Gerlandy Leão



“Mas que porcaria nojenta, meu Deus do céu”. Era todo dia a mesma coisa sempre que chegava em casa. Tudo poderia está ordenado, os cômodos da casa limpos, mas o seu humor mudava quando via uma gota de água na pia da cozinha.

O patriarca da família tinha uma relação estranha com aquele espaço. Às vezes ficava muito tempo olhando para ela a fim de encontrar alguma sujeira que fosse. A pia deveria ficar intocável. Toda casa poderia ter qualquer defeito mas a pia de inox deveria está impecavelmente brilhando. Quando não a encontrava exatamente como gostava de vê-la, reclamava que todos faziam isso para provocá-lo. Como se tivesse alguma graça em visualizá-lo brigando de um lado para outro.


Cresceu ajudando a mãe nas tarefas caseiras numa infância humilde. O que tinham em casa era o “giral”, construído com talas de bambu ou palmeira, onde as louças eram lavadas com areia por falta de material de limpeza. Dizem que é desta cultura que surgiu o termo “arear” panela. O reflexo das mesmas não perdiam para nenhum reflexo de qualquer espelho que fosse.


Inquietava-se ao ver uma colher que fosse ocupando seu espaço e reclamava sempre “a pia tá nojenta, cheia de louças sujas”… “mas pai ainda estamos almoçando”. Não conseguia conter o nervosismo. Sentava-se segurando as mãos suadas enquanto sacudia os pés no sinal de ansiedade . “Vamos logo, vocês não terminam hoje?”. Outro dia a família ainda estava à mesa quando resolveu retirar os objetos da mesma direcionando-os à pia para logo em seguida iniciar a cobrança de limpeza.


Ninguém escapava à sua ira, fosse espôsa, filhos, netos, empregada, todos ouviam seu resmungo. Fez um escândalo ao ver que a filha não enxugara a pia logo após lavar um copo. Correu rapidamente, disperdiçou vários minutos para secá-la, depois reuniu a família e mostrou “é assim que eu a quero todos os dias”. Bem que não havia dificuldade em fazê-lo, mas com o intuito de dá um basta naquilo, todos resolveram boicotar o pedido.


Foram dias difíceis ter de ouvir todas as reclamações diariamente. Uma vez uma filha quase traiu o MOVIMENTO EM PROL DA LIBERDADE DE ESTAR DA PIA quando tentou pegar o pano destinado à enxugar a pia, mas foi impedida por outro membro do grupo. Ainda bem, quase abandonaria os ideais por não aguentar tanto lamento que adoecia mais ainda o senhor. Chegava na cozinha colocava a mão no peito e gritava “isso é demais para o meu coração. Eu não mereço isso, eu não agüento” e se retirava para o quarto.


Duas semanas depois, desde o início da greve e de consecutivas reclamações (não haveria diálogo enquanto ele não deixasse de gritar), finalmente ele chega calmo em casa. Aproximou-se da pia que estava molhada e a tocou carinhosamente. Saiu sem proferir nenhuma palavra. “Ufa!” os membros do movimento que observavam a cena sentiram-se aliviados, porém ainda não era motivo para comemorar, pois ele teria de vencer essa compulsão todos os dias. Na noite seguinte entrou novamente calado, olhou a panela que estava em cima e retirou-se. Aí sim foi motivo para festa.


Despreocuparam-se e aliviaram-se com aquela cena, na certeza de terem obtido êxito no processo de “liberdade de estar da pia”. A vida começava a voltar ao normal quando todos resolveram usufruir dela. Espalhados pelos demais compartimentos da casa, escutaram repentinamente um barulho de algo que parecia se desmoronar soando da cozinha. Começou a surgir gente dos quartos, da sala, do banheiro … ao chegarem lá se depararam com o som das picaretadas na colunas de sustento. Todos ficaram parados com olhar pasmo e de espanto.


Ele retirou a pia e falou-lhes que nunca mais seria obrigado a vê-la corrompida pela sujeira. Depois a levou para o seu quarto e a deitou próxima à sua cama. Nesta noite dormiu tranqüilamente e sonhou com o paraíso das pias enxutas.

 

Inspiração: Apesar de um pouquinho de exagero mas conheço uma pessoa com essa obsessão. Outras descrições fiz pensando em uma amiga que tem mania de limpeza rs.

Imagem: É impressionante como eu sempre encontro tudo o que procuro. Parece até a protagonista da minha história com suas gotinhas de água. http://flickr.com/photos/tatalina/148954602/

Comentários: https://gerlandy.wordpress.com/2007/09/24/a-pia/

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