Religião


Gerlandy Leão

– Alô, é da casa Irmã ?

– é sim.

– Que bom irmã. Paz do senhor!

– Amém! Mas quem é que tá falando?

– é o Irmão.

– Coindência eu queria falar com o irmão mesmo.

– Mas irmã, agora que lembrei, você quer falar com qual dos irmãos? Comigo? com  meu irmão? com meu pai ou com o meu tio? eles também são irmãos.

– Meu Senhor da Glória, agora eu não sei. Na verdade eu quero falar com o irmão que vende remédios, queria que ele procurasse um para mim, tou orando e tenho fé em Deus que ele vai me curar através desse comprimido.

– hahaha. Olha irmã, né daqui de casa não, esse irmão que vende remédio é o nosso vizinho.

– Ai que vacilo o meu né?

– Tem importância não. Mas eu dou o recado para a Irmã, espôsa do Irmão.

– Faça isso por mim Irmão. O Senhor irá te recompensar. Mas o senhor ligou para falar o que comigo?

– Não é com você.

– Mas o senhor perguntou se era da casa da Irmã…

-É mas reconheci que não é a voz da Irmã. Você deve ser a Irmãzona né?

– Ah tá. então o irmão quer falar com a minha irmã mais nova que também é Irmã?

– Hum, eu acho que não. Eu quero falar com a Irmã que é sua mãe.

– Ah certo, entendi agora. Só que ela não está aqui. Ela foi comprar a peça da máquina de costurar que um Irmão indicou para consertar.

– Sua mãe costura?

– Sim, é uma costureira. Ela que faz os vestidos e aquelas saias lindas de quase todas as irmãs da igreja.

– Engraçado, mas eu não sabia que a Irmã costurava. Pensei que ela só vivia da aposentadoria desde aquele acidente…

– Acidente? que acidente?

– Ai meu Senhor da Glória! Qual é o seu número?

– 123456.

– Entendi o número errado então. Eu deveria ter discado 123453. Me perdoa em nome de Jesus?

– Tudo bem irmão, vá na paz de Deus.

– Amém. Mas irmã, me diga o seu no…

– Tu-tu-tu-tu

inspiração: Meus quase 15 anos sem nome.

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Gerlandy Leão

Você já tentou não orar pelo menos um dia sequer? Essa foi a pergunta mais importante que vi nos últimos 10 anos. E prosseguiu: Não digo um dia, mas pelo menos deixar de orar pelo menos um período? Fiquei parada naquela página do livro que lia. E quis perguntar: é comigo que você está falando? Não era comigo, era com uma personagem do livro que lia “Do Nazismo para Cristo”. Este foi exatamente um daqueles resultados em que o tiro saiu pela culatra. Quando recebi esse livro de um amigo, a idéia era reforçar minha fé.

O livro relatava a vida de uma cristã que se tornou nazista e algum tempo depois se converteu ao cristianismo novamente. Uma personagem nascida em berço cristão se ver seduzida pela vida e ao longo do livro narra seu sofrimento longe dos braços da igreja ao se entregar aos prazeres da carne e às ideologias mundanas. Logo seu intuito era dizer: não saia desse caminho, pois fora dele é muito perigoso. Teria surtido efeito comigo não fosse por essa única frase.

A autora fala (o livro é narrado em primeira pessoa) que, diante as dúvidas de sua espiritualidade, ouviu uma pergunta muito perigosa de sua professora:

Minha querida, você já tentou não orar pelo menos um dia sequer? […] Se você passar uma manhã sem sua prece verá que mal algum te acontecerá. A autora queria falar: meus queridos leitores, aquela era uma armadinha do inimigo. Eu comecei a ver como deixava de orar um dia não me acontecia nada de mau, logo poderia viver uma vida assim. Mas não cedam meus irmãos, não caiam em tentação.

A essa altura eu só repetia: um dia, será que consigo pelo menos um dia? Ela ficaria desesperada se me visse, ou até tentaria dizer, não foi isso que eu quis dizer, mas já era tarde. Depois disso ainda li umas páginas, mas nem cheguei a terminar a leitura do livro de bolso com suas poucas páginas, mas ele já tinha cumprido a sua missão, pois nenhum outro livro herege havia conseguido comigo o que esse evangélico conseguiu.

Igual