Gerlandy Leão

 

 

velorio.gifJá fui repreendida, teve gente me perguntando que diabos me ocorreu por eu estar falando só em morte. Tenho algo com a morte que não sei explicar. Não sinto medo da morte, sinto medo do morrer e, sobretudo de quem continua vivo, pois tenho certeza que faria falta sim. Sempre tive mania de morte, “esperando a morte chegar”. A primeira pessoa que lembro de ver morta foi minha Tia-avó que faleceu na minha casa. Peguei até umas flores no jarro na casa da minha vizinha para colocar no caixão, mas o velório foi bem calmo. Ninguém chorava, a parente mais próxima que ela tinha era minha mãe que já havia conhecido adulta e já em estágio de doença avançado, logo não tinham nenhuma intimidade ou chegaria a sentir falta. Ela morreu sozinha na casa dela, que horror. Nenhum filho, nenhum amigo, ou parente mais próximo por perto. Disso aí eu tenho medo, de não ter ninguém para segurar uma velinha na minha mão e chamar o padre para me dar extrema unção quando eu tiver velhinha.


Também tinha medo da dor da morte, do gelo nas pernas, ou da pancada, mas imagino que em vida a gente também sente dores tão fortes que assim estamos preparados. Mas da morte em si não tenho tanto medo, talvez porque cresci acreditando que esta era só um estágio, uma saída daqui para ali e logo logo nos reencontraríamos com entes queridos. Chegava até a brincar dizendo que queria morrer antes dos 30, olha a idéia da criança. É, a gente não pode escolher, mas se pudesse escolheria morrer de modo bem rápido, sem perceber tipo “dormir e acordar morto”. Ui! Pensei agora, Putz grila eu vou morrer antes de ver a construção da máquina de viagem ao tempo, que maldade. A morte é sim algo bem triste, doloroso, mas eu penso que a eternidade é pior. Sinceramente me pergunto o que diabos a gente iria querer fazer por toda vida. Como disse Paulo Autran é a morte que embeleza a vida, pois sabedores de que não estaremos aqui sempre, procuramos aproveitar cada momento. Mas concordo também com João Ubaldo Ribeiro que a gente podia ter pelo menos duas vidas, uma para ensaiar e outra para viver de verdade, já pensou como seria legal?


Apesar dessas análises sempre tive respeito pela morte alheia. E me emocionava, seja lá quem fosse. Era morte? eu chorava. No interior é muito comum as visitas à casa de mortos. O povo passava tempo, só batendo papo enquanto o morto ficava lá no meio da casa com aquela cruz em metal na cabeceira do caixão no caso de católicos ou uma Bíblia em velórios de evangélicos. Engraçado, agora lembrei, a cidade se dividia igual na Irlanda entre católicos e protestantes. Pois bem, era muito comum ver pessoas passando pela rua, olhar aquela muvuca e adentrar na casa só para olhar a cara do morto deitado. Às vezes ficavam um pouco mais, bebiam um café, fumavam cigarros, tomavam cachaça, batiam papo, contavam piadas, era uma festa.


Não sei que graça tinha ver morto, mas eu já vi bastante quando criança, aliás, quando eu era mais corajosa do que hoje. Fui inserida neste mundo de caça-mortos por Sr. Menino (leia mesmo Seu Menino), sinceramente não lembro de ninguém que tivesse tanta fascinação por mortos como ele. Era meu vizinho da frente lá na minha cidade natal. Uma figura bem caricata, um olho torto e o outro fechado que dava umas risadas mexendo todos os músculos do rosto e fechando todos os olhos. Vivia mordendo palito de dente, ou coisa nojenta, naquela época eu nem me tocava, mas hoje acho horrível aquilo. Ostentava uma barriga imensa e ainda gostava de andar sem camisa. Puxava de uma perna, era careca em cima e tinha uns cachinhos atrás na nuca. Era um Mister Esquisito, mesmo assim não tinha medo dele, ao contrário eu até gostava daquela criatura que parecia ter saído de histórias como Corcunda de Notre-Dame ou Frankenstein.

