outubro 2008


Gerlandy Leão


Quando a olhei pela primeira vez estava quase perdida nos braços da minha mãe ainda dentro do Táxi. Corri para ajudá-la . Minha mãe em mais uma tentativa de me fazer acostumar com a idéia de ter uma irmã adotiva, tentou entregá-la a mim. Recusei: é melhor eu pegar a sua bolsa. Assim me esquivei da responsabilidade. Não queria mais ninguém em casa, nem por isso estava disposta a desagradar minha mãe.

Euforia em casa, todos comemoravam a chegada de mais um bebê em casa depois da caçula ter completado 12 anos. Eu só perguntava por que levar uma criança já que meus pais tinham idade de muitos avós por aí, apesar de serem jovens ainda.

No primeiro momento não participei da festa de recepção, até porque fui contra desde o início. Apesar disso tentei ser cortez com o bebê tentando conhecê-la.

Quando a peguei no colo senti uma emoção instantânea, mas continuei firme para não mostrar que mudara de opinião tão cedo. Aquela sensação me inquietou. Ela era a recém-nascida mais linda que já tinha visto. Tinha um cheirinho delicioso melhor do que todos os bebês do mundo.  Ela era delicada e indefesa e eu desajeitada e inexperiente tentava encaixa-la nos meus braços. Seus dedinhos pareciam da espessura de um palito de fósforo e tinha os olhinhos tão redondo negros e abertos. Eram curiosos e atentos a cada cômodo da casa que eu lhe apresentava. Boba, eu parecia uma bobona que cedia àqueles olhinhos lindos, sei que ainda não podia sorrir, mas por um momento pensei vê-la sorrindo para mim. Bobagem, em poucos minutos eu dizia: Vou te proteger.

Ela se tornou o motivo de muitos dos meus sorrisos e muitas vezes confidente. Quantas vezes já maiorzinha,  enquanto desenhava em um papel eu lhe desabafava. Era a melhor ouvinte que eu podia ter, não reclamava e também não cobrava. Às vezes me via chorando e me abraçava querendo chorar também.

Nosso quarto se transformou em um palco de sonhos e shows onde nós duas somos popstar’s e fingimos que cantamos para um grande público que enlouquecidos gritam nossos nomes pedindo mais um hit do nosso repertório tão famoso. “Vamos lá galera”, idiota falado por outro cantor, mas nós somos famosos. “ Nega, eu vou te morder!”.

Com ela sou adulta e criança. Adulta quando tento protegê-la, ensiná-la, agradá-la; Criança quando brinco tanto quanto ela, quando somos realmente como irmãzinhas, quando eu deixo que ela penteie o meu cabelo e reclame porque estou com o cabelo liso e ela não. E como é bom acordar ouvindo sua vozinha meiga cantando, tão afinada, tão delicada: “Apaixonado o o, apaixonado o o…”, entre tantas canções que ela gosta de cantar e repete mil vezes no som de casa para meu desespero e dos demais familiares.


Ela veio trazer cor à minha vida e vida às minhas cores. Ela é a menina bonita do laço de fita que alegra minha vida. Impossível imaginar década sem minha linda Lalay.


Gerlandy Leão

Depois de contornar com o anular a face do seu rosto resolveu perguntar:

– Por que acabou?

Ela sonolenta, que alternava entre dormir e manter-se acordada responde ainda de olhos fechados.

– Hum, Porque mesmo.

– Isso não é resposta. Tem que ter um motivo, foi ciúme, traição, brigas…

– Ah! Sei lá. Tudo que tem começo tem fim, né?

Inquieto, vira o corpo e a deixa dormir um pouco, mas interrompe novamente:

– Há quanto tempo?

Há muito tempo.

– Muito tempo como assim?

– Não importa.  Até porque eu deixei de contar.

– Ele foi único?

– Ele foi o único.

– Por isso importante?

Com o rosto enterrado na cama, com a mão estendida na direção dele, dedilha em seu cabelo enquanto responde:

– Tudo na minha vida é importante.

