Reflexões


Gerlandy Leão

Minha cadela deu cria em véspera do dia das mães. Confesso que não é uma cena agradável de se ver. Ela teve uma gravidez fácil e manteve o corpitcho enxuto, e foi exatamente por isso que fui surpreendida no meio daquela tarde. Estava meio tristonha e procurando um lugar pra ficar. Nem me toquei quando percebi que  ela não quis o almoço e ainda vivia invadindo meu quarto. “Pichuleta! Saia já daqui”, mas ela não queria sair tão facilmente debaixo da minha cama. Depois de vários gritos em cima dela,  resolve se retirar com um filhote pendurado. Eu havia interrompido o nascimento do seu filhinho. Óbvio que sensível como eu sou, aquela cena me chocou e simplesmente não sabia o que fazer.  Pensei ver  um aborto espontâneo.

Entre choros e gritos, minha irmã chega da rua e me acode (a mim, porque eu estava nervosa), enquanto nossa cadelinha  dava um show de segurança. Nascido o primeiro filho, minha irmã resolve me deixar sozinha mais uma vez . Burrice nossa, uma cadela não dá a luz a um só  apesar da barriga pequena. E lá vem a cadela desesperada enquanto os dois filhotes gritavam também. “O que é Pichuleta? Vai cuidar dos teus filhos” . Sei que ela tava tentando e  a via com um carinho todo especial beijando os filhotes, mas ao mesmo tempo sentia seu desespero. Essa cadela me deu trabalho, gritava e subia em cima de mim com um olhar de dor. No meio do desespero ligo para a louca da minha irmã aos berros: “ela vai morrer, ela ta sofrendo” e a insensível tenta me confortar: “ela sabe o que fazer”. Sei, elas sempre sabem o que fazer, mas parecia não entender o que a natureza fazia com ela e eu muito menos. Em vez de lhe dá a mão , apenas chorava e ligava para minha mãe e a desnaturada de minha irmã. No final das contas ela teve 6 filhinhos lindos. Até hoje estou chocada com aquela imagem de dor.

Agora, no mês de maio que homenageia as mães, apesar de ter passado o segundo domingo de maio, fico pensando sobre a maternidade. Ontem estive em uma programação da igreja em homenagens às mães e achei algo curioso. Muitas canções, frases e homenagens diversas se limitam a agradecer à Mãe pelo sangue, por carregar na barriga. E fiquei pensando como é equivocado. Para mim o espírito materno não está em carregar criança no ventre. Lembrei na hora da minha cadela e como senti medo mesmo de dá cria a um ser. Lembro da dor que  ela sentiu e imagino o quanto deve ter sido traumático no entanto ela não  tem sido atenciosa e fica fugindo dos pirralhos. Prefere dormir longe deles, talvez por isso seus cãezinhos  tenham falecido . A coitada ta magra e sem força de cuidar deles. Às vezes a admiro pela força que teve na hora de parir, outra hora eu não entendo porque ela não se mostra uma mãe mais atenciosa. E é por isso que fico pensando na maternidade e não cultuo esse lance de “sou sangue do seu sangue”.

Posso até parecer desnaturada, mas esse espírito materno não me encanta  apesar de achar a   gravidez muito bonita. Penso em ser mãe, mas não necessariamente em carregar alguém em mim. Penso nas possíveis desvantagens de se carregar uma barriga. Estava dando uma zapeada na net no álbum de algumas conhecidas grávidas e poucas conseguem se manter belas. E posso parecer insensível e/ou fútil (os que me conhecem sabem que não sou), mas 9 meses de gravidez implica pelo menos 3 retoques a menos da minha raiz, mais os meses que amamentarei, querendo ou não isso vai mexer sim na minha auto-estima. E o incômodo de levar aquele barrigão para cima e para baixo. Apesar de errado adoro dormir de bruço, onde colocaria o bucho quando estivesse deitada?

Confesso que se eu descobrisse hoje que não herdei os genes da Dona que  convivo há 27 (ou seja, minha deusa, minha rainha, minha linda mãezinha), eu não morreria. Ouço falar da importância do ventre, dos cuidados na barriga dentre outros, mas minha lembrança mesmo (e olha que minha memória é ótima) é de quando era criança. Não consigo lembrar de está mergulhada em algum lugar especial onde era alimentada ou ouvir alguma musiquinha. Recordo mesmo das brincadeiras, dos cuidados.

