dezembro 2007


Gerlandy Leão

 

“- Eis o verdadeiro sentido do espírito natalino: a comilança e a troca de presentes”. Dizia isto a uma pessoa ao lado, após engolir uma fatia de rocambole, enquanto admirava a bela mesa ornamentada de doces, salgados e frutas de um lado e a outra repleta de presentes dos funcionários da empresa esperando o momento para serem entregues aos seus donos. Foi repreendida pela colega de trabalho que ansiosamente aguardava a hora do amigo secreto “- Não é bem assim, natal é mais do que isso.” Realmente não era só isso. O natal poderia ser visto como uma data de confraternizações, na verdade ela via como o momento mais adequado para por em prática todo o seu talento de artista em um palco do Teatro da hipocrisia. Não que a hipocrisia fosse de todo ruim, pois equilibrava a vida em muitos momentos.

Havia aprendido a ser hipócrita bem cedo, ainda cursava as séries iniciais do ensino fundamental. Era chegada hora dos sorteios dos nomes, mas antes, um aviso da tia professora: “- crianças, estamos participando de um amigo secreto, momento que vocês precisam provar que são capazes de guardar esse segredo como se guarda algo bem precioso e que não queira repartir com ninguém a não ser no dia adequado.

Estava preparada para guardar o segredo, mas não para retirar aquele nome. Desenrolou o papel com a duas mãos há pouco mais de um palmo de distância do rosto, percorrendo os olhos pelas letras escritas no mesmo sem acreditar no que lia. Os olhos elevaram-se por cima do papel buscando encontrar o amigo até encontrá-lo no canto da sala com um sorriso demonstrando satisfação pelo amigo sorteado. Dobrou o papel e procurou a professora: “- esse eu não posso tia porque…”, a mesma nem quis ouvi-la, apenas repetiu que era o seu segredinho e que seria divertida a brincadeira da adivinhação.

A mãe comprou um carrinho de plástico, simples, mas bonito. Finalmente os amigos se divertiam enquanto ela ficava nervosa ao perceber como os seus coleguinhas se saíam na apresentação e logo após se abraçavam ao entregar os presentes. Seu momento se aproximava. O que ela diria? A vontade que tinha era dizer: eu odeio meu “amigo”, mas não podia, tinha que se comportar como uma mocinha. Havia pensado em fingir alguma doença só para não ter que fazer aquilo, mas não fez, agora estava arrependida, segurando o carrinho nas mãos. Chegou sua hora, e de cabeça baixa só falou o nome do “inimigo”. A professora mandou que eles trocassem abraço de confraternização. Ela quis chorar, mas fingiu confraternizar, tentou lembrar do espírito natalino, do perdão, do amor fraternal, não conseguia. Relembrava as humilhações passadas durante o ano.

Abraçava agora seu maior inimigo, aquele que puxava suas trancinhas e cuspia em suas costas. Aquele que derrubava o seu lanche e que a impedia de brincar na hora do recreio com os demais alunos do grupo. Aquele que apelidava devido os sapatos ortopédicos para corrigir seus pés. Ele era bem mais velho que ela, e estava atrasado na escola devido às reprovações. Filho de um fazendeiro das redondezas, fora estudar na mesma escola dela como um castigo. Para os pais da garota, estudar naquela escola era um prêmio, devido ao esforço para pagá-la. Para os pais dele era uma forma de castigar o filho, por não ser uma das melhores da cidade. E lá estava o menino, uma criança, mas com ar de riquinho, humilhando todas as criancinhas ao redor. Mas a sua vítima favorita era a humilde menina magrela de pernas tortas e cabelos compridos. Procurava entender porque o espírito natalino tinha que obrigá-la a abraçar alguém que tanto lhe maltratara e que ela tanto odiava. Mas optou pela trégua, embora ainda não soubesse o significado dessa palavra.

