outubro 2007


Gerlandy Leão

 

 

 

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A publicidade foi certeira, tenho certeza que todo mundo concordando ou não deve ter se interessado em participar daquela palestra. “Maria, a maior educadora da história” era o tema da ministração da palestra por aquele autor da área de “administração de auto-ajuda”. Boa estratégia, utilizam nomes de pessoas muito admiradas, adoradas, idolatradas, veneradas e tudo de ada, da História para ganhar o povo.

 

 

Detalhe, a palestra não seria apresentada em uma igreja cristã, e sim em uma universidade, isso mesmo, era um evento científico e o público seria a “cabeça pensante da sociedade” (embora fosse aquelas famosas caça-níqueis). Entendi, observando a que público se dirigia, que se tratava de: eduque seu filho e/ou seus alunos como Maria educou Jesus de Nazaré. Agora para tristeza de todos não assisti a mesma, então não posso tecer nenhum comentário ok? Errado. Tenho certeza que minhas previsões sobre as falas dele seriam apresentadas certeiras. O imagino vestido em sua roupa formal, segurando um microfone sem fio, de vez em quando ajeitando a gravata ou os óculos, com seu sorriso cativante. Aí se vira para a apresentação em Power point, projetada pelo Data show, aponta com aquela canetinha vermelha alguma citação, e mostra alguma figura de Maria segurando Jesus.

 

 

Enquanto mostra a relação da mãe com o filho ele vai convencendo a platéia que maravilhada anota todas as suas observações, inclusive seus suspiros, concordando: para termos um mundo melhor devemos seguir os exemplos da educação mariana. Pronto, todos os educadores presentes no recinto sairão convencidos que devem cuidar de um messias que veio ao mundo para salvar a humanidade. E os problemas que assolam nosso querido planeta Terra desaparecerão num passe de mágica.

 

 

Sinceramente nessa história toda só concordo que Jesus surgiu por causa de Maria. Ela é, como eu posso dizer de modo simplório, “muito massa”. Não é à toa que aplicou a maior migué da humanidade. Maria criou Jesus como um deus, ele cresceu ouvindo da sua relevância para salvação da humanidade dentre outras coisas. Ouviu tanta coisa de Maria que acredito até a própria já se convencia da veracidade. As coisas pouco a pouco foram dando certo. Aos 12 anos Jesus desapareceu em Jerusalém por cerca de 2 dias. A cidade estava em festa e ele simplesmente evaporou. José e Maria ficaram loucos da vida procurando o menino por tudo quanto foi lugar. Foi encontrado muito tempo depois no templo falando com doutores da lei.

 

 

 

Quando Maria chegou e foi tentar dá-lhe uma bronca por ter saído sem avisar e ainda a deixar nervosa (claro, toda mãe em sã consciência ficaria preocupada, pensando que o filho teria sido seqüestrado) foi ela que recebeu uma resposta mal criada. “Mulher, que tenho eu contigo. Não sabe que estou na casa do meu pai”. Ela ficou caladinha. Em vez de darem atenção para essa indelicadeza, as pessoas preferem olhar para a cena em que ele dava aula para doutores. Ora, não é bem assim. Não é que o menino soubesse mais do que aqueles homens, mas eles se admiram com aquela conversa. De onde esse garoto tirou essa história de filho de Deus? De onde ele veio. É certo que era muito inteligente, estava sendo criado o tempo todo para falar isso. Maria estava sempre lhe dando as tarefas. Apesar de admirarem a inteligência, em momento algum eles o viram como Messias ou quiseram segui-lo. Vejam como Maria colaborou para que o menino pudesse pôr em prática seus conhecimentos.

