Gerlandy Leão

 

“- Eis o verdadeiro sentido do espírito natalino: a comilança e a troca de presentes”. Dizia isto a uma pessoa ao lado, após engolir uma fatia de rocambole, enquanto admirava a bela mesa ornamentada de doces, salgados e frutas de um lado e a outra repleta de presentes dos funcionários da empresa esperando o momento para serem entregues aos seus donos. Foi repreendida pela colega de trabalho que ansiosamente aguardava a hora do amigo secreto “- Não é bem assim, natal é mais do que isso.” Realmente não era só isso. O natal poderia ser visto como uma data de confraternizações, na verdade ela via como o momento mais adequado para por em prática todo o seu talento de artista em um palco do Teatro da hipocrisia. Não que a hipocrisia fosse de todo ruim, pois equilibrava a vida em muitos momentos.

Havia aprendido a ser hipócrita bem cedo, ainda cursava as séries iniciais do ensino fundamental. Era chegada hora dos sorteios dos nomes, mas antes, um aviso da tia professora: “- crianças, estamos participando de um amigo secreto, momento que vocês precisam provar que são capazes de guardar esse segredo como se guarda algo bem precioso e que não queira repartir com ninguém a não ser no dia adequado.

Estava preparada para guardar o segredo, mas não para retirar aquele nome. Desenrolou o papel com a duas mãos há pouco mais de um palmo de distância do rosto, percorrendo os olhos pelas letras escritas no mesmo sem acreditar no que lia. Os olhos elevaram-se por cima do papel buscando encontrar o amigo até encontrá-lo no canto da sala com um sorriso demonstrando satisfação pelo amigo sorteado. Dobrou o papel e procurou a professora: “- esse eu não posso tia porque…”, a mesma nem quis ouvi-la, apenas repetiu que era o seu segredinho e que seria divertida a brincadeira da adivinhação.

A mãe comprou um carrinho de plástico, simples, mas bonito. Finalmente os amigos se divertiam enquanto ela ficava nervosa ao perceber como os seus coleguinhas se saíam na apresentação e logo após se abraçavam ao entregar os presentes. Seu momento se aproximava. O que ela diria? A vontade que tinha era dizer: eu odeio meu “amigo”, mas não podia, tinha que se comportar como uma mocinha. Havia pensado em fingir alguma doença só para não ter que fazer aquilo, mas não fez, agora estava arrependida, segurando o carrinho nas mãos. Chegou sua hora, e de cabeça baixa só falou o nome do “inimigo”. A professora mandou que eles trocassem abraço de confraternização. Ela quis chorar, mas fingiu confraternizar, tentou lembrar do espírito natalino, do perdão, do amor fraternal, não conseguia. Relembrava as humilhações passadas durante o ano.

Abraçava agora seu maior inimigo, aquele que puxava suas trancinhas e cuspia em suas costas. Aquele que derrubava o seu lanche e que a impedia de brincar na hora do recreio com os demais alunos do grupo. Aquele que apelidava devido os sapatos ortopédicos para corrigir seus pés. Ele era bem mais velho que ela, e estava atrasado na escola devido às reprovações. Filho de um fazendeiro das redondezas, fora estudar na mesma escola dela como um castigo. Para os pais da garota, estudar naquela escola era um prêmio, devido ao esforço para pagá-la. Para os pais dele era uma forma de castigar o filho, por não ser uma das melhores da cidade. E lá estava o menino, uma criança, mas com ar de riquinho, humilhando todas as criancinhas ao redor. Mas a sua vítima favorita era a humilde menina magrela de pernas tortas e cabelos compridos. Procurava entender porque o espírito natalino tinha que obrigá-la a abraçar alguém que tanto lhe maltratara e que ela tanto odiava. Mas optou pela trégua, embora ainda não soubesse o significado dessa palavra.

Ele não deu trégua. Parecia que aquela brincadeira havia caído como luva. Que ironia do destino receber o presente exatamente das mãos da “menina bobona da sala”. Desembrulhou o presente e não perdeu a oportunidade de provocá-la novamente. “-um carrinho? Mas que carrinho idiota”. Ele entregara um carro 10 vezes maior, não tinha porque se contentar com um carrinho. A professora quis intervir, dizer que o importante era o sentimento e a troca de lembranças. Mas ele não se conformava com a bugiganga e ria com todos os demais, a menina só segurava as lágrimas. Ela bem que queria ficar com o presente ele era azul e bonito, não era grande coisa, mas pelo menos era melhor do que as meias bobas que ganhara. E ninguém queria o carrinho idiota. Todos seguiam o líder das chacotas.

O menino começou a espernear e chorar dizendo que tomaria o presente de volta jogando o carrinho no chão, logo o que tivesse seu presente tirado de suas mãos não poderia sair perdendo e tomaria do seguinte até chegar ao último. Assim a brincadeira iria se desfazer por sua culpa, por culpa do seu maldito presente. Até ela começava a odiar o carrinho, quando alguém se aproximou do cantinho onde o brinquedo se encontrava e o pegou com carinho. Perguntou ao dono se ele não gostaria de trocá-lo pelo seu presente. Não que ele não tivesse gostado, mas preferia o carrinho. “- Fique com ele, me dê o seu”. Era um perfume alfazema daqueles comprados em supermercado, mas ele preferiu este àquele vindo da menina. Ela agradeceu ao amiguinho que fez a troca e por tê-la salvo da humilhação. Ele falou que realmente tinha gostado da lembrança. Mas não pode, pensava ela: “aquele carro era realmente idiota”. Ela recebeu um favor de alguém que nem mencionou natal para sua atitude, o seu herói marcara para sempre suas festas seguintes. Como você pode salvar alguém sem pedir nada em troca ou se justificar por uma data? Todo dia é o dia de fazer o bem. Com nenhum dos dois meninos manteve muito contato, nem o primeiro tornou-se inimigo e nem o segundo seu amigo, ano seguinte se separaram. Mas ambos marcaram a seu tempo.

Nos anos posteriores brincou normalmente ignorando o perigo de reencontrar novamente alguém desagradável. Era como uma roleta russa, as chances de encontrar alguém querida era maior. Mas com o tempo foi percebendo que esta era uma brincadeira idiota. Ninguém se conformava com o que ganhava. Todos faziam uma cara falsa de conformados, ou outros demonstravam o desgosto. Ela não entendia porque insistiam em confiar a alguém a compra de seu presente. Trocar presentes por que? Não seria melhor se presentear ou presentear alguém sem esperar nada em troca. Era vista como amarga, ou que não entendia o verdadeiro espírito, mas ela não se recusava a se confraternizar, só não gostava do amigo secreto.

Naquela manhã, ela ficava sossegada em não ser obrigada a abraçar ninguém e o melhor entregar presente a quem não merecesse, pela primeira vez expressava a sua opinião, ou parte, ainda era hipócrita, não podia machucar pessoas queridas dizendo que Natal era uma farsa. Sobre o pensamento alto de natal ser comilança, corrigiu à colega: é comer e repartir o pão. Viva o natal, viva o amor fraternal.

Inspiração: Estava na fila do banco e comecei a pensar na chatice que é amigo secreto. Como a fila não andava resolvi escrever algo. Viajei um pouco, mas tem cenas da minha infância.

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