Gerlandy Leão

Minha cadela deu cria em véspera do dia das mães. Confesso que não é uma cena agradável de se ver. Ela teve uma gravidez fácil e manteve o corpitcho enxuto, e foi exatamente por isso que fui surpreendida no meio daquela tarde. Estava meio tristonha e procurando um lugar pra ficar. Nem me toquei quando percebi que  ela não quis o almoço e ainda vivia invadindo meu quarto. “Pichuleta! Saia já daqui”, mas ela não queria sair tão facilmente debaixo da minha cama. Depois de vários gritos em cima dela,  resolve se retirar com um filhote pendurado. Eu havia interrompido o nascimento do seu filhinho. Óbvio que sensível como eu sou, aquela cena me chocou e simplesmente não sabia o que fazer.  Pensei ver  um aborto espontâneo.

Entre choros e gritos, minha irmã chega da rua e me acode (a mim, porque eu estava nervosa), enquanto nossa cadelinha  dava um show de segurança. Nascido o primeiro filho, minha irmã resolve me deixar sozinha mais uma vez . Burrice nossa, uma cadela não dá a luz a um só  apesar da barriga pequena. E lá vem a cadela desesperada enquanto os dois filhotes gritavam também. “O que é Pichuleta? Vai cuidar dos teus filhos” . Sei que ela tava tentando e  a via com um carinho todo especial beijando os filhotes, mas ao mesmo tempo sentia seu desespero. Essa cadela me deu trabalho, gritava e subia em cima de mim com um olhar de dor. No meio do desespero ligo para a louca da minha irmã aos berros: “ela vai morrer, ela ta sofrendo” e a insensível tenta me confortar: “ela sabe o que fazer”. Sei, elas sempre sabem o que fazer, mas parecia não entender o que a natureza fazia com ela e eu muito menos. Em vez de lhe dá a mão , apenas chorava e ligava para minha mãe e a desnaturada de minha irmã. No final das contas ela teve 6 filhinhos lindos. Até hoje estou chocada com aquela imagem de dor.

Agora, no mês de maio que homenageia as mães, apesar de ter passado o segundo domingo de maio, fico pensando sobre a maternidade. Ontem estive em uma programação da igreja em homenagens às mães e achei algo curioso. Muitas canções, frases e homenagens diversas se limitam a agradecer à Mãe pelo sangue, por carregar na barriga. E fiquei pensando como é equivocado. Para mim o espírito materno não está em carregar criança no ventre. Lembrei na hora da minha cadela e como senti medo mesmo de dá cria a um ser. Lembro da dor que  ela sentiu e imagino o quanto deve ter sido traumático no entanto ela não  tem sido atenciosa e fica fugindo dos pirralhos. Prefere dormir longe deles, talvez por isso seus cãezinhos  tenham falecido . A coitada ta magra e sem força de cuidar deles. Às vezes a admiro pela força que teve na hora de parir, outra hora eu não entendo porque ela não se mostra uma mãe mais atenciosa. E é por isso que fico pensando na maternidade e não cultuo esse lance de “sou sangue do seu sangue”.

Posso até parecer desnaturada, mas esse espírito materno não me encanta  apesar de achar a   gravidez muito bonita. Penso em ser mãe, mas não necessariamente em carregar alguém em mim. Penso nas possíveis desvantagens de se carregar uma barriga. Estava dando uma zapeada na net no álbum de algumas conhecidas grávidas e poucas conseguem se manter belas. E posso parecer insensível e/ou fútil (os que me conhecem sabem que não sou), mas 9 meses de gravidez implica pelo menos 3 retoques a menos da minha raiz, mais os meses que amamentarei, querendo ou não isso vai mexer sim na minha auto-estima. E o incômodo de levar aquele barrigão para cima e para baixo. Apesar de errado adoro dormir de bruço, onde colocaria o bucho quando estivesse deitada?

Confesso que se eu descobrisse hoje que não herdei os genes da Dona que  convivo há 27 (ou seja, minha deusa, minha rainha, minha linda mãezinha), eu não morreria. Ouço falar da importância do ventre, dos cuidados na barriga dentre outros, mas minha lembrança mesmo (e olha que minha memória é ótima) é de quando era criança. Não consigo lembrar de está mergulhada em algum lugar especial onde era alimentada ou ouvir alguma musiquinha. Recordo mesmo das brincadeiras, dos cuidados.

Meu instinto materno está mais em cuidar do que contribuir com genes. Aos que me conhecem sabem que não é novidade que tenho uma irmã adotada e que também penso em adotar uma criança depois dos 30 anos. A experiência de ser irmã de alguém que não tem meu sangue foi muito importante , meu amor por ela mesmo não sendo de mãe ultrapassa qualquer relação com o sangue. Quero ser mãe, mas não necessariamente parir, o que não quer dizer que não vá engravidar. Só digo que não é minha prioridade, não estou planejando barriga, mas se um dia me dê na telha que vai me fazer bem engordar um pouco mais e ter umas estrias a mais e sentir um chutinho dentro de mim, talvez eu opte por isso.  Ou se me der uma doida e eu passar a valorizar os genes, talvez faça como a Sarah Jessica Parker e MAthew Broaderick e contrate uma mãe de aluguel. Xi, havia esquecido um detalhe, não tenho a grana que eles têm.

Deve ser por isso então que não resumo a  importância por ser sangue do meu sangue, assim como não resumo a importância do pai por ser doador . Fosse assim  o Bicó que rodeou a Pichuleta por vários dias para conquistá-la e impedi – la de conhecer alguém legal, seria um grande pai e estaria ao seu lado enquanto os filhotes nasciam, no entanto esse cachorro fazendo jus a sua espécie não se deu ao trabalho de tentar saber como ela estava . Ludibriou nossa  inocente cadela e sumiu no mundo. Agora ela se vira, bem que ela poderia ter largado por ai ou ido atrás dele o obrigando a cuidar das crias “toma que o filho é teu”. Mas não faz isso, apesar de assustada e parecer desnaturada, ta levando pouco a pouco.

Ser mãe é muito belo e admiro e aplaudo a todas que levam esse exercício e embelezam a vida.