setembro 2007


Gerlandy Leão

 

Criminosa, eu?
Agora resolveram fazer campanha para me enquadrar como bandida porque compro ou assisto filmes piratas [ao politicamente correto deixo claro que não estou fazendo apologia à pirataria]. Passando pela rua vi uma passeata de carros com pessoas todas sinalizadas com camisetas de campanha contra a pirataria, até aí tudo bem. Mas depois vi um out door altamente agressivo sobre você que compra filmes piratas é igual a um formador de quadrilhas, traficante de armas e drogas, membro do crime organizado, explorador de trabalho escravo dentre vários. Não acreditei naquilo. Já não bastava ser constrangida pela abertura de cada DVD “você não roubaria uma bolsa, uma velhinha, isso, aquilo e blá blá, por que roubaria um filme?” . Nem assim conseguiam me convencer que  era uma criminosa. Nessa tarde vieram com a tentativa de que roubavámos empregos de milhares de pessoas e, portanto as locadoras de filmes estavam condenadas à falência. Por quê? Por quê? Porque comprei filme pirata, ou porque baixei filme na internet, ou peguei emprestado com algum amigo.

Mas não colou. Comigo não Juvenal! E olha que eu sou muito sentimental. Não estou falindo nenhuma locadora, ao contrário nunca fui muito boa cliente embora me considere cinéfila desde os 13 anos de idade. Mas também nunca loquei tantos filmes na minha vida como atualmente e mesmo assim não largo o jeitinho alternativo. As pessoas que me conhecem sabem da minha paixão por essas obras maravilhosas, mas não vou falar aqui da arte em si, falo do material, da mídia, do suporte [essa aula eu não perdi] de como este chega e como o aproveitamos.  Creio os únicos que têm sentido verdadeiramente a falta da minha visita são as emissoras de televisão.

Sou daquele tempo que esperava ansiosamente os pacotes de filmes anunciados no início do ano em cada canal. Ficava vibrando só em saber o que passaria ao longo deste. Às vezes nem chegava a ser transmitido na mesma temporada que fora anunciado, mesmo assim aguardávamos animados. Não sei se mais alguém fazia isso, eu mesma nunca comentei com ninguém, mas toda vez que meus irmãos e eu ouvíamos de longe a chamada, corríamos, vibrávamos e gritávamos toda vez que anunciava o que esperávamos, ou até quando falavam em algum que nem conhecíamos, mas no comercial todo filme era bom, principalmente quando citavam “com Fulano de tal e Betrano de lal”. Depois a gente se reunia para comparar os pacotes de cada emissora.

Sabíamos todos os horários cines  em todos os canais. Não assistíamos nada na TV a não ser os filmes. Tínhamos anotações para controlar todas as transmissões e pouco a pouco íamos eliminando o que víamos enquanto aguardávamos o que faltava. Nunca consegui votar naquele programa em que poderia escolher entre três opções o intercine, mesmo assim eu torcia. Era muito mais excitante que qualquer jogo de futebol. Quantas madrugadas passei em frente à TV. E houve dias em que amanhecemos assistindo aos mesmos só pulando de canal em canal. Assisti tantos filmes que nem lembro o nome. Trabalhos lindos mesmos que tentei recuperar depois, mas não tinha muitas informações sobre os mesmos. Foi daí que começamos a nos interessar pelos nomes dos atores, atrizes, diretores, produtores dentre outras coisas como trilhas sonoras. Tudo isso para ter o máximo de informação sobre o bendito  Já que não tínhamos o filme em mãos (pois não era locado) ficávamos torcendo para que a programação não cortasse os créditos no final dos mesmos antes que anotássemos. Ah! era muito bom acumular o máximo de dados sobre as obras e depois ficar discutindo principalmente com meu mano.