 

 

Outra marca de Maria na vida de Jesus foi na apresentação de seu primeiro milagre descrito em João 2:1-11. Acho aquela cena estranha, mas interessantíssima. Maria começa a botar pressão no filho: “olha o vinho acabou”. E ele lá na festa olhando não sei o que, e lá vinha ela novamente. “Meu filho o vinho acabou”. E ele nem se mexe. “Jesuuuus, O vinho acabou!!!” E ele mui delicadamente, como daquela vez no templo, responde: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”. Mas insistia com ele e ainda falou aos discípulos: “fazei tudo quanto ele vos disser”. E mandou o pessoal preparar o recinto, claro, tratava-se de um espetáculo. Como uma fiel assistente de palco que deixa tudo no ponto para o mágico levar a fama, aquela mulher ordenou que eles seguissem, mas na verdade ela mandou foi um aviso para Jesus: de hoje não escapa. Já tem 30 anos que tenho te preparado para este momento e você quer ficar só aí? Já teve o tempo que te dei desde seu aniversário de 12 anos. Agora é hora de mostrar serviço, tenho falado para todo mundo quem é você e você vai provar é agora. Essa é grande chance. Jesus, mesmo tendo sido duro com ela há poucos segundos, resolveu obedecer. Ele nunca sabia o que fazer sem o cuidado de sua mãe.

 

 

Uma das coisas que mais me chama atenção é por que aquele milagre besta? Transformar água em vinho? A própria bíblia fala para não gastar dinheiro naquilo que não é pão. E por que se embriagavam? E por que estaria Maria e Jesus preocupados em alimentá-los, ou melhor embriaga-los? Seria milagre dar bebida ao povo para se divertir? Então por que hoje é tão condenado? E tem outra, este me parecia ser um milagre bem fácil. Creio que até eu conseguiria, isso porque, se observarmos a festa estava no fim, a galera já estava doidona, então não conseguiriam distinguir que vinho era e de onde viera. Querem ingerir qualquer coisa desde que não tenha que voltar logo para casa. O povo queria continuar bebendo, o jeito que estavam tão loucos se dessem água só com algum produto alcoólico despejado dentro eles não diferenciariam… Hum que interessante!! Algo despejado nos vasos de água? Não teria sido isso então, um Alakazam Alakazum e vupt… eis que os olhos ébrios não visualizariam algo caindo dentro dos vasos. Por favor, não me crucifiquem, foi só uma hipótese. Mas eu não estava lá para duvidar, embora vocês também não estivessem para acreditar. Então estamos empate. Depois do primeiro milagre foi fácil aparecer os outros, a fé e a Consciência coletiva se encarregaram de dar resultados.


Comparando Maria com outra mãe

 

 

Eu bem disse que Maria é a grande responsável pelo surgimento de Jesus. Será que aquele palestrante falou sobre a presença dela nos milagres, ou como ela o influenciou? Queria ter um pouco mais de tempo, para estudar minuciosamente cada detalhe e procurá-la por todas passagens bíblicas, mas creio que isto ficará mais para frente melhor seguir em diante antes que eu perca a minha idéia central. Estou me inspirando, acho que vou preparar uma palestra, pena que não terei tanto público como aquele guru.

 

Além de Maria, encontramos uma personagem interessante na história que merece destaque, Olímpia mãe de Alexandre – o grande, e nem por isso ela é considerada santa, óbvio, ela não era cristã. Sim, os méritos não são apenas de Filipe – o pai, ou da bela educação que recebeu de Aristóteles (que educação viu?). Mas, sobretudo a insistência de sua mãe numa tarefa que ele tinha que cumprir. O pouco que estudei sobre Alexandre foi em forma de fichamento para passar no vestibular, sobre suas conquistas mesmo assim ensaio algumas falas mesmo sabendo que apesar de inúmeros estudos sua vida pessoal ainda bem misteriosa.

