novembro 2007


Gerlandy Leão

 

 

velorio.gifJá fui repreendida, teve gente me perguntando que diabos me ocorreu por eu estar falando só em morte. Tenho algo com a morte que não sei explicar. Não sinto medo da morte, sinto medo do morrer e, sobretudo de quem continua vivo, pois tenho certeza que faria falta sim. Sempre tive mania de morte, “esperando a morte chegar”. A primeira pessoa que lembro de ver morta foi minha Tia-avó que faleceu na minha casa. Peguei até umas flores no jarro na casa da minha vizinha para colocar no caixão, mas o velório foi bem calmo. Ninguém chorava, a parente mais próxima que ela tinha era minha mãe que já havia conhecido adulta e já em estágio de doença avançado, logo não tinham nenhuma intimidade ou chegaria a sentir falta. Ela morreu sozinha na casa dela, que horror. Nenhum filho, nenhum amigo, ou parente mais próximo por perto. Disso aí eu tenho medo, de não ter ninguém para segurar uma velinha na minha mão e chamar o padre para me dar extrema unção quando eu tiver velhinha.


Também tinha medo da dor da morte, do gelo nas pernas, ou da pancada, mas imagino que em vida a gente também sente dores tão fortes que assim estamos preparados. Mas da morte em si não tenho tanto medo, talvez porque cresci acreditando que esta era só um estágio, uma saída daqui para ali e logo logo nos reencontraríamos com entes queridos. Chegava até a brincar dizendo que queria morrer antes dos 30, olha a idéia da criança. É, a gente não pode escolher, mas se pudesse escolheria morrer de modo bem rápido, sem perceber tipo “dormir e acordar morto”. Ui! Pensei agora, Putz grila eu vou morrer antes de ver a construção da máquina de viagem ao tempo, que maldade. A morte é sim algo bem triste, doloroso, mas eu penso que a eternidade é pior. Sinceramente me pergunto o que diabos a gente iria querer fazer por toda vida. Como disse Paulo Autran é a morte que embeleza a vida, pois sabedores de que não estaremos aqui sempre, procuramos aproveitar cada momento. Mas concordo também com João Ubaldo Ribeiro que a gente podia ter pelo menos duas vidas, uma para ensaiar e outra para viver de verdade, já pensou como seria legal?


Apesar dessas análises sempre tive respeito pela morte alheia. E me emocionava, seja lá quem fosse. Era morte? eu chorava. No interior é muito comum as visitas à casa de mortos. O povo passava tempo, só batendo papo enquanto o morto ficava lá no meio da casa com aquela cruz em metal na cabeceira do caixão no caso de católicos ou uma Bíblia em velórios de evangélicos. Engraçado, agora lembrei, a cidade se dividia igual na Irlanda entre católicos e protestantes. Pois bem, era muito comum ver pessoas passando pela rua, olhar aquela muvuca e adentrar na casa só para olhar a cara do morto deitado. Às vezes ficavam um pouco mais, bebiam um café, fumavam cigarros, tomavam cachaça, batiam papo, contavam piadas, era uma festa.


Não sei que graça tinha ver morto, mas eu já vi bastante quando criança, aliás, quando eu era mais corajosa do que hoje. Fui inserida neste mundo de caça-mortos por Sr. Menino (leia mesmo Seu Menino), sinceramente não lembro de ninguém que tivesse tanta fascinação por mortos como ele. Era meu vizinho da frente lá na minha cidade natal. Uma figura bem caricata, um olho torto e o outro fechado que dava umas risadas mexendo todos os músculos do rosto e fechando todos os olhos. Vivia mordendo palito de dente, ou coisa nojenta, naquela época eu nem me tocava, mas hoje acho horrível aquilo. Ostentava uma barriga imensa e ainda gostava de andar sem camisa. Puxava de uma perna, era careca em cima e tinha uns cachinhos atrás na nuca. Era um Mister Esquisito, mesmo assim não tinha medo dele, ao contrário eu até gostava daquela criatura que parecia ter saído de histórias como Corcunda de Notre-Dame ou Frankenstein.

