Gerlandy Leão

 

“Aquilo que escrevemos não vale aquilo que deixamos de escrever”.

A citação do velho Drumonnd pode ser compreendida não no sentido de desprezar nossos registros, mas de realmente valorizar o que pretendemos escrever, de valorizar o que desejamos e o que nos inquieta. A universidade é um dos lugares muito propícios para o desenvolvimento destas escritas, mas precisamente científicas.

 

Não tenho dados para apresentar, mas é indiscutível que cotidianamente a universidade produza, por meio de seus pesquisadores, vários textos importantes [ou talvez nem tanto] para a ciência e para sociedade.

Dentre essas produções destaca-se o Trabalho de conclusão de curso- TCC ou como é mais conhecido a famosa monografia.

Mas o que é mesmo uma monografia? Foi uma das minhas perguntas ao encarar este grande desafio. Quem nunca tremeu diante dela? E por que temer?

Simplificando, a monografia nada mais é do que o trabalho de um aluno sobre um determinado tema, escolhido por este próprio aluno. Mas é exatamente aí onde está o problema. O tema é escolhido pelo aluno.

 

Durante os anos de estudo somos preparados [ou talvez nem tanto] para redigirmos sobre determinados assuntos. Encaramos cerca de seis disciplinas por semestre onde cada professor exige no mínimo um trabalho por cada uma dessas. Ao chegarmos ao último semestre do curso já tiramos de letra como escrever trabalhos. É possível até fazer um tutorial de como fazer trabalho acadêmico. Basta escolher algumas frases tão bem conhecidas, tais como: “Vive-se no mundo marcado por grandes transformações…”; “ É preciso atentar-se para os novos paradigmas…”; “Desde tempos primórdios …”; “Atender às necessidades de informação…” e por aí vai. Só para se ter idéia, nas duas últimas disciplinas que assisti na universidade, a turma dividia-se em quatro equipes onde ao longo da mesma foram apresentados três seminários em cada uma. Como quase todas as equipes introduziram seus trabalhos falando a mesma coisa, tive que ouvir estas frases pelo menos umas vinte vezes, isso em um semestre em apenas duas disciplinas, perceba o tormento.

 

Mesmo assim o trabalho é como podemos dizer, bem legalzinho, era bem feitinho, bem normalizado etc. Com certeza atendia às perguntas do mestre e nos garantia boas notas.

Aí perguntam-me, o que isso tem a ver com a minha primeira proposta de redigir sobre a dificuldade de escrever monografia? Tem a ver exatamente com o processo de decidir como iniciar a monografia. Nos trabalhos acadêmicos damos conta de várias páginas em duas semanas e na monografia pena-se para arrancar uma lauda do cérebro, mas o pior, o maior desafio está já no próprio projeto.

 

É que agora, infelizmente só dependemos de nós. É a hora da nossa maior pergunta. E agora professor? “ E agora? Te vira”. Agora não tenho mais as perguntas do professor para responder. Agora sou eu quem deve fazer as perguntas. É a hora que pergunto o que devo fazer. Qual a qualidade do meu trabalho. O medo me assolou (e acredito a muitos que me lêem) exatamente pela preocupação em desenvolver um trabalho que não seja simplesmente engavetado. Assola-me o medo de ter um trabalho tão medíocre ou tão ruim que possa até ganhar o prêmio Ignobel. Só abrindo um parêntese, para os que não o sabem que acredito serem poucos, este prêmio está para o Nobel assim como o Framboesa está para o Oscar. Trata-se de uma premiação de pesquisas científicas realmente sérias que aparentemente, depois de concluídas não apresentam muitas vantagens para a ciência e para a sociedade em geral (existem muitas por aí assim). O ignobel é composto por várias categorias tais como o Nobel. Conta-se que existem os cientistas que vão à cerimônia de entrega do prêmio. É aquela história: “Falem mal, mas falem meu nome”. Mesmo com toda essa gozação em cima dos caras (embora utilize este termo tão informal, que fique bem claro que se trata de doutores) eles devem ser louvados pelo menos pelas indagações que fizeram e que comprovaram.

 

 

Uma coisa eu sei, não pretendo ganhar nenhum prêmio a não ser o de ver o meu trabalho concluído. Se eu conseguir sair da primeira linha com certeza deslancharei rumo à, pelo menos, qüinquagésima página.