 

 

Assisti a um filme importante (para variar um pouco) e achei muita semelhança com a história de Jesus. Não é aquele com a Jolie, o Farrel e o Kilmer, e sim de 1956, estrelado por Richard Burton. Belíssima história me chama atenção desde o início quando a mãe fala que ele é filho dos seus deuses, e os profetas alimentam isso falando sobre profecias e que ele será vitorioso, que vai ter grandes conquistas. Claro esse lance de filho de outro pai desperta o ciúme de Filipe que ao contrário de José não acreditava no mesmo deus dela. Bem, não preciso me ater ao filme, não preciso narrá-lo, mas cito alguns momentos interessantes. Percebe-se que ela está sempre presente na vida do filho algumas vezes até o usando para atacar ao marido. Sei que Alexandre cresce sabendo que tem um propósito, se sentindo um deus que terá algo grandioso na vida. Durante todas as suas conquistas, que todos nós sabemos não foram poucas, vai se convencendo cada vez mais de sua missão na terra e que não é um ser humano comum como os demais.

O ponto máximo do filme para mim é quando ele está morrendo, e sabedor da morte vira-se a uma pessoa querida e lhe pede para queimar seu corpo e jogar as cinzas no mar para que ninguém o encontre e assim, acreditem que realmente se tratava de um deus. Pede à pessoa que leve essa mensagem a todas as pessoas, pois acreditava veementemente que o tempo se encarregaria de convencer ao mundo da sua divindade. Coincidência importante: ele também faleceu aos 33 anos. A História se encarrega de mostrar porque não ele, mas Jesus que imortalizado. Talvez eu discorra sobre isso um outro momento.

 

E a educação?

É impossível não fazer comparações, apesar de mundos diferentes, formas diferentes de conquistas e berços extremos, Jesus e Alexandre receberam a mesma educação de suas mães. Ambos tinham mães que os davam um pai superior, portanto cresceram sabendo, buscando e vivendo conforme esses ensinamentos. Qualquer conquista tinha sido presente do pai.

 

Deixando de apontar comparações parte-se para o proposto. Só comecei a discorrer sobre o presente assunto porque me perguntei: é Maria a maior educadora da História? e Queremos mesmo criar milhares de Jesus? Não concordo que ela seja, até porque como já mostrei antes dela já havia um nome que utilizou o mesmo método. Logo ela não foi a única. Creio até ter havido outras que tentaram, mas digamos que os filhos não chegaram a ir tão longe mesmo pensando serem filhos de deuses.

 

Outra coisa que acho perigosa é utilizar este método (considerado de Maria) como algo a ser adotado. Aí você me diz, mas ela valorizou as competências do filho, eu digo, não. Ela fazia pelo filho. Ela dizia que este tinha uma responsabilidade, mas era ela a secretária que administrava tudo, organizava, fazia contatos e se esforçava ao máximo para que tudo saísse correto. Mas ela o expôs tanto o deixando vulnerável aos inimigos, ao ponto de mesmo inocente, sem a presença da mãe, não saber se defender, pois não sabia colocar suas idéias. Apenas aceitou todas as calúnias, todas as acusações injustas entendendo como a “vontade de deus”. Mesmo assim sentiu medo e tenho certeza que lá no fundo acreditava que seria poupado, portanto preferia pensar que ele faça segundo sua vontade, do que responder às indagações do júri. Nos últimos suspiros, segundo a Bíblia, já sem nenhum jeito de salvação apenas indaga: Deus, por que me desamparaste? Se fosse eu dizendo isso, todos pensariam que eu estava blasfemando, mas deixemos isso de lado.

 

 

Acredito que esta superproteção juntamente com a historia de falar para filhos e/ou alunos que um mundo será melhor através de ações sobrenaturais não cai bem. A pessoa vai crescer sempre esperando um resultado dos céus e aceitando-os como deus quer. Ou seja, esta é a minha missão. Vou viver melhor em um outro mundo, sem crime, sem pobreza, sem maldade, enquanto isso, a pessoa não aprende a se defender e mesmo a ajudar ao outro. Naquela época as pessoas estavam angustiadas e clamavam por mudanças radicais que livrasse aquele povo oprimido, em vez disso ele falava de um lugar no céu onde as ruas seriam de ouro e cristal e não haveria fome, dor, morte… Equivale a hoje um amigo com fome me pedir algo para comer e eu lhe dizer, por que quer esse pão que perece? Um dia você terá um banquete que nunca cessará.