Meu instinto materno está mais em cuidar do que contribuir com genes. Aos que me conhecem sabem que não é novidade que tenho uma irmã adotada e que também penso em adotar uma criança depois dos 30 anos. A experiência de ser irmã de alguém que não tem meu sangue foi muito importante , meu amor por ela mesmo não sendo de mãe ultrapassa qualquer relação com o sangue. Quero ser mãe, mas não necessariamente parir, o que não quer dizer que não vá engravidar. Só digo que não é minha prioridade, não estou planejando barriga, mas se um dia me dê na telha que vai me fazer bem engordar um pouco mais e ter umas estrias a mais e sentir um chutinho dentro de mim, talvez eu opte por isso.  Ou se me der uma doida e eu passar a valorizar os genes, talvez faça como a Sarah Jessica Parker e MAthew Broaderick e contrate uma mãe de aluguel. Xi, havia esquecido um detalhe, não tenho a grana que eles têm.

Deve ser por isso então que não resumo a  importância por ser sangue do meu sangue, assim como não resumo a importância do pai por ser doador . Fosse assim  o Bicó que rodeou a Pichuleta por vários dias para conquistá-la e impedi – la de conhecer alguém legal, seria um grande pai e estaria ao seu lado enquanto os filhotes nasciam, no entanto esse cachorro fazendo jus a sua espécie não se deu ao trabalho de tentar saber como ela estava . Ludibriou nossa  inocente cadela e sumiu no mundo. Agora ela se vira, bem que ela poderia ter largado por ai ou ido atrás dele o obrigando a cuidar das crias “toma que o filho é teu”. Mas não faz isso, apesar de assustada e parecer desnaturada, ta levando pouco a pouco.

Ser mãe é muito belo e admiro e aplaudo a todas que levam esse exercício e embelezam a vida.

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Há mais de um ano fiz  um post sobre Maria, mãe de Jesus e vez outra recebo e-mail ou comentários de ameaça. Já me irritei e dessa vez uma me chamou atenção. Não que ela seja a mais importante, mas pela a insistência dela. Não se conformou em  ver minha paciência em responder aqueles que tentam me corrigir ou evangelizar e continua na sua repetitiva luta em me converter.

Pensei em apenas responder nso comentários, mas creio que ficou longo e fica mais fácil dividir com os demais o que aconteceu. Só quero que fique claro, eu não sou má e nem como criancinhas.

Transcrevo o comentário descrito aqui

Quando comecei a ler o seu texto, durante todo o tempo orava a Deus pedindo o derramento do Espírito Santo sobre você, sem o qual vc. continuará assim (seca). Desculpe-me, mas vc. vai chegar ao ponto do esgotamento sem a presença do Espírito Santo (sei disto porque já passei por isto).
Pode ser teóloga, mas “não tem fé”!
Leu a Bíblia, mas não sentiu Deus agindo em sua vida através da sua Palavra.
Recomendo o exercício espiritual “A BÍBLIA NO MEU DIA-A-DIA DO PADRE JONAS ABIB”. PROVE E VEJA SE DEUS FALA OU NÃO EM SUA VIDA ATRAVÉS DESTE TRABALHO.
CONCORDO EM GÊNERO, NÚMERO E GRAU COM O 1º COMENTÁRIO (ISABEL);
LEIA SABEDORIA DE SALOMÃO (CAP. 13, 1 à 9)
Sim, naturalmente vãos foram todos os homens que ignoraram a Deus, ……..

Quanto ao Dr. Augusto CURY, os frutos falam por si só. As suas obras são de uma espiritualidade indescritível.
Como psicólogo, analisou Jesus, e interpretou como o homem “Jesus” conseguiu superar os momentos limitrofes vividos e amar as pessoas como amou.
O preço dos seus livros são insignificantes. Até livros de bolso ele tem, com preços mais acessíveis ainda.

Deus a abençõe e que o Espírito Santo te ilumine.

Vamos por parte. Estava de recesso, por isso não respondi mais cedo.

Acredito que vai ficar repetitivo. É a história “vou falar de novo, novamente mais uma vez”.

Meire, não estou seca, só não mais compartilho da sua fé. Fique a vontade para pedir que o ES derrame sobre mim. O que eu acho engraçado é que ele é tão bonzinho que precisa que alguém que ore. Pense comigo, se ele fosse tão bom ou se tivesse tanto poder, ele não precisaria de sua oração. Aí você me diz, “mas depende da pessoa querer”. Sendo assim, sua oração é desnecessária, seja trabalhando pelo espírito santo ou por mim. A sua oração só faz bem a você, como o cristianismo que apesar de se esconder nessa história de amor ao próximo nada mais é que uma religião individualista. Veja se concorda comigo.

