abril 2009


Gerlandy Leão

Roseana desesperada

Roseana desesperada

Relia O príncipe pela enésima vez quando foi interrompido com a batida na porta de sua biblioteca particular:

– Ela chegou e está chorando.

Friamente fecha o livro e levanta-se em direção a outro compartimento da casa. Enquanto a escuta chorando consegue recordar uma das muitas vezes que a viu reclamando. Em especial, lembrava-se de um evento ocorrido há décadas quando a viu correr aos berros:

– Papaaaaaaaai. Ele roubou, ele tomou , ele levou de mim as bolinhas.

O senhor assusta-se com os gritos da menina e tenta acalmá-la em vão, pois a mesma não parece ouvi-lo: – Eu quero papai, eu quero todas as minhas bolinhas de volta. Depois de muitas lágrimas a garota explica ao pai que perdera todas as bolinhas de gude numa brincadeira na rua. O pai a conforta: – Não se preocupe. Vamos recuperar o que é seu de direito.

Segurando-a firme vai em direção do grupo de meninos que comemoravam a vitória e dividiam entre si a grande quantidade de bolinhas conquistada na brincadeira. Diplomaticamente convida ao grupo que devolva os objetos de sua filha:

– Dela nada. Falou um menino mais esperto. – Nós conseguimos com nosso esforço. Agora é tudo nosso.

Nesse momento a menina que até então observava atenta ao diálogo apenas entre soluços, solta gritos desesperados: – Tá vendo papai? Ta vendo? Eles nunca me devolverão.

O senhor ainda com paciência tenta dialogar com os meninos: – Não estão vendo como deixam minha menina? Eu até ofereceria outros brinquedos a ela, mas sei que não aceitará pois não admite perder.

– Não devolveremos nada. Retruca o garoto. – Ela que chora o que já choramos. Sempre a deixamos ganhar com medo dos seus gritos e porque às vezes ela nos comprava com algumas balas vencidas. Mas isso acabou. Não somos mais bestas. Descobrimos que se tivermos bolinha , poderemos negociar e ganhar muito mais.

Já nessa hora o senhor inquieta-se. Alisa o bigode com a mão esquerda, descendo pela boca até o queixo enquanto pensa em uma solução e propõe:

– Eu posso pagar pelas bolinhas, só quero que…

– Ah! O senhor não entende. Jamais nos renderemos. É interrompido pelo garoto. – A graça está exatamente em vencer a garota. Finalmente percebemos que na rua todos tem condições de brincar por igual sem ceder às suas chantagens.

A menina se aproxima do pai e escuta dele que realmente saiu no prejuízo naquele jogo, pois havia acontecido uma injustiça quando todos se reuniram para derrotá-la. Perplexo, o garoto indaga tentando defendê-los:- Desonestos?!?! Jogamos conforme as regras, mas nossa adversária em comum era a chorona.

– Aí que está meu filho. Isso não é certo. É ilegal e imoral.

-Ilegal? O senhor está esquecido das vezes que jogou ao lado dela e fazia o raspa em toda a rua? Por isso não perdiam uma partida. E os bombons? Esqueceu dos bombons que nos ofereciam? Argumentou o menino.

Parecendo não ouvir o que o garoto dizia, enxuga as lágrimas da garota e a tranqüiliza: – Tá vendo filhota? Eles estão desesperados, mas o papai tem tudo sobre controle. Se eu fosse dono do mundo, dono do mar eu te daria, mas só mando na rua…

– O senhor não é dono da rua. Altera-se o garoto.

O pai entra em casa e sai segurando 2 cachorros enormes , enquanto o funcionário segura outros 2, dirigindo-se até o grupo de meninos: – Passa já as bolinhas ou solto os meus cães. Amedrontado, o grupo tenta proteger-se sem obter sucesso, não vendo alternativa a não ser correr, depois de verem arrancadas de suas mãos o objeto de discórdia.