Não sou pesquisadora da área da educação, mas tenho algumas leituras, ou melhor, observações que me levam a crer que devemos educar não nos preparando para uma vida no porvir, mas sabendo lidar com os problemas aqui onde aprendemos e devemos ter tempo e procurar um meio de corrigir os erros por aqui mesmo.

 

Inspiração: A palestra, dia da padroeira do Brasil, dia dos professores. Publiquei logo antes que terminasse o mês e Não tento convencer ninguém da verdade ou mesmo da divindade. A leitura é livre para os que acreditam ou não.

Já estava com o texto pronto quando encontrei um dia nesse em uma livraria o livro: Maria, a maior educadora da história. As palestras geram isso. Quando tiver oportunidade, procurarei ler para comprovar minhas hipóteses.

Imagem: http://pasteol.br.tripod.com/maria_e_jesus.gif

Gerlandy Leão

 

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Um ponto! Ele era um mísero ponto, minúsculo, único e quase imperceptível.

Lá estava ele parado numa folha de papel não sei se A4, 40 kg, pardo, sei que estava lá. Sua presença não manchava o papel, ao passo que quem olhasse para o local só visualizaria a folha ignorando a presença do pequeno ponto. Ali, apesar de sentir-se solitário, sabia que era necessário. Não reclamava consigo porque não sabia o que era ser algo além de ponto. Sabia que sua existência era primordial para a Geometria e continuava na sua função.

 

Um dia, uma Reta parada ao seu lado indagou-o sobre a sua relevância e ridicularizou-o, ignorando que qualquer tracejar ou qualquer outra forma geométrica surgia a partir de um ponto. A Reta perguntava se ele não se envergonhava de ser aquilo. O que era ser um ponto? Por que ser um ponto idiota? Preferiu não responder, pois achava desnecessário discorrer sobre algo que gostava de ser e não conseguiria convencer ninguém. Mesmo visto como um idiota sabia da sua função.

 

Percebeu, certa vez, a presença de algo próximo. Parecia a sua duplicação, mas se tratava de outro pontinho ao seu redor. Como isto lhe chamava atenção. Semelhante a si, mas ao mesmo tempo distinto. Adorou a sua presença e algum tempo depois apaixonava-se pelo outro, sendo convidado para trilhar caminhos. Pouco a pouco foi acompanhando e via que em breve tornavam-se uma reta. Perguntou-se como podia sentir-se bem em ter outro ponto, mesmo que este ficasse de um lado extremo e longe da reta.

Logo foi interrompido pela informação de que ambos não poderiam ser uma única linha. Já existia outro ponto, já existia uma reta. Atordoado recebeu o convite para que continuasse na relação geométrica, juntos poderiam formar um triângulo.

 

 

Apesar de perturbado, achava que podia ir mais além, até porque estava cada vez mais interessado. Ficava na ponta do Triângulo Isóceles com dois lados congruentes e ele com a menor reta. Mesmo assim não se incomodava, aquela era uma forma perfeita, pois apesar da menor parte, contentava-se com sua pequena colaboração na sua formação, idealizando, quem sabe um dia, ser equilátero. Porém, em pouco tempo viu o triângulo ameaçado de desmanche. Oh não , um novo ponto aproximava-se. Atormentou-se até sair da forma, preferiu ficar ao lado. Assistia a continuidade do triângulo, mas agora sem sua presença.

Ponto novamente voltou a ser. A vida que anteriormente não o incomodava agora o enchia de tédio. Antes sabia da sua importância, mas agora indagava O que sou?. Agora sim, sentia-se um ponto miserável, medíocre e desnecessário. E assim ficou por muitas folhas de papel. Foi sondado novamente por aquele tempo, recebendo o convite para voltar a fazer aquelas viagens sinuosas de antigamente.