Vocês pregam não por amor ao próximo, mas porque é mandamento de Jesus e serão cobrados. Logo têm medo de queimar torrarem no fogo do inferno então vêm com o marketing e busca por novos fiéis. Veja sou boazinha, nem falo na possibilidade de terem as igrejas lotadas, com dizimistas e poder de decisão na sociedade, já que a maioria dessa seria composta de cristãos. Fui romântica, e creio que sejam boas pessoas que almejam ir para o céu.

Não os critico, mas ao mesmo tempo em que digo acreditar que apenas têm medo do tridente do cão (eu sei que isso não é citado na bíblia, mas é a cultura popular fazer o que né ), vejo que se aborrecem quando alguém é contrário aos seus pensamentos e o que fazem: “Espero que deus faça justiça”. Entende-se por justiça, o juízo final “onde ele virá não como advogado, mas como juiz, para nos sentenciar” (Sim Meire eu leio, estudo, acreditava na bíblia).

Ah, como adoram o sentimento de vitória. Melhor seria ver um descrente se convertendo às suas palavras e dando a sensação de certeza, de que não são palhacinhos, de que existe o que se crer. É bom a certeza que existe e que deus faz (é uma música da Cassiane que eu até cantei muitas vezes, bunitinha). Mas se a pessoa não se converter tem a outra possibilidade que enche seus olhos de alegria. A sensação de subir para o céu e sentir-se vingados ao ver os otários torrando aqui na terra para que falem: “bem que eu disse”. Parecem menininhos mimados: “Olha aí pai (deus), o pessoal só ta falando mal do sinhô, e você num vai fazer nada”.

Para encerrar sobre essa história de espírito santo e sobre suas falsas orações, espero que você fique bem. Se quiser orar, ore, o que você faz com seu tempo é assunto seu.

Pode ser teóloga, mas “não tem fé”!

Eu passaria muito tempo discutindo sobre fé. Mas prefiro substituir a fé pelo pensamento positivo pelo bem estar (não lembro se com hífen ou sem hífen, maldita Reforma ortográfica). Eu acredito na vida e tenho muitas dúvidas mesmo sobre ela, tenho dúvidas até sobre divindades. Se existem ou não, se foi feito pelo Unicórnio, pelo Chá ou pelo Papai Noel eu não sei, mas tenho uma certeza: o deus descrito na bíblia é tão lenda quando Saci Pererê. E a Bíblia é um belíssimo livro de ficção.

Ops, falei que a bíblia é ficção… então não me venha citar passagens tiradas de lá como se fossem verdades para eu aceitar. É a mesma coisa da minha irmãzinha me dizer, “comer cimento é bom porque eu digo que é”. Isso não tem lógica né. Aí você procura algumas passagens bíblicas estranhas e quer entender e simplesmente somos calados com frases de que existem coisas que não entendemos. Mais uma coisa que lembra minha irmãzinha: “Por que isso… Porque mesmo, porque sim”. Quem tem um mínimo de senso não se satisfaz com essa resposta.

Outra coisa, você trabalha com a idéia de haver apenas um deus e ignora todos os outros possíveis. Já parou para pensar que você é quase atéia… Você não acredita nos deuses africanos, assim como um ateu, não acredita em deuses hindus, assim como um ateu. Sendo cristã você só acredita em um deus a menos do que o ateu.

“Quando você entender porquê rejeita os outros deuses, entenderá porquê rejeito o seu…” Stephen Henry Roberts.

Dr Cury

Já disse, sou fã do cara. Ele vende o que escreve e se dar muito bem. Mesmo que venda barato ou pouco ele tem nome. Jesus dá dinheiro. Perceba, tudo que tem seu nome é vendável. E me fala em de espiritualidade… por favor, percebo que és mais ingênua do que meu sobrinho de 1 aninho. Cury analise um personagem fictício, assim como Capitu, Emma Bovary, Otelo, Odisseu dentre tantos outros famosos, só não tantos quanto Jesus, além de não despertarem tanto interesse quanto Jesus. Isso porque não foram vendidos como salvadores.

Este era um assunto que eu não queria tratar. Até porque se perceber no meu artigo eu trabalho com a hipótese dele surgir, outras pessoas são mais cruéis com vocês, pois defendem que ele não existiu. Eu digo que existiu, mas não sei se ressuscitou. No entanto como homem sua importância deu-se por Maria, ela sim, jogada de lado, representa o que a igreja quer. Uma mulher submissa e que tenha nada de sexo. Só que a própria bíblia se contradiz. Dou uma de Cury e analiso uma personagem fictícia com base em alguns relatos e o que concluo é que de santa ela não tinha nada, mas era forte, firme e decidida a criar um filho como salvador do mundo. A idéia pegou: até hoje tem gente que acredita.