Às vezes quando coincidia de não assistirmos, por um ter dormido antes, ou estar em outro lugar a gente indicava um ao outro. Eu nunca fui muito boa nisso, comentava se tinha sido bom ou não e ficava viajando com minhas idéias, até hoje eu me envolvo mais com as idéias do filme. Meu irmão não. Ele era muito bom naquilo, contava para mim detalhadamente tudo o que acontecia. Desde o início até o fim. Atuava na minha frente e fazia trejeitos. Ele se emocionava ao me falar de cada detalhe. Foram vários filmes que ele me narrou, mas quatro me marcaram mais, tanto que pude comprovar depois disso que ele sabia contar muito bem, inclusive esses dois primeiros eu chorei mesmo: Frankenstein de Mary Shelley (que depois de visto tornou-se uma das minhas histórias preferidas), Pequeno milagre, Clube da Luta e A outra história americana. Tudo bem que o infeliz me fez o favor de falar os surpreendentes finais destes dois últimos mesmo assim ele era perfeito imitando o Edward Norton nessas atuações maravilhosas. E toda vez eu me arrepio quando lembro da atuação do De Niro e Aidan Queen em Frankenstein [ Por que chora? Porque ele era meu pai]. Meu irmão foi foda interpretando os dois de uma vez, ainda baixou a cabeça me olhou de lado e fez a boca tortinha do monstro e me lançou: Porque ele era o meu pai. Não teve como segurar o arrepio e as lágrimas. Eu ficava babando a paixão com que ele me detalhava. Só encontrei uma pessoa com capacidade de se aproximar dele com essa paciência pelo menos comigo, não sei se é porque eu sou uma boa “telespectadora/ouvinte”, mas esse grande amigo me narrou o último Rocky tão perfeitamente que nem assisti ainda, me sinto saciada. Me mostrou um rei gritando “Death!!” enquanto se arrepiava, e imitou uns loucos dançando de forma escrota. Achava lindo como ele não também não tinha um pingo de vergonha de interpretar papéis para mim. Pois é, eles  pirateando os filmes. Assistem e me relatam. Quando dá, eu “revejo”.

Eu já morava nessa terrinha quando aluguei meu primeiro filme com dinheiro que juntei do lanche com os demais e pedimos um vídeo cassete de algum irmão da igreja emprestado há dez anos. Foi aí que aprendi a gostar de filmes legendados. Não tinha jeito, não tinha opção, todo mundo com mais de 4 anos deveria lembrar disso, mas as coisas acontecem tão rapidamente que parecem que esquecem até que passávamos um bom tempo rebombinando a fita. A gente ficou super satisfeito na época, mas não dava para saciar nossa sede. Em momento algum nossos pais iam pagar pelo nosso vício e continuávamos consumidores da boa e velha TV. Curtimos poucos, mas ótimas obras que inclusive nunca passaram ou serão transmitidas na tela como Dogma.

Cinema de verdade, telona, demorou mesmo. Fizemos uma tentativa na adolescência e o dinheiro que o nosso pai nos deu não dava nem para pipoca, aí a gente fez um “Agá” e retornamos dizendo que havia esgotado para não constrangê-lo. Eu mesma só fui ver depois que já estava na universidade, tinha meu dinheirinho e podia pagar pela minha entrada. Vez ou outra estou lá sozinha ou com minha mana. Meu antigo contador de filmes nunca pisou numa sala de cinema, nem assim está atrás de alguns que vão só a passeio. Cinema para mim é sagrado. Eu vou para assistir mesmo.

Nos últimos anos a TV tem me visto pouco. Eu nem sei mais a programação cine e às vezes chego até a começar a assistir, porém, muitas vezes cansada eu digo que vou dormir, outro dia eu alugo e assisto. Em outro tempo eu jamais a ignoraria. O sono logo era despertado. Mas agora não. Por muito tempo dei ibope e fui uma das que vibrou com uma lista “dos filmes milionários” que atormentavam as noites de terça e sexta da rede globo. Bons tempos aqueles viu? Teve filme que teve mais de 40 pontos de audiência. Hoje eles servem mesmo só para preencher horários. Não são mais importantes para a programação como há alguns anos. Por isso confirmo: quem perdeu terreno foi a televisão. Os filmes piratas deram alternativa para assistir filmes que provavelmente a pessoa não assistiria, não locaria ou iria ao cinema e sim no máximo acompanhariam por qualquer canal.

