Gerlandy Leão


Pouco a pouco consigo lembrar, mas é difícil me concentrar em como vim parar aqui ou para onde deva ir. Minha respiração está fraca e me sinto engasgada pelo líquido vindo de dentro para fora. Tem um sabor conhecido, me lembra um alimento que ingeri há pouco. Respiro, ou melhor, tento respirar e o ar me falta. Meus olhos estão quase cerrados , mas luto para mantê-los abertos. Tenho a sensação de que se os fechar será para sempre. Olho ao redor e reconheço um banheiro. Como vim parar aqui? Avisto meu corpo estendido e concluo estar morrendo. Como ainda tenho segundos para pensar? Quero me movimentar e pedir socorro. Que sabor horrível nos meus lábios. Quero gritar, mas não consigo proferir um som. Que sabor horrível. Agora lembro de um barulho. O som desse barulho me incomoda, da mesma forma que esse sabor horrível nos meus lábios. Minha garganta aperta, meu corpo dói. Lembrei da dor, lembrei do barulho. A dor no corpo é devido à queda e aqui fiquei com o corpo jogado no banheiro. Tenho que levantar, mas mal consigo respirar. Ouço passos se aproximando. Será socorro chegando? Abriu a porta e se assusta a me ver. Eu a encaro e não sei por que misturo o sentimento de medo e esperança. Por um momento penso que ela me aliviará a dor. Ela vai me socorrer? Não. Sai gritando. Consigo lembrar algo mais antes da queda. Que sabor terrível, ai meu corpo. Não posso esperar muito tempo aqui, será meu fim. Finalmente consigo levantar meio cambaleante arrastando-me até a sala quando já não resisto e caio novamente, mas dessa vez dói menos. Ela está em cima do sofá gritando e eu me arrependo daquela mordida que trouxe a morte para dentro de mim. Agora o veneno corre nas minhas veias e estoura tudo o que é vida que encontra em mim. Falar em vida, agora entendo essa imensa dor no pé da minha barriga. Em pouco tempo não estarei mais aqui. Não consigo levantar mais os olhos e lá está o vulto embassado gritando com medo de mim. Foi ela que me envenenou por medo de mim. Tudo culpa minha porque não tive medo antes. Só temo pelos filhotes dentro de mim. A essa altura não consigo mantê-los vivos. Não conseguirei nem manter-me viva. Acho que existe um céu. Em breve eu os reencontrarei. Jamais imaginaria que naquele pedaço de queijo havia raticida. Agora estou agonizando e breve estarei morta e ela nem me alivia a dor. Está lá em cima do sofá  enquanto me atormenta mais com seus gritos desesperados. Não consigo lembrar de mais nada, não recordo minha história e ninguém. Onde está o filme no fim da vida? Quem chorará por mim? Só sei que estou aqui, despedindo-me da vida. Estou morrendo, morrendo.

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