– Toma filhinha, a justiça finalmente foi feita. E vira-se para a meninada assustada na porta de suas casas: – Ninguém nunca mais brincará na rua, só que não fizeram montinho para vencer a garota guerreira. Isso será impedido pelos meus fiéis cães. Ousem desafiá-los e serão destroçados.

A filha retorna para casa saltitante agradecendo ao pai: – Guerreira papai?

Muitos anos depois ele a vê chorando depois de perder as eleições estaduais. Parecia a mesma garotinha guerreira de sempre que se senta e chora: – Eu perdi papai, perdi.

O senhor, agora velho a abraça e a conforta:

– Filhinha, ainda não sou dono do mundo ou do mar, mas você sabe onde eu mando. Tenho uma quantidade enorme de cães fiéis. Ainda tem dúvidas? A justiça será feita.

A guerreira sorri e agradece.

Observação: qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Gerlandy Leão


Pouco a pouco consigo lembrar, mas é difícil me concentrar em como vim parar aqui ou para onde deva ir. Minha respiração está fraca e me sinto engasgada pelo líquido vindo de dentro para fora. Tem um sabor conhecido, me lembra um alimento que ingeri há pouco. Respiro, ou melhor, tento respirar e o ar me falta. Meus olhos estão quase cerrados , mas luto para mantê-los abertos. Tenho a sensação de que se os fechar será para sempre. Olho ao redor e reconheço um banheiro. Como vim parar aqui? Avisto meu corpo estendido e concluo estar morrendo. Como ainda tenho segundos para pensar? Quero me movimentar e pedir socorro. Que sabor horrível nos meus lábios. Quero gritar, mas não consigo proferir um som. Que sabor horrível. Agora lembro de um barulho. O som desse barulho me incomoda, da mesma forma que esse sabor horrível nos meus lábios. Minha garganta aperta, meu corpo dói. Lembrei da dor, lembrei do barulho. A dor no corpo é devido à queda e aqui fiquei com o corpo jogado no banheiro. Tenho que levantar, mas mal consigo respirar. Ouço passos se aproximando. Será socorro chegando? Abriu a porta e se assusta a me ver. Eu a encaro e não sei por que misturo o sentimento de medo e esperança. Por um momento penso que ela me aliviará a dor. Ela vai me socorrer? Não. Sai gritando. Consigo lembrar algo mais antes da queda. Que sabor terrível, ai meu corpo. Não posso esperar muito tempo aqui, será meu fim. Finalmente consigo levantar meio cambaleante arrastando-me até a sala quando já não resisto e caio novamente, mas dessa vez dói menos. Ela está em cima do sofá gritando e eu me arrependo daquela mordida que trouxe a morte para dentro de mim. Agora o veneno corre nas minhas veias e estoura tudo o que é vida que encontra em mim. Falar em vida, agora entendo essa imensa dor no pé da minha barriga. Em pouco tempo não estarei mais aqui. Não consigo levantar mais os olhos e lá está o vulto embassado gritando com medo de mim. Foi ela que me envenenou por medo de mim. Tudo culpa minha porque não tive medo antes. Só temo pelos filhotes dentro de mim. A essa altura não consigo mantê-los vivos. Não conseguirei nem manter-me viva. Acho que existe um céu. Em breve eu os reencontrarei. Jamais imaginaria que naquele pedaço de queijo havia raticida. Agora estou agonizando e breve estarei morta e ela nem me alivia a dor. Está lá em cima do sofá  enquanto me atormenta mais com seus gritos desesperados. Não consigo lembrar de mais nada, não recordo minha história e ninguém. Onde está o filme no fim da vida? Quem chorará por mim? Só sei que estou aqui, despedindo-me da vida. Estou morrendo, morrendo.

Gerlandy Leão

pessoa suspirando

pessoa suspirando

Chegou dizendo que se sentia como uma pré-adolescente. Na verdade parecia uma personagem saída de algum livro romântico encontrado em bancas de revistas e sebos. Rodopiava e sorria: – Que estranho. Acho que to apaixonada.