Ele vendia dindin (suquinhos, sacolés, fraus, chupa-chupa, geladinho dentre outros), por isso andava pela cidade inteira para poder ter um bom lucro. De manhã cedo eu saía para escola e ele para as vendas e me falava todo animado: “Ei Morena, como será o dia hoje? Será quem já morreu?”, e eu sorria: “Sr. Menino será que hoje o senhor encontra algum?” e ele todo esperançoso dizia que encontraria sim, pois todo dia morria alguém no mundo, só precisava ser encontrado. Parece loucura dele, mas no almoço nós já tínhamos os lugares para ver. Montava na garupa da sua bicicleta e íamos a cada lugar. Quem ler, deve imaginar que se trata de um ser insensível, mas em muitas vezes eu o vi emocionado.


Víamos todo tipo de mortos, desde os “de morte morrida como os de morte matada”. Chegava lá eu me sentava na cadeira, ele saía sondando a morte do indivíduo, depois já vinha falando para o povo a célebre frase: “morreu como passarinho”. E consolava as pessoas dizendo que tinha sido a vontade de Deus, que ela estava agora ao lado dele. E que a Virgem Santíssima estava feliz com a presença da pessoa no céu. Houve uma vez que chegamos e o “morto ainda estava vivo” (que loucura mas é verdade). O povo todo na rua, a casa lotada o carro fúnebre na porta da casa dele com o caixão e ele ainda vivo segurando uma vela, que eu tinha medo de queimar a mão dele, enquanto soltava gemidos de dor. Não sei se foi opção dele em não querer morrer no hospital, mas lá estava ele gritando e o homem da funerária olhando para o relógio, esperando se ele não ia logo expirar. Chegamos a ir em hospitais procurando falecidos, lembro de duas pessoas na pedra do necrotério, uma mulher toda enrolada e um rapaz recém chegado com olhar na minha direção, parecendo pedido de socorro. Eu vi esses dois de manhã cedo porque tinha ido fazer exames, aproveitei e fui procurar por lá.


Depois das visitas voltávamos para casa passando o jornal para todo mundo. Claro que não ia todo dia, afinal eu era uma criança tinha que brincar e estudar também, mas eram bem comum as visitas. Uma vez olhamos um rapaz que foi acidentado e haviam enfaixado a cabeça dele. Ele havia tentado subir no ônibus em movimento e caiu, infelizmente ocorrendo o pior. Com este fiquei impressionada mesmo passando vários dias sonhando com aquela faixa na cabeça do menino e no desespero de sua mãe.


Nos dias seguintes Sr. Menino passava e gritava: “Vamos hoje Morena”. Mas eu me escondia, hoje não. Foi quando comecei a ver que a coisa era séria. Fazia aquilo com tanta inocência e Sr. Menino continuava com aquela minha mente de criança. Era uma fuga acredito, tenho certeza que ele tinha medo de morrer sozinho e dava aquilo que queria receber. Acho que ele queria receber visitas na morte, já que vivia tão sozinho em vida, e a diversão que encontrava era ser um caça-mortos. Pelo menos havia se destacado em meio às pessoas fazendo algo diferente. Mas aí ele queria me influenciar só porque eu simpatizava com ele, aí já é demais.


Deixei essa vida, mas fico muitas vezes pensando como ele. Imagino quem nunca pensou no dia do seu velório. Será que vou ta bem visível? Será quem aparecerá? Quem irá ficar chocado? Quais os comentários que sairiam a meu respeito? Tenho certeza que muitas pessoas, assim como eu gostariam de ver sua morte, para depois voltar e puxar o pé do povo. Eu te vi. Não me engana mais. Tem muita gente que acredita ser possível, mas eu não. Mas posso imaginar que no meu velório sairiam coisas legais sobre mim, não por se tratar de minha pessoa, mas é que todo morto vira bonzinho de uma hora para outra, como diz Zeca Baleiro “é mais fácil cultuar os mortos do que os vivos”. Ah, quando eu morrer quem puder fale aos meus entes queridos que estou num lugar melhor e que no último instante eu me converti, não é por mim, nem ligo para ideologia no leito de morte, mas sei que seria mais confortável para eles acreditarem que um dia me reencontrarão no céu mesmo que isto seja mais impossível do que barrar o aquecimento global. E aos meus amigos não religiosos podem consolar dizendo que a vida foi bem vivida e que eu não queria me eternizar mesmo, com certeza estarei bem ao contribuir com o planeta Terra com a matéria do meu corpo. Quanto ao Sr. Menino, ele ta vivinho bulindo, diminuiu mais de procurar por mortos, acho que foi porque encontrou uma companheira para acender as velinhas no dia do seu velório. É, não falta meia para pé nenhum.

 

Inspiração: Aquele senhor existia mesmo, tou dizendo.