Ele não deu trégua. Parecia que aquela brincadeira havia caído como luva. Que ironia do destino receber o presente exatamente das mãos da “menina bobona da sala”. Desembrulhou o presente e não perdeu a oportunidade de provocá-la novamente. “-um carrinho? Mas que carrinho idiota”. Ele entregara um carro 10 vezes maior, não tinha porque se contentar com um carrinho. A professora quis intervir, dizer que o importante era o sentimento e a troca de lembranças. Mas ele não se conformava com a bugiganga e ria com todos os demais, a menina só segurava as lágrimas. Ela bem que queria ficar com o presente ele era azul e bonito, não era grande coisa, mas pelo menos era melhor do que as meias bobas que ganhara. E ninguém queria o carrinho idiota. Todos seguiam o líder das chacotas.

O menino começou a espernear e chorar dizendo que tomaria o presente de volta jogando o carrinho no chão, logo o que tivesse seu presente tirado de suas mãos não poderia sair perdendo e tomaria do seguinte até chegar ao último. Assim a brincadeira iria se desfazer por sua culpa, por culpa do seu maldito presente. Até ela começava a odiar o carrinho, quando alguém se aproximou do cantinho onde o brinquedo se encontrava e o pegou com carinho. Perguntou ao dono se ele não gostaria de trocá-lo pelo seu presente. Não que ele não tivesse gostado, mas preferia o carrinho. “- Fique com ele, me dê o seu”. Era um perfume alfazema daqueles comprados em supermercado, mas ele preferiu este àquele vindo da menina. Ela agradeceu ao amiguinho que fez a troca e por tê-la salvo da humilhação. Ele falou que realmente tinha gostado da lembrança. Mas não pode, pensava ela: “aquele carro era realmente idiota”. Ela recebeu um favor de alguém que nem mencionou natal para sua atitude, o seu herói marcara para sempre suas festas seguintes. Como você pode salvar alguém sem pedir nada em troca ou se justificar por uma data? Todo dia é o dia de fazer o bem. Com nenhum dos dois meninos manteve muito contato, nem o primeiro tornou-se inimigo e nem o segundo seu amigo, ano seguinte se separaram. Mas ambos marcaram a seu tempo.

Nos anos posteriores brincou normalmente ignorando o perigo de reencontrar novamente alguém desagradável. Era como uma roleta russa, as chances de encontrar alguém querida era maior. Mas com o tempo foi percebendo que esta era uma brincadeira idiota. Ninguém se conformava com o que ganhava. Todos faziam uma cara falsa de conformados, ou outros demonstravam o desgosto. Ela não entendia porque insistiam em confiar a alguém a compra de seu presente. Trocar presentes por que? Não seria melhor se presentear ou presentear alguém sem esperar nada em troca. Era vista como amarga, ou que não entendia o verdadeiro espírito, mas ela não se recusava a se confraternizar, só não gostava do amigo secreto.

Naquela manhã, ela ficava sossegada em não ser obrigada a abraçar ninguém e o melhor entregar presente a quem não merecesse, pela primeira vez expressava a sua opinião, ou parte, ainda era hipócrita, não podia machucar pessoas queridas dizendo que Natal era uma farsa. Sobre o pensamento alto de natal ser comilança, corrigiu à colega: é comer e repartir o pão. Viva o natal, viva o amor fraternal.

Inspiração: Estava na fila do banco e comecei a pensar na chatice que é amigo secreto. Como a fila não andava resolvi escrever algo. Viajei um pouco, mas tem cenas da minha infância.

Gerlandy Leão

 

janela_noite041.jpgAquele ano parecia devolver o sabor ao meu Natal. Como sempre, para mim sempre se tratou de um feriado interessante qualquer. Ano estava na casa de um conhecido, ano estava na casa de um amigo, mas aquele não. Aquele eu tinha a oportunidade de sonhar novamente, e de me sentir comum como os demais mortais, cristãos ou não. Pela primeira vez comemoraria esta data ao lado de um amor, portanto idealizava todo o romantismo. Aquele ano tinha sido importante, finalmente meu coração se amolecia, finalmente eu me apaixonava.

