Gerlandy Leão

 

 

As meninas na sala sorriem ao ouvir uma canção que selecionam para uma festa temática enquanto preparo o almoço na cozinha. Admiro-me: “- Não ouvia Gigliola Cinquetti há muito tempo”.

Uma me interroga debochadamente: “-Chicrete?”

Não fazia idéia da última vez que a ouvira, mas lembrava perfeitamente a primeira vez. Claro, tem a ver com amor. Dio, come ti amo.

A vida é assim: você ama um, mas é feliz com outro que te dará filhas e netos que ao crescerem farão uma festa temática e ouvirão na sala a música que lembra que você amou alguém.

Durante a vida você ama outros e aprende amar principalmente se ele for pai das meninas na sala que mesmo adultas, jamais deixarão de ser meninas. Mas nunca mais se ama como se amou aquele que lhe comprou o disco de vinil compacto da Gigliola Cinquetti. Pois esse amor é irresponsável. Se ele te convidar para pular da ponte, você pula; se ele convidar para jejuar, você faz; se ele convidar para ir embora, você vai. E não pensa em ninguém mais. Ele é aquela pessoa que faz você chorar e te faz refletir em vários momentos que não é feliz e que ele não te dará uma bela família como as meninas na sala. Mas não  tem opção. O que se pode fazer se toda vez que o vê você treme, o coração dispara e você adora o seu abraço e seu beijo?

Mesmo sofrendo, aceita noivar. Viver no interior tava difícil então ele vai buscar serviço em outra cidade e te deixa com a Gigliola. Dio, come ti amo! Só as várias cartas de amor que enviava e recebia faziam companhia. Cartas ridículas, mas como diz o poeta “não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”. Ridículas como qualquer adolescente inconsequente que pensa que sabe o que é amor.

O tempo passa e você percebe que não quer mais ser ridícula e aprende que não pode esperar a vida toda por alguém só porque treme ao vê-lo, ou porque ele lhe presenteou com um disco compacto ou porque ele  escreve cartas sem mencionar a possível data de retorno. Você quer mais. Quer conhecer as meninas na sala que escutam Cinquetti para uma festa temática.

Finalmente envia a carta de despedida. Sabia que não aguentava. Você o ama, mas não quer mais. Ama, sente-se amada, mas não é feliz, então chora. Chora até desmaiar, e a desde então só volta a chorar quando as filhas e netos começam a nascer.

Você não recebe nem uma carta de volta, nem mesmo ele retorna desesperado e implora na porta da sua casa para reconsiderar. Ainda bem, senão você teria aceitado e hoje não seria feliz. Então conclui que ele entendeu o recado, pelo menos a vida não continuou como estava e por isso ele podia assumir outra mina e oferecer outra música que tivesse na moda ou quem sabe a própria canção de vocês dois. É uma linda canção de amor, tola ou brega como as cartas ridículas, mas linda.

Muitos anos depois quando já está casada com um cara legal, você encontra uma amiga que morava longe. E ela te confirma que vira o fogo queimando muitos papéis. Perguntando a ele o que significava aquilo, ele responde em lágrimas: “Estou queimando as mentiras”.

Não sei se, assim como eu, foi a última vez que chorou. Talvez seja feliz com uma pessoa legal que conheceu. Suas cartas apenas enterrei, mas ele queimou as minhas cartas como se fossem mentiras. Eu o amava, mas ouvir Gigliola enquanto olho as meninas na sala preparando a festa temática me faz mais feliz do que me jogar da ponte ou esperar por cartas para ler: “Dio, come ti amo”.

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