Gerlandy Leão

Você já tentou não orar pelo menos um dia sequer? Essa foi a pergunta mais importante que vi nos últimos 10 anos. E prosseguiu: Não digo um dia, mas pelo menos deixar de orar pelo menos um período? Fiquei parada naquela página do livro que lia. E quis perguntar: é comigo que você está falando? Não era comigo, era com uma personagem do livro que lia “Do Nazismo para Cristo”. Este foi exatamente um daqueles resultados em que o tiro saiu pela culatra. Quando recebi esse livro de um amigo, a idéia era reforçar minha fé.

O livro relatava a vida de uma cristã que se tornou nazista e algum tempo depois se converteu ao cristianismo novamente. Uma personagem nascida em berço cristão se ver seduzida pela vida e ao longo do livro narra seu sofrimento longe dos braços da igreja ao se entregar aos prazeres da carne e às ideologias mundanas. Logo seu intuito era dizer: não saia desse caminho, pois fora dele é muito perigoso. Teria surtido efeito comigo não fosse por essa única frase.

A autora fala (o livro é narrado em primeira pessoa) que, diante as dúvidas de sua espiritualidade, ouviu uma pergunta muito perigosa de sua professora:

Minha querida, você já tentou não orar pelo menos um dia sequer? […] Se você passar uma manhã sem sua prece verá que mal algum te acontecerá. A autora queria falar: meus queridos leitores, aquela era uma armadinha do inimigo. Eu comecei a ver como deixava de orar um dia não me acontecia nada de mau, logo poderia viver uma vida assim. Mas não cedam meus irmãos, não caiam em tentação.

A essa altura eu só repetia: um dia, será que consigo pelo menos um dia? Ela ficaria desesperada se me visse, ou até tentaria dizer, não foi isso que eu quis dizer, mas já era tarde. Depois disso ainda li umas páginas, mas nem cheguei a terminar a leitura do livro de bolso com suas poucas páginas, mas ele já tinha cumprido a sua missão, pois nenhum outro livro herege havia conseguido comigo o que esse evangélico conseguiu.

Igual a um robô programado para fazer tarefas diárias assim fui por muito tempo executando orações todo dia e praticamente o dia todo. Não havia um dia sequer que minhas orações fossem esquecidas de serem realizadas e não se tratava apenas de simples palavras, Deus me ajude, obrigado meu Deus ou me salve. Realizava todo um ritual diariamente mantendo a marca nos joelhos que orgulhosamente chamávamos o sinal da ovelha. De manhã cedo ao despertar me ajoelhava e pedia a ele que não deixasse que tivesse uma cobra embaixo da minha cama. Para depois voltar do banheiro limpa e pura para me ajoelhar verdadeiramente com aquelas palavras pesadas admitindo que vinha,

por meio destas reconhecer que somos lixos diante da tua magnitude e soberania e que não somos merecedores de nada. Para depois agradecer pelo pão, pela vida, pelos céus, pela terra e tudo que neles há, e principalmente pela salvação e por ter enviado o filho amado para morrer na cruz por mim e então pedir que não faltasse o pão aos órfãos e viúvas e que protegesse as autoridades e minha casa.

Sabedora de que se tratava de um pedágio para um bom dia, porque quebrar isso seria como ser um computador sem antivírus, logo ele não tinha obrigação de nos proteger, não deixava de cumprir esse ritual. Sei que isso não foi fácil, digamos que fiquei nervosa, com medo e esperando a qualquer momento acontecer algo de mau comigo. Passei pela primeira prova. Algumas pessoas que o leram viram apenas: Saia da linha e estarás ferrado! (para não falar a outra palavra com F),

Essa experiência não me tirou da igreja imediatamente, mas apenas me abriu novos horizontes. A partir daí, a pequeninos passos, fui compreendendo outras coisas ao ponto de um dia perguntar aos céus se eles não se cansavam de tanta bajulação. Pensei em mim e que me irritaria se ouvisse uma pessoa me agradecendo todos os dias por um presente que dei no dia do nascimento. Ou se a mesma ficasse se humilhando para mim, ou mesmo se todo dia me pedisse para eu dar algo que eu já vou dar mesmo, (sim porque é assim que aprendemos, ele vai nos dar, mesmo assim devemos clamar e pedir).

Além da literatura ouvir algumas palavras hereges em certos filmes me deixou balançada. As palavras proferidas pelo magnífico Al Pacino em Advogado do Diabo sobre Deus me pertubou bastante: “Ele fica mijando de tanto rir! Ele é um sacana, um sádico!”. Tentava levar na esportiva, mas não dava. Dogma e suas bincadeiras com as regras, colaborou também bastante com o que penso hoje. Laranja mecânica e a sensação do que a instituição fizera comigo me deixava maluca, mas dentre tantos importantes Matrix me deu uma chance de saber que eu podia optar realmente entre a ignorância e o conhecimento. Bendito Platão e seu mito da caverna. Vivia analisando sobre isso no meu quarto, conversando comigo sobre minha transformação.

E assim foi durante muito tempo. Fui evangélica durante muitos anos e respeitei durante todo o tempo que fui seguidora. Não fui tentada pelos desejos carnais, mas sim pela necessidade de conhecimentos, com uma mudança de dentro para fora. Pouco a pouco fui rompendo tentando não escandalizar ao grupo de pessoas tão queridas que conheci e conheço, pessoas maravilhosas que apesar de nossas diferenças e de muitas vezes não respeitarem minha decisão, continuam amadas por mim.