Prometi fazer aquela noite agradável especial. Os últimos meses eram marcados por dificuldades, principalmente pelo meu esforço de fazer dá certo tudo. Sua frieza me incomodava e a dúvida sempre me assolava. Mas apesar disto aquela noite havia um esforço de ambas as parte para que estivéssemos bem. Éramos poucos, uma pequena família e ignorávamos as grandes comemorações que aconteciam cidade a fora. Nosso modesto jantar e o programa de assistir filmes parecia tão perfeito para mim.

A felicidade era tão barata, mas com um sabor tão grande que eu sabia que me lembraria por muito tempo daquilo. E lembrei mesmo, mas por outro fato. Por um momento me vi perdida quando tentava encapsular aquela cena na minha mente. Fiquei temerosa em perder aquela felicidade ideal, felicidade esta que eu me agarrava como alguém que se apega a um prato de sopa diário, sem entender o valor de uma mesa farta. Quando prova deste banquete, lembra-se com muito carinho de sua sopa que lhe fez tanto companhia, no entanto compreende que não é mais suficiente para si. Naquele momento eu só queria a sopa. Tudo era motivo de medo, de desconfianças, de insegurança.

Espantei-me quando o vi olhando pela janela para o horizonte. Aquele ato não foi cronometrado, mas alguns segundos ou quem sabe poucos minutos, pareceram se eternizar, tempo que inquietou bastante. Que cena! Eu na cama a olha-lo na janela, ele olhando por cima dela enquanto pensava e seus olhos se perdiam. Ambos no quarto fisicamente, mas em pensamentos estávamos distantes. Uma coisa eu tinha certeza: nem ele nem eu estávamos naquele Natal. Eu estava no Natal futuro, tentando imaginar como seria minha vida sem sua presença, isso eu sabia, não poderia durar muito. Ele estava relembrando algum Natal no passado. Pedia por todos os santos que não fosse no ano anterior.

Me aproximei e o abracei chamando-lhe a atenção de que eu ainda estava no quarto. Ele deu um leve sorriso com um lado da boca, me deu um beijo na testa e me abraçou de forma terna. Não falou nada, continuou olhando pela janela abraçado a mim. Eu também continuei olhando. Por um momento quis esquecer os outros tempos. Para mim importava agora o presente. Os fogos da meia-noite explodiam lá fora. A felicidade reinava ali novamente.

Inspiração: Um certo Natal há alguns anos. Neste ano ganhei de natal um livro de anotações e o primeiro texto que escrevi foi este. Estive relendo algumas coisas e depois de enxugar alguns escritos achei oportuno publicar. É meio down, mas acho bonito. Mostra como devemos viver o presente. É isto o que importa para mim agora. O que passou, passou.

imagem: uma linda janela. http://thiroux.cgmax.blog.br/files/2007/04/janela_noite04.jpg

 Gerlandy Leão

 

 simone.jpgEntão chegou o fim do ano.

Dezembro é dezembro pelo menos 20 dias antes do início do mês quando as ruas já estão enfeitadas para vender. O povo, o comércio insiste em terminar o ano antes do tempo.  É assim com todas as datas, mas natal é pior. Não se preocupem, este não é mais um daqueles artigos falando que o natal é comercial, isso você já sabe, na verdade nem eu sei sobre o que é. Ta é meu primeiro post do mês de dezembro e embora tenha dito que meu blog não é termômetro da minha vida, de como me sinto, sou levada pelo o que ocorre, e estamos em natal. Todo lugar enfeitado de vermelho e verde, as musiquinhas mais chatas da face da terra, acho que não perdem nem para as músicas de carnaval.

 

Dezembro! Dezembro é um mês bem chato, principalmente para quem é estagiário ou trabalha como cooperada como eu, logo não temos direito a 13° salário. Vejam que sofrimento, todo mundo pagando as continhas ou mesmo fazendo novas e eu juntamente com meus colegas escragiários, nos contentamos em chupar o dedo, porque nem dindin para comprar um pirulito Pop dá.