O que tem acontecido com as pessoas? Eu nunca vi tanta gente assistindo filmes como agora. Quem consome esses filmes não são clientes que as locadoras e/ou distribuidoras perderam. Esses são uma parcela de pessoas que ignoravam e agora com a facilidade de acesso, com a diminuição dos preços dos aparelhos, têm uma oportunidade de também assistir. E por falar em emprego, que tal olharmos como uma chance (mesmo que informal) para muitos vendedores. E vamos e convenhamos, não fossem pelos piratas nunca os originais baixariam o preço para ficar mais acessível. Ih, acho que peguei mal, de novo pareceu apologia.

Eu pelo menos não tenho deixado de locar, ir ao cinema e até possuo filme original. Mas realmente não abro mão desse jeitinho. Compro, baixo, troco, tenho até fornecedor.

Podem me prender. Eu não me importo, já tenho direito à cela especial mesmo, aproveitem e levem um filminho para mim que vai estrear ano que vem.

Inspiração: Há muitos dias eu queria escrever algo sobre filmes, não encontrava um assunto específico. A campanha caiu como luva.

* Fiz uma lista com nomes de filmes para ser título, mas acho que este foi o que ficou mais adequado mesmo. É um filme de uma história verídica sobre um rapaz que atormenta a vida da polícia através de falsificação de cheques e principalmente por se passar por outras pessoas. O cara é tão monstruoso que chega a passar no concurso para ser advogado sem nunca ter sentado numa carteira na faculdade de direitos. Com atuação brilhante de Leonardo de Caprio (nunca levou estatueta, embora tenha provado que é muito mais que aquele chato do Jack de Titanic) e Tom Hanks (já levou duas para casa), vale a pena conferir.

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Gerlandy Leão



“Mas que porcaria nojenta, meu Deus do céu”. Era todo dia a mesma coisa sempre que chegava em casa. Tudo poderia está ordenado, os cômodos da casa limpos, mas o seu humor mudava quando via uma gota de água na pia da cozinha.

O patriarca da família tinha uma relação estranha com aquele espaço. Às vezes ficava muito tempo olhando para ela a fim de encontrar alguma sujeira que fosse. A pia deveria ficar intocável. Toda casa poderia ter qualquer defeito mas a pia de inox deveria está impecavelmente brilhando. Quando não a encontrava exatamente como gostava de vê-la, reclamava que todos faziam isso para provocá-lo. Como se tivesse alguma graça em visualizá-lo brigando de um lado para outro.


Cresceu ajudando a mãe nas tarefas caseiras numa infância humilde. O que tinham em casa era o “giral”, construído com talas de bambu ou palmeira, onde as louças eram lavadas com areia por falta de material de limpeza. Dizem que é desta cultura que surgiu o termo “arear” panela. O reflexo das mesmas não perdiam para nenhum reflexo de qualquer espelho que fosse.


Inquietava-se ao ver uma colher que fosse ocupando seu espaço e reclamava sempre “a pia tá nojenta, cheia de louças sujas”… “mas pai ainda estamos almoçando”. Não conseguia conter o nervosismo. Sentava-se segurando as mãos suadas enquanto sacudia os pés no sinal de ansiedade . “Vamos logo, vocês não terminam hoje?”. Outro dia a família ainda estava à mesa quando resolveu retirar os objetos da mesma direcionando-os à pia para logo em seguida iniciar a cobrança de limpeza.


Ninguém escapava à sua ira, fosse espôsa, filhos, netos, empregada, todos ouviam seu resmungo. Fez um escândalo ao ver que a filha não enxugara a pia logo após lavar um copo. Correu rapidamente, disperdiçou vários minutos para secá-la, depois reuniu a família e mostrou “é assim que eu a quero todos os dias”. Bem que não havia dificuldade em fazê-lo, mas com o intuito de dá um basta naquilo, todos resolveram boicotar o pedido.


Foram dias difíceis ter de ouvir todas as reclamações diariamente. Uma vez uma filha quase traiu o MOVIMENTO EM PROL DA LIBERDADE DE ESTAR DA PIA quando tentou pegar o pano destinado à enxugar a pia, mas foi impedida por outro membro do grupo. Ainda bem, quase abandonaria os ideais por não aguentar tanto lamento que adoecia mais ainda o senhor. Chegava na cozinha colocava a mão no peito e gritava “isso é demais para o meu coração. Eu não mereço isso, eu não agüento” e se retirava para o quarto.


