Gerlandy Leão 

Não é exagero meu dizer aquela foi a maior dor que senti na vida. A dor da perda de um ente querido já tinha sido experimentada outras vezes, mas dessa vez foi incontrolada. Senti um aperto no coração, uma falta de ar e uma dor tão grande na minha cabeça. Impossível descrever como me senti tão mal. Há quase uma década perdi dois tios queridos de uma vez em acidente de trânsito em plena véspera de natal, mas não fui tomada pelo pânico devido a esperança de um dia revê-los no céu. Os conheci pouco, mas chorei pela perda da minha mãe e dos meus avós. Eu só tentei ser forte para consolá-los e você deve lembrar desse dia que foi sofrido, mas ao mesmo tempo aceitei do jeito que você também via a morte: uma passagem para um lugar mais importante, onde nunca mais haverá dor, onde nunca mais ninguém morrerá e onde todos serão felizes para sempre.

Mas falo agora para confirmar o que você desconfiava. Não acredito mais que a reverei algum dia. E é por isso que não exagerei ao falar da minha dor. Tenho muitos resquícios daquela menina bobinha que você conheceu, mas também mudei muito. Dizem que a ignorância nos faz felizes e eu nunca desejei ser tão ignorante como no dia que você nos deixou. Enquanto muitos diziam: nos reencontraremos um dia, eu apenas dizia, adeus minha amiga, adeus para sempre.

E você foi levando o seu sorriso, a sua alegria e a sua garra. A garra com que enfrentou tão corajosamente essa terrível doença. Sempre com um sorriso de que tudo daria certo. Você foi dona de uma fé que eu nunca vi em qualquer outro ser humano. E me vejo tão covarde, quando fui visita-la no hospital a primeira vez e vi o teu estado. Confesso a vontade de sair correndo dali na mesma hora, pois era demais para mim ver alguém tão cheia de energia como você agora deitada sem ao menos me reconhecer de imediato. Segurando as lágrimas em vez de consolá-la ouvi você acalmar. Com sua voz terna e um pouco fraca, segurou minha mão e me disse: Vai ficar tudo bem. Deus quer o melhor para mim. Não amiga, não ficou bem.

Nas noites em que te fiz companhia no hospital, nos raros momentos que você dormia, aproveitei para ir chorar nos corredores escuros. E confesso que torcia para que a noite terminasse, temendo o pior. Enquanto você ficava cheia de esperança e fé, imaginando voltar às suas atividades, eu lamentava, pois sabia que a perdia pouco a pouco. Só um milagre para tirá-la dali, pois todos nós sabíamos que aqui na terra já havia cessado tudo o que pudesse ser feito. Saiba “minha falta de fé estava abalada” e provavelmente se você tivesse mesmo se recuperado eu teria recuperado-a, mas ao contrário só a enterrou de vez fazendo-me confirmar: Não, não existem milagres. No máximo existem coincidências.

Mas sei que a fé foi importante para você ao minimizar sua dor. Posso imaginar que naquela madrugada que você se foi, depois de ouvir suas canções preferidas, você deve ter sonhado entrando no reino dos céus. Creio que você sonhou com o CANTEIRO muito lindo que tantas vezes cantou. E hoje esse canteiro não está mais tão lindo, ficou vazio, não brota mais nenhuma flor. Os dias na redondeza não têm mais beleza. Se você estivesse aqui veria como não é engano meu ao ver as árvores sem frutos e sendo derrubadas. O chão está tomado por folhas secas, o vento não passa por lá como antes e a paisagem parece poluída na ausência daquele belo verde. Foi coincidência eu sei, mas realmente lá sem tua presença não tem nada que me interesse.

E invejando aqueles que tinham fé, aqueles que pensam no reencontro descobri outra forma de me consolar. Prefiro não lembrar nas “flores preciosas secas”, mas na “água viva que jorra…” Prefiro recordar nossas lembranças e de tudo bom que vivemos naquela época juntamente com outras pessoas maravilhosas.

Recordo a primeira vez que fui recepcionada por você. Apesar de bem mais velha parecia mais menina que eu. Lembro quando aprendi e como me deu oportunidade para me desenvolver e mostrar meus talentos. Como você acreditava em mim. Lembro as tarefas pedagógicas que me dava ou as sugestões que me pedia, fazendo-me sentir pela primeira vez importante na vida. O incentivo à escrita que você me deu através daquelas programações de domingo à tarde foram primordiais. As atividades que fizemos juntas foram muito necessárias para meu crescimento como ser humano, principalmente aquelas homenagens para as mães que tanto te emocionavam. Tentei lembrar um dia desses do seu choro e só lembrei de uma emoção em um dia de homenagem, em que você segurou as lágrimas. Seus olhos lacrimejaram, mas nada mais. Você sempre foi muito forte, força que mostrou também na morte do seu pai.