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Gerlandy Leão

 

 

 

 

 

pes.jpgcanoa_blog.jpgninfeia.jpgO pai e os irmãos um pouco mais velhos eram pescadores e diariamente ao voltar para casa eram recepcionados por ela que sempre corria ao encontro recebendo o melhor cardume das mãos do pai que depois de vendido guardaria as moedas no seu cofre feito de garrafa pet. Apesar de pouco, já ajudava a mãe na limpeza dos peixes para serem vendidos no mercado. Sempre acompanhava a mãe ao lavar roupas e louças à beira do rio.

Além disso, contentava-se em brincar na terra, o lugar mais seguro para plantar bananeira, fazer estrelinha, pular corda e correr com os amiguinhos. Vivia numa comunidade ribeirinha e apesar de familiarizada com as águas não se aproximava sem a companhia de um adulto, pois crescera ouvindo que a correnteza era traiçoeira. Uma vez perguntara por que não podia nadar como os demais amigos, a mãe a consolou dizendo que ela era muito criança para isso. E já tinha visto muitas morrerem afogadas porque não estavam preparadas e não podia imaginar perdê-la, toda precaução era pouca, pois quem entrasse no rio sem saber nadar morreria.

 

E assim foi crescendo temendo volume de água e respeitando o limite, pois entendia que o mesmo lugar que causava benefício podia trazer algum mal como as famosas cheias do rio que alagavam todas as casas no início do ano por pelo menos dois meses. Alguns moradores sem condições de sair de casa adaptavam-se colocando tábuas há um metro de distância do chão onde penduravam os poucos móveis. Outros, como eles, tinham a sorte de ter parentes espalhados pela cidade, aguardando as águas secarem enquanto viviam interinamente, para depois voltarem.

 

 

Uma vez andou de canoa com os irmãos que pescavam, eles queriam que ela se acostumasse, mas o medo foi maior e ficou deitada para não olhar para os lados. A rede de pescaria enganchou nas raízes das árvores e eles deixaram a menina sozinha para tentar recuperar a rede evitando serem castigados pelo pai caso perdessem o instrumento de seu trabalho. Ela ficou aos gritos dentro do transporte enquanto os irmãos se esforçavam do outro lado. Preocupados com a menina resolveram voltar, chateados com a perda e ao mesmo tempo amedrontados pelo castigo do pai. Um deles pediu que se calasse e acrescentou que o lugar mais seguro era aquela canoa, que enquanto ela se mantivesse quieta, nada aconteceria. Só precisava sentar e poderia até olhar para o rio desde que não fizesse nenhum movimento, desde que não tocasse às águas, assim nada ocorreria. Os garotos não conseguiram se livrar do castigo e para punir a irmã resolveram não mais levá-la em suas voltas ou mesmo ensiná-la a nadar.

 

O medo a impediu de aprender a nadar cedo e percebia que já estava grande para temer por isso se envergonhava. Um dia ao brincar bem próximo viu um reflexo de luz nos seus olhos vindo do lado proibido. Virou-se para os lados e não viu nenhum daqueles que a repreenderia. Entrou dentro de uma canoa parada na nau e deixou a bola confeccionada em casa cair dentro entre as águas abrindo vários anéis. Contemplou durante muito tempo a beleza daquelas águas, observando o que e quem passava por lá. Às vezes jogava pedras, mas sem esquecer das palavras do irmão que aquele era o lugar mais seguro e da mãe alertando que se não soubesse nadar que não entrasse no rio.

 

 

Não pretendia entrar no rio, mas não custava nada colocar apenas o pé. E brincou por todo resto de tarde pé na margem apoiada pela canoa. Sentindo como se fosse convidada pelas correntes de água que por ali passava para arriscar, preferiu não. E se achava equilibrada suficiente para continuar sua brincadeira à beira do mesmo. Os pés… os pés faziam arcos e criavam dezenas de outros. Olhando para baixo sem se mexer poderia visualizar um peixe, e continuava. Atrevia-se até a balançar onde estava e brincava e se divertia e sorria, pois se sentia segura.