Gerlandy Leão

Medo, muito medo. Desde de 1º janeiro tenho a sensação de ser perseguida por uma caneta para me corrigir. Tudo por culpa dessa Reforma ortográfica. E pensar que me orgulhava tanto por saber acentuar, aliás por no jogo do bicho da Língua Portuguesa só saber acentuar. Foi por isso que nunca mais vim, foi por isso que nunca mais escrevi nada. Mentira, é brincadeira. Estive ocupada e no tempo livre com preguiça.

O mês de dezembro foi maravilhoso, me apaixonei e desapaixonei; ganhei dinheiro e gastei tudinho; viajei e retornei; presenteei e fui presenteada; me preparei para ir embora e acabei ficando; emagreci e engordei novamente; revi Zeca Baleiro e conheci Reginaldo Rossi.

Dezembro foi legal, só confirmou o que o ano de 2008 significou para mim. Voltarei com mais frequência.

Gerlandy Leão

E não é que sobreviveu.

Este espaço que vos escrevo, completou um ano no ultimo dia dez. A idéia era publicar algumas bobagens que eu tinha, mas no decorrer dessas surgiram outras idéias. Continuo com várias guardadas e com uma preguiça imensa, mas acho que a gente deve escrever independente de que gostem ou não. Vejo que é muito importante o que faço principalmente para mim. Fui reler meus textos depois de tanto tempo e me senti uma mera leitora, nem lembrava mais como havia chegado até aqui.

Quem me conhece sabe da minha paixão por contos e as dúvidas que eles deixam em nossas cabeças. Depois de algumas críticas continuo dizendo que não vou mudar nenhum final, no entanto achei por bem fazer um um final alternativo para os principais textos que escrevi. Fui fazer umas visitas e reencontrei vários personagens, eis alguns:

a vendedora de bolo…… recebe uma encomenda de manhã cedo

a pia ……………………….. é instalada no quarto sem torneira por perto

a rua………………………… voltou a ser sondada

o cadeirante……………… caiu ao tentar se adaptar e voltou rastejando para a velha amiga cadeira

a lagarta………………… nunca mais apareceu

a flores………………….. enfeitaram outras covas

a frase…………………… nunca mais será vista

As mães………………… são o grande apoio dos filhos

a forma geométrica…. expulsou um de seus pontos

a menina……………….. continua boiando pelas águas tentando aprender a nadar

a mulher……………….. encontrou um pai para o filho, mas desistiu de concebê-lo.

o casal………………….. separou-se, juntou-se, separou-se de novo e estudam um retorno

a figueira………………. insiste em achar que está seca, mas continua alimentando quem a procura

A pipa………………….. Teve uma queda maior, mas soube que está tentando se consertar novamente.

A janela……………….. virou lembrança, agora prefiro portões.

As viagens…………….. ganharam novos planos

O Incubus……………… ah o Incubus!

Quero agradecer desde já aos meus poucos mais fiéis leitores (ai como sou chata), principalmente aqueles que participam ou escrevendo seus comentários aqui ou discutindo comigo. PArabéns ao Contos da Serpente, me ajudou bastante no último ano.

Gerlandy Leão

Você já tentou não orar pelo menos um dia sequer? Essa foi a pergunta mais importante que vi nos últimos 10 anos. E prosseguiu: Não digo um dia, mas pelo menos deixar de orar pelo menos um período? Fiquei parada naquela página do livro que lia. E quis perguntar: é comigo que você está falando? Não era comigo, era com uma personagem do livro que lia “Do Nazismo para Cristo”. Este foi exatamente um daqueles resultados em que o tiro saiu pela culatra. Quando recebi esse livro de um amigo, a idéia era reforçar minha fé.

O livro relatava a vida de uma cristã que se tornou nazista e algum tempo depois se converteu ao cristianismo novamente. Uma personagem nascida em berço cristão se ver seduzida pela vida e ao longo do livro narra seu sofrimento longe dos braços da igreja ao se entregar aos prazeres da carne e às ideologias mundanas. Logo seu intuito era dizer: não saia desse caminho, pois fora dele é muito perigoso. Teria surtido efeito comigo não fosse por essa única frase.

A autora fala (o livro é narrado em primeira pessoa) que, diante as dúvidas de sua espiritualidade, ouviu uma pergunta muito perigosa de sua professora:

Minha querida, você já tentou não orar pelo menos um dia sequer? […] Se você passar uma manhã sem sua prece verá que mal algum te acontecerá. A autora queria falar: meus queridos leitores, aquela era uma armadinha do inimigo. Eu comecei a ver como deixava de orar um dia não me acontecia nada de mau, logo poderia viver uma vida assim. Mas não cedam meus irmãos, não caiam em tentação.