A ouvinte acha engraçado: – Por que acha isso?

– Porque estou estranha. Vivo suspirando, cantando e desenhando bobagens por onde passo. Não paro de pensar nele.

– Tá doida? Tá assim desde quando?

– Pouquíssimo tempo.

ele te ligou?

– hã?

– ele te ligou de volta.

– Não ficamos. Na verdade nosso contato não passa de aperto de mãos ou quando ele pega no meu ombro e poucas palavras trocadas.

– Não to entendendo. Você disse que está apaixonada por alguém que não se relacionou? Quantos anos você tem? Doze?

– Eu sei amiga, é estranho mesmo. Sempre fui racional, mas isso não ta me fazendo mal. Apenas penso nele o tempo todo e isso me faz bem. Deito e penso no rosto dele, quando o vejo sinto uma dor tão forte no peito e meu coração dispara. Minhas mãos tremem e eu pareço uma retardada sem conseguir expressar uma palavra. Mas sinto uma vontade de chegar até ele e abraçá-lo e ficar com ele por muito tempo só para que eu possa sentir o seu cheiro.

– Nossa senhora. E o que tu vai fazer para conquistá-lo?

– eu? Nada. Ele tem namorada, já foi conquistado.

– Namorada?

– Sim. As únicas informações dele que sei é o nome, onde trabalha e que tem uma namorada. Acho que é feliz porque me contagia com seu jeito. As vezes o observo enquanto está ocupado, mas disfarço quando vira pra mim. Gostaria de inventar inúmeras desculpas só para poder vê-lo mais, só que tenho vergonha.

– Você ta retrocedendo. Tem que falar com ele.

– Tá louca? O que eu diria para ele? Eu nem sei te dizer uma qualidade dele para justificar porque o olho. Existem pessoas que eu diria: é bonito, é engraçado, ou é inteligente, ou porque é talentoso, ou é trabalhador, ou isso e aquilo. Dele eu nada sei o que dizer. O que sei é que quando se aproxima da minha pele eu tremo e ele tem o cheiro mais agradável que sinto. Sinto o seu cheiro de longe.

– Então pergunta para ele qual o perfume que ele usa.

– Não viaja. Falo do cheiro, essência dele. Lembra daquele filme Perfume? Pois é, eu sinto isso. O cheiro dele me fascina.

– Mesmo assim, ainda acho que devia dizer a ele que…

– Dizer que to apaixonada pelo cheiro dele?

– Não sei. Diga que quer ele.

– Mas não é isso. Não quero ficar com ele, pelo menos, acho que não e mesmo que quisesse não faria nada . Acho que se eu ficasse iria estragar tudo. Quero que ele seja feliz e não vou fazê-lo feliz. Ele pode casar, ter filhos, ter uma bela família. Não e não. Sei que não conseguiria fazê-lo feliz.

– Está sendo masoquista.

– Não. Estou sendo altruísta. Gosto de gostar dele e de saber que ele está bem. Gosto de pensar na felicidade dele. Gosto de imaginar como seria se ele me quisesse. E imagino nós dois deitados e ele fazendo carinho em mim, imagino nós dois dormindo. Imagino apenas olhando para ele e não dizendo nenhuma palavra. Poderíamos apenas nos comunicar pelas mãos depois de horas de carinho, beijos. Sabe, não consigo imaginar como chegamos a esse ponto, só imagino a gente deitado. É como no vestibular que eu só conseguia imaginar comemorando a aprovação. Queria evitar a prova. Assim é com ele. Imagino-o me beijando o corpo todo e eu querendo que a noite não acabe.

– E deve imaginar fazendo papai e mamãe. Que brega!

– É, eu sei. Por isso gosto de pensar. Se isso acontecesse de fato estragaria tudo. Ele é tão lindo. Não me chamaria atenção se fosse em uma festa. Não tem beleza padrão nem clássica, mas o acho lindo. Acho lindo como ele olha, como sorrir. Ai, estou até imaginando seu rosto agora. Mas o mais forte é o poder que exerce sobre meu olfato e meu tato. Dos meus sentidos preferidos falta o paladar. Falta eu provar o seu sabor.