 

Foi surpreendida por uma correnteza que a derrubou para fora do seu aprisco. Há poucos centímetros observava a margem do rio e se debruçava dentro dele. Tentando encontrar chão embaixo dos pés para se equilibrar ao mesmo tempo em que tentava tocar a canoa ou qualquer outro suporte. Não conseguia racionalizar, mas em frações de segundos em um momento tentava fechar a boca para não engolir água em outro se desesperava ao tentar gritar por socorro. Avistava bem perto uma velha com um cachimbo na boca pescando com vara e linha de anzol. Se ela pelo menos se virasse um pouco e lhe estendesse ajuda. E se debateu utilizando braços e pernas trabalhando para tentar salvar a si e olhava para o céu, morreria sabia, ela acreditava em céu e em breve estaria lá. Não podia acreditar que a beira do rio fosse tão funda para ela não encontrar qualquer apoio que fosse.

 

Sentiu-se empurrada novamente por outra correnteza que a jogou para proximidade da margem, onde finalmente encontrou sustento. Tossiu e rastejou subindo pelo barro que deslizava um pouco. Estava viva, sorria e gritava que não morrera. Deitada de bruços ainda na areia lembrou-se de olhar para trás e agradecer àquela correnteza. Percebeu que não era o rio o perigoso, mas algumas correntes de água que vinham com ele. A primeira corrente quase lhe levou a vida ao derrubá-la do seu refúgio, porém a segunda era diferente e a salvara da tragédia que a outra proporcionara.

 

Lembrou-se de agradecer ao erguer-se e sair rio abaixo procurando a sua salvadora, aquela a quem devia a sua vida, aquela que ensinara que o rio não era mau. Trilhou pelos caminhos até observar a calmaria em um lugar junto às plantações de arroz, lá estava a quem devia sua gratidão. O lugar estava mais isolado ainda e considerado mais perigoso pelo ambiente arenoso e por proporcionar poucas condições de sustentação à beira do rio. Só os adultos iam ali e mesmo assim com grande cautela, mas ela ignorou só queria se aproximar da correnteza salvadora de sua vida. Aproximou-se de cócoras para não cair, não cometeria o mesmo erro que cometera da outra vez. Ficaria com os pés no chão, acontecesse o que acontecesse, havendo arcos ou não, havendo o que mais belo pudesse existir, jamais desgrudaria seus pés da margem.

Viu uma Ninféia navegando pelas águas, esquivando-se um pouco para frente no intuito de pegá-la, a menina que não sabia nadar desequilibrou-se mergulhando de cabeça rio abaixo.

 

Inspiração: O amor, meu fascínio pela morte, sonhos, uma família que conheci na infância, uma experiência traumática na beira do rio e outras coisinhas, como eu. Só eu.

Imagem: sem explicações, mas precisei de três imagens. Não tenho o endereço da Ninféia, quem for o dono pode entrar em contato. É que ela é muito bela. http://flickr.com/photos/fabiorosario/1679152618/; http://www.flickr.com/photos/27286898@N00/96082641/

Gerlandy Leão

 

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Na frente do Cruzeiro no centro do único cemitério público da cidade, depois de se benzer acendeu a vela e a deixou queimando perdida entre tantas outras que procurava iluminar o caminho das almas até chegar ao céu. Aquele não era um lugar agradável para uma criança, com tantas pessoas chorando, velas pingando, sepulturas abandonadas, cachorros perebentos e muro caído. Melhor seria está em casa assistindo algo na TV ou mesmo brincando na rua com os demais coleguinhas. Mas ela precisa estar ali e cumprir o combinado. Só tinha 11 anos, mas sabia que deveria cumprir as promessas feitas. Segurando a coroa de flores esperava a vela terminar de queimar até última gota de parafina.

 

 

A menina apresentou o trabalho na escola para a disciplina de Artes no tempo em que esta ainda acompanhava as datas comemorativas e feriados nacionais. Devia homenagear os mortos em finados e suas flores feitas com papel crepon se destacaram por terem sido feitas com muito cuidado e por exibir um bom acabamento.

 

Uma vizinha risonha, varria a calçada quando a viu chegar com as flores em suas mãos, agradando-se muito pediu para aprender. “- Vou fazer uma coroa dessas flores para catatumba da minha mãe, me ensina?”. Apesar da senhora não oferecer nada pela ajuda a menina gostou da idéia, afinal de contas ela fazia as cocadas mais gostosas do mundo, assim poderia quem sabe se tivesse sorte, comer uma todo dia gratuitamente.