A essa altura eu só repetia: um dia, será que consigo pelo menos um dia? Ela ficaria desesperada se me visse, ou até tentaria dizer, não foi isso que eu quis dizer, mas já era tarde. Depois disso ainda li umas páginas, mas nem cheguei a terminar a leitura do livro de bolso com suas poucas páginas, mas ele já tinha cumprido a sua missão, pois nenhum outro livro herege havia conseguido comigo o que esse evangélico conseguiu.

Igual a um robô programado para fazer tarefas diárias assim fui por muito tempo executando orações todo dia e praticamente o dia todo. Não havia um dia sequer que minhas orações fossem esquecidas de serem realizadas e não se tratava apenas de simples palavras, Deus me ajude, obrigado meu Deus ou me salve. Realizava todo um ritual diariamente mantendo a marca nos joelhos que orgulhosamente chamávamos o sinal da ovelha. De manhã cedo ao despertar me ajoelhava e pedia a ele que não deixasse que tivesse uma cobra embaixo da minha cama. Para depois voltar do banheiro limpa e pura para me ajoelhar verdadeiramente com aquelas palavras pesadas admitindo que vinha,

por meio destas reconhecer que somos lixos diante da tua magnitude e soberania e que não somos merecedores de nada. Para depois agradecer pelo pão, pela vida, pelos céus, pela terra e tudo que neles há, e principalmente pela salvação e por ter enviado o filho amado para morrer na cruz por mim e então pedir que não faltasse o pão aos órfãos e viúvas e que protegesse as autoridades e minha casa.

Sabedora de que se tratava de um pedágio para um bom dia, porque quebrar isso seria como ser um computador sem antivírus, logo ele não tinha obrigação de nos proteger, não deixava de cumprir esse ritual. Sei que isso não foi fácil, digamos que fiquei nervosa, com medo e esperando a qualquer momento acontecer algo de mau comigo. Passei pela primeira prova. Algumas pessoas que o leram viram apenas: Saia da linha e estarás ferrado! (para não falar a outra palavra com F),

Essa experiência não me tirou da igreja imediatamente, mas apenas me abriu novos horizontes. A partir daí, a pequeninos passos, fui compreendendo outras coisas ao ponto de um dia perguntar aos céus se eles não se cansavam de tanta bajulação. Pensei em mim e que me irritaria se ouvisse uma pessoa me agradecendo todos os dias por um presente que dei no dia do nascimento. Ou se a mesma ficasse se humilhando para mim, ou mesmo se todo dia me pedisse para eu dar algo que eu já vou dar mesmo, (sim porque é assim que aprendemos, ele vai nos dar, mesmo assim devemos clamar e pedir).

Além da literatura ouvir algumas palavras hereges em certos filmes me deixou balançada. As palavras proferidas pelo magnífico Al Pacino em Advogado do Diabo sobre Deus me pertubou bastante: “Ele fica mijando de tanto rir! Ele é um sacana, um sádico!”. Tentava levar na esportiva, mas não dava. Dogma e suas bincadeiras com as regras, colaborou também bastante com o que penso hoje. Laranja mecânica e a sensação do que a instituição fizera comigo me deixava maluca, mas dentre tantos importantes Matrix me deu uma chance de saber que eu podia optar realmente entre a ignorância e o conhecimento. Bendito Platão e seu mito da caverna. Vivia analisando sobre isso no meu quarto, conversando comigo sobre minha transformação.

E assim foi durante muito tempo. Fui evangélica durante muitos anos e respeitei durante todo o tempo que fui seguidora. Não fui tentada pelos desejos carnais, mas sim pela necessidade de conhecimentos, com uma mudança de dentro para fora. Pouco a pouco fui rompendo tentando não escandalizar ao grupo de pessoas tão queridas que conheci e conheço, pessoas maravilhosas que apesar de nossas diferenças e de muitas vezes não respeitarem minha decisão, continuam amadas por mim.

A vida fora da igreja não foi fácil, muitos ainda duvidaram da minha saída pensando se tratar de empolgação, apesar de eu nunca ter afirmado não ser mais. Não é fácil dizer sou uma ex evangélica, as pessoas não te dão crédito. Sempre acham que você apenas está afastada, que um dia retornará e que está apenas aproveitando um pouco a vida, ou que vocÊ foi fraca, que não enfrentou seus problemas, que deveria ter mais fé, que deveria esperar no senhor e blá blá blá. Ignoram o teu conhecimento e que você não é uma empolgada para sair “para farra” ou para “passar batom nos lábios”, mas que há algo mais forte que é a sua mente.

