Gerlandy Leão

pessoa suspirando

pessoa suspirando

Chegou dizendo que se sentia como uma pré-adolescente. Na verdade parecia uma personagem saída de algum livro romântico encontrado em bancas de revistas e sebos. Rodopiava e sorria: – Que estranho. Acho que to apaixonada.

A ouvinte acha engraçado: – Por que acha isso?

– Porque estou estranha. Vivo suspirando, cantando e desenhando bobagens por onde passo. Não paro de pensar nele.

– Tá doida? Tá assim desde quando?

– Pouquíssimo tempo.

ele te ligou?

– hã?

– ele te ligou de volta.

– Não ficamos. Na verdade nosso contato não passa de aperto de mãos ou quando ele pega no meu ombro e poucas palavras trocadas.

– Não to entendendo. Você disse que está apaixonada por alguém que não se relacionou? Quantos anos você tem? Doze?

– Eu sei amiga, é estranho mesmo. Sempre fui racional, mas isso não ta me fazendo mal. Apenas penso nele o tempo todo e isso me faz bem. Deito e penso no rosto dele, quando o vejo sinto uma dor tão forte no peito e meu coração dispara. Minhas mãos tremem e eu pareço uma retardada sem conseguir expressar uma palavra. Mas sinto uma vontade de chegar até ele e abraçá-lo e ficar com ele por muito tempo só para que eu possa sentir o seu cheiro.

– Nossa senhora. E o que tu vai fazer para conquistá-lo?

– eu? Nada. Ele tem namorada, já foi conquistado.

– Namorada?

– Sim. As únicas informações dele que sei é o nome, onde trabalha e que tem uma namorada. Acho que é feliz porque me contagia com seu jeito. As vezes o observo enquanto está ocupado, mas disfarço quando vira pra mim. Gostaria de inventar inúmeras desculpas só para poder vê-lo mais, só que tenho vergonha.

– Você ta retrocedendo. Tem que falar com ele.

– Tá louca? O que eu diria para ele? Eu nem sei te dizer uma qualidade dele para justificar porque o olho. Existem pessoas que eu diria: é bonito, é engraçado, ou é inteligente, ou porque é talentoso, ou é trabalhador, ou isso e aquilo. Dele eu nada sei o que dizer. O que sei é que quando se aproxima da minha pele eu tremo e ele tem o cheiro mais agradável que sinto. Sinto o seu cheiro de longe.

– Então pergunta para ele qual o perfume que ele usa.

– Não viaja. Falo do cheiro, essência dele. Lembra daquele filme Perfume? Pois é, eu sinto isso. O cheiro dele me fascina.

– Mesmo assim, ainda acho que devia dizer a ele que…

– Dizer que to apaixonada pelo cheiro dele?

– Não sei. Diga que quer ele.

– Mas não é isso. Não quero ficar com ele, pelo menos, acho que não e mesmo que quisesse não faria nada . Acho que se eu ficasse iria estragar tudo. Quero que ele seja feliz e não vou fazê-lo feliz. Ele pode casar, ter filhos, ter uma bela família. Não e não. Sei que não conseguiria fazê-lo feliz.

– Está sendo masoquista.

– Não. Estou sendo altruísta. Gosto de gostar dele e de saber que ele está bem. Gosto de pensar na felicidade dele. Gosto de imaginar como seria se ele me quisesse. E imagino nós dois deitados e ele fazendo carinho em mim, imagino nós dois dormindo. Imagino apenas olhando para ele e não dizendo nenhuma palavra. Poderíamos apenas nos comunicar pelas mãos depois de horas de carinho, beijos. Sabe, não consigo imaginar como chegamos a esse ponto, só imagino a gente deitado. É como no vestibular que eu só conseguia imaginar comemorando a aprovação. Queria evitar a prova. Assim é com ele. Imagino-o me beijando o corpo todo e eu querendo que a noite não acabe.

– E deve imaginar fazendo papai e mamãe. Que brega!

– É, eu sei. Por isso gosto de pensar. Se isso acontecesse de fato estragaria tudo. Ele é tão lindo. Não me chamaria atenção se fosse em uma festa. Não tem beleza padrão nem clássica, mas o acho lindo. Acho lindo como ele olha, como sorrir. Ai, estou até imaginando seu rosto agora. Mas o mais forte é o poder que exerce sobre meu olfato e meu tato. Dos meus sentidos preferidos falta o paladar. Falta eu provar o seu sabor.

– Mas será que ele nunca percebeu?

– Acho que não.

– Talvez ele pense que você é muito doida e…

– Talvez ele nunca tenha pensado em mim.

– Oh amiga.

– Não se preocupe. Estou ótima. Já disse o sentimento é meu e eu gosto de gostar dele.

– Mas ele não dá nenhuma atenção a você?

– A gente fala esporadicamente, o que já é suficiente para eu ficar bem. Claro que  preferia poder olhá-lo todo dia. Uma vez ele ficou frente a frente comigo na janela de vidro. Com os braços abertos, me olhou rapidamente e fez até uma brincadeira, algo que não lembro, algo como: “eu queria ter coragem”. Mas não lembro exatamente de suas palavras, as palavras são que menos importam. Atentei-me mais para o seu olhar e os braços na janela. Eu quis levantar da cadeira e dá-lhe um beijo. Ele tem a boca linda, te disse?

– Não

– Pois é. Deve ser uma delícia. Um dia observava fixamente para sua boca e não resisti. Escrevi num pedaço de papel “Tenho vontade de te…”.

– Pensei que tivesse atacado. E o que ele fez?

– Eu atacar? Não me conhece? Sou uma presa com muito orgulho. Ele me pediu para completar, mas eu não consegui. Não insistiu muito e deixou pra lá.

– Que insensível.

– Nem tanto. Uma vez ele me disse que eu estava bonita e eu perguntei: por que? Ele disse que é porque eu não estava com a maquiagem borrada como nos outros dias.

– Insensível, insensível. Se bem que isso é um sinal que pelo menos ele te observa.

– Prefiro não.

– Por que?

– Porque já disse, só quero gostar dele. É minha paixonite platônica, se realizar perde a graça. Você sabe, não vai durar muito, nunca dura tanto. O gostoso é imaginar como seria bom. Eu to feliz, pois adoro o cheiro dele.

Apêndice:

Quando eu era criança/adolescente tive algumas paixões platônicas. Não podia namorar, era muito séria além de ter vergonha devido a síndrome de patinho feio. Quem nunca passou por isso? De deitar pensando em alguém. É uma fase gostosa. Uns trabalham para conquistar, outros  se colocam no lugar de presa e esperam milagres, outros tentam esquecer, outros esperam esquecer, outros apenas curtem o que sentem, nem alimentando nem maltratando. Eu adoraria que eles soubessem que um dia dormi pensando neles e sobrevivi.

Ensaio para o blog

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