Duas semanas depois, desde o início da greve e de consecutivas reclamações (não haveria diálogo enquanto ele não deixasse de gritar), finalmente ele chega calmo em casa. Aproximou-se da pia que estava molhada e a tocou carinhosamente. Saiu sem proferir nenhuma palavra. “Ufa!” os membros do movimento que observavam a cena sentiram-se aliviados, porém ainda não era motivo para comemorar, pois ele teria de vencer essa compulsão todos os dias. Na noite seguinte entrou novamente calado, olhou a panela que estava em cima e retirou-se. Aí sim foi motivo para festa.


Despreocuparam-se e aliviaram-se com aquela cena, na certeza de terem obtido êxito no processo de “liberdade de estar da pia”. A vida começava a voltar ao normal quando todos resolveram usufruir dela. Espalhados pelos demais compartimentos da casa, escutaram repentinamente um barulho de algo que parecia se desmoronar soando da cozinha. Começou a surgir gente dos quartos, da sala, do banheiro … ao chegarem lá se depararam com o som das picaretadas na colunas de sustento. Todos ficaram parados com olhar pasmo e de espanto.


Ele retirou a pia e falou-lhes que nunca mais seria obrigado a vê-la corrompida pela sujeira. Depois a levou para o seu quarto e a deitou próxima à sua cama. Nesta noite dormiu tranqüilamente e sonhou com o paraíso das pias enxutas.

 

Inspiração: Apesar de um pouquinho de exagero mas conheço uma pessoa com essa obsessão. Outras descrições fiz pensando em uma amiga que tem mania de limpeza rs.

Imagem: É impressionante como eu sempre encontro tudo o que procuro. Parece até a protagonista da minha história com suas gotinhas de água. http://flickr.com/photos/tatalina/148954602/

Gerlandy Leão

 

 

 

Sentado no chão vestindo apenas uma bermuda vermelha, o menino dispensava atenção na construção de sua pipa. Poucas coisas o desconcentravam, como às vezes o catarro escorrendo pelas narinas que ele nem perdia tempo a não ser fungando para dentro, ou às vezes retirando da face o cabelo liso cortado em forma de cuia. Cola, papel seda, linha, tesoura e talos espalhados ao seu redor, eram os únicos que faziam companhia.

Pouco a pouco seu objeto ganhava forma. Ele orgulhava-se de possuir algo tão belo, tão simples, mas seu. Prometera todo cuidado à sua querida pipa, feita com tanto amor e carinho. Ele tinha outras, mas essa era especial. Agora que aprendera a confeccionar, seria fácil fazer outras, mesmo assim esta era importante e merecia a atenção devida.

 

Correu para mostrar sua querida aos coleguinhas, mas cada um tinha a sua também. O máximo que conseguiram expressar, foi “eu também tenho uma” ou então “ que legal”. No fundo eles duvidavam que ela fosse capaz de funcionar. Mas ele não estava interessado na opinião dos colegas, o que importava era o vento querê-la. Agora só faltava ele mostrar ao Sr. Vento e saber se este estava disposto dá vida à sua amada.

 

Correu para um lugar um pouco isolado e distante de outras pipas, não que fosse egoísta, mas apesar de saber da beleza de seu objeto sabia que as demais eram muito mais bonitas, muito mais interessantes. O menininho muito animado iniciou as tentativas de vôo sozinho mesmo, o que deu um pouco mais de trabalho. Quando a Srta. Pipa se elevou ele foi tomado de uma grande alegria quase não acreditava, realmente funcionava. Os olhos brilhavam, e ele sorria para os lados desejando que todos que duvidaram na possibilidade desta em vagar pelo ar, estivessem ali para ver como o vento se agradara da mesma. Por toda a tarde ele deu corda e mais corda para ela voar pelo céu com o Sr. Vento. Embora ele quisesse mostrar o feito a todos sabia que a presença dos demais moleques poderia fazer mal, pois estes competiriam pelo mesmo espaço ou tentariam boicotar seu vôo uma vez que provara que a pipa resistiria.