 

Não gostava da solidão na folha de papel, mas se recusava a se formar com outro ponto senão aquele de suas viagens. Portanto, aceitou formar o Quadrilátero com a promessa de que se trataria de um quadrado composto pelos quatro lados iguais, assim não existiria privilegiados. Mesmo sabendo da existência de dois outros pontos, sentia-se uma reta e, portanto, satisfeita. Mas com o tempo voltou a se incomodar com dúvidas. Queria entender realmente qual a sua função. Acreditava se tratar de um Quadrilátero, tinha certeza que não surgiria nenhum outro lado naquela forma, mas de fato, perguntava-se do que se tratava, se de um retângulo, losango ou trapézio. E era exatamente essa medo que o pertubava tanto. Seria novamente a menor reta da forma? Angustiado também se perguntava Por que voltar a ser ponto? para que ser um ponto? Ah, tantos lados o incomodava demais, mesmo assim não se expressava, não mostrava seu medo. Apenas se contentava em pelo menos ser uma forma geométrica, mesmo sendo um Quadrado amoroso, pelo menos não era mais apenas um ponto.

 

No fundo, o que ele almejava era formar uma circunferência, unida, inquebrável e impenetrável por outro ponto. Que idéia! Esse ponto parecia sair mais de livros paradidáticos de contos de fadas do que dos livros de Geometria com sua Matemática sempre racional. Mas ele falava, Não me custa nada sonhar.

 

 

Inspiração: Se eu contasse… Mas complemento dizendo que gostava de Geomeria analítica plana. Hoje não lembro mais de nada, mas fui só citando algumas bobagens.

Imagem: Uma figura qualquer que encontrei na net com muitos pontos.

Gerlandy Leão

 

“Aquilo que escrevemos não vale aquilo que deixamos de escrever”.

A citação do velho Drumonnd pode ser compreendida não no sentido de desprezar nossos registros, mas de realmente valorizar o que pretendemos escrever, de valorizar o que desejamos e o que nos inquieta. A universidade é um dos lugares muito propícios para o desenvolvimento destas escritas, mas precisamente científicas.

 

Não tenho dados para apresentar, mas é indiscutível que cotidianamente a universidade produza, por meio de seus pesquisadores, vários textos importantes [ou talvez nem tanto] para a ciência e para sociedade.

Dentre essas produções destaca-se o Trabalho de conclusão de curso- TCC ou como é mais conhecido a famosa monografia.

Mas o que é mesmo uma monografia? Foi uma das minhas perguntas ao encarar este grande desafio. Quem nunca tremeu diante dela? E por que temer?

Simplificando, a monografia nada mais é do que o trabalho de um aluno sobre um determinado tema, escolhido por este próprio aluno. Mas é exatamente aí onde está o problema. O tema é escolhido pelo aluno.

 

Durante os anos de estudo somos preparados [ou talvez nem tanto] para redigirmos sobre determinados assuntos. Encaramos cerca de seis disciplinas por semestre onde cada professor exige no mínimo um trabalho por cada uma dessas. Ao chegarmos ao último semestre do curso já tiramos de letra como escrever trabalhos. É possível até fazer um tutorial de como fazer trabalho acadêmico. Basta escolher algumas frases tão bem conhecidas, tais como: “Vive-se no mundo marcado por grandes transformações…”; “ É preciso atentar-se para os novos paradigmas…”; “Desde tempos primórdios …”; “Atender às necessidades de informação…” e por aí vai. Só para se ter idéia, nas duas últimas disciplinas que assisti na universidade, a turma dividia-se em quatro equipes onde ao longo da mesma foram apresentados três seminários em cada uma. Como quase todas as equipes introduziram seus trabalhos falando a mesma coisa, tive que ouvir estas frases pelo menos umas vinte vezes, isso em um semestre em apenas duas disciplinas, perceba o tormento.

 

Mesmo assim o trabalho é como podemos dizer, bem legalzinho, era bem feitinho, bem normalizado etc. Com certeza atendia às perguntas do mestre e nos garantia boas notas.