Tentei por muito tempo, conter minha vontade de mostrar “meus desejos” para não relacionarem minhas ações à uma evangélica incompleta. E isto nunca me ocorreu. O tempo que vivi foi com paixão, e quando as dúvidas começaram a me assolar, pouco a pouco fui me desvinculando. Só agora consegui retirar a capa que me expresso sem medo. Mesmo assim ainda passo por situações curiosas.

Muitos ainda me vêem como evangélica. No meu bairro ainda sou chamada por Irmã. Se alguém quiser me encontrar por lá não pergunte por meu nome, procure pela Irmã mais velha, filha do Irmão motorista. Sim, porque evangélico não tem nome.

Uma vez um senhor chegou lá em casa perguntando: é aqui que mora o Irmão? – É sim. Respondi. Aí ele pediu que o chamasse. Então perguntei-lhe: o meu pai, o meu irmão ou o meu tio? E ele respondeu-me: o que vende remédio. E eu prossegui: ah, então é o Irmão vizinho que mora aqui ao lado. Não é piada, garanto.

E quando ando com minha irmã, são os comentários. A irmãzinha e a irmãzona. E se minha mãe estiver junta é a Irmã, mãe das irmãs ou ao contrário, as irmãs filhas da Irmã.

Outro dia estava em uma festinha com vestimenta totalmente contrária à adotada pela igreja, ou seja, bermuda, blusinha, brinco e ainda estava dançando. Uma garota perguntou se eu era evangélica. Foi uma pergunta absurda, mesmo assim lhe indaguei o por quê da pergunra. Ela confirmou: “por causa do seu jeito”. Jeito? Que jeito minha gente? Outra vez um rapaz me disse, conheço evangélico só pelo olhar, você é crente? Tal foi o meu susto, pois falou do meu olhar, logo do meu olhar que não é nada inocente, aí vem alguém e me afirma que tenho um olhar de crente.

Aí lembro de um professor que eu adorava conversar e, às vezes aborrecido, soltava um “Porra” para mim e dizia: Teu defeito é que tu ainda é muito cristã. Outro amigo me cobrava que eu me impusesse mais, porque eu era muito humilde, porque aceitava tudo o que me diziam. Por muitas vezes brigou comigo devido as minhas citações bíblicas, ignorando que toda a minha formação tinha sido baseada na bíblia, ignorando toda a minha herança “cultural” – Calma gente! não é assim. Outro se incomoda porque “guardo as coisas para mim”. Dentre muitas outras provocações que ouvi e ouço, só tenho uma resposta para ambos: ocorre comigo algo parecido com o apóstolo Pedro.

Na noite do julgamento de Jesus, Pedro foi indagado três vezes por três pessoas diferentes. Embora negasse, ninguém acreditava, porque ele tinha o jeito e o olhar de seguidor, ele tinha todos os aspectos de seguidor. Pedro não conseguia negar o que era. Mesmo naquela noite tendo cometido algo considerado tão criminoso quanto os que chibataram seu mestre, mesmo ele realmente questionando até que ponto poderia aceitar um deus ser crucificado, mesmo ele querendo desistir daquilo que acreditava, ele não conseguiu negar completamente. As palavras não expressavam o que ele tinha enraizado em seu comportamento e seu jeito de agir. Por outro lado os demais discípulos do mestre se aborreceram com sua atitude de negar. De um lado para alguns as palavras não eram necessárias, já que seu comportamento dizia o contrário e do outro uma simples palavra tinha um poder muito grande.

Pedro, coitado de Pedro.

Pedro, a pedra a qual Jesus disse que faria alicerce de sua igreja, estava numa pior porque se preocupava com o que os outros pensavam. Imagino que ele deve ter sofrido muito sem decidir qual lado da força seguir.

Acho que passei pelo mesmo ou com algo parecido com o ocorrido com Pedro. Sempre preocupada com o resultado de minhas palavras com medo de mostrar exatamente o que acreditava, cheguei a atuar cenas patéticas, de tirar peças de roupa, ou maquiagem, quando via alguém da igreja, ou mesmo pôr aquela calça (considerada uma peça proibida no meio evangélico que eu freqüentava) para que meus demais amigos não debochassem de mim. Isso durou muito tempo, e muitos me cobraram uma atitude, para que eu não fosse hipócrita, sem entender que muitas vezes a hipocrisia é necessária para o equilíbrio da sociedade.