 

No fim da tarde voltou para casa muito satisfeito com o que tinha visto. No dia seguinte retornou e depois de muita dificuldade conseguiu fazer a pipa voar novamente. Mas via que estava mais difícil. Não teve a mesma liberdade do dia anterior, mas via a mesma percorrer, subir e descer. Isto não diminuiria a sua alegria. Sabia que o vôo não era tão livre como o dia anterior, mesmo assim achava belo. Por alguns dias ficou assim, Sr. Vento às vezes com intensidade outras vezes não. Ele começou a observar um pouco mais no que ocorria. Percebia que quando Sr. Vento não aparecia com tanta freqüência a Sra. Pipa tentava se aproximar dele com um esforço absoluto, mesmo correndo risco de qualquer dia desabar. Ela pedia mais corda e o menininho assim fazia que apesar de preocupado não podia impedir a volúpia da Srta. Pipa.

 

Certo dia lá estava ele no mesmo lugar, e já avistava algumas crianças acompanhadas de seu brinquedo, competindo também pela atenção do Sr. Vento e o menino louco de vontade para ver o vôo não se intimidou embora tivesse medo de que não funcionasse. Com tantas pipas competindo pelo mesmo espaço o menininho imaginou não visualizar a navegação no céu de sua propriedade. As correntes de ar apareçam e lá foi subindo a Srta. Um pouco pesada, mas subiu muito rápido para que ninguém chegasse a perceber sua presença no campo. Divertiu-se e quando ele sorria com aquela sensação o vento cessou bruscamente. Estava distante demais quando percebeu que sua querida caía. Correu para tentar protegê-la, mas ela se despencou no chão.

O menininho a pegou carinhosamente, percebendo algumas feridas na mesma e o Sr. Vento passando por perto chamando a atenção para mais algumas tentativas. O menino continuava parado olhando para ela enquanto, o vento insistia, jogando seus cabelos para frente e para trás, chamando a atenção do garoto. “Agora não Sr. Vento”. Ele fora educado sabia que o vento não tinha culpa, ele era inconstante, tinha tanto o que fazer. No fundo o garotinho estava triste porque se sentia culpado, por ter dado tanta corda, por ter permitido tanta liberdade. Deixou o local e foi chorar na porta de casa.

 

Chorou como a criança que era. A mãe estranhou e o indagou se realmente aquela pobre pipa já havia alçado vôo algum dia. “Do jeito que era, parecia um pouco pesada. Talvez ele só tivesse a sensação e o desejo da mesma servir para algo, mas talvez nunca funcionara” . Como não? O pequenino chateara-se, ninguém nunca havia visto, mas ele tinha certeza que funcionava, inclusive o Sr. Vento que deu muito apoio, apesar de ser desengonçada e estranha. A mãe lhe aconselhou consertar a mesma. Foi exatamente o que fez. Mas avisou que guardaria a querida pipa. Ela era muito preciosa para se arriscar tanto assim, talvez encontrasse um local com ventilação mais apropriada. É certo que teria mais cuidado. Linha agora, só com vento. A mãe lhe fala novamente que a função da pipa é voar, se ela não servisse para isso então não serviria para guardar. “Se o vento a rejeitava é porque não servia, se não servia deveria ser descartada”. Sabia que a pipa tinha sido feito para voar, mas ele não a destruiria por isso, se ela não servisse para subir ao céu ele a conservaria mesmo assim para si.

 

Ele nunca deixou de gostar do Sr. Vento, só concordara nunca mais entregar a Srta. Pipa. Sabia que poderia desfrutar de outros benefícios dele, mas a pipa não. A pipa continuaria protegida.

Algum tempo depois foi sondado pelo Vento novamente, temeroso que era, mesmo assim resolveu desfrutar daquela cena bela, pois não esquecera os sorrisos. “Você foi feita para voar, mas calma, não vou te jogar”. Agora sabia que precisava só de um pouco mais de atenção. Voa, voa… só tentava não se deslumbrar tanto e atentar a qualquer mudança na corrente de ar.

 

 

Inspiração: Escrevi ontem à noite. Acho que foi o conto mais rápido que eu fiz. Parece doidice, mas falo de sentimentos. Andei lembrando dos meus sentimentos, que devem está como essa pipa. Linha, só com vento. Para descrever o menino lembrei do meu irmão quando era criança. Quando eu escrevia lembrava dele envolvido com seus brinquedos.