 

Eu nem queria mesmo. Cresci sem comemorar natal por nascer em uma casa que sabia que o natal tinha origem pagã. Nós éramos     os únicos cristãos que não comemoravam natal. Sim, pois sabíamos que este lance de nascimento de Jesus tinha sido uma grande jogada, ouvíamos até que a origem das bolas de natal eram cabeças de pessoas que eram arrancadas e colocadas numa grande árvore, em regiões que as pessoas dançavam ao redor cultuando o deus-sol. Cristão que é cristão não comemora natal. A própria bíblia que os cristãos tanto se baseiam, não cita data de nascimento de cristo, cita o dia da morte 14 de nisã, mas nascimento. EU não tenho textos para citar aqui sobre natal pagão, ta certo eu fico devendo algo, vou escrever a respeito, ou melhor, vou nada, é só digitar no deus google (ele se tornou nosso deus agora) e procura a verdadeira história do natal.

 

Papai noel outra figurinha adorada por crianças apesar de deixar de acreditar lá pelos 8 anos, só me lembro de 3 referências a ele. Uma foi porque o filho da mãe só visitava a casa de uma vizinha chata na esquina. Toda vez eu via ele chegando puxando um saco e eu não sabia porque de lá ele não descia para minha casa. Outra vez deixei meu tênis na janela, sério, ouvi aquela musiquinha. Coloquei lá, dormi tranquilamente crente que amanheceria com um presente dentro do meu tênis. Mas nada. Minha mãe sorriu de mim quando eu falei, não entendi o porquê do riso. Lembro outro momento de acordar numa manhã do dia 25 com um troço embaixo do meu travesseiro. Quando olhei era um conjuntinho de cozinha, para brincar de casinha. Saí correndo para encontrar minha mãe e saber quem me dera, ela insistiu que tinha sido papai noel, todos insistiram que tinha sido papai noel. Mas já era tarde, não acreditava mais. Só muitos dias depois com muita insistência descobri que tinha sido uma vizinha, uma senhora que gostava muito de mim e eu dela. Ela pediu à mamãe que não dissesse que tinha sido ela, queria incentivar minha imaginação. Não sou contra o papai noel por isso. Acho até legalzinho realmente essa imaginação, e esse brilho nas crianças. Mas o perigo é que quem pode se veste de papai noel e agrada aos filhinhos, quanto aos demais ficam sofrendo. De qualquer forma cada um alimenta como bem quer a sua casa.

 

Lá em casa era assim. Não tinha esses lance de árvore, bolinhas, presépios, ceia, nada nada. Não temos obrigação de dá presente em datas estipuladas pelo comercio. Eu senti falta muitas vezes, é certo, mas aprendi a entender. Não estou dizendo que não posso presentear pessoas atualmente, mas independe do natal. O lance é que nos sentimos influenciada por esse espírito, ta chegando fim do ano mesmo, aí vem aquele espírito melancólico de o tempo ta passando.

Se você como eu não liga muito para esse negócio deve aproveitar o natal como eu. Lanchando na casa de algum amigo ou assistindo filmes, porque dormir não dá, já que todos nossos vizinhos estão acordados ouvindo aquele somzinho, afinal há coisas mais interessantes do que ouvir a Simone cantar “Então é natal”. Por falar em filmes, sei que existem uns bem enjoadinhos, mas tem uns maravilhosos que eu adorei e recomendo.

a)      Edward – mãos de tesoura: Quem não assistiu este filme? Acho que todos. Johnny Depp, naquela história mágica, sinistra, linda e emocionante;

b)      O estranho mundo de Jack: É animado e de Tim Burton o mesmo diretor deste acima, então já dá p imaginar que não podia ser diferente. O filme é maravilhoso com o famoso” que é isso?”. O encontro de Jack com o natal mostra como nem sempre dá certo esse lance de negar sua cultura. Tem momentos super empolgantes como “Pega o papai Cruel, bata ele bem, deixa ele descansar na linha do trem”;

c)      Esqueceram de mim: Me dêem desconto. É uma bela lembrança da infância. E vamos e convenhamos era super divertido ver o Joe Pesci apanhando para a o Calkin. Prova de que a inteligência é superior à força.