 

 

Dona Francisquinha era uma viúva que vivia sozinha com seu papagaio há muitos anos. Vez ou outra recebia a visita da filha e dos netos. Era aquela senhora amada e odiada ao mesmo tempo pelas crianças da rua. Amada por ter as melhores goiabeiras da região, pelos bombons e roupas que doava, pelas historinhas que contava, pelo abraço macio depois da simulação de uma palmada e pelo cheiro doce que exalava. “- Ela cheira a cocada e goiabada”, diziam as crianças. Mas odiada exatamente por não deixar as crianças “roubarem” as goiabas. Só quando tivessem maduras, mas meninos não esperam e organizavam a subida nas árvores escondidos dos olhos dela. Quando eram surpreendidos eram denunciados aos pais. “- Essa velha fofoqueira” e esqueciam do cheiro de doce. Mas ela sempre conseguia uma trégua, criança, diferentemente de adulto, não guarda rancor por muito tempo.

 

 

No primeiro dia de confecção das flores, Dona Francisquinha brigou porque ela não fez o sinal da cruz diante da imagem de Nossa Senhora pendurada na parede da sala. “-Meu Deus, aonde chegaremos? Minha filha você ainda é pagã?” perguntou à menina recebendo como resposta apenas uma mexida de ombros da e a boca torta como se não entendesse o que dizia. A garota mostrava empenho em ensinar a arte que criara, “dobre o papel assim, corta aqui, enrole assim”. Como imaginara, todo dia tinha um doce, mas tinha também uma mensagem nova.

 

 

Uma vez reclamou porque ela estava descalça, chamando atenção que aquilo deixaria seus pés feios e os rapazes jamais se interessariam por alguém de pés tão relaxados. “ – Por falar em rapazes” prosseguia, “- Já está na hora de deixar de andar com tantos meninos brincando pela rua ou pelos campos. Parece mais um macho do que uma menina”. Reclamava com as roupas que vestia. “- Minha filha você tem que se civilizar. Já ta na hora de usar um corpete”. Ela ouvia com atenção e sem silêncio enquanto apertava a pétala de uma flor.

 

 

Em poucos dias foi percebendo que a senhora só cuidava da casa e não mostrava nenhum interesse em aprender. “-Vai fazendo aí minha filha, vou ver aqui o feijão” ou “-Vou só varrer a casa”, ou então “-Olha! ta serenando, vou tirar a roupa do sol”. E a garota se irritou, só falou para a mãe que não ia mais. A velha tava fingindo que desejava aprender, mas ela queria era trabalho de graça e que fizesse a coroa para todos os parentes falecidos dela. A mãe perguntou pelos agrados que a senhora fazia e ela dizia, “- não paga mamãe, não paga”.

 

 

Deixou de ir. A casa de Dona Francisquinha estava repleta de papel recortado, mas ela simplesmente deixou de ir sem explicar o motivo. Até pensou em dizer: “- A senhora não quer aprender, só quer me explorar”, mas não recebeu nenhuma pergunta. No sábado a noite, a velhinha passou na casa dela e entregou-lhe um rosário. E fingiu que não percebera sua ausência e a convidou para tomar café da manhã no domingo, pois tinha uma surpresa. Café da manhã na sua casa era irrecusável, já podia imaginar a fartura da mesa.

 

 

De manhã cedo estava à porta e foi recepcionada pelo sorriso da senhora. Depois de se deliciar com as guloseimas juntamente com os netos de Dona Francisquinha que a visitavam naquele domingo, foi chamada ao quarto e recebeu um embrulho que continha um vestido. Não era uma cor que a agradava muito, mas presentes sempre eram bem vindos. Depois de vesti-lo viu pelo espelho que estava bonita. Agora só faltava amarrar o cabelo e calçar a sandália. “- Está linda. Ta parecendo uma mocinha de verdade”. Aproveitando o ensejo, convidou a garota para passear e mostrar a roupa nova pelas redondezas. De novo aproveitando o caminho, a levou à igreja. E durante o caminho falou sobre os santos, sobre os evangelistas, sobre como os bárbaros foram civilizados pela Santa Igreja Católica, sobre o céu, sobre o inferno.

 

 

A menina continuava calada ouvindo atentamente a velhinha que se mostrava empolgada em ter quem a escutasse. Repentinamente lembrou-se de perguntar por que os mortos precisavam de flores já que não podiam ver “- É claro que podiam”. E recomeçou a falar sobre céu, que as flores agradavam aos mortos porque embelezava e dava paz e que os hereges acreditavam que podiam dá até comida aos mortos, mas isso era errado, o certo era oferecer flores e acender velas às pessoas que amamos, pois mesmo que os vivos não pudessem vê-los eles se agradavam muito. “- Por isso preciso de suas flores, agora entende?”.

