Gerlandy Leão

 

 

 

#9

Depois que fatiou o pequeno bolo, o colocou em uma bandeija de plástico e cobriu com a tampa. Deu banho nos meninos e os pôs para dormir. Não demoraria voltar, seria apenas o tempo que duraria o recreio de uma escola pública próximo à sua casa.


Dirigiu-se ao colégio esperançosa, aquele bolo não era apenas o resultado de suas últimas moedas, ele marcava o início de um negócio grandioso e uma oportunidade para seus três filhos pequenos. Tudo o que tentara fazer não encontrava êxito. Impossível seria encontrar emprego sendo semi-analfabeta e o seu joelho enfermo já não aguentava o serviço de faxina. Por enquanto sobrevivia do auxílio de programas sociais do governo, mas naquele dia resolveu investir sua última economia que seria a sua refeição.


No caminho podia vizualizar o fermento de sua idéia. Hoje 12 fatias de bolo, amanhã em vez de desfrutar de algum lucro investiria em mais dois e assim, teria o dobro do que arrecadaria hoje. Depois levaria suco, com certeza as pessoas iriam querer lanche completo. Animava-se com o que conseguiria com suas vendas. Em breve ela faria mais bolo e não precisaria deixar os filhos sozinhos em casa, poderia retirar alguma verba para pagar algum menino para vender em seu lugar. Pelos cálculos que fazia poderia em breve levar mais opções de lanche e logo precisaria alugar algum ponto. Compraria os equipamentos para erguer sua padaria e lanchonete. Algo simples no mesmo lugar, mas que traria bastante renda para seu lar.


Podia imaginar as novas roupas das crianças, não precisaria mais pechinchar em algum brechó, roupas usadas por outras pessoas. Almejava poder entrar em um shopping e comprar aquelas roupas alegres que ela tanto namorava. Ofereceria oportunidade de estudo às suas crianças em uma boa escola. Alegrava-se em saber que não teria mais de dizer “agora não”, quando um filho dissesse que estava com fome. Poderia consertar pelo menos a porta da casa que não fechava, embora não tivesse o que ser roubado, ela temia por sua segurança. Realizaria o sonho de entrar em um cinema, enfim os cálculos que fazia com o resultado das vendas daquelas fatias de bolo lhe abriria caminho para a felicidade.


Ao chegar no portão principal do colégio, onde ficaria com sua bandeija à espera dos alunos, deparou-se com um grande número de vendedores, talvez com os mesmos problemas, talvez com os mesmos sonhos. Foi empurrada por alguns ao som de “aqui é o meu lugar”, “o que você está fazendo aqui?”, “é bom proucurar outro ponto para você”… Os alunos preferiam comprar lanche na mão de pessoas conhecidas mesmo assim conseguiu vender três fatias.


Voltou para casa e à noite jantou juntamente com seus filhos as 9 fatias que sobrara das vendas. Foi para a rede, chorou muito, fechou os olhos e dormiu.


Inspiração: Leitura contemporânea de Elias e a Viúva de Serepta (Reis 17, 8-24) e um fato curioso que eu vi na infância.

Imagem: Achei a imagem perfeita no flickr. É como se eu tivesse vendo a porta da casa dela, e sem contar que o número nove parece que tá lá de propósito. http://www.flickr.com/photos/ubu/537830/

comentários: https://gerlandy.wordpress.com/2007/06/14/a-matematica-do-bolo/

2 Respostas to “A MATEMÁTICA DO BOLO”

  1. gustavonogueira Says:

    Poxa.
    Uma trágica história em um lindo texto.
    Parabens.. bjos

  2. Anta Says:

    Muito bonito parece que está contando a história da minha mãe,isso realmente aconteceu com ela só que ao invés de bolo era pastel acabei de reviver a sena foi legal.Não podemos esquecer de onde viemos são nossas raízes.
    Beijos te amo miga…

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