Gerlandy Leão

O Adeus

 

 

 

Aquele olhar é a mais bela lembrança que eu tenho do meu amante Incubus. Vencida a insônia finalmente nos reencontrávamos em mais um sonho que se mostrou no meu sono mais longo desde que o conheci. Aproximou-se de mim com passos lentos e olhar firme meio desconfiado e abraçou-me tão forte. Parecíamos dois loucos de saudade que não se viam há muito tempo. Algo havia mudado, na verdade a cada encontro apresentávamos algo diferente e agora eu apresentava a minha paixão camufalda em uma mera vontade de tê-lo.

 

Meus sentimentos não impediram de perceber que meu Incubus começava a eleger uma nova personagem especial para suas viagens noturnas. Sentia que em breve teria de dividir a atenção dele com outra e em pouco tempo já não seria mais tão especial. Ah! porque me deixara apaixonar por este demônio? Ele havia sido tão gentil me permitindo viver e eu só teria que me divertir, só deveria aceitá-lo como um Incubus, superior e com desejos além de mim. Mas não me incomodava ser a última amante, só temia ser a última amada.

 

Naquele reencontro sentia que ao movimentar mais um passo talvez seria meu último passeio, pois uma nova entrega seria forte para meu coração e este provavelmente não resistiria por muito tempo. Por isso, pela primeira vez lhe disse não, mesmo olhando sua emoção mediante minha recusa, mesmo lutando contra minha vontade de dizer sim, tentando evitar que o amasse mais ainda. Retornou depois para mim apenas como uma visita a alguém querida. Lá estava ele tão gostoso e irresistível , impossível fora confirmar o não. Eu amaldiçoei aquele sentimento mas ele me rendeu um delicioso sabor.

 

O seu corpo deitado sobre o meu encontrou o encaixe perfeito aumentando minha certeza de que havíamos sido feitos um para o outro.  Que sintonia! Mesmo que tudo se mostrasse contrário ali era o nosso momento e eu era a mulher mais amada do mundo. Com minhas pernas o empurrava para mais dentro de mim e minhas mãos deslizavam por suas costas procurando encontrar firmeza. Eu consegui elevar o quadril para mais perto dele em um movimento rotatório ordenando-lhe que apenas obedecesse ao meu comando. Este foi se tornando mais intenso e preciso e fui sentindo, fui alcançando, fui chegando até explodir de prazer. Fitando bem no fundo dos seus olhos expressei mistura de lágrimas de alegria e sorriso de satisfação, não querendo que ele saísse de dentro de mim, desejando que repousasse ali do jeito que estava me olhando e segurando minhas mãos. Eu tentava relaxar meu corpo e acalmar o tremor das pernas e segurar meu leve e bobo sorriso que pelo menos impediu-me de dizer-lhe: Te amo. Seria melhor assim, eu tinha um propósito de evitar o crescimento deste sentimento, mas a belíssima experiência me fizera ainda mais refém.

 

Tudo era tão bonito e mágico numa reunião de selvageria e civilização. Hora ele me colocava de costas sussurrando loucuras ao meu ouvido, hora ele cobria-me de frente falando apenas com seu olhar. Ele mostrava força e eu delicadeza, ele era um demônio e eu ser humano, ele era carne e eu alma, ele era a fera e eu a ferida, ele era Incubus e eu menina. Mas não me deixava expor, eu estava feliz demais e só queria pelo menos mais um segundo ao seu lado.

 

Meu demônio deu-me atenção, cuidado, carinho que a cada gesto seu fazia-me apaixonar-me mais pela sua forma de falar, por suas histórias, por seu sorriso e tudo que vinha dele. Ele era uma metamorfose que apresentava-se às vezes sobrenatural depois como um simples homem assim como eu.

 

Os nossos planos de nos vermos em todos sonhos começara a ser ofuscado pela dúvida de sua visita. Fui surpreendida pela frase dita de jeito tão simplório “quando possível, nós nos teríamos”. Como quando possível? Até ali nós fazíamos estes momentos, não esperávamos milagres, mas agora ele planejava visita a outros sonhos enquanto minhas noites ficariam defasadas pela sua ausência.

 

Tomei a decisão de dizer-lhe que não o esperaria mais, melhor seria passar minhas noites sem aguardá-lo ou mesmo esperando por uma mera coincidência. Eu já o amava muito para pedir-lhe algo como ficar comigo. Ele amava a sua liberdade e eu precisava colocar-me no meu lugar. Não queria que tivesse de ser desleal comigo, por isso tomei aquela decisão. Sei que ele estava confuso, não sabia até mesmo se queria continuar como Incubus, tentando optar, assim como o Superman em um dos seus episódios, abrir mão de seus poderes para deleitar-se com sua amada. Mas Superman sabia o que queria ao escolher a sua amada Louis Lane, quanto ao meu Incubus…

 

Agora meu demônio, depois de compreender minha decisão, me levava de volta para o meu mundoe me deixou deitada com os sintomas de suas vítimas. É certo que não ele mas nosso amor a ele nos enfraquece e e esgota toda nossa energia e vitalidade. Eu chorava devido aquele vazio em mim e toda a saudade me sentindo como a mocinha que depois de tantas aventuras ao lado de King Kong é deixada em local para sua própria proteção, mas entende que o perigo ao seu lado devolve mais cores à sua vida, mesmo assim o adeus era necessário. Eu fiquei no meu mundo enquanto ele retornava ao su, agora mais desconhecido para mim.

 

De fato, sei que fui especial e creio que onde quer que esteja ele jamais me esquecerá e nem eu a ele. Estou de volta à vida, aos meus papéis, às minhas canetas, meus óculos e minha escrivaninha e celebro a vida e como forma de agradecimento eu registro esta bela aventura que vivi.

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