 

 

Encorajada novamente a menina percebeu a sua missão e resolveu voltar com a velhinha para sua casa e terminar o trabalho que começara. Ao chegar em casa admiraram-se com as flores e demais papeis amassados e jogados no saco de lixo pela filha que aproveitava a visita para fazer faxina. Depois de reclamações a filha pergunta o que a mãe queria com aquela porcaria, pois seu pai, sua avó, seus tios, mereciam homenagens mais belas. “- Por que não compramos as flores?” A velhinha dizia que elas estavam muito caras. A filha insistia que tinha dinheiro, mas ela preferia não. A filha continuava “- por que não leva as flores do seu jardim”, e a mãe explicava que não era justo matar para oferecer aos mortos. O jardim já estava tão belo e ela teve tanto trabalho para vê-lo daquele jeito, que continuasse assim. E o papel era sem graça, já estava morto, já havia matado uma árvore e ganhava vida através da forma que recebia das mãos da garota. Por isso ela havia amado tanto as flores de crepon.

 

 

Recomeçaram o trabalho apesar do desperdício de vários dias de trabalho que foram para a lata de lixo. E prosseguiram, menina modelando as pétalas, a velhinha com outros afazeres, mas sempre contando alguma história, ou dando alguma sugestão para sua vida. Um dia a menina encontrou dona Francisquinha chorando na cama e lhe perguntou o que tinha. Ela disse que não era nada, só estava com medo de não dar tempo terminar as coroas, pois o dia dos finados estava próximo. Se não terminasse ia ter que arrancar as flores do jardim. A menina prometeu que terminaria tudo a tempo e que iria ao cemitério decorar o lar dos mortos juntamente com ela. A velhinha a abraçou com seu cheiro doce e a avisou que tanto a morte como a vida deveria ser valorizada e respeitada.

 

 

No dia seguinte a garota foi acordada pela mãe, “- Filha, como Dona Francisquinha diria para alguém que uma pessoa morreu?”. Ela pensou, mas disse que provavelmente ela diria que havia dormido o sono profundo, ou descansado, ou ido ao encontro de Nossa senhora… “- Pois foi isso filha. Dona Francisquinha foi ao encontro de Nossa Senhora”. Além do susto, veio aquela sensação do que sentir, do que fazer. Era a primeira pessoa próxima que via morrer. Sabia que sentiria muita falta, mas pensava por que ela se afeiçoara tanto e nos últimos dias se intensificara mais.

 

 

Então era isso. Dona Francisquinha sabia que estava morrendo e tudo que queria era uma companhia. Por traz da história das lindas flores, havia muita coisa. Ela queria deixar seu ensinamento sobre morte para alguém, queria valorizar aquele trabalho que fazia, mesmo sendo tão sem graça. Agora ela olhava as flores de papel e não via nenhuma beleza, a não ser pelas próprias palavras de Dona Francisquinha de que se tratava em dar vida a algo morto. De fato ela queria a coroa para si. Por mais que falasse que acreditava que os mortos podiam ver, na verdade queria estar viva para ver como alguém se dedicaria a algo para ela. No fundo a velhinha duvidava de tudo o que aprendera durante a vida sobre a morte. Ela não queria ver quando morta, queria ver agora. A menina sabia que a velhinha morrera acreditando que ela cumpriria a promessa e valorizaria o que havia feito em vida ao entender que vale muito mais do que homenagens póstumas. E agora a velhinha sabia que a filha talvez em cima da hora compraria algumas flores anualmente, já que ela tinha dinheiro.

 

 

Algumas pessoas apareceram no velório, outras foram ao cemitério e a menina não se desgarrou de sua coroa. Ficou de longe visualizando as homenagens enquanto aguardava a vela queimar no Cruzeiro. Depois que todos saíram da sepultuta aproximou-se e deitou a coroa de papel em meio a tantas rosas e outras flores belas. E entendeu que a velhinha não era um jesuíta a civilizando, mas uma pessoa que dizia: Acredite duvidando.

 

 

 

 

Inspiração: Ainda estou movida pelo sentimento mórbido do início do mês de novembro. Juntei características de três velhinhas que conheci.

 


 

Nomes: Só tem um mesmo. Como já falei e falarei, quando necessário citar nomes utilizarei nome de avós e/ou bisavós paternos ou maternos para não correr risco de parecer coincidência, ou porque meu repertório de criatividade para nome é fraco mesmo.

