todas minhas vontades. Tudo belo entre nós, tivemos nosso momento interrompido mais uma vez, porém desta vez, embora rápido conseguimos o que almejávamos.

 

A experiência tinha sido maravilhosa mas começava a sentir algo. A dor da despedida já era externada a ele por lágrimas. Mesmo sabendo do reencontro na noite seguida, sabia que o hiato de uma parte do dia era suficiente para deixar um vazio dentro de mim. Agora eu o desejava não só com o corpo, mas sobretudo com o coração. Não queria apenas os minutos permitidos por um breve dormitar e sim a sua entrega. É certo que a agora eu havia sido saciada mas não estava mais satisfeita.

 

Enfim, descobri a cura para a minha insônia. Para dormir precisaria apenas parar de querer dormir, só precisaria dá espaço para as coisas agirem naturalmente sem preocupações e assim seguirem ao meu favor. Deveria abrir mão da ansiedade e conformar-me com as noites que não tivesse sua presença… infelizmente eu não estava preparada, havia me apaixonado.

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