Ele vendia dindin (suquinhos, sacolés, fraus, chupa-chupa, geladinho dentre outros), por isso andava pela cidade inteira para poder ter um bom lucro. De manhã cedo eu saía para escola e ele para as vendas e me falava todo animado: “Ei Morena, como será o dia hoje? Será quem já morreu?”, e eu sorria: “Sr. Menino será que hoje o senhor encontra algum?” e ele todo esperançoso dizia que encontraria sim, pois todo dia morria alguém no mundo, só precisava ser encontrado. Parece loucura dele, mas no almoço nós já tínhamos os lugares para ver. Montava na garupa da sua bicicleta e íamos a cada lugar. Quem ler, deve imaginar que se trata de um ser insensível, mas em muitas vezes eu o vi emocionado.


Víamos todo tipo de mortos, desde os “de morte morrida como os de morte matada”. Chegava lá eu me sentava na cadeira, ele saía sondando a morte do indivíduo, depois já vinha falando para o povo a célebre frase: “morreu como passarinho”. E consolava as pessoas dizendo que tinha sido a vontade de Deus, que ela estava agora ao lado dele. E que a Virgem Santíssima estava feliz com a presença da pessoa no céu. Houve uma vez que chegamos e o “morto ainda estava vivo” (que loucura mas é verdade). O povo todo na rua, a casa lotada o carro fúnebre na porta da casa dele com o caixão e ele ainda vivo segurando uma vela, que eu tinha medo de queimar a mão dele, enquanto soltava gemidos de dor. Não sei se foi opção dele em não querer morrer no hospital, mas lá estava ele gritando e o homem da funerária olhando para o relógio, esperando se ele não ia logo expirar. Chegamos a ir em hospitais procurando falecidos, lembro de duas pessoas na pedra do necrotério, uma mulher toda enrolada e um rapaz recém chegado com olhar na minha direção, parecendo pedido de socorro. Eu vi esses dois de manhã cedo porque tinha ido fazer exames, aproveitei e fui procurar por lá.


Depois das visitas voltávamos para casa passando o jornal para todo mundo. Claro que não ia todo dia, afinal eu era uma criança tinha que brincar e estudar também, mas eram bem comum as visitas. Uma vez olhamos um rapaz que foi acidentado e haviam enfaixado a cabeça dele. Ele havia tentado subir no ônibus em movimento e caiu, infelizmente ocorrendo o pior. Com este fiquei impressionada mesmo passando vários dias sonhando com aquela faixa na cabeça do menino e no desespero de sua mãe.


Nos dias seguintes Sr. Menino passava e gritava: “Vamos hoje Morena”. Mas eu me escondia, hoje não. Foi quando comecei a ver que a coisa era séria. Fazia aquilo com tanta inocência e Sr. Menino continuava com aquela minha mente de criança. Era uma fuga acredito, tenho certeza que ele tinha medo de morrer sozinho e dava aquilo que queria receber. Acho que ele queria receber visitas na morte, já que vivia tão sozinho em vida, e a diversão que encontrava era ser um caça-mortos. Pelo menos havia se destacado em meio às pessoas fazendo algo diferente. Mas aí ele queria me influenciar só porque eu simpatizava com ele, aí já é demais.


Deixei essa vida, mas fico muitas vezes pensando como ele. Imagino quem nunca pensou no dia do seu velório. Será que vou ta bem visível? Será quem aparecerá? Quem irá ficar chocado? Quais os comentários que sairiam a meu respeito? Tenho certeza que muitas pessoas, assim como eu gostariam de ver sua morte, para depois voltar e puxar o pé do povo. Eu te vi. Não me engana mais. Tem muita gente que acredita ser possível, mas eu não. Mas posso imaginar que no meu velório sairiam coisas legais sobre mim, não por se tratar de minha pessoa, mas é que todo morto vira bonzinho de uma hora para outra, como diz Zeca Baleiro “é mais fácil cultuar os mortos do que os vivos”. Ah, quando eu morrer quem puder fale aos meus entes queridos que estou num lugar melhor e que no último instante eu me converti, não é por mim, nem ligo para ideologia no leito de morte, mas sei que seria mais confortável para eles acreditarem que um dia me reencontrarão no céu mesmo que isto seja mais impossível do que barrar o aquecimento global. E aos meus amigos não religiosos podem consolar dizendo que a vida foi bem vivida e que eu não queria me eternizar mesmo, com certeza estarei bem ao contribuir com o planeta Terra com a matéria do meu corpo. Quanto ao Sr. Menino, ele ta vivinho bulindo, diminuiu mais de procurar por mortos, acho que foi porque encontrou uma companheira para acender as velinhas no dia do seu velório. É, não falta meia para pé nenhum.

 

Inspiração: Aquele senhor existia mesmo, tou dizendo.

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