Aí perguntam-me, o que isso tem a ver com a minha primeira proposta de redigir sobre a dificuldade de escrever monografia? Tem a ver exatamente com o processo de decidir como iniciar a monografia. Nos trabalhos acadêmicos damos conta de várias páginas em duas semanas e na monografia pena-se para arrancar uma lauda do cérebro, mas o pior, o maior desafio está já no próprio projeto.

 

É que agora, infelizmente só dependemos de nós. É a hora da nossa maior pergunta. E agora professor? “ E agora? Te vira”. Agora não tenho mais as perguntas do professor para responder. Agora sou eu quem deve fazer as perguntas. É a hora que pergunto o que devo fazer. Qual a qualidade do meu trabalho. O medo me assolou (e acredito a muitos que me lêem) exatamente pela preocupação em desenvolver um trabalho que não seja simplesmente engavetado. Assola-me o medo de ter um trabalho tão medíocre ou tão ruim que possa até ganhar o prêmio Ignobel. Só abrindo um parêntese, para os que não o sabem que acredito serem poucos, este prêmio está para o Nobel assim como o Framboesa está para o Oscar. Trata-se de uma premiação de pesquisas científicas realmente sérias que aparentemente, depois de concluídas não apresentam muitas vantagens para a ciência e para a sociedade em geral (existem muitas por aí assim). O ignobel é composto por várias categorias tais como o Nobel. Conta-se que existem os cientistas que vão à cerimônia de entrega do prêmio. É aquela história: “Falem mal, mas falem meu nome”. Mesmo com toda essa gozação em cima dos caras (embora utilize este termo tão informal, que fique bem claro que se trata de doutores) eles devem ser louvados pelo menos pelas indagações que fizeram e que comprovaram.

 

 

Uma coisa eu sei, não pretendo ganhar nenhum prêmio a não ser o de ver o meu trabalho concluído. Se eu conseguir sair da primeira linha com certeza deslancharei rumo à, pelo menos, qüinquagésima página.

 

 

A conclusão que tirei ao aceitar o desafio de escrever meu TCC foi realmente descobrir o que eu realmente queria saber. Se estiver confuso, explico. A maior dificuldade de se fazer uma monografia é realmente saber realizar as perguntas corretas. Achamo-nos o máximo quando entregamos aquele trabalho enorme, bem redigido e normalizado e achamos que isto é prova de que o TCC não será bicho de sete cabeças quando chegar o momento. Os bolsistas de iniciação científica então devem ser os que mais se sentem preparados para tal. Mas na hora H, não é bem assim. Por que será? Acontece que quando somos apenas freqüentadores de aulas temos apenas tarefas a cumprir. Quando somos bolsistas temos apenas as perguntas do nosso orientador a responder. E se você está achando que o que quero dizer é: Perguntar é mais difícil do que escrever, você acertou em cheio. Podem até não concordar comigo, mas é provável que respeitem meu pensamento. Acredito que existem respostas para tudo o que quisermos no mundo, só que às vezes não indagamos corretamente. Perguntas mal feitas podem deixar uma pessoa perdida em um local por horas. Perguntas mal feitas podem atrasar uma pesquisa por muito tempo. Perguntas mal feitas podem nos impedir de alcançarmos e recebermos algo. São iguais piadas bobas como por exemplo: “você tinha isso? Por que não me disse? Oras, porque você não perguntou”.

 

Mas o que capacita a perguntar de forma correta? Só as informações que temos a respeito. E agora até lembro-me de uma cena de um filme que assisti, passado em um futuro bem distante. Um cientista morre e um policial tem um desafio de descobrir se este se suicidou ou foi assassinado. O policial afobado (como sempre) acredita já ter as repostas, mas percebe o quanto está enganado e que o problema está na sua forma de fazer perguntas. Não contarei o final do filme, mas é certo que só depois de muitas informações, ele é capaz de alcançar a meta e descobrir o enigma, através de uma seqüência de perguntas e respostas concomitantemente. Aos interessados o nome do filme é: Eu, Robô.