O olhar era só de alegria, olhos que você detestava e que nós brincávamos tanto. Sinto saudade de olhar para eles e juntamente com os demais te apelidar. Sinto falta do olhar de repreensão, e do jeito que me chamava atenção. Era bate-assopra, não deixava para outra hora. Quantas vezes brigamos principalmente devido a sua insistência em querer se meter na minha vida para eu “sair da pedra.

Recordando as nossas conversas, percebi que foi com você que iniciei a falar sobre sexualidade. Como nos divertíamos com nossas dúvidas. Quantas perguntas cabeludas tínhamos, mas não podíamos fazer para ninguém porque éramos “pudicas” e sonhávamos com nossa primeira vez, com as luzes, com a trilha sonora, com um amor, mas você brincava dizendo que não provaria porque não queria casar, e claro, sexo antes do casamento era inconcebível nessa mente.

Eu queria ter te falado muita coisa, mas sei que nos últimos meses me distanciei um pouco. Você tinha um gosto horrível amiga. Talvez um dos piores que já vi e o mais diferente de mim, mas impressionante como nos dávamos bem mesmo você brigando com os livros que eu lia, reclamando do conhecimento que eu estava adquirindo, por isso preferi não entrar em briga com você.

Pouco antes que falecesse quis te dizer algo, mas hesitei temendo que pensasse se tratar de uma despedida ou só porque você estava naquela situação. Lembro da conversa que uma vez tivemos sobre sentimentos e relacionamentos. Pela primeira vez em tantos anos que nos conhecíamos, finalmente eu estava apaixonada. E você me perguntou se eu sabia a sensação de dizer: Te amo. Indaguei-lhe porque nunca tinha falado e você me confirmou que ninguém tinha merecido. Perguntei-me será que realmente você nunca havia amado ou realmente era apenas tão durona. Mas surpreendi-me mais quando me disse que nunca tinha ouvido que era amada. De ninguém, amigo, homem, familiar, ninguém.

E foi estranho porque pensei em mim, pensei como também evitava dizer isso às pessoas maravilhosas que tive na vida e evitava fazê-lo por orgulho ou por achar desnecessário. Pouco depois não quis guardar mais para mim, nunca o fiz irresponsavelmente ou de forma descartável, mas realmente com quem mereceu. E saiba amiga, encontrei na minha vida pessoas que merecem isso. Estou rodeada de pessoas queridas e muito especiais na minha vida e que temo perdê-las igualmente como perdi você. Lamento saber que você não tem noção do quanto te amo, do quanto foi importante na minha vida porque me acovardei, porque achei bobagem. E só agora, mesmo escrevendo de modo simples, diretamente para você, pois sei que nunca gostou de frescuras é que tento expressar meu sentimento. Infelizmente você jamais ouvirá de mim. Mas espero que nunca tenha duvidado, apesar das minhas atitudes. Lamento o meu medo. Porque não estava perto de você quando faleceu. Porque muitas vezes estava ocupada para fazer companhia e porque não agüentava ficar perto de você sem chorar. Mas lembro nossas gargalhadas juntas nas madrugadas de sábado no nosso QG no quintal da sua casa, debaixo das jaqueiras que já não existem mais, em que reuníamos o nosso grupo inocente, sem maldade, mas agradável.

Ah, quantas saudades das tentativas de dançarmos (mais parecíamos o Robô Cop) , das andanças no sol quente, das pesquisas de compras de decoração, dos ensaios do Aliança, dos “bolões” para os meninos, da competição com “as meninas lá de baixo”, das viagens, das tesouras, e principalmente de ouvi-la cantar: Água viva… enche-me, enche-me, sacia-me…

Sinto muito a sua falta e se não posso ser consolada pelo futuro de reencontro, me consolo no passado nessas poucas coisas citadas de tantas que vivemos. A morte é o fim nem por isso é ruim para você, que saiu desse lugar de dor. Difícil é para nós que continuamos vivos é por isso que encerro com a fala da banda que nossos meninos eram cover e que admirávamos “… sei que você está bem, mesmo assim isso não me impede de chorar.”

Inspiração: uma perda

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