Fiquei por muito tempo preocupada qual resposta dar a ambos os lados, mas isto mudou, graças a mim. Hoje me sinto mais segura e sem medo de ser ou crucificada por romanos, ou desprezada pelos amigos cristãos. Não sou São Pedro e nem preciso mais provar para ninguém o que quero ou o que não quero, ainda bem, eu é que não queria ter um monte de gente me seguindo.

inspiração: So um desabafo mesmo. Há cinco meses estava saindo para o serviço e na porta de casa abaixei a cabeça e comecei a orar. A priori fiquei assustada com meu gesto, mas depois vi como ainda estou acostumada a ser robozinho, mas devagar chego lá.
dedicado: a todos que conseguiram fazer uma leitura além, em especial a você por ter me emprestado aquele livro.

Gerlandy Leão 

 terra.jpg Foi uma loucura este início de ano. Com certeza o começo mais intenso que tive na vida. Mas não esqueço meu bloguinho. Será até quando poderei te dá atenção? Ainda nem completou um ano, ainda ta mamando e eu já penso em deixá-lo. Bem, deixar não vou, mas ficou tão paradinho. Nem foi mesmo por falta de assunto já que tenho alguns textos digitados, mas acho que esperava uma grande inspiração para escrever o primeiro texto do ano: ela não veio.

Já que Dona inspiração anda vagabun… ops, vagueando por aí, resolvi pelo menos aproveitar alguma coisa. Fui tão mal educada, não apresentei nenhum cartãozinho de Feliz Ano Novo aos meus poucos, mas fiéis leitores (UI!!) Sim, porque apesar de não desejar Feliz natal (apenas respondo). Para um novo ano eu desejo que seja boa a virada p todo mundo. Não só ela mas todas posições, ou não, o resto dos dias. Isto, todos os dias sejam cheios de realizações e todos blá blá blás.  

Nossa, eu tive um reveillon incrível acompanhada por amigas que me fizeram companhia o ano inteiro NA ALEGRIA E NA DOR, mas não é um casamento, apesar de solteiras, somos hetero. Foi a primeira vez que eu bati o pé em casa. Todo ano lá estava na igreja cantando “Cristo cura sim”, este ano foi o contrário. Tou indo, fui!!  Apesar de ano passado ter viajado, com certeza se tivesse ficado, teria passado na igreja. Este ano foi diferente. Conquistei muitas coisas, inclusive respeito (apesar de muitas brigas), através do Não concordo, mas respeito. Ótimo!  

Oh minha gente, outra diferença de um  ano a outro. Reveillon passado ouvi como primeira música do ano “Quem é o gostosão daqui”, foi bom (apesar de estranho), imagina este ano que 10 minutos depois da queima de fogos vejo-o entrar maravilhoso, agitando com seu jeito carismático, sua voz única e letras divertidas. De quem eu falo? Só perdôo mesmo os que não me conhecem. Era ele, meu Zeca Baleiro. Foi seu segundo show que tive o prazer de ver e óbvio que me fez apagar a decepção do primeiro.

Terminado o show, hora de voltar para casa 2:30 da manhã. Não duvidem, eu amanheci acordada sim este ano, mas na net. Ah, o que eu não faço por uma conversa agradável?  Oh, grande Heráclito, se um homem e o rio não são os mesmos depois de um mergulho imagina depois de um ano? Posso afirmar que acompanhando o movimento de translação do planeta Terra, mergulhei inúmeras vezes no rio e a cada dia me encontrava mais.  Nunca é tarde para desejar, mas quero que todos meus amigos tenham seus objetivos realizados ou pelo menos encaminhados durante este ano. E que 2008 seja muito melhor do que ano passado. Ano de 2008 todo mundo vai molhar o biscoito… eu sei é uma rima escrota, mas não podia deixar passar em branco.

Gerlandy Leão

 

Estive olhando o meu arquivo de publicações no mês de novembro e pensei: Daqui alguns anos quando retornar a ler vou pensar que este mês estava tomada por um espírito lúgubre. Já expliquei que cresci achando a morte até legal, uma vez que se tratava da passagem daqui para um mundo melhor. Apesar disso, é óbvio que sofria pela ausência da pessoa, fosse as que me deixaram, fosse as que deixaria com a minha morte.

Mas por que novembro? novembro inicia com os finados, porém não quero deixá-lo marcado como um mês fúnebre para mim. Ao contráio, tenho que louvar vidas maravilhosas deste. Então por que falar de morte se posso falar de vida? Tenho uma prima que nasceu nasceu dia 2, um primo no dia 9, minha irmã-melhor amiga dia 22 e este ano fui presenteada com um sobrinho que nasceu dia 10.

