Gerlandy Leão

 


Saiam todos do meu quarto!

Não. Eu não sou indelicado, não sou mal educado, mas no momento foi o que consegui expressar. Estou com medo e não quero dá espetáculo. Depois de muitos anos, ou melhor, depois de toda uma vida em cadeiras de rodas sou tomado pela possibilidade de andar. Isso é muito novo para mim. Ah, normal para todo ser humano é andar sobre suas pernas, mas para mim mesmo normal sempre foi meu esforço com meus braços para empurrar-me para meu alvo. Mas agora tenho o sinal verde… será que posso acreditar?

 

Lembra-me aquela história bíblica, onde alguém diz levanta-te e anda. Mas como levantar-se? Como deixar a cadeira, a sua grande companheira durante anos? O chão seria mesmo seguro? Como seria andar sem precisar de ajuda externa? Tudo parecia muito suspeito. Mas era verdade, ele podia andar, mas era estranho. Ele não entendia porque almejara algo que nunca conhecera e agora que tinha não sabia o que fazer.

 

Pensei naquele animal silvestre criado em cativeiro que depois de algum tempo ver a floresta, o habitat natural para sua vivência e estranha. Tem medo de aparecer, não sabe o que ocorrerá, não sabe o que virá. E se eles retornarem para prendê-lo? E se for só um teste? E se essa liberdade for vigiada? Será que não há nenhum chip para monitoração? O que fazer? O animalzinho deveria continuar no lugar em que se encontrava, e esperar um pouco mais? Esperar o movimento. Ele já fora tão acostumado com um mundo diferente girando por fora. O que fazer? Como se adaptar?

 

E aqueles amantes acostumados com os quartos de algum lugar isolado para esconder-se dos olhos repreensivos da sociedade, ou dos olhos de seus cônjuges. Sempre acostumados a fugirem pelos cantos da cidade até chegar há um lugar isolado. Acostumados a planejarem mentiras para convencer aos outros que estavam em outro lugar, agora se vêem livres e nenhum empecilho que os impeçam de se serem vistos, mas ao mesmo tempo é algo tão estranho. E se não conseguirem, será que o sabor da relação não estava exatamente no proibido? Nunca discutiram sobre essa liberdade porque nem tempo tiveram para pensar isso, parecia algo improvável, impossível. Mas agora não saberiam o que fazer com sua possibilidade de liberdade.

 

Pensei naqueles homenzinhos da caverna de Platão e me perguntei será que eles se adaptaram tão bem à luz? Foi tão fácil assim? imagino um homem isolado criado e crescido solitariamente em buraco sombrio onde a vinda para o claro causaria um mal estar à pele, aos olhos, à mente. De repente tudo o que aparentemente é normal se tornaria um tormento na vida desse ser.

 

Penso no ex rico aprendendo a ser pobre, nos recém-casados, num porra louca se convertendo à vida religiosa, em todas as transformações. Penso em todas tentativas de adaptação, nos sucessos e fracassos. Ah, pensei tão simplesmente que me adaptaria, mas percebo que não é tão fácil assim, muito menos rápido. Reflito sobre os animais frutos da evolução da espécie e o que eles passaram e sofreram para se adaptar às mudanças drásticas. Não deve ter sido fácil, mas a necessidade os obrigou a isso, sem contar que o tempo colaborou com simplesmente milhões de anos.

 

Consegui erguer-me da cadeira e ainda ensaiei dois passos. Já é suficiente para saber que é isso que eu quero, mas também para saber que meu medo não me levará muito longe. Portanto recolho-me à minha cadeira assim como creio que o animalzinho retorna assustado para a jaula com a porta ainda aberta ou como acredito que aquele casal de amantes adentra novamente naquele quartinho xexelento em algum bairro escondido pela cidade.

 

Foi ótima a sensação de mudar, mas minhas pernas não parecem se mostrar minhas melhores amigas agora. Pode ser só minha mente insegura, mas sou muito bom no que faço. A priori só queria levantar, depois senti que queria andar, depois correr, pular… mas já sei que não será possível… é, acho que não chegarei a tanto, prefiro ser bom no que faço do que medíocre.

 

Inspiração: Uma viagem muito doida da minha cabeça. Tou querendo me especializar em escrever em primeira pessoa dentro de vários personagens. São só tentativas.

Eu havia escrito há vários dias, mas não conseguia concluir. Só essa manhã finalmente me veio à mente o fim.

Imagem: uma bela foto de Luciano Bergamaschi http://flickr.com/photos/canoasflickr/530510040/

Comentários: https://gerlandy.wordpress.com/2007/10/01/adaptacao/

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