junho 2008


Gerlandy Leão

Gerlandy Leão

A idade não tirou o encanto e inocência de seu belo sorriso. Como gosto de olhar para seu sorriso, como é bom poder admirá-la enquanto folheava uma daquelas revistas que vendem bugigangas. Através dos óculos para leitura de perto, colocados na ponta do nariz, percorria as páginas enquanto procurava algo interessante para comprar. Passava o dedo na ponta da língua e virava a página, gesto que eu sempre reclamava por não gostar dessa sua insistência em utilizar modos de velho. Era a única coisa que a aproximava de uma velhinha, pois apesar de começarem a aparecer os primeiros fios brancos de cabelo que vez ou outra me pedia para eu retirar, ela ainda está longe de ser uma.

Percebeu minha admiração, parou a atividade e virou a cabeça para o meu lado:

– Que foi? perguntou com jeito delicado. Apenas sacodi a cabeça encenando que não havia nada.


Mas ela persistiu com a pergunta, estampando seu sorriso encabulado e interrogativo com expressões e sons que eu não consigo expressar através da escrita, mas geralmente vindas depois de um “oxe!”, “humm, que é hein?” ou apenas “Ó”.


Na verdade eu pensava como minha mãe parece uma menina. Acho que me tornei mais velha do que ela há muito tempo. Imagino que o fato dela me conceber aos 17 anos não a fez amadurecer rapidamente mas sim interromper seu crescimento ao fazê-la trocar suas bonecas de pano por uma boneca de carne, osso, cartilagem …, com diferenças significativas como por exemplo: não poderia ser colocada numa caixa de brinquedos qualquer do jeito que se quisesse, mas precisaria de muitos cuidados.


Ah, minha mãe com seu lindo sorriso, não deu chance a meu pobre pai que sucumbiu diante e ao mesmo tempo ressucitou para uma nova vida ao seu lado. A inocente, sim, embora eu na sua idade fosse mais esperta, minha mama era uma boba menina que esperava brincar de casinha depois do matrimônio. Mas a coisa era mais séria . Logo eu apareci fazendo minha mãe engordar 12 kg e ainda sentir a maior dor, segundo muitas, a dor do parto.


Eu devo ser uma louca, porque não conformada ainda queria mais. Como nós mamíferos humanos somos dependentes das mães por tanto tempo, mas ela nunca reclamou dessa missão e veio me alimentar, me abrigar e me encher de todo amor que poderia dá. Foram noites e dias ao meu lado e mesmo quando foram surgindo os irmãozinhos ela se multiplicou para nos amar por igual e não nos deixar qualquer lacuna.


Fui crescendo e precisamos nos separar. E meus primeiros dias de aula? Por que eu deveria ir à escola? eu só queria ter chorado por me separar dela, mas com um pedido tão confiante seu: “Você está mocinha, não pode chorar, logo logo voltarei”. Para mim não poderia decepcioná-la, então segurei o choro. Lembro-me no dia em que a saudade foi muito forte ao ponto de não me deixar controlar, mas diferentemente das demais crianças, não me esgoelei, esperneei ou fiz qualquer escândalo, apenas deixei rolar uma lágrima percebida por minha professora que interrogou-me o que eu tinha. Envergonhadamente, respondi que precisava ir ao banheiro, mas ela não deixava. É óbvio que depois da cena recebi permissão e enquanto era aguardada pela professora do lado de fora, eu chorava sentada no vaso sanitário. Não lembrava, mas foi aos 4 anos de idade que iniciei a tradição de correr para chorar no banheiro, depois de segurar por muito tempo. Fui recompensada horas depois, ao término da aula, com sua presença na porta da escola sentada em sua Caloi rosa, prontamente para me levar para casa


Desconfio que minha mãe seja doida ou realmente uma eterna menina. Não dá para esquecer as nossas brincadeiras de infância juntas, dentre elas aquela em que subíamos no pé de carambola e lá ficávamos durante a tarde inteira comendo essa fruta com sal.


Cheguei a levar algumas palmadas por malcriação que doeram bastantes e embora nunca tenha falado em arrependimentos, vejo que fica sem graça sempre tocamos no assunto. Por falar em assunto, essa mulher nunca foi boa de conversa, principalmente se tratando de assuntos de meninas, para isso usava metáforas, nisso ela era boa. Acho que herdei esse poder. Outra herança genética ou do meio foi o fato de fingir que não viu, escutar, observar, maquinar, planejar e só então sair para o bote. E claro, estava esquecendo meu pior defeito, a ironia.


Como gosto daquele sorriso bobo quando tá nervosa, quando tá feliz e até quando tá triste ou derrubando tímidas lágrimas que ela simplesmente, para tentar disfarçar, força um sorriso. Não é um sorriso banal, não é disperdiçado à toa, mas tem sua função. Um sorriso que nunca perde a esperança que indica que tudo vai ficar bem e que tudo vai dá certo. Sem ela morreríamos, porque é a energia, a força que alimenta e equilibra nosso lar.


Dizem que um filho só aprende a dá o valor aos pais quando passa a ser também. Comigo não tem sido assim, pelo menos acho que não. Lamento as vezes que dei tanto trabalho, por tê-la magoado e principalmente por não ser uma filha melhor, mas minha mãe é tão perfeita que me quer do jeito que eu sou.


Inspiração: O mÊs de maio tá encerrando daqui duas horas e eu não poderia deixar de esquecer de falar sobre algo importante, essas mulheres maravilhosas. Dentre tantas que existem não poderia esquecer de falar da minha rainha, Dona Eró.