Com um tempo a gente aprende. ( Hum, parece que vou falar do Menestral de Shakeaspare, mas não é). Com o tempo a gente aprende como agir na hora e como evitar, não evitar o assalto em si, pois a cada dia a situação piora, mas podemos tomar alguns cuidados para impedir que percamos muito em cada assalto.

 

Por exemplo, ao  sair a gente distribui o dinheiro por todos os bolsos da roupa , é bom não deixar tudo no mesmo lugar, pois eles aparecem rapidamente puxam tua sacola e saem correndo. É bom esconder o dinheiro se tiver de passar por lugares suspeitos ou famosos, sim porque andar em grupo não subestima muito o elemento, principalmente se este for metido a “The Flash”. Então colocar uma nota no sapato outra no soutien não vai fazer mal. Se estiver muito sujo basta passar um pouco de álcool e pronto está tudo desinfectado.

 

Em assaltos mais demorados em que o covarde aparece com uma arma, nada de pânico. É melhor não mostrar muito medo, mas também não precisa bancar o corajoso. Eu pelo menos entrego tudo, nem quero saber. Lembro que na primeira vez que fui assaltada eu fiz questão de tirar o dinheiro que estava guardado para entregar aos pilantras. Eles já haviam levado meu celular e partiam para outra vítima quando eu os chamei lembrando que ainda tinha dinheiro, é como se eu dissesse “Ei vocês estão esquecendo isso aqui”.

 

Ah! Mas fazer o que? É o nervosismo. Não domino nenhuma arte marcial e pelo que me consta qualquer força treme diante de uma arma de fogo (exceção os filmes). O desgraçado é de carne e osso igual a você e certamente não resistiria a um chute nos países baixos, mas lá está o sujeito com um revólver na mão, tão poderoso quanto Deus – isto porque cabe ao portador desta bendita arma a permissão para a vida  e para morte, sendo assim as pessoas se submetem à humilhação de entregar os seus pertences muitas vezes a um pivete que não agüentaria um peteleco. Só por causa deste objeto, esses covardes tÊm vantagem.Quem assistiu  “Planeta dos macacos” de Tim Burton com Mark Walberg deve lembrar como é bem explorado a submissão de um povo por meio de uma única arma, chegando a ser tratada como um totem.

 

Ah! Se não fossem tão covardes, se viessem para a briga de mãos limpas. Nem gritar a gente pode. Foi uma das coisas que também aprendi, a gente não grita porque os bonitos podem ter um ataque de nervos e saírem dando tiro para tudo quanto é lado. Quem é assaltado aprende a desconfiar de todo mundo, danado que mesmo assim a gente não consegue fugir a tempo, mesmo acelerando ou desacelerando o passo. Foi o que me ocorreu no último episódio que sofri.

 

Um das amigas percebeu o perigo e nos alertou, conseguimos nos dispersar, mas assim que eles perceberam que o campo estava limpo partiram de volta falando algo que no momento não lembro mas provavelmente devia se parente de algo como “ é um assalto”, “passa a grana” ou “ me dá a grana ou atiro”. Um deles veio com um volume escondido entre a camisa , óbvio que eu não sou tão louca para correr o risco de verificar se era um revólver ou não.

 

Minhas amigas abriram carreira para caminhos opostos, uma gritou a outra iniciou choro. Eu fiquei parada na mesma posição quando apresentaram o assalto, igual naquelas brincadeiras de roda “ Rui, Rui , Rui, mataram a mulher do Rui… alô Brasil quem se mexeu saiu”… foi do jeitinho que eu fiquei, parada. Como eu disse, a gente aprende com o tempo. Antes de sairmos fizemos uma bela estratégia que deu certo. Em vez de levarmos todos nossos celulares, levamos apenas um, pois em caso de roubo ainda teríamos 2. Não guardei em bolsos de roupa, coloquei em minha bolsinha que mui inteligentemente escondi dentro da minha blusa fazendo um volume em minha barriga. Fiz essa ação ao voltar para casa exatamente para despistar os otários, sim porque a gente sabe que pode ser pego a qualquer momento. Enquanto aqueles dois lixos humanos (Valeu Maradona, esse adjetivo foi o mais apropriado) abordavam minha amiga, um deles me olhou como se dissesse e você o que tem para me entregar, só que eu já havia passado da fase entrego tudo, continuei na minha quietinha, esperando que ele mesmo viesse verificar.Creio que ele confundiu o volume na minha barriga com gravidez, ufa.

 

Mas estava lamentando muito ao pensar em ter que entregar os objetos de mais valor conosco naquele dia (não cito a vida porque não é objeto), o celular de minha amiga por seu valor financeiro e minha bolsinha por seu valor emocional. Finalmente apareceram dois carros em alta velocidade botando os escrotos para fugir e nós três, pernas para que te quero. Corremos mais do que maratonista do Kênia e a galera na porta vendo o nosso desespero, isso mesmo o ocorrido sucedeu-se há poucos metros de casa. Só depois de passado perigo o povo ensaiou um choro, e eu por incrível que pareça não senti nada, a não ser raiva.

 

Pouco depois, sentadas na calçada, paramos uma viatura da polícia que levou uma de nós a procura dos bandidos. Essa deve ter achado pouco a aventura que passara para aceitar entrar naquele carro e assistir os policiais barrando tudo quanto era suspeito, coitada acabou em meio ao tiroteio, num instante quis voltar para casa. Eu fiquei consolando a outra que falou sério comigo. “olha aqui, você vai agradecer a Deus pelo livramento, tu vai orar hoje a Deus e agradecer a ele sua doida”. Apenas sorri para ela e me virei para o lado pedindo uma cerveja para tia. “Hoje é dia de celebrar a vida”. Eu prometera nunca mais encostar em álcool e nem de cerveja eu gosto, mas naquela hora eu precisava quebrar meu jejum de meses para comemorar. Ela sorriu também e só não me acompanhou por está medicada, uma pena.

 

Esse negócio de agradecimento é uma graça, me lembra um amigo que reclama como as pessoas se comportam. Quando falamos que fomos assaltados logo aparece um engraçadinho dizendo “ Graças a Deus isso nunca me ocorreu” e ele revoltado respondia “pois graças a ele que fui assaltado, ele protege a você e não protege a mim” Pode até parecer grosseria, mas faz sentido, tem gente que é muito indelicado com a dor dos outros.

 

No final das contas, graças às estratégias, eles não levaram muito. Sim, a gente não pode livrar-se do mal, mas pode livrar-se no mal, permitindo que o mínimo seja levado. Dessa vez eles não levaram muito em valor, poucas cédulas, dinheiro que saiu muito caro para eles com certeza já que foram pegos por aqueles motoristas dos carros que surgiram quando estavam nos abordando. Eu só queria está lá dando a minha contribuição, não precisava espancar, mas seria bom deixar minha marca neles. Queria ver a agora suas coragens no momento que estavam desarmados.

 

O que ocorreu não muda minha rotina, claro que ando com mais medo, mas não posso deixar de viver, afinal até acidentes caseiros são mais freqüentes do que se pensa.

 

Inspiração: Apenas trancrevi o que me ocorreu, de fato isto é verídico.

Homenagem: Dedico este texto a todos que já passaram este sufoco.

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