Gerlandy Leão

 

 

 

captura_da_tela.gifQuando retornei à minha antiga rua percebi o quanto um lugar pode mudar em tão pouco tempo de distância. E não me refiro apenas às pessoas que se transformam a cada dia, mas à própria visualização do espaço físico. A Rua John Kennedy, lugar onde eu passei 10 anos da minha vida parecia tão diferente agora. Cheguei na primeira esquina do Comércio e tudo que via parecia ruínas e um abandono, principalmente por seus buracos no asfalto. Vi algumas pessoas nas calçadas e fiquei tímida em encará-las, mas eu tinha tanta saudade deles e da minha rua que não consegui recuar.

 

Fiquei parada por um bom tempo admirando-a. Agora parecia tão estreita e curta. Percebi que agora era impossível correr por ali e brincar de bandeirinha (em outros lugares rouba bandeira), baleada (em outros queimada), tocobol (em outros taco ou bola, ou bate taco), vôlei (em todo o resto do Brasil vôlei mesmo). Os demais esperavam na calçada a sua vez de brincar através do pedido de “torneio é meu” (aqui chama-se desafiado, mas só significa mesmo o próximo sou eu). A rua agora parecia tão sem sabor, tão sem graça e tudo piorava quando vi que finalmente as pessoas cresciam e envelheciam. Encontrei os meninos com voz grave e as meninas com curvas. Com certeza essas modificações aconteciam enquanto ainda estava lá, mas não eram tão perceptíveis porque estávamos acostumados um com o outro.

 

Após visita de casa em casa ao som de “Ah! Como você está mudada”, concluí que tudo, ou pelo menos a maioria estava mudada. Cada casa que eu entrava tinha uma história: quem havia morrido, quem havia nascido, quem havia casado, quem havia separado, quem havia chegado, quem fora embora etc. Todas as peças estavam mexidas e eu não conhecia mais nada. Havia sobrado pouco do que deixara.

 

Depois de várias casas visitadas finalmente cheguei aonde almejava. Lá estava ela, na penúltima casa da Rua Jonh Kennedy, a inesquecível 732 com portas fechadas. Ela havia sido vendida, mas estava de portas trancadas, sem um morador dentro para lhe fazer companhia. Pela frente parecia intacta, não fosse pelo amarelo da frente agora um pouco desbotado e o aparecimento de ferrugem nos portões. Cheguei perto e tentei olhar pelo espaço entre os ferros dos portões, porém não havia nada e na nossa mini garagem onde competíamos com o Casquinha (nosso fusca), por um pouco de espaço para brincar com bola, agora só ecoava o som da minha voz. Enquanto olhava para dentro esquivando pelas aberturas, recebia notícia de que ela estava ruindo. Seuas paredes estavam caindo, o chão afundando e a 732 não resistiria a uma quinta reforma, a sugestão seria derrubar a garagem os três quartos, os dois banheiros, a despensa, as três salas e a cozinha, ou seja recomeçar do zero. Meu coração apertou e não segurei a lágrima, pois amava muito aquela casa. Os atuais donos sentiram medo dela desabar por cima deles. Quanto exagero! Como puderam ser tão covardes, abandonando-a assim? Eu queria entrar mais uma vez e ver os cômodos que por muitas vezes eu, meus irmãos e amigos brincamos de esconde-esconde. Queria subir mais uma vez no pé de carambola, olhar as laranjeiras, a goiabeira, a roseira, a palmeira nanica e demais plantas, a casa do Bradock [nosso finado cachorro] que depois se transformou em um depósito de não sei o que… mas lá estava ela fechada, solitária e ruiria em algum tempo. É provável que nem tivesse mais nada do que citei.

 

Lembro-me de um episódio do desenho Denis- o pimentinha, em que a casa do Sr. Wilson é removida para outro lugar. Eu queria ter removido aquela rua ou pelo menos a casa. De fato, eu tinha carinho pela minha cidade natal, mas o meu coração batia realmente mais forte pela John Kennedy e pela 732. Eu ainda guardava o desejo e sobretudo a esperança de voltar a morar lá um dia, mas aquela visita contribuiu muito para que eu seguisse sem me prender mais a essa vontade. Percebi que o que amava não existia mais, era passado e, portanto não havia retorno. Voltar seria tão diferente pra mime como recomeçar em qualquer outro lugar. Eu teria de me adaptar novamente. Agora só me restava as lembranças de uma infância muito bem vivida.

 

Inspiração: Minha infância naquela rua. Dois anos passei por esse reencontro.

Imagem: Parece os buracos que encontrei naquela rua. http://flickr.com/photos/thalisson/590206368/

Comentários: https://gerlandy.wordpress.com/2007/08/26/a-rua/

 

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