A vida fora da igreja não foi fácil, muitos ainda duvidaram da minha saída pensando se tratar de empolgação, apesar de eu nunca ter afirmado não ser mais. Não é fácil dizer sou uma ex evangélica, as pessoas não te dão crédito. Sempre acham que você apenas está afastada, que um dia retornará e que está apenas aproveitando um pouco a vida, ou que vocÊ foi fraca, que não enfrentou seus problemas, que deveria ter mais fé, que deveria esperar no senhor e blá blá blá. Ignoram o teu conhecimento e que você não é uma empolgada para sair “para farra” ou para “passar batom nos lábios”, mas que há algo mais forte que é a sua mente.

Tentei por muito tempo, conter minha vontade de mostrar “meus desejos” para não relacionarem minhas ações à uma evangélica incompleta. E isto nunca me ocorreu. O tempo que vivi foi com paixão, e quando as dúvidas começaram a me assolar, pouco a pouco fui me desvinculando. Só agora consegui retirar a capa que me expresso sem medo. Mesmo assim ainda passo por situações curiosas.

Muitos ainda me vêem como evangélica. No meu bairro ainda sou chamada por Irmã. Se alguém quiser me encontrar por lá não pergunte por meu nome, procure pela Irmã mais velha, filha do Irmão motorista. Sim, porque evangélico não tem nome.

Uma vez um senhor chegou lá em casa perguntando: é aqui que mora o Irmão? – É sim. Respondi. Aí ele pediu que o chamasse. Então perguntei-lhe: o meu pai, o meu irmão ou o meu tio? E ele respondeu-me: o que vende remédio. E eu prossegui: ah, então é o Irmão vizinho que mora aqui ao lado. Não é piada, garanto.

E quando ando com minha irmã, são os comentários. A irmãzinha e a irmãzona. E se minha mãe estiver junta é a Irmã, mãe das irmãs ou ao contrário, as irmãs filhas da Irmã.

Outro dia estava em uma festinha com vestimenta totalmente contrária à adotada pela igreja, ou seja, bermuda, blusinha, brinco e ainda estava dançando. Uma garota perguntou se eu era evangélica. Foi uma pergunta absurda, mesmo assim lhe indaguei o por quê da pergunra. Ela confirmou: “por causa do seu jeito”. Jeito? Que jeito minha gente? Outra vez um rapaz me disse, conheço evangélico só pelo olhar, você é crente? Tal foi o meu susto, pois falou do meu olhar, logo do meu olhar que não é nada inocente, aí vem alguém e me afirma que tenho um olhar de crente.

Aí lembro de um professor que eu adorava conversar e, às vezes aborrecido, soltava um “Porra” para mim e dizia: Teu defeito é que tu ainda é muito cristã. Outro amigo me cobrava que eu me impusesse mais, porque eu era muito humilde, porque aceitava tudo o que me diziam. Por muitas vezes brigou comigo devido as minhas citações bíblicas, ignorando que toda a minha formação tinha sido baseada na bíblia, ignorando toda a minha herança “cultural” – Calma gente! não é assim. Outro se incomoda porque “guardo as coisas para mim”. Dentre muitas outras provocações que ouvi e ouço, só tenho uma resposta para ambos: ocorre comigo algo parecido com o apóstolo Pedro.

Na noite do julgamento de Jesus, Pedro foi indagado três vezes por três pessoas diferentes. Embora negasse, ninguém acreditava, porque ele tinha o jeito e o olhar de seguidor, ele tinha todos os aspectos de seguidor. Pedro não conseguia negar o que era. Mesmo naquela noite tendo cometido algo considerado tão criminoso quanto os que chibataram seu mestre, mesmo ele realmente questionando até que ponto poderia aceitar um deus ser crucificado, mesmo ele querendo desistir daquilo que acreditava, ele não conseguiu negar completamente. As palavras não expressavam o que ele tinha enraizado em seu comportamento e seu jeito de agir. Por outro lado os demais discípulos do mestre se aborreceram com sua atitude de negar. De um lado para alguns as palavras não eram necessárias, já que seu comportamento dizia o contrário e do outro uma simples palavra tinha um poder muito grande.

Pedro, coitado de Pedro.

Pedro, a pedra a qual Jesus disse que faria alicerce de sua igreja, estava numa pior porque se preocupava com o que os outros pensavam. Imagino que ele deve ter sofrido muito sem decidir qual lado da força seguir.

Acho que passei pelo mesmo ou com algo parecido com o ocorrido com Pedro. Sempre preocupada com o resultado de minhas palavras com medo de mostrar exatamente o que acreditava, cheguei a atuar cenas patéticas, de tirar peças de roupa, ou maquiagem, quando via alguém da igreja, ou mesmo pôr aquela calça (considerada uma peça proibida no meio evangélico que eu freqüentava) para que meus demais amigos não debochassem de mim. Isso durou muito tempo, e muitos me cobraram uma atitude, para que eu não fosse hipócrita, sem entender que muitas vezes a hipocrisia é necessária para o equilíbrio da sociedade.

Fiquei por muito tempo preocupada qual resposta dar a ambos os lados, mas isto mudou, graças a mim. Hoje me sinto mais segura e sem medo de ser ou crucificada por romanos, ou desprezada pelos amigos cristãos. Não sou São Pedro e nem preciso mais provar para ninguém o que quero ou o que não quero, ainda bem, eu é que não queria ter um monte de gente me seguindo.

inspiração: So um desabafo mesmo. Há cinco meses estava saindo para o serviço e na porta de casa abaixei a cabeça e comecei a orar. A priori fiquei assustada com meu gesto, mas depois vi como ainda estou acostumada a ser robozinho, mas devagar chego lá.
dedicado: a todos que conseguiram fazer uma leitura além, em especial a você por ter me emprestado aquele livro.