Gerlandy Leão


Quando a olhei pela primeira vez estava quase perdida nos braços da minha mãe ainda dentro do Táxi. Corri para ajudá-la . Minha mãe em mais uma tentativa de me fazer acostumar com a idéia de ter uma irmã adotiva, tentou entregá-la a mim. Recusei: é melhor eu pegar a sua bolsa. Assim me esquivei da responsabilidade. Não queria mais ninguém em casa, nem por isso estava disposta a desagradar minha mãe.

Euforia em casa, todos comemoravam a chegada de mais um bebê em casa depois da caçula ter completado 12 anos. Eu só perguntava por que levar uma criança já que meus pais tinham idade de muitos avós por aí, apesar de serem jovens ainda.

No primeiro momento não participei da festa de recepção, até porque fui contra desde o início. Apesar disso tentei ser cortez com o bebê tentando conhecê-la.

Quando a peguei no colo senti uma emoção instantânea, mas continuei firme para não mostrar que mudara de opinião tão cedo. Aquela sensação me inquietou. Ela era a recém-nascida mais linda que já tinha visto. Tinha um cheirinho delicioso melhor do que todos os bebês do mundo.  Ela era delicada e indefesa e eu desajeitada e inexperiente tentava encaixa-la nos meus braços. Seus dedinhos pareciam da espessura de um palito de fósforo e tinha os olhinhos tão redondo negros e abertos. Eram curiosos e atentos a cada cômodo da casa que eu lhe apresentava. Boba, eu parecia uma bobona que cedia àqueles olhinhos lindos, sei que ainda não podia sorrir, mas por um momento pensei vê-la sorrindo para mim. Bobagem, em poucos minutos eu dizia: Vou te proteger.

Ela se tornou o motivo de muitos dos meus sorrisos e muitas vezes confidente. Quantas vezes já maiorzinha,  enquanto desenhava em um papel eu lhe desabafava. Era a melhor ouvinte que eu podia ter, não reclamava e também não cobrava. Às vezes me via chorando e me abraçava querendo chorar também.

Nosso quarto se transformou em um palco de sonhos e shows onde nós duas somos popstar’s e fingimos que cantamos para um grande público que enlouquecidos gritam nossos nomes pedindo mais um hit do nosso repertório tão famoso. “Vamos lá galera”, idiota falado por outro cantor, mas nós somos famosos. “ Nega, eu vou te morder!”.

Com ela sou adulta e criança. Adulta quando tento protegê-la, ensiná-la, agradá-la; Criança quando brinco tanto quanto ela, quando somos realmente como irmãzinhas, quando eu deixo que ela penteie o meu cabelo e reclame porque estou com o cabelo liso e ela não. E como é bom acordar ouvindo sua vozinha meiga cantando, tão afinada, tão delicada: “Apaixonado o o, apaixonado o o…”, entre tantas canções que ela gosta de cantar e repete mil vezes no som de casa para meu desespero e dos demais familiares.


Ela veio trazer cor à minha vida e vida às minhas cores. Ela é a menina bonita do laço de fita que alegra minha vida. Impossível imaginar década sem minha linda Lalay.


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