Gerlandy Leão 

Não é exagero meu dizer aquela foi a maior dor que senti na vida. A dor da perda de um ente querido já tinha sido experimentada outras vezes, mas dessa vez foi incontrolada. Senti um aperto no coração, uma falta de ar e uma dor tão grande na minha cabeça. Impossível descrever como me senti tão mal. Há quase uma década perdi dois tios queridos de uma vez em acidente de trânsito em plena véspera de natal, mas não fui tomada pelo pânico devido a esperança de um dia revê-los no céu. Os conheci pouco, mas chorei pela perda da minha mãe e dos meus avós. Eu só tentei ser forte para consolá-los e você deve lembrar desse dia que foi sofrido, mas ao mesmo tempo aceitei do jeito que você também via a morte: uma passagem para um lugar mais importante, onde nunca mais haverá dor, onde nunca mais ninguém morrerá e onde todos serão felizes para sempre.

Mas falo agora para confirmar o que você desconfiava. Não acredito mais que a reverei algum dia. E é por isso que não exagerei ao falar da minha dor. Tenho muitos resquícios daquela menina bobinha que você conheceu, mas também mudei muito. Dizem que a ignorância nos faz felizes e eu nunca desejei ser tão ignorante como no dia que você nos deixou. Enquanto muitos diziam: nos reencontraremos um dia, eu apenas dizia, adeus minha amiga, adeus para sempre.

E você foi levando o seu sorriso, a sua alegria e a sua garra. A garra com que enfrentou tão corajosamente essa terrível doença. Sempre com um sorriso de que tudo daria certo. Você foi dona de uma fé que eu nunca vi em qualquer outro ser humano. E me vejo tão covarde, quando fui visita-la no hospital a primeira vez e vi o teu estado. Confesso a vontade de sair correndo dali na mesma hora, pois era demais para mim ver alguém tão cheia de energia como você agora deitada sem ao menos me reconhecer de imediato. Segurando as lágrimas em vez de consolá-la ouvi você acalmar. Com sua voz terna e um pouco fraca, segurou minha mão e me disse: Vai ficar tudo bem. Deus quer o melhor para mim. Não amiga, não ficou bem.

Nas noites em que te fiz companhia no hospital, nos raros momentos que você dormia, aproveitei para ir chorar nos corredores escuros. E confesso que torcia para que a noite terminasse, temendo o pior. Enquanto você ficava cheia de esperança e fé, imaginando voltar às suas atividades, eu lamentava, pois sabia que a perdia pouco a pouco. Só um milagre para tirá-la dali, pois todos nós sabíamos que aqui na terra já havia cessado tudo o que pudesse ser feito. Saiba “minha falta de fé estava abalada” e provavelmente se você tivesse mesmo se recuperado eu teria recuperado-a, mas ao contrário só a enterrou de vez fazendo-me confirmar: Não, não existem milagres. No máximo existem coincidências.

Mas sei que a fé foi importante para você ao minimizar sua dor. Posso imaginar que naquela madrugada que você se foi, depois de ouvir suas canções preferidas, você deve ter sonhado entrando no reino dos céus. Creio que você sonhou com o CANTEIRO muito lindo que tantas vezes cantou. E hoje esse canteiro não está mais tão lindo, ficou vazio, não brota mais nenhuma flor. Os dias na redondeza não têm mais beleza. Se você estivesse aqui veria como não é engano meu ao ver as árvores sem frutos e sendo derrubadas. O chão está tomado por folhas secas, o vento não passa por lá como antes e a paisagem parece poluída na ausência daquele belo verde. Foi coincidência eu sei, mas realmente lá sem tua presença não tem nada que me interesse.

E invejando aqueles que tinham fé, aqueles que pensam no reencontro descobri outra forma de me consolar. Prefiro não lembrar nas “flores preciosas secas”, mas na “água viva que jorra…” Prefiro recordar nossas lembranças e de tudo bom que vivemos naquela época juntamente com outras pessoas maravilhosas.

Recordo a primeira vez que fui recepcionada por você. Apesar de bem mais velha parecia mais menina que eu. Lembro quando aprendi e como me deu oportunidade para me desenvolver e mostrar meus talentos. Como você acreditava em mim. Lembro as tarefas pedagógicas que me dava ou as sugestões que me pedia, fazendo-me sentir pela primeira vez importante na vida. O incentivo à escrita que você me deu através daquelas programações de domingo à tarde foram primordiais. As atividades que fizemos juntas foram muito necessárias para meu crescimento como ser humano, principalmente aquelas homenagens para as mães que tanto te emocionavam. Tentei lembrar um dia desses do seu choro e só lembrei de uma emoção em um dia de homenagem, em que você segurou as lágrimas. Seus olhos lacrimejaram, mas nada mais. Você sempre foi muito forte, força que mostrou também na morte do seu pai.