 

Dedicado: A todos que seguram a corda. A todos que têm medo de amar.

Imagem: http://flickr.com/photos/9620382@N07/791725652/

* O título da historia seria O vento e a pipa, mas hoje quando eu procurava uma imagem encontrei essa http://flickr.com/photos/flaviogermano/351092393/ . Adorei a descrição, exatamente como pensei.

 

Gerlandy Leão 

Não é fácil ser linda. A natureza me deu mais do que eu poderia administrar. Desde cedo me destaquei do grupo, todas se espelhavam em mim para tentar parecer comigo ou apenas desejavam-me.

Trago uma beleza exótica, difícil de ser encontrada nas demais de minha espécie. Sempre tive orgulho de ver como os machos olhavam minha rebanada de calda, mas com o tempo fui me cansando de tantos elogios. De repente senti-me incomodada com tantos parando para me ver de perto. Minha família sempre fazia muito esforço e sempre trabalhamos muito para receber como recompensa apenas uma folha que dividíamos entre todos familiares. Eu com toda minha beleza, tinha de me submeter a trabalhos cansativos e que me desgastavam. Eu tão bela e delicada em meio a um monte de bárbaros, resolvi tomar uma decisão, deixar minha prole… Adeus papai… adeus mamãe.

 

Bati asas rumo à procura de algo melhor. Bater asas não, afinal ainda não sou uma borboleta. Busquei um lugar mais apropriado para meu talento e prometi retornar assim que me tornasse uma borboleta e participasse do concurso “Barbolindas”. Creio não ter me apresentado, mas sou uma espécie de lagarta, que ainda não encontrei meu nome na lista da taxonomia criada pelos humanos. Vocês bem percebem que nem só de beleza vive uma futura borboleta, mas adquiri conhecimentos ao conversar com outros insetos. Nunca vi um livro de perto, porque os humanos têm medo de nós e nós temos medo deles nos machucarem, mas alguns colegas não tão temidos por humanos faziam o favor de correr pelas páginas e depois transmitiam a mim. Das formigas além de informações passávamos horas debatendo sobre o que aprendíamos ou algum outro assunto interessante. Já minhas amigas traças sempre me davam trabalho, porque adoravam se alimentar das páginas, mas ao meu pedido elas decoravam tudo o que estava escrito antes de cada refeição. O problema era que se esquecessem algo, seria impossível recuperar o conteúdo, o bom é que elas eram boas decorebas e eu sempre aprendi rápido.

 

O concurso “Barbolindas” é o meu alvo. Lá eles medem não apenas a beleza, mas também o conhecimento das borboletas. Recebemos como prêmio uma árvore de folhas frescas suculentas, ou seja, a garantia de alimento para a minha quarta geração. É uma herança e tanto para meus filhos que ainda nem nasceram. Por este sonho resolvi me afastar destes sugadores e exploradores. Com muita firmeza segui com meus movimentos sinuosos de cabeça para baixo – corpo para cima- rabo para baixo, numa velocidade de 1/5 km por hora. Não sei contar, mas meu amigo Cururu transformou essa medida para mim. Cururu é um sapo legal, eu não sou besta, embora saiba que anfíbios comam borboletas, aproveitei minha fase de lagarta para sensibilizá-lo, assim quando precisar ele não irá me devorar.

 

Quantas folhas desconhecidas no meu caminho que eu almejava saborear, mas nem uma folha, em cada árvore para fazer uma coleção, eu podia recolher. Todas as árvores no meu caminho tinham um dono nem um tanto hospitaleiros, recusando-se a dar-me abrigo. Ai quantas saudades senti de casa, mas não desisti até que finalmente a encontrei, exatamente como via em meus sonhos. Lá estava ela na medida certa, nem tão alta, nem tão baixa. Um atrativo como um Oásis no meio do deserto, com galhos longos e fortes, recheados de folhas, flores e frutos, um convite para o pecado da gula. Eu já havia visto uma dela em uma página de livro que encontrei no lixo. Eu vi muitas árvores, dentre elas a aceroleira, que agora era muito mais atrativa que o desenho no papel. O melhor de tudo é que ela não tinha uma viva alma habitando seus galhos, eu soube sobre alma em uma conversa sobre um livro chamado Bíblia que muitos temem.