Receber a notícia de ser tia nem sempre quer dizer que você está velha, a exemplo, minha irmãzinha que tem 9 aninhos e já se tornou titia mesmo sendo nossa caçulinha. Mas isto não me livra de cair na real de que estamos envelhecendo cada dia mais rápido. Há dez anos comemorava meus 15 anos (com direito a todos rituais bregas). Essa data demorou tantao chegar, mas foi só o tempo de amarrar o cabelo já estava com 20 anos, depois num instalar de dedos estava com 25. Minha nossa senhora, (é minha ou é nossa?) é provável que num piscar de olhos eu seja trintona.

Sei que tempo é relativo, inclusive li há alguns dias de uma pessoa com minha idade que para um adolescente somos “uma tiazona de 25 anos, para um coroa, uma gatinha de 25 anos”. Mas não gosto nem de um nem do outro. Detesto conflitos de gerações, por isso, que eu me lembre nunca fiquei com uma pessoa mais nova ou mais velha 3 anos do que eu. Não é que eu force não querer. é que acabo não me interessando. Na verdade me interessei uma vez. Eu tinha 18 anos e ele 14. Um pirralho né? mas era daqueles bem nutridos, que aumentam a idade e conseguem enganar. O garoto vivia no meu pé, e eu tive uma conversa com ele: “Olha aqui meu filho, você é uma fofura, mas me procurre daqui 4 anos, quando você tiver pelo menos 18 anos e assim não serei acusada de pedofilia; Pode me ligar no dia do teu aniversário, a gente toma um sorvete juntos”. Ele topou o acordo e o menino crescia em graça, saúde e charme (parece narração bíblica).Ao completar 16 anos eu quis quebrar o acordo porque ele já estava irrestível. Mas segui firme no meu proposito.

Dois anos depois eu descumpri o acordo, pois estava namorando e não é só por questões de fidelidade, é que quando me apaixono fico aquela monogâmica que só tem olhos para o amado. Então o pirralho que já era um rapagão não me atraía. Mas como prêmio de consolo ele ficou com minha irmã. Que horror né? mas não foi sacrifício para nenhum dos dois e eu não fiquei como tratante.

Pois é, lembrei dele porque ele é pai agora. Poxa até aquele que eu desprezei por ser menino é pai, meu irmão, um ano mais novo que eu é pai. Minhas amigas de infância, exceto uma, as demais são todas mães. E é por isso que eu penso estou envelhecendo. Foi isso que eu sempre pensei, não tenho medo da morte, tenho medo da velhice, uma velhice solitária, sem pessoas legais ao meu lado. Lembro de uma cena do filme Caçadores de emoção, quando um personagem diz que deseja morrer ao surfar na maior onda do mundo: Eu não desejo chegar mesmo aos 30 anos. Ele radicalizou é certo, mas ele queria uma vida mais agitada e se morresse fazendo gostava o deixaraia feliz. Melhor morrer jovem e feliz que velho e amargurado. Até porque as pessoas não choram com morte de velhos, é muito raro você ver alguém emocionado com essa perda, tá todo mundo esperando mesmo. Quanto aos jovens, entram na história.

Aí me disseram para eu fazer um filho e assim ter garantido uma companhia na velhice. Que horror, fabricar um ser humano para isso. Deixo isso para pensar depois . Tem tanta gente necessitando de carinho e amor. Vou fazer filho para me fazer companhia? Falando em filho lembro novamente do meu sobrinho. Por que todos bebês são lindos? Foi tão emocionante vê-lo entrar pela porta, tão indefeso, tão cheiroso, igual à minha irmãzinha, entrou em casa nos braços de minha mãe com um par de olhos arregalados e com mãozinhas que pareciam palitos de fósforos, olhando para o teto, olhando para mim. Ah tã linda, a recém nascida mas linda que eu já vi. Também lembro quando fui visitar minha irmã mais velha no hospital. Puxa, eu lembro do nascimento da minha irmã de 22 anos que é três anos mais nova que eu. A minha irmãzinha agora é uma irmãzona e eu? e eu?

Pois é este o meu medo. Não é da vida, não é da morte, não é da velhice é da solidão ou será não? Ao mesmo tempo será mesmo gracioso, ser uma velhinha bonitinha com um monte de gente ao meu redor segurando o bolo e soprando as velinhas de cem anos por mim porque eu já não tenho força.

Aff é melhor nem pensar. Enquanto não fico velha, vou ao recreio. É clichê essa frase, mas vou me finalizar com ela: A vida é curta então curta a vida.

inspiração: e eu sei lá. só besteiras mesmo


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