Gerlandy Leão

Roseana desesperada

Roseana desesperada

Relia O príncipe pela enésima vez quando foi interrompido com a batida na porta de sua biblioteca particular:

– Ela chegou e está chorando.

Friamente fecha o livro e levanta-se em direção a outro compartimento da casa. Enquanto a escuta chorando consegue recordar uma das muitas vezes que a viu reclamando. Em especial, lembrava-se de um evento ocorrido há décadas quando a viu correr aos berros:

– Papaaaaaaaai. Ele roubou, ele tomou , ele levou de mim as bolinhas.

O senhor assusta-se com os gritos da menina e tenta acalmá-la em vão, pois a mesma não parece ouvi-lo: – Eu quero papai, eu quero todas as minhas bolinhas de volta. Depois de muitas lágrimas a garota explica ao pai que perdera todas as bolinhas de gude numa brincadeira na rua. O pai a conforta: – Não se preocupe. Vamos recuperar o que é seu de direito.

Segurando-a firme vai em direção do grupo de meninos que comemoravam a vitória e dividiam entre si a grande quantidade de bolinhas conquistada na brincadeira. Diplomaticamente convida ao grupo que devolva os objetos de sua filha:

– Dela nada. Falou um menino mais esperto. – Nós conseguimos com nosso esforço. Agora é tudo nosso.

Nesse momento a menina que até então observava atenta ao diálogo apenas entre soluços, solta gritos desesperados: – Tá vendo papai? Ta vendo? Eles nunca me devolverão.

O senhor ainda com paciência tenta dialogar com os meninos: – Não estão vendo como deixam minha menina? Eu até ofereceria outros brinquedos a ela, mas sei que não aceitará pois não admite perder.

– Não devolveremos nada. Retruca o garoto. – Ela que chora o que já choramos. Sempre a deixamos ganhar com medo dos seus gritos e porque às vezes ela nos comprava com algumas balas vencidas. Mas isso acabou. Não somos mais bestas. Descobrimos que se tivermos bolinha , poderemos negociar e ganhar muito mais.

Já nessa hora o senhor inquieta-se. Alisa o bigode com a mão esquerda, descendo pela boca até o queixo enquanto pensa em uma solução e propõe:

– Eu posso pagar pelas bolinhas, só quero que…

– Ah! O senhor não entende. Jamais nos renderemos. É interrompido pelo garoto. – A graça está exatamente em vencer a garota. Finalmente percebemos que na rua todos tem condições de brincar por igual sem ceder às suas chantagens.

A menina se aproxima do pai e escuta dele que realmente saiu no prejuízo naquele jogo, pois havia acontecido uma injustiça quando todos se reuniram para derrotá-la. Perplexo, o garoto indaga tentando defendê-los:- Desonestos?!?! Jogamos conforme as regras, mas nossa adversária em comum era a chorona.

– Aí que está meu filho. Isso não é certo. É ilegal e imoral.

-Ilegal? O senhor está esquecido das vezes que jogou ao lado dela e fazia o raspa em toda a rua? Por isso não perdiam uma partida. E os bombons? Esqueceu dos bombons que nos ofereciam? Argumentou o menino.

Parecendo não ouvir o que o garoto dizia, enxuga as lágrimas da garota e a tranqüiliza: – Tá vendo filhota? Eles estão desesperados, mas o papai tem tudo sobre controle. Se eu fosse dono do mundo, dono do mar eu te daria, mas só mando na rua…

– O senhor não é dono da rua. Altera-se o garoto.

O pai entra em casa e sai segurando 2 cachorros enormes , enquanto o funcionário segura outros 2, dirigindo-se até o grupo de meninos: – Passa já as bolinhas ou solto os meus cães. Amedrontado, o grupo tenta proteger-se sem obter sucesso, não vendo alternativa a não ser correr, depois de verem arrancadas de suas mãos o objeto de discórdia.

– Toma filhinha, a justiça finalmente foi feita. E vira-se para a meninada assustada na porta de suas casas: – Ninguém nunca mais brincará na rua, só que não fizeram montinho para vencer a garota guerreira. Isso será impedido pelos meus fiéis cães. Ousem desafiá-los e serão destroçados.

A filha retorna para casa saltitante agradecendo ao pai: – Guerreira papai?

Muitos anos depois ele a vê chorando depois de perder as eleições estaduais. Parecia a mesma garotinha guerreira de sempre que se senta e chora: – Eu perdi papai, perdi.

O senhor, agora velho a abraça e a conforta:

– Filhinha, ainda não sou dono do mundo ou do mar, mas você sabe onde eu mando. Tenho uma quantidade enorme de cães fiéis. Ainda tem dúvidas? A justiça será feita.

A guerreira sorri e agradece.

Observação: qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Anúncios