 

Às vezes agimos assim tal como esse policial. Chegamos afobados ao professor com nossa empolgação, concluindo tudo. Vou falar sobre isso e aquilo, aí ele quebra nossas perninhas e nos perguntamos. Onde estamos errados? Estamos errados por não termos informação suficiente sobre um determinado assunto. Se não temos leitura, já era, vamos escrever sobre algo que alguém já escreveu há séculos. E a ciência ficará só se repetindo (mas será que isso é ciência mesmo? Taí uma boa pergunta) sendo difícil o desenvolvimento da sociedade.

 

Não será por isso que nunca tenham encontrado respostas para tantas perguntas que temos? Tal como a cura da Aids e câncer, como acabar a fome, como fugir da morte, como transformar algo em ouro e assim por diante. Será que realmente não existem respostas para tais perguntas?

 

 

E agora acrescentando ao meu texto, destaco que não adianta nada responder tais indagações se não soubermos o que fazer com as informações. É melhor manter-se encoberto do que apenas fazer um trabalho para inflar o ego do pesquisador (que é o que tem ocorrido muito ultimamente). A sociedade precisa das nossas pesquisas em todas as áreas do conhecimento, e percebo que a monografia tem que ser mais do que um simples Trabalho de conclusão de curso. Ela pode ser encarada como um passo importante na resolução de um problema. Gostaria de ser útil com meus textos, mas também com minhas ações.

 

Por enquanto tenho poucas perguntas a fazer, talvez ninguém me responda. Por isso estou em uma grande enrascada, e agora mais do que nunca. Por que acabo de defender a importância das minhas indagações e no momento a única que tenho é o que você está pensando agora ao ler meu pequeno texto. Pelo menos sou humilde ao admitir minha limitação (fazer um pouquinho de graça). Posso escrever aqui livremente sem medo de sanções ou de interrogações, mas para encarar a banca examinadora a coisa é mais difícil. Até porque eles têm cada pergunta. Acho que deveriam se preparar mais. Em muitos casos parecem que nem lêem o trabalho direito e/ou não prestam atenção na defesa do aluno e já vêm com as famosas “por que o céu é azul?” enquanto o teu trabalho fala da importância do lápis.

 

Para não cair nas armadilhas da banca só tenho algo a fazer. Submeter-me à tutela do professor. E agora professor o que eu faço? Entrego um trabalho que já foi perguntado inúmeras vezes por inúmeras pessoas, que já sei até a conclusão, antes dos dados serem recolhidos, e saio respirando rumo à colação de grau ou dou uma de revolucionária e corro o risco de não terminar uma pesquisa que seria tão importante [ou talvez nem tanto]? Por onde começo? Por que não responde professor? Será que enfim o professor cansou de dar a reposta? Será que enfim ele resolveu acreditar no aluno? Então finalmente posso sentir-me importante para a ciência? Talvez nem tanto.

 

Inspiração: Um certo dia, tive de sentar e escrever meu projeto de conclusão de curso. Não tinha nada que fizesse sair uma linha aproveitável. Aí comecei a escrever isso aqui. A gente se desespera mas consegue. Já defendi meu trabalho há um ano. Dia dos professores está chegando e como ultimamente ando sem inspiração, vou publicando este aqui mesmo.

Gerlandy Leão

 


Saiam todos do meu quarto!

Não. Eu não sou indelicado, não sou mal educado, mas no momento foi o que consegui expressar. Estou com medo e não quero dá espetáculo. Depois de muitos anos, ou melhor, depois de toda uma vida em cadeiras de rodas sou tomado pela possibilidade de andar. Isso é muito novo para mim. Ah, normal para todo ser humano é andar sobre suas pernas, mas para mim mesmo normal sempre foi meu esforço com meus braços para empurrar-me para meu alvo. Mas agora tenho o sinal verde… será que posso acreditar?