d)      Simplesmente amor: Uma comédia romântica de múltipla história lindíssima. É sim aquele que tem o Rodrigo Santoro. É bom para relaxar e pensar no amor;

e)      O Grinch: È Jim Carrey mas não dá para saber que é ele, um ser que vive no lixo. Uma das melhores críticas ao natal. “Vocês onde vai parar esse monte de presentes que vocês compram todo ano? NA MINHA CASA. NO LIXO?”.

f)        Os fantasmas contra atacam: Como sempre é ótimo ver o mal humorado Bill Murray num papel mal humorado, criticando também o natal e ao mesmo tempo fazendo uma análise sobre sua vida passada e futura. É ele vive viajando com a ajuda de fantasmas no futuro e no passado, já dá para saber porque eu gosto né? Sou fã de viagem ao tempo;

g)      Enquanto você dormia: uma das minhas comédias românticas preferidas. Uma história simples, sem grandes pretensões, mas tão singela. Dá uma paz muito grande ver aquelas trapalhadas. Bill Pulman e Sandra Bulock, geralmente sem sal, fizeram um bom casal;

h)      Feliz Natal: taí um típico filme que pelo título deve-se imaginar que se trata de uma história boba, mas se trata de um delicioso filme francês. Assisti recentemente essa história que fala sobre a primeira guerra mundial, em uma noite de natal em que escoceses, alemães e franceses, dão uma trégua e comemoram juntos o natal. È aquela história: amanhã eu te mato, mas hoje vamos cantar “Noite feliz!!!”. Se a grana tiver curta, assista pelo menos este.

É, não tenho muita opção para dezembro, a não ser ficar andando de confraternização em confraternização, comendo, dançando, e me divertindo, ou fazer uma caridade que deve ser feita o ano todo. Mas é que só em dezembro a gente tem um dinheirinho por causa do 13°. Xi, ia esquecendo, não tenho isso. Então plagiando a idéia do meu amigo Aarão (veja http://bibliomutante.wordpress.com/2007/12/11/colabore-com-o-meu-natal/), convido você cristão a alegrar

meu natal.

 

 inspiração: Ah não preciso falar né?

Gerlandy Leão

 

Estive olhando o meu arquivo de publicações no mês de novembro e pensei: Daqui alguns anos quando retornar a ler vou pensar que este mês estava tomada por um espírito lúgubre. Já expliquei que cresci achando a morte até legal, uma vez que se tratava da passagem daqui para um mundo melhor. Apesar disso, é óbvio que sofria pela ausência da pessoa, fosse as que me deixaram, fosse as que deixaria com a minha morte.

Mas por que novembro? novembro inicia com os finados, porém não quero deixá-lo marcado como um mês fúnebre para mim. Ao contráio, tenho que louvar vidas maravilhosas deste. Então por que falar de morte se posso falar de vida? Tenho uma prima que nasceu nasceu dia 2, um primo no dia 9, minha irmã-melhor amiga dia 22 e este ano fui presenteada com um sobrinho que nasceu dia 10.

Receber a notícia de ser tia nem sempre quer dizer que você está velha, a exemplo, minha irmãzinha que tem 9 aninhos e já se tornou titia mesmo sendo nossa caçulinha. Mas isto não me livra de cair na real de que estamos envelhecendo cada dia mais rápido. Há dez anos comemorava meus 15 anos (com direito a todos rituais bregas). Essa data demorou tantao chegar, mas foi só o tempo de amarrar o cabelo já estava com 20 anos, depois num instalar de dedos estava com 25. Minha nossa senhora, (é minha ou é nossa?) é provável que num piscar de olhos eu seja trintona.