– Mas será que ele nunca percebeu?

– Acho que não.

– Talvez ele pense que você é muito doida e…

– Talvez ele nunca tenha pensado em mim.

– Oh amiga.

– Não se preocupe. Estou ótima. Já disse o sentimento é meu e eu gosto de gostar dele.

– Mas ele não dá nenhuma atenção a você?

– A gente fala esporadicamente, o que já é suficiente para eu ficar bem. Claro que  preferia poder olhá-lo todo dia. Uma vez ele ficou frente a frente comigo na janela de vidro. Com os braços abertos, me olhou rapidamente e fez até uma brincadeira, algo que não lembro, algo como: “eu queria ter coragem”. Mas não lembro exatamente de suas palavras, as palavras são que menos importam. Atentei-me mais para o seu olhar e os braços na janela. Eu quis levantar da cadeira e dá-lhe um beijo. Ele tem a boca linda, te disse?

– Não

– Pois é. Deve ser uma delícia. Um dia observava fixamente para sua boca e não resisti. Escrevi num pedaço de papel “Tenho vontade de te…”.

– Pensei que tivesse atacado. E o que ele fez?

– Eu atacar? Não me conhece? Sou uma presa com muito orgulho. Ele me pediu para completar, mas eu não consegui. Não insistiu muito e deixou pra lá.

– Que insensível.

– Nem tanto. Uma vez ele me disse que eu estava bonita e eu perguntei: por que? Ele disse que é porque eu não estava com a maquiagem borrada como nos outros dias.

– Insensível, insensível. Se bem que isso é um sinal que pelo menos ele te observa.

– Prefiro não.

– Por que?

– Porque já disse, só quero gostar dele. É minha paixonite platônica, se realizar perde a graça. Você sabe, não vai durar muito, nunca dura tanto. O gostoso é imaginar como seria bom. Eu to feliz, pois adoro o cheiro dele.

Apêndice:

Quando eu era criança/adolescente tive algumas paixões platônicas. Não podia namorar, era muito séria além de ter vergonha devido a síndrome de patinho feio. Quem nunca passou por isso? De deitar pensando em alguém. É uma fase gostosa. Uns trabalham para conquistar, outros  se colocam no lugar de presa e esperam milagres, outros tentam esquecer, outros esperam esquecer, outros apenas curtem o que sentem, nem alimentando nem maltratando. Eu adoraria que eles soubessem que um dia dormi pensando neles e sobrevivi.

Ensaio para o blog

Gerlandy  Leão


– Vem gostosa, vem… Me fala vai, diz que eu sou gostoso.

– Gostoso, meu gostoso.

-Quem é o teu homem?

– É você

– Fala vai, fala sacanagem que eu quero ouvir. Me fala vai, me fale sobre suas fantasias.

– Hã?

– Quero ouvir você falar sobre suas fantasias.

Tenta ignorar e sorrir levemente.

– Por que você ta rindo?

– Ah, por favor não corta o clima. Ta tão gostoso.

– Me fala, por que riu?

– Ah, não. Não faz isso. Eu sorri porque a frase foi engraçada. É estranho você tentar dialogar uma hora dessa. Esqueça isso, me beija.

– Só quero saber sobre suas fantasias.

– É você! Você é minha fantasia.

Para bruscamente e a encara indagando: – Isso é uma fantasia?

Ela ainda empolgada ignora: – Cala boca, me aperta vai.

– Não quero enquanto não me falar a verdade sobre suas fantasias.

– E eu não quero diálogo, eu quero você.

– Não disfarça, todo mundo tem uma fantasia.

– Já disse é você.

– Não pode ser. É a coisa mais sem graça que já ouvi. Você não confia em mim? Não tem noção como é broxante ouvir que a minha gata não tem fantasia.

Pensou que broxante mesmo era ter de ouvir: “Me fale sobre suas fantasias” em hora inapropriada.