 

Lembra-me aquela história bíblica, onde alguém diz levanta-te e anda. Mas como levantar-se? Como deixar a cadeira, a sua grande companheira durante anos? O chão seria mesmo seguro? Como seria andar sem precisar de ajuda externa? Tudo parecia muito suspeito. Mas era verdade, ele podia andar, mas era estranho. Ele não entendia porque almejara algo que nunca conhecera e agora que tinha não sabia o que fazer.

 

Pensei naquele animal silvestre criado em cativeiro que depois de algum tempo ver a floresta, o habitat natural para sua vivência e estranha. Tem medo de aparecer, não sabe o que ocorrerá, não sabe o que virá. E se eles retornarem para prendê-lo? E se for só um teste? E se essa liberdade for vigiada? Será que não há nenhum chip para monitoração? O que fazer? O animalzinho deveria continuar no lugar em que se encontrava, e esperar um pouco mais? Esperar o movimento. Ele já fora tão acostumado com um mundo diferente girando por fora. O que fazer? Como se adaptar?

 

E aqueles amantes acostumados com os quartos de algum lugar isolado para esconder-se dos olhos repreensivos da sociedade, ou dos olhos de seus cônjuges. Sempre acostumados a fugirem pelos cantos da cidade até chegar há um lugar isolado. Acostumados a planejarem mentiras para convencer aos outros que estavam em outro lugar, agora se vêem livres e nenhum empecilho que os impeçam de se serem vistos, mas ao mesmo tempo é algo tão estranho. E se não conseguirem, será que o sabor da relação não estava exatamente no proibido? Nunca discutiram sobre essa liberdade porque nem tempo tiveram para pensar isso, parecia algo improvável, impossível. Mas agora não saberiam o que fazer com sua possibilidade de liberdade.

 

Pensei naqueles homenzinhos da caverna de Platão e me perguntei será que eles se adaptaram tão bem à luz? Foi tão fácil assim? imagino um homem isolado criado e crescido solitariamente em buraco sombrio onde a vinda para o claro causaria um mal estar à pele, aos olhos, à mente. De repente tudo o que aparentemente é normal se tornaria um tormento na vida desse ser.

 

Penso no ex rico aprendendo a ser pobre, nos recém-casados, num porra louca se convertendo à vida religiosa, em todas as transformações. Penso em todas tentativas de adaptação, nos sucessos e fracassos. Ah, pensei tão simplesmente que me adaptaria, mas percebo que não é tão fácil assim, muito menos rápido. Reflito sobre os animais frutos da evolução da espécie e o que eles passaram e sofreram para se adaptar às mudanças drásticas. Não deve ter sido fácil, mas a necessidade os obrigou a isso, sem contar que o tempo colaborou com simplesmente milhões de anos.

 

Consegui erguer-me da cadeira e ainda ensaiei dois passos. Já é suficiente para saber que é isso que eu quero, mas também para saber que meu medo não me levará muito longe. Portanto recolho-me à minha cadeira assim como creio que o animalzinho retorna assustado para a jaula com a porta ainda aberta ou como acredito que aquele casal de amantes adentra novamente naquele quartinho xexelento em algum bairro escondido pela cidade.

 

Foi ótima a sensação de mudar, mas minhas pernas não parecem se mostrar minhas melhores amigas agora. Pode ser só minha mente insegura, mas sou muito bom no que faço. A priori só queria levantar, depois senti que queria andar, depois correr, pular… mas já sei que não será possível… é, acho que não chegarei a tanto, prefiro ser bom no que faço do que medíocre.

 

Inspiração: Uma viagem muito doida da minha cabeça. Tou querendo me especializar em escrever em primeira pessoa dentro de vários personagens. São só tentativas.

Eu havia escrito há vários dias, mas não conseguia concluir. Só essa manhã finalmente me veio à mente o fim.

Imagem: uma bela foto de Luciano Bergamaschi http://flickr.com/photos/canoasflickr/530510040/