O olhar era só de alegria, olhos que você detestava e que nós brincávamos tanto. Sinto saudade de olhar para eles e juntamente com os demais te apelidar. Sinto falta do olhar de repreensão, e do jeito que me chamava atenção. Era bate-assopra, não deixava para outra hora. Quantas vezes brigamos principalmente devido a sua insistência em querer se meter na minha vida para eu “sair da pedra.

Recordando as nossas conversas, percebi que foi com você que iniciei a falar sobre sexualidade. Como nos divertíamos com nossas dúvidas. Quantas perguntas cabeludas tínhamos, mas não podíamos fazer para ninguém porque éramos “pudicas” e sonhávamos com nossa primeira vez, com as luzes, com a trilha sonora, com um amor, mas você brincava dizendo que não provaria porque não queria casar, e claro, sexo antes do casamento era inconcebível nessa mente.

Eu queria ter te falado muita coisa, mas sei que nos últimos meses me distanciei um pouco. Você tinha um gosto horrível amiga. Talvez um dos piores que já vi e o mais diferente de mim, mas impressionante como nos dávamos bem mesmo você brigando com os livros que eu lia, reclamando do conhecimento que eu estava adquirindo, por isso preferi não entrar em briga com você.

Pouco antes que falecesse quis te dizer algo, mas hesitei temendo que pensasse se tratar de uma despedida ou só porque você estava naquela situação. Lembro da conversa que uma vez tivemos sobre sentimentos e relacionamentos. Pela primeira vez em tantos anos que nos conhecíamos, finalmente eu estava apaixonada. E você me perguntou se eu sabia a sensação de dizer: Te amo. Indaguei-lhe porque nunca tinha falado e você me confirmou que ninguém tinha merecido. Perguntei-me será que realmente você nunca havia amado ou realmente era apenas tão durona. Mas surpreendi-me mais quando me disse que nunca tinha ouvido que era amada. De ninguém, amigo, homem, familiar, ninguém.

E foi estranho porque pensei em mim, pensei como também evitava dizer isso às pessoas maravilhosas que tive na vida e evitava fazê-lo por orgulho ou por achar desnecessário. Pouco depois não quis guardar mais para mim, nunca o fiz irresponsavelmente ou de forma descartável, mas realmente com quem mereceu. E saiba amiga, encontrei na minha vida pessoas que merecem isso. Estou rodeada de pessoas queridas e muito especiais na minha vida e que temo perdê-las igualmente como perdi você. Lamento saber que você não tem noção do quanto te amo, do quanto foi importante na minha vida porque me acovardei, porque achei bobagem. E só agora, mesmo escrevendo de modo simples, diretamente para você, pois sei que nunca gostou de frescuras é que tento expressar meu sentimento. Infelizmente você jamais ouvirá de mim. Mas espero que nunca tenha duvidado, apesar das minhas atitudes. Lamento o meu medo. Porque não estava perto de você quando faleceu. Porque muitas vezes estava ocupada para fazer companhia e porque não agüentava ficar perto de você sem chorar. Mas lembro nossas gargalhadas juntas nas madrugadas de sábado no nosso QG no quintal da sua casa, debaixo das jaqueiras que já não existem mais, em que reuníamos o nosso grupo inocente, sem maldade, mas agradável.

Ah, quantas saudades das tentativas de dançarmos (mais parecíamos o Robô Cop) , das andanças no sol quente, das pesquisas de compras de decoração, dos ensaios do Aliança, dos “bolões” para os meninos, da competição com “as meninas lá de baixo”, das viagens, das tesouras, e principalmente de ouvi-la cantar: Água viva… enche-me, enche-me, sacia-me…

Sinto muito a sua falta e se não posso ser consolada pelo futuro de reencontro, me consolo no passado nessas poucas coisas citadas de tantas que vivemos. A morte é o fim nem por isso é ruim para você, que saiu desse lugar de dor. Difícil é para nós que continuamos vivos é por isso que encerro com a fala da banda que nossos meninos eram cover e que admirávamos “… sei que você está bem, mesmo assim isso não me impede de chorar.”

Inspiração: uma perda