– Mas eu não quero conversar, eu quero é…

– Das duas uma: ou você está me escondendo algo, ou é tão sem graça que nem consegue imaginar uma. Não sei o que é pior.

Ela enrola-se no lençol e senta-se à beira da cama enquanto brinca com a sandália no chão. Fica indecisa entre calçar e não calçar, falar e não falar. Mordisca os lábios impedindo que saia uma palavra.

“Fantasias existem várias, mas não consigo pensar muito nisso. Só penso em algo especial que direciono a uma pessoa que não sai da minha mente nos últimos dias. Sei tão pouco dele, mas em meus sonhos ele me quer. Ele é puro, sério e vai se casar. Adoro provoca-lo encarando-o. Gosto de passar perto e saber que ele olha pra mim. Eu o desejo tanto. Imagino que um dia, no intervalo não sei onde, mas em um lugar impossível de sermos vistos nós nos realizaríamos quando nos encontrássemos. Ele pensaria que seria uma mera coincidência aquele lugar, aquele horário, só nós dois e eu usando vestido. Bobinho, tudo milimetricamente armado apenas por mim, pois não é bom ter cúmplices, eles sempre abrem o bico. Olhamos para o lado e percebemos que só tem nós dois. Ele ainda hesita e fala: “Ai meu Deus!” Lembra-se da namorada no estacionamento o aguardando para o almoço. Ele tem medo e eu lhe cito a Bíblia: “Os covardes não herdarão o reino dos céus.” Não é covarde e me ataca jogando-me contra a parede levantando o meu vestido. Sustenta-me segurando minha bunda com suas mãos e deixando minhas pernas penduradas ao encaixar minhas coxas em seu corpo para que eu não caia. Beija-me o pescoço e olha mais uma vez para o lado certificando não haver ninguém. Afasta a minha calcinha e me encara removendo a mecha de cabelo caída no meu rosto para que possa fitar no fundo dos meus olhos. Encosto minha cabeça em seu ombro enquanto solto gemidos que depois serão abafados por sua boca deliciosa. Propositalmente tento morder-lhe os lábios, propositalmente enfio as mãos por baixo de sua camisa e lhe arranho as costas. Sustento-me no chão e me viro, ele me empina enquanto apoio minhas mãos na parede como se fosse abraça-la. Ele abraça minha cintura com uma mão e com a outra enrola meus cabelos puxando minha cabeça para trás enquanto me beija. Ficamos naquele movimento delicioso quando finalmente conseguimos nos satisfazer. Ele morre e descansa o corpo sobre o meu ainda em pé de frente para a parede. Entre o reino do céu e o último gemido, passam-se pouquíssimos minutos, mas suficiente para nos saciarmos. Apoiado sobre a parede enquanto ainda respira ofegante, retiro-me sem me despedir. Quando finalmente percebe minha ausência pergunta-se o quer fez. Encontra a namorada no estacionamento aborrecida pelo atraso. Ela é tão linda e perfeita que ele não consegue encarar esse presente de Deus. Não conseguiria mentir por muito tempo e confessa que estava com outra mulher. Ela para o carro, grita, agride e o expulsa enquanto ele chora e pede perdão dizendo que a ama, foi apenas uma cilada do inimigo. Depois da persistência ela o perdoa e me chama de vadia, puta, vagabunda e demônio. Perdoa com a condição de que nunca mais me veja. Os dois se abraçam e oram. Daqui um ano estarão casados frequentando o culto dominical. Ele vai me evitar sempre, evitará até lembrar de mim, mas de tempo em tempo ela o fará lembrar para que sempre se arrependa daquele almoço e sempre peça perdão. Mas viverão juntos por muito tempo, se serão felizes, não sei.”

Assusta-se quando é tocada no ombro:

– Tá pensando em que? Em suas fantasias?

Pensa consigo que ele só precisa ouvir o que quer ouvir.