Ele sorri, mas ela não percebe por tentar dormir.

– E ele é bonito?

Já incomodada, vira-se para o outro lado e põe a cabeça embaixo do travesseiro, sendo perturbada novamente:

– E então, ele é bonito?

– Por que você quer saber? Você é incomparavelmente mais bonito.

– O que ele faz?

– Ai que saco. Eu não tenho mais notícias dele.

– Como vocês se conheceram?

– Numa época muito doida. Eu quero dormir agora, posso?

– Mas onde?

– Aqui mesmo. Essa cama é tão macia.

– Não foi isso que perguntei. Quero saber onde vocês se conheceram.

Inquieta ela se vira para ele e o encara:

– Olha, eu ainda era estudante.  Apenas estudante, mera estudante, antes que diga que ainda estudo.

Ah! Então ele foi seu amor. Seu grande amor de colégio, inesquecível amor…

Irritada ela levanta e colhe as peças de roupa largadas pelo quarto levando-as para o banheiro. Enquanto tenta se vestir, consegue finalmente concluir o que nunca se propusera a pensar durante tanto tempo. Enrolada em uma toalha retorna para o quarto e o admira estendido na cama. Orgulha-se de tê-lo tão belo perto de si. Aproxima-se e retira o antebraço que cobre sua visão e entre um leve sorriso responde:

– Se amor é para sempre então não amei. Mas se tem fim… Sim, amei. É pretérito, é passado, logo não amo mais, pois realmente morreu.

Satisfeito ele apenas a abraça.

Gerlandy Leão

Queria saber fumar. Essa era uma das coisas que mais desejava naquela hora. Por que não aprendera a fumar quando adolescente? Se tivesse, agora teria uma boa cena. Estaria com seu cigarro entre os dedos, hora na sua boca, hora para baixo derrubando cinzas no tapete… bem, no tapete não, porque não mais se encontra ali.

Em vez de cigarro, só tinha uma lâmpada incandescente, prestes a queimar. Ele podia contar quantos segundos ela passava acesa ou apagada, logo depois trocaria. Ah! A lâmpada. Uma das poucas que sobrou na casa. Deve ser por isso que ele ainda a mantinha na casa. Se tivesse os cigarros a lâmpada não teria tanta utilidade, pois se distrairia com outras coisas, como a cadeira restante. É uma pequena cadeira que permitia pelo menos deitar-se sobre entendo as pernas e recuar a cabeça para trás e assim visualizar a lâmpada acima de seus olhos. Mais quatro segundos no escuro.

Quando ela ainda morava em sua casa, ele nem percebia o quanto era demorado esses quatro segundos. Ela se incomodava grandemente, aliás, resolveu ir embora porque ele não trocou logo a droga da lâmpada, ou pelo menos, foi esse o motivo da última brigada entre os dois.

Os quatro segundos de escuridão não faziam tão mal assim e porque a incomodava tanto? A escuridão só lhe fazia mal agora que estava sozinho. Será que ela se sentia sozinha? Não. Isso não, pois sempre esteve perto. Não tinha muito tempo, mas sempre perto. E ela tinha companhia de seus cigarros, não poderia reclamar. Pior estava ele agora, tolo que foi, não aprendera a fumar.

Só tinha agora presente a lâmpada idiota, a pequena cadeira e as torneiras, porque até a pia ela levara. Engano, deixou também vaso sanitário e o chuveiro. Ele só disse que ao voltar no término do dia trocaria a lâmpada, mas quando retornou até os armários haviam sidos arrancados. Demorou perceber porque a lâmpada também demorou acender. Foi finalmente quando percebeu que havia esquecido de comprar uma nova.

Com os cigarros na mão que levara para ela perguntava-se o que faria com eles. Se soubesse fumar poderia deixar as cinzas pela casa. Se um dia ela aparecesse veria o quanto está sozinho fumando pelos cômodos da casa. Em vez disso, ela encontraria a lâmpada que tanto a incomodava e que ele não trocou agora por ser a única lembrança que ela deixara para ele.

* ou sobre relacionamentos