Sei que tempo é relativo, inclusive li há alguns dias de uma pessoa com minha idade que para um adolescente somos “uma tiazona de 25 anos, para um coroa, uma gatinha de 25 anos”. Mas não gosto nem de um nem do outro. Detesto conflitos de gerações, por isso, que eu me lembre nunca fiquei com uma pessoa mais nova ou mais velha 3 anos do que eu. Não é que eu force não querer. é que acabo não me interessando. Na verdade me interessei uma vez. Eu tinha 18 anos e ele 14. Um pirralho né? mas era daqueles bem nutridos, que aumentam a idade e conseguem enganar. O garoto vivia no meu pé, e eu tive uma conversa com ele: “Olha aqui meu filho, você é uma fofura, mas me procurre daqui 4 anos, quando você tiver pelo menos 18 anos e assim não serei acusada de pedofilia; Pode me ligar no dia do teu aniversário, a gente toma um sorvete juntos”. Ele topou o acordo e o menino crescia em graça, saúde e charme (parece narração bíblica).Ao completar 16 anos eu quis quebrar o acordo porque ele já estava irrestível. Mas segui firme no meu proposito.

Dois anos depois eu descumpri o acordo, pois estava namorando e não é só por questões de fidelidade, é que quando me apaixono fico aquela monogâmica que só tem olhos para o amado. Então o pirralho que já era um rapagão não me atraía. Mas como prêmio de consolo ele ficou com minha irmã. Que horror né? mas não foi sacrifício para nenhum dos dois e eu não fiquei como tratante.

Pois é, lembrei dele porque ele é pai agora. Poxa até aquele que eu desprezei por ser menino é pai, meu irmão, um ano mais novo que eu é pai. Minhas amigas de infância, exceto uma, as demais são todas mães. E é por isso que eu penso estou envelhecendo. Foi isso que eu sempre pensei, não tenho medo da morte, tenho medo da velhice, uma velhice solitária, sem pessoas legais ao meu lado. Lembro de uma cena do filme Caçadores de emoção, quando um personagem diz que deseja morrer ao surfar na maior onda do mundo: Eu não desejo chegar mesmo aos 30 anos. Ele radicalizou é certo, mas ele queria uma vida mais agitada e se morresse fazendo gostava o deixaraia feliz. Melhor morrer jovem e feliz que velho e amargurado. Até porque as pessoas não choram com morte de velhos, é muito raro você ver alguém emocionado com essa perda, tá todo mundo esperando mesmo. Quanto aos jovens, entram na história.

Aí me disseram para eu fazer um filho e assim ter garantido uma companhia na velhice. Que horror, fabricar um ser humano para isso. Deixo isso para pensar depois . Tem tanta gente necessitando de carinho e amor. Vou fazer filho para me fazer companhia? Falando em filho lembro novamente do meu sobrinho. Por que todos bebês são lindos? Foi tão emocionante vê-lo entrar pela porta, tão indefeso, tão cheiroso, igual à minha irmãzinha, entrou em casa nos braços de minha mãe com um par de olhos arregalados e com mãozinhas que pareciam palitos de fósforos, olhando para o teto, olhando para mim. Ah tã linda, a recém nascida mas linda que eu já vi. Também lembro quando fui visitar minha irmã mais velha no hospital. Puxa, eu lembro do nascimento da minha irmã de 22 anos que é três anos mais nova que eu. A minha irmãzinha agora é uma irmãzona e eu? e eu?

Pois é este o meu medo. Não é da vida, não é da morte, não é da velhice é da solidão ou será não? Ao mesmo tempo será mesmo gracioso, ser uma velhinha bonitinha com um monte de gente ao meu redor segurando o bolo e soprando as velinhas de cem anos por mim porque eu já não tenho força.

Aff é melhor nem pensar. Enquanto não fico velha, vou ao recreio. É clichê essa frase, mas vou me finalizar com ela: A vida é curta então curta a vida.

inspiração: e eu sei lá. só besteiras mesmo