Gerlandy Leão

 

 

Ah! fui agraciada com um mês todinho de férias para mim. Esta oportunidade me fez relembrar minhas férias quando era criança, aquelas que aguardávamos com muita euforia. Passávamos a manhã assistindo programas infantis e a tarde assistíamos na TV, reprises de Os trapalhões. Enfim à noite reunia-me com a molecada onde brincávamos à noite tranquilamente, já que nossas mães não utilizariam a justificativa de nos mandar dormir cedo para irmos para a escola.

 

Quando retornávamos às aulas éramos apanhados, sem nenhuma novidade, pelo batido Tema “Minhas férias”. Se eu tivesse computador, naquele período, só reimprimiria a cada semestre porque em termos de descrição era exatamente o que citei que ocorria em todas as férias. Em termos de narração às vezes se diferenciava por um um acrésimo de algumas informações como, quem levou algum tombo, ou quebrou o braço, ou quem recebeu visita em casa de algum parente, ou quem viajara. Era caso raro, mas às vezes alguém aparecia falando sobre suas viagens para a capital, ou para algum interior, de passeios a shopping, banhos na praia, lagos, rios, açudes, passeios a cavalos, comidinha da vovó. Porém como eu disse a grande maioria continuava na cidade se alimentando da comidinha da mamãe. Nossas férias eram parecidas, uma rotina é certo, mas nem por isso indesejadas.

 

Agora professor em plena universidade você me vem pedir uma redação sobre este tema? Francamente eu deveria, em um parágrafo, fechar a redação declarando que aproveitei a ausência das aulas para adiantar o estágio em todos os turnos. O senhor bem sabe da nossa necessidade de acumular várias atividades para que possamos ganhar o básico para que invistamos novamente nos nossos estudos. Algumas vezes eles nos liberam para que possamos fazer aquela visita técnica que o senhor insistiu em colocar em um horário fora da sua aula ou para que possámos participar de eventos científicos, mas desde que possamos pagar essas horas liberadas em outros momentos, por exemplo, as férias. As diversões como farras, passeios, e filmes deixo para os finais de semana (quando dá) assim como nos demais dias do ano.

 

 

Pois bem professor, mas essas férias foram diferentes, pois depois de alguns anos jogando na mega sena, eu finalmente consegui ficar rica. Assim, sem mais nem menos eu conquistei o coração de um velho, milionário, sem herdeiros, à véspera da morte.- PENSOU QUE EU ACERTARA O NÚMERO, NÃO É? -Ambos foram jogos de sorte, eu consegui o último. Tudo aconteceu muito rápido e em outro momento- penso em fazer uma biografia- falarei sobre nossa história de amor (sim, de certo, eu cheguei a amá-lo, não tem como não amar um homem que te deixe uma bela herança dessa, mas você sabe, tão bem quanto eu, a diferença entre os amores ágape, fileo e eros que estava longe de sê-lo.

 

 

No primeiro dia das minhas férias eu o conheci na parada de ônibus, o dia tava quente eu bebia uma garrafa de água mineral, como ele parecia um velhinho agonizando eu ofereci um copo de água. De repente se mostrou uma pessoa muito sábia e agradável de se conversar, mas logo meu ônibus passou e fui embora. Pouco depois ele chegou no meu local de estágio, como eu estava fardada ele memorizou o nome da instituição. Falou que me admirava e do seu belíssimo patrimônio (dinheiro fessor, dinheiro), pediu-me em casamento na mesma hora. Tentei convencê-lo de que era loucura já que eu não o amava, mas ele também disse que não me amava mesmo, e tinha perdido a oportunidade de casar com o grande amor de sua vida e agora estava sozinho. Falei-lhe que ser sua herdeira era a única coisa que me permitiria aceitar o seu pedido e ele disse que escolheu-me exatamente para isso. Bem, rapidamente fiz as contas, creio que não passaria muito tempo casada com ele. Tratava-se de um bom negócio e eu estava gostando daquilo, desde que não fosse preciso chegar aos finalmentes.

 

 

No dia seguinte fui desposada e na noite do mesmo, tornava-me viúva, não que eu tivesse intenção de consumar o casamento, mas não me custava nada fazer um desfile de lingerie à 5 metros de distância. Mas foi demais para o coração do meu querido espôso. Descanse em paz, meu finado e adorado, manda meus agradecimentos a Deus e diga-lhe que não tenho do que reclamar.

 

 

Sabe professor, Casar e enviuvar em tão pouco tempo, foi uma experiência um pouco traumática para mim. Contratei umas carpideiras, um banquete, organizei um belo velório digno do meu falecido espôso. No dia posterior senti-me a própria Jacqueline Kennedy Onassis- claro que não fiquei tão milionária, mas consegui um bom legado para curtir bastante. Acendi uma vela e tinha convicção que ele me escolhera sua herdeira porque sabia que eu jamais o desapontaria e faria bom uso. Não queria ter queimado tempo falando no meu casamento, mas eu precisava para justificar o patrocínio do que eu fiz logo em seguida.

 

 

No quarto dia de férias eu já estava com o falecido enterrado portanto solteiríssima novamente e pronta para comemorar esse feito, não a morte dele, mas minha solterisse, entenda. Finalmente entrei em contato com todos os amigos tentando reuni-los, isto era o ideal para me sentir feliz. Não quis perder tempo fazendo de distribuição de dinheiro para familia e amigos, ou filantropia, separei o que tinha para fazer de bem, adiando isto para o término dos meus 26 dias que me restavam nas férias.