 

 

A conclusão que tirei ao aceitar o desafio de escrever meu TCC foi realmente descobrir o que eu realmente queria saber. Se estiver confuso, explico. A maior dificuldade de se fazer uma monografia é realmente saber realizar as perguntas corretas. Achamo-nos o máximo quando entregamos aquele trabalho enorme, bem redigido e normalizado e achamos que isto é prova de que o TCC não será bicho de sete cabeças quando chegar o momento. Os bolsistas de iniciação científica então devem ser os que mais se sentem preparados para tal. Mas na hora H, não é bem assim. Por que será? Acontece que quando somos apenas freqüentadores de aulas temos apenas tarefas a cumprir. Quando somos bolsistas temos apenas as perguntas do nosso orientador a responder. E se você está achando que o que quero dizer é: Perguntar é mais difícil do que escrever, você acertou em cheio. Podem até não concordar comigo, mas é provável que respeitem meu pensamento. Acredito que existem respostas para tudo o que quisermos no mundo, só que às vezes não indagamos corretamente. Perguntas mal feitas podem deixar uma pessoa perdida em um local por horas. Perguntas mal feitas podem atrasar uma pesquisa por muito tempo. Perguntas mal feitas podem nos impedir de alcançarmos e recebermos algo. São iguais piadas bobas como por exemplo: “você tinha isso? Por que não me disse? Oras, porque você não perguntou”.

 

Mas o que capacita a perguntar de forma correta? Só as informações que temos a respeito. E agora até lembro-me de uma cena de um filme que assisti, passado em um futuro bem distante. Um cientista morre e um policial tem um desafio de descobrir se este se suicidou ou foi assassinado. O policial afobado (como sempre) acredita já ter as repostas, mas percebe o quanto está enganado e que o problema está na sua forma de fazer perguntas. Não contarei o final do filme, mas é certo que só depois de muitas informações, ele é capaz de alcançar a meta e descobrir o enigma, através de uma seqüência de perguntas e respostas concomitantemente. Aos interessados o nome do filme é: Eu, Robô.

 

Às vezes agimos assim tal como esse policial. Chegamos afobados ao professor com nossa empolgação, concluindo tudo. Vou falar sobre isso e aquilo, aí ele quebra nossas perninhas e nos perguntamos. Onde estamos errados? Estamos errados por não termos informação suficiente sobre um determinado assunto. Se não temos leitura, já era, vamos escrever sobre algo que alguém já escreveu há séculos. E a ciência ficará só se repetindo (mas será que isso é ciência mesmo? Taí uma boa pergunta) sendo difícil o desenvolvimento da sociedade.

 

Não será por isso que nunca tenham encontrado respostas para tantas perguntas que temos? Tal como a cura da Aids e câncer, como acabar a fome, como fugir da morte, como transformar algo em ouro e assim por diante. Será que realmente não existem respostas para tais perguntas?

 

 

E agora acrescentando ao meu texto, destaco que não adianta nada responder tais indagações se não soubermos o que fazer com as informações. É melhor manter-se encoberto do que apenas fazer um trabalho para inflar o ego do pesquisador (que é o que tem ocorrido muito ultimamente). A sociedade precisa das nossas pesquisas em todas as áreas do conhecimento, e percebo que a monografia tem que ser mais do que um simples Trabalho de conclusão de curso. Ela pode ser encarada como um passo importante na resolução de um problema. Gostaria de ser útil com meus textos, mas também com minhas ações.

 

Por enquanto tenho poucas perguntas a fazer, talvez ninguém me responda. Por isso estou em uma grande enrascada, e agora mais do que nunca. Por que acabo de defender a importância das minhas indagações e no momento a única que tenho é o que você está pensando agora ao ler meu pequeno texto. Pelo menos sou humilde ao admitir minha limitação (fazer um pouquinho de graça). Posso escrever aqui livremente sem medo de sanções ou de interrogações, mas para encarar a banca examinadora a coisa é mais difícil. Até porque eles têm cada pergunta. Acho que deveriam se preparar mais. Em muitos casos parecem que nem lêem o trabalho direito e/ou não prestam atenção na defesa do aluno e já vêm com as famosas “por que o céu é azul?” enquanto o teu trabalho fala da importância do lápis.

 

Para não cair nas armadilhas da banca só tenho algo a fazer. Submeter-me à tutela do professor. E agora professor o que eu faço? Entrego um trabalho que já foi perguntado inúmeras vezes por inúmeras pessoas, que já sei até a conclusão, antes dos dados serem recolhidos, e saio respirando rumo à colação de grau ou dou uma de revolucionária e corro o risco de não terminar uma pesquisa que seria tão importante [ou talvez nem tanto]? Por onde começo? Por que não responde professor? Será que enfim o professor cansou de dar a reposta? Será que enfim ele resolveu acreditar no aluno? Então finalmente posso sentir-me importante para a ciência? Talvez nem tanto.

 

Inspiração: Um certo dia, tive de sentar e escrever meu projeto de conclusão de curso. Não tinha nada que fizesse sair uma linha aproveitável. Aí comecei a escrever isso aqui. A gente se desespera mas consegue. Já defendi meu trabalho há um ano. Dia dos professores está chegando e como ultimamente ando sem inspiração, vou publicando este aqui mesmo.

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