Gerlandy Leão

figueirabf.jpgPobre figueira! condenada ao corte, condenada a ser lançada ao fogo simplesmente porque os homens do Homem da Galiléia não encontraram frutos para alimentarem-se. Que ninguém coma de ti nenhum fruto”, foi amaldiçoada pelo líder do grupo. Dia seguinte foi verificada novamente por aqueles homens na esperança de encontrarem algo e, tudo o que viram foi uma árvore seca até a raiz, “árvore sem frutos não merece viver”. Revoltados com a falta de consideração daquela figueira indelicada e inconseqüente, desembainharam suas espadas para desmembrá-la.

Enquanto perdia cada resto de folha, cada galho, cada membro do seu corpo sentia o seu desaparecimento sobre a face da terra. Deveria mesmo pagar por ter se recusado a ceder um fruto? Por ser uma época de colheita e diferente das demais árvores que possuíam fartos galhos, aquela parecia estéril, inútil e desnecessária. Mas a verdade só ela sabia.

 

Até algumas semanas antes, ela retirava um sorriso de uma criança ao ceder o último figo que possuía em seu corpo. Depois de alimentada voltou para  correr com seus demais amigos. O fruto oferecido era raquitíco, desprovido de todas vitaminas necessárias, mas mantinha o seu sabor, sendo resultado de um esforço “sobrebotânico”.


Tudo começou na estiagem, quando não era possível encontrar uma “fruta vivente”. Aquela árvore que era ingênua e imatura não aceitava esperar tanto. Não compreendia o tempo exato, desconhecendo as estações do ano.


Recebeu a visita de uma menina que depois de sondar por entre todas as folhas, saiu cabisbaixo concluindo “aqui também não tem nenhum”. E a figueira endendera o que ela procurava decidindo que a próxima vez seria diferente e contrariando a natureza das demais árvores que descansavam e poupavam energia para ser utilizada no momento adequado, ela ousava desafiar. Formou os pendúculos e logo em seguida vieram o cálice, a corola, o androceu e o gineceu. Pronto, estava florida e bela, aguardando mais um momento para trasnformá-las em frutos a serem distribuídos àquela garotinha.


Foi quando apareceu outra criança que apenas queria brincar por seus galhos, no entanto percebeu as flores e animou-se, pois entendera que em alguns dias teria do que alimentar-se. Era melhor ficar quieta e visitar a sua árvore sem que ninguém a seguisse ou mesmo a percebesse. Até aí a inexperiente figueira se sentia capaz de alimentar mais uma pessoa com a pouca reserva que possuía.


Inicou a sua polinização contando apenas com a sua ajuda. O seu movimento provocou uma pequena brisa suficietnte para que o grão de pólen atingisse o estigma da flor. Suas raízes secundárias passaram a buscar por água e sais minerais, que através de muito esforço os enviavam pelas demais partes do tronco até chegar à folha obrigando que todo o alimento recebido através da fotossíntese fosse direcionado para o rápido processo de fecundação. Apesar das dificuldades, os primeiros resultados começaram a surgir.


Ainda repousava ao sentir um menininho retirando uma parte de seu corpo para construir uma armadilha e assim alimentar-se com o pequeno mamífero que pretendia capturar. Mas, indagou-se “para que caçar?”, poderia colher o que mais gostava. E não contentou-se, precisava avisar a todos que possuía uma belíssima figueira, a única útil dentre tantas naquela região. Com o tempo não tinha que alimentar uma, mas várias crianças famintas.


Houve turnos em que alguém poderia se deitar por horas curtindo suas sombras e deliciar-se com os figos que desapareciam e perdiam qualidade a cada dia. Mas continuava tentando produzir, até não conseguir mais, caindo em sono profundo devido ao estresse. Exatamente, as árvores da antiguidade também eram capazes de estressarem.


Depois do último fruto colhido, não viu mais ninguém, a não ser quando foi despertado pela multidão, “mas que diabos este povo faz por aqui?”. Conseguiu vizualizar que era a única árvore vazia em toda região. Não podia ser ouvida, para explicar que não era tão inútil como parecia ser. E onde estariam aquelas crianças que alimentara durante toda a estiagem? elas bem poderiam ser testemunhas, mas não haviam nem mesmo levado um copo dágua ou um fertilizante, portanto não poderia esperar tanto como uma defesa em público.


Agora estava seca e era condenada sem direito a julgamento. O castigo seria sumir da face da terra sem deixar nenhum vestígio. Era amaldiçoada a ser esquecida devido a sua inutilidade. Sabia, seus frutos foram poucos, mas foram o seu melhor, na ausência deles poderia oferecer sombra, na ausência das folhas poderia ser algum móvel, mas se sua madeira fosse fraca ainda poderia aquecer alguma família com a sua lenha, só não seria justo desaparecer do planeta como uma inválida.


Estava seca, não morta e agora queimava e em pouco tempo seria apenas cinzas. Indignava-se por ter se doado tanto e sabia que a culpa era daquelas parasitas em forma humana. Ah, como arrependera-se de oferecer ajuda àqueles monstros ingratos. A esta altura o último a acender o fogo já ia distante, deixando-a solitária, queimando deitada no chão. Elevou o olhar e avistou uma de suas usuárias observando-a trazendo consigo uma cumbuca.


Revoltare-se ao imaginar como aquela criança teria coragem de sulgar seu último resquício de vida? como aquela criança ainda tinha esperança de encontrar alguma fruta? como poderia ser tão insensível sem se compadecer? Por que ela não se colocava no seu lugar? E tomada de ódio movimentava-se até conseguir lançar uma brasa nas vestes da pequena que logo foi tomada pelo fogo. A criança resolveu desistir da ideia que a levara até ali, em vez de salvar o pouco que havia da figueira, num ato de egoísmo, emborcou a vazia de água sobre si.

 

inspiração: São Marcos 11: 12-20. a história daquela figueira sempre me impressionou. Sempre achei injustiça a figueira da bíblia ser amaldiçoada fora do tempo. Achei legal contar minha visão e me baseei em umas conversas.

Dedicação: A você que também tem se sentido seco. Eu gostaria de despejar minhas águas em suas raízes, mas acho que não cheguei a tempo.

Imagem: http://www.popa.com.br/imagens/11-04/cisnes/FigueiraBF.jpg