Gerlandy Leão

 

janela_noite041.jpgAquele ano parecia devolver o sabor ao meu Natal. Como sempre, para mim sempre se tratou de um feriado interessante qualquer. Ano estava na casa de um conhecido, ano estava na casa de um amigo, mas aquele não. Aquele eu tinha a oportunidade de sonhar novamente, e de me sentir comum como os demais mortais, cristãos ou não. Pela primeira vez comemoraria esta data ao lado de um amor, portanto idealizava todo o romantismo. Aquele ano tinha sido importante, finalmente meu coração se amolecia, finalmente eu me apaixonava.

Prometi fazer aquela noite agradável especial. Os últimos meses eram marcados por dificuldades, principalmente pelo meu esforço de fazer dá certo tudo. Sua frieza me incomodava e a dúvida sempre me assolava. Mas apesar disto aquela noite havia um esforço de ambas as parte para que estivéssemos bem. Éramos poucos, uma pequena família e ignorávamos as grandes comemorações que aconteciam cidade a fora. Nosso modesto jantar e o programa de assistir filmes parecia tão perfeito para mim.

A felicidade era tão barata, mas com um sabor tão grande que eu sabia que me lembraria por muito tempo daquilo. E lembrei mesmo, mas por outro fato. Por um momento me vi perdida quando tentava encapsular aquela cena na minha mente. Fiquei temerosa em perder aquela felicidade ideal, felicidade esta que eu me agarrava como alguém que se apega a um prato de sopa diário, sem entender o valor de uma mesa farta. Quando prova deste banquete, lembra-se com muito carinho de sua sopa que lhe fez tanto companhia, no entanto compreende que não é mais suficiente para si. Naquele momento eu só queria a sopa. Tudo era motivo de medo, de desconfianças, de insegurança.

Espantei-me quando o vi olhando pela janela para o horizonte. Aquele ato não foi cronometrado, mas alguns segundos ou quem sabe poucos minutos, pareceram se eternizar, tempo que inquietou bastante. Que cena! Eu na cama a olha-lo na janela, ele olhando por cima dela enquanto pensava e seus olhos se perdiam. Ambos no quarto fisicamente, mas em pensamentos estávamos distantes. Uma coisa eu tinha certeza: nem ele nem eu estávamos naquele Natal. Eu estava no Natal futuro, tentando imaginar como seria minha vida sem sua presença, isso eu sabia, não poderia durar muito. Ele estava relembrando algum Natal no passado. Pedia por todos os santos que não fosse no ano anterior.

Me aproximei e o abracei chamando-lhe a atenção de que eu ainda estava no quarto. Ele deu um leve sorriso com um lado da boca, me deu um beijo na testa e me abraçou de forma terna. Não falou nada, continuou olhando pela janela abraçado a mim. Eu também continuei olhando. Por um momento quis esquecer os outros tempos. Para mim importava agora o presente. Os fogos da meia-noite explodiam lá fora. A felicidade reinava ali novamente.

Inspiração: Um certo Natal há alguns anos. Neste ano ganhei de natal um livro de anotações e o primeiro texto que escrevi foi este. Estive relendo algumas coisas e depois de enxugar alguns escritos achei oportuno publicar. É meio down, mas acho bonito. Mostra como devemos viver o presente. É isto o que importa para mim agora. O que passou, passou.

imagem: uma linda janela. http://thiroux.cgmax.blog.br/files/2007/04/janela_noite04.jpg

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