novembro 2008


Gerlandy Leão

 

 

 

 

 

 

 

Parafraseando aquele filme, eu poderia ter morrido naquela hora. Tava fudendo meu estômago, mas realizava um desejo reprimido há tanto tempo. Passada uma semana meio tristonha, não me perguntem o por quê, mulher é cheia dessas coisas. Uns chama frescuras, outros tpm, eu nem sei. Tava assim, vazia, me faltando algo. Os últimos meses ajeitando a vida, inclusive a saúde, tive alguns alimentos tirados do dia-a-dia, (maldita gastrite!) apesar de ter o chopp liberado pelo médico (vai entender? Eu nem mesmo gosto de chopp. Ta, cachaça, vodka e afins sim). Mas hoje me veio uma vontade repentina de comer algo diferente. Limpava o fogão na cozinha e pensei alto: “que vontade de comer uma manga verde com sal”. Minha irmãzinha mais que depressa, me disse que arranjaria na hora que eu quisesse. Nem sabia que teria uma manga àquela altura do campeonato, mas tinha, criança sempre encontra algo nos lugares que você imagina ir, elas já foram e exploram. “Minha filha só se for agora”.

E ela apareceu com uma manga linda e deliciosa. E nos passamos para a danada. Nem quis saber onde diabos aquilo tinha aparecido, a minha droga, mas fui sincera: “não faça isso. Coma só esse pedacinho”. É um pagamento por tamanha generosidade, mas deixei bem claro que não era um comportamento saudável. Deve ter sido a manga mais deliciosa que já comi, não o seu sabor simplesmente, mas as lembranças que me despertou, e como viajei para infância. Acho minha irmã quieta na frente do que eu fazia em sua idade. Não é a toa q tenho as pernas cheias de cicatrizes, era só queda. Não consigo nem imaginar como ficaria se isso acontecesse com ela, eu morreria. Mas agora só cuido da saúde. Tão jovem , mas tão velha. Minhas aventuras se limitam a comer uma manga verde com sal. Fiquei tão emocionada que me engasguei, e pensei vou morrer. Tossi, tossi, mas finalmente voltei a respirar. Não morri, mas pensei que teria morrido feliz, fazendo algo que estava gostando.

Só não estou mais contente porque voltei a lembrar dessa minha aventura. To morrendo aqui de dor, mas a dor só não é maior porque estou feliz, to muito feliz.

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Gerlandy Leão

É um macaquinho, não sei se um Sagüi ou chimpanzé, mas não era gorila. Era um macaquinho. Como os demais macacos, macaquinhos e macacões, também vive trepado em galhos de árvores. A diferença desse macaquinho para os demais é que este “só” vive trepado. Desde que aprendeu a subir em galhos nunca mais quis descer lá de cima. Até se movimenta, chega a pular, mas sempre para outro galho. Esse macaquinho, como muitos outros não nasceu em um galho de árvore, mas seus pais o fizeram enquanto estavam pendurados. Deve ser por isso que ele não sinta mais vontade de descer.

Antes vivia pendurado nos pais ou então corria pela terra; se divertia e nem ligava para as árvores. Um dia subiu e o galho era cheio de frutos, perto de um olho d’água, com folhas macias. Era diversão, conforto e segurança suprindo todas as necessidades. Muito tempo depois, um vento o derrubou e elevou esse galho mais para cima. O macaquinho chorou e chorava sentado no mesmo lugar que caíra. Ele não se conformava e não queria nada em baixo, ele nem mesmo olhava para baixo, só olhava para cima.

Um dia, ainda olhando para cima, virou de direção e encontrou uma nova galha perto dele. Não sei se era melhor, maior que a outra, mas o satisfazia. Jogou-se e segurou firme. Pronto! Nunca mais cairia, nunca mais seria jogado para longe. Ele desaprendera andar sozinho sem galho.

Às vezes o galho envelhecia ou secava, apodrecia, mas ele não voltava para terra. Mesmo que caísse permaneceria firme no galho. De lá só saía se aparecesse outro. Quando o macaquinho não se sentia mais contente galho velho ele tinha certeza que encontraria um melhor em outro lugar. Se este não estivesse perto, e como não achava legal descer, achava melhor quem sabe andar de galho em galho até encontrar.

Lá embaixo tinha outro macaquinho às vezes ele observava o macaquinho de cima, às vezes ficava correndo sozinho. Ele não gostava de se pendurar. Uma vez trepou em um galho e ficou por muito tempo pendurado. Até gostou, mas o galho se quebrou ou balançou, ele não sabe, eu também não. Sei que ele se desequilibrou e caiu. O macaquinho chorou muito, um pouco pela falta do galho, mas chorou mais ainda pela dor da queda.

Esse macaquinho que não gostava muito de subir em galhos, voltou a preferir correr sozinho. Às vezes quando tem um galho bonito ele estende a mão e toca em alguma flor, fruto ou folha, mas não tira o pé da terra, ele não se pendura. Não sei se porque não gosta ou porque tem medo de cair de novo. Não perguntei, ele não me disse.

Eu disse que era um macaquinho, mas na verdade são dois: um que não sabe mais descer e outro que não mais subir.


*Inspirado em Carise e Raíza. E em mim é claro. Elas entenderão.