 

 

Nem todos puderam me alcançar, nem todos gozavam do mesmo benefício que eu (férias viu? porque dinheiro não tinha problema) e outros hesitaram em abandonar seus empregos (admiro demais essa virtude neles, uma responsabilidade que merecem uma outra oportunidade para um segundo momento). E lá fui eu, rumo aos lugares que sempre sonhei conhecer durante anos. Inspirei-me em Júlio Verne para dá a volta ao mundo, mas reduzi os 80 dias para 30. Aquele século não contava com o benefício da tecnologia da aviação. Literalmente tentei pular nos lugares, deixei para outro dia esse lance de ser exploradora das terras “conhecidas”. Optei por sair do continente porque o Brasil eu já conhecia boa parte graças às viagens que fazia com meu pai quando ele era caminhoneiro.

 

Mas é óbvio que priorizei as proximidades. Uma amiga me pediu para que pudéssemos dá um pulo de cara no Paraguai. “No Paraguai não amiga? você faz suas compras quando retornarmos.” Mas iniciamos visitando nossos hermanos na Argentina onde pude conhecer o tango em Buenos Aires (neste momento imaginei como meu defunto, finado, falecido espôso adoraria está lá, mais uma vela em sua homenagem acendi). De lá fomos para Bariloche, foi minha primeira vez com a neve. Aproximamo-nos rapidamente das Cordilherias dos Andes no Chile até chegar ao meu alvo no Peru. Ah! que encanto Machu Pichu, pode ser até clichê me surpreender com aquele mistério, mas de fato, meu grande sonho se realizava ali. Uma das minhas companhias me pediu para, antes de subirmos à América Central, que pausássemos rapidamente na Colômbia, não me pergunte o que professor, afinal de contas a Colômbia é um país belíssimo e rico em artesanato.

 

 

 

Inaugurei minha chegada na América Central por Kingston na Jamaica, infelizmente deixei um pedaço da tripulação lá. Teve gente que optou por ficar lá a seguir viagem. Perdi bom, ou melhor, ganhei bastante tempo naquelas regiões por optar em conhecer o Caribe via Maritma. Não demorei muito na Cuba, mas eu cheguei a tocar o solo. Depois de comer burritos e dançar bastante na cidade no México ( o país não é só isso, mas entenda, eu era turista, não iria viajar para comer ou ouvir as mesmas coisas que tenho acesso aqui). Fui tomada por um desejo estranho de entrar nos States de modo ilegal, só pela aventura, sei lá, o que é proibido é sempre mais atrativo. Mas desisti porque não podia perder tempo, afinal ainda tinha 4 continentes para visitar. Não pretendia passar muito tempo noss EUA, apenas encostei em Los Angeles para fazer umas fotos na calçada da fama. Em seguida, voava para a terra do Canguru na Oceania, mais fotos para que te quero… Dizem que japonês é louco por foto mas depois da câmera digital quem não o é? por falar nisso fiz questão de visitar a China, o Japão e a Coréia do Sul (pelo menos eles) porque minha ignorância os generalizavam, como não estou no Discovery Chanel, não preciso entrar em detalhes.

 

 

Entrei na Europa pela Turquia e se havia viajado rápido nos outros dias, em terras européias eu apenas saltava de país em país (alguns, óbvio). Comia um pão aqui, bebia um vinho ali, tomava banho cá, colhia flôres lá. De manhã café em um lugar e à tarde chá em outro. Meu tempo estava queimando e havia pensado em passar na África só para cumprir tabela, tal foi meu engano. Na África encontrei muitas coisas bonitas, mas também muitas que me chocaram. Resolvi ficar um pouco mais e dá um tanto de minha atenção a eles. Mas pelo pouco que fazia vizualizava que não era suficiente e relembrei que havia muitos ao meu redor precisando de mim e retornei, feliz pelas aventuras vividas e também muito pensativa.

 

 

O senhor deve tá se perguntando o que estou fazendo em sala de aula já que estou milionária. Eu lhe digo duas coisas: primeiro que agora sim posso estudar tranquilamente, afinal educação é luxo, vou poder adquirir conhecimento sossegada sem ter de sair correndo para trabalhar, vou comprar os livros que eu quero etc, e segundo, não estou mais tão rica, resolvi doar quase 99% do que recebi em benefício dos outros, queria ajudar alguém como fui ajudada.

 

 

Essa é a mais pura verdade professor, eu cheguei alguns dias depois das aulas começarem devido a toda minha aventura e não por causa da burocracia da universidade. Não foi porque quase não me oferecem a disciplina, ou porque estivesse com dificuldades de encontrar horário compatível com meu tempo. Não, isso não.

 

Foram longas férias, inesquecíveis, e hoje sinto muita saudade de tud, principalmente do meu falecido que eu nem tive oportunidade de conhecer.

 

Inspiração:Há algum tempo eu recebi uma tarefa na faculdade para redigir sobre as férias. Foi só uma brincadeira que enviei para os amigos por e-mail. Claro que não entreguei para a professora assim, sou medrosa, vai que ela não gostasse da minha viagem.

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