– Já disse meu bem. Está com você sempre foi minha fantasia. O chato é que fantasias não devem ser realizadas senão deixam de sê-las.

– Não tem mais nenhuma?

– Confia em mim, você não vai querer ouvir.

– Me fala

– Vem cá meu…

Observação: Para os curiosos essa sou eu sim, mas não estou nua. Sempre quis ser modelo de algum conto, acho que agora casou bem. As demais  fotos da tentativa de ensaio encontram-se aqui rs.

Gerlandy Leão

 

 

As meninas na sala sorriem ao ouvir uma canção que selecionam para uma festa temática enquanto preparo o almoço na cozinha. Admiro-me: “- Não ouvia Gigliola Cinquetti há muito tempo”.

Uma me interroga debochadamente: “-Chicrete?”

Não fazia idéia da última vez que a ouvira, mas lembrava perfeitamente a primeira vez. Claro, tem a ver com amor. Dio, come ti amo.

A vida é assim: você ama um, mas é feliz com outro que te dará filhas e netos que ao crescerem farão uma festa temática e ouvirão na sala a música que lembra que você amou alguém.

Durante a vida você ama outros e aprende amar principalmente se ele for pai das meninas na sala que mesmo adultas, jamais deixarão de ser meninas. Mas nunca mais se ama como se amou aquele que lhe comprou o disco de vinil compacto da Gigliola Cinquetti. Pois esse amor é irresponsável. Se ele te convidar para pular da ponte, você pula; se ele convidar para jejuar, você faz; se ele convidar para ir embora, você vai. E não pensa em ninguém mais. Ele é aquela pessoa que faz você chorar e te faz refletir em vários momentos que não é feliz e que ele não te dará uma bela família como as meninas na sala. Mas não  tem opção. O que se pode fazer se toda vez que o vê você treme, o coração dispara e você adora o seu abraço e seu beijo?

Mesmo sofrendo, aceita noivar. Viver no interior tava difícil então ele vai buscar serviço em outra cidade e te deixa com a Gigliola. Dio, come ti amo! Só as várias cartas de amor que enviava e recebia faziam companhia. Cartas ridículas, mas como diz o poeta “não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. Ridículas como qualquer adolescente inconsequente que pensa que sabe o que é amor.

O tempo passa e você percebe que não quer mais ser ridícula e aprende que não pode esperar a vida toda por alguém só porque treme ao vê-lo, ou porque ele lhe presenteou com um disco compacto ou porque ele  escreve cartas sem mencionar a possível data de retorno. Você quer mais. Quer conhecer as meninas na sala que escutam Cinquetti para uma festa temática.

Finalmente envia a carta de despedida. Sabia que não aguentava. Você o ama, mas não quer mais. Ama, sente-se amada, mas não é feliz, então chora. Chora até desmaiar, e a desde então só volta a chorar quando as filhas e netos começam a nascer.

Você não recebe nem uma carta de volta, nem mesmo ele retorna desesperado e implora na porta da sua casa para reconsiderar. Ainda bem, senão você teria aceitado e hoje não seria feliz. Então conclui que ele entendeu o recado, pelo menos a vida não continuou como estava e por isso ele podia assumir outra mina e oferecer outra música que tivesse na moda ou quem sabe a própria canção de vocês dois. É uma linda canção de amor, tola ou brega como as cartas ridículas, mas linda.

Muitos anos depois quando já está casada com um cara legal, você encontra uma amiga que morava longe. E ela te confirma que vira o fogo queimando muitos papéis. Perguntando a ele o que significava aquilo, ele responde em lágrimas: “Estou queimando as mentiras”.

Não sei se, assim como eu, foi a última vez que chorou. Talvez seja feliz com uma pessoa legal que conheceu. Suas cartas apenas enterrei, mas ele queimou as minhas cartas como se fossem mentiras. Eu o amava, mas ouvir Gigliola enquanto olho as meninas na sala preparando a festa temática me faz mais feliz do que me jogar da ponte ou esperar por cartas para ler: “Dio, come ti amo”.