 

Apoderei-me então do território, pois finalmente encontrara o lugar onde eu gostaria de passar o resto dos meus dias. Logo me esqueci do concurso, não precisaria ganhar nenhum prêmio, eu já havia encontrando o bem mais precioso.

Resolvi aprender direito onde se localizava meu paraíso para depois buscar as demais lagartinhas da minha numerosa família. Já me preparava para pegar estrada quando fui avistada por um grupinho de crianças que me olhou apavorado, uma delas tentou me pegar, mas deve ter se arrependido ao ter contato comigo. Lembro-me dela correndo aos berros, tentei correr dali, mas minhas perninhas não me ajudavam muito.

 

Quando me espantei estava na minha frente uma adulta. Eu já os havia visto de longe, mas nunca tinha sido percebido por um deles. Eu tremi ao pensar com o que faria comigo. Papai sempre nos contava a história de como nosso tataravô sofreu quando foi avistado por um humano. Uma seringa enfiada no seu corpo e a retirada de todo o líquido de seu corpo, para depois ser esvaziada em um cachorro que passava próximo. Meu tataravô, não agonizou muito, mas conta-se que o pobre cão gritava muito e se esfregava no chão, talvez tentando acabar a sua dor.

 

Agora eu estava frente ao inimigo oficial de todos reinos animal, plantae, fungi, monera, protista. O inimigo numero 1 dos seres vivos, um ser humano. Cururu conversava comigo que se sentia mal por ter que comer outro ser vivo, mas eu comentei-lhe sobre a nossa importância para a cadeia alimentar, pior eram os outros que matavam aos outros sem nenhum motivo, a não ser por diversão. “Lembre-se dos humanos” explicava “eles nem se alimentam da carne um do outro, mesmo assim se destroem”. Acho que eu o consolei. Mas continuando, lá estava ela que mostrou mais cuidado. Mesmo assim eu consegui feri-la, me empurrou para dentro de algo que descobri mais tarde que se tratava de um de um copo descartável e uma tampa que impediu-me de fugir.

 

Fui enclausurada, sem nenhuma luz para ver num recipiente que não me permitia me movimentar muito. Embora eu nunca tenha sido de andar muito por dia, mas eu queria pelo menos a ilusão da liberdade. Não preciso ir, mas se quisesse ir que eu fosse. Pouco a pouco a carcereira vem aqui para me ver ou me mostrar para alguém. Eu consigo entender muitas palavras. Ela tem admiração por mim, é mais uma que me acha bela. A princípio pensei que estivesse aqui por ter invadido território particular, mas começo a entender que minha diferença me fez refém e o pior sem resgate. Agora eu só lembro de minha árvore, meus amigos, minha família, deveria não ter saído de lá, ou não ter desistido do sonho no caminho.

 

Mas agora na escuridão e na companhia dessa única folha que jogaram aqui eu espero um dia de liberdade. Estou com a esperança de que serei livre. Não consigo contar o tempo aqui dentro, por isso não sei quando, mas ouvi uma discussão. Creio que tem gente interessada em me libertar. É minha grande chance. Não tenho nutrientes suficientes, mas vou entrar em processo de metamorfose, pode dá certo. Assim que voltarem já serei uma borboleta e poderei fugir. Então procurarei me isolar mais do que já estou. Sabe dona Aranha eu agradeço todo o esforço em tentar me tirar daqui, mas agora eu só vou precisar de um pouco de sorte e deste seu favor, que transcreva minha narração. Eu aqui dentro e a senhora aí fora, talvez eu nunca veja o seu rosto, mas eu agradeço pela companhia durante esse tempo, se eu não acordar como uma borboleta, a senhora tem toda permissão para falar minha história, senão pode deixar que eu mesma aguardo ser ouvida. Boa noite, e quem sabe até mais ver.

Inspiração: a mesma dessa história https://gerlandy.wordpress.com/2007/07/14/chucrute/

Imagem: folhas de acerola. http://flickr.com/photos/7797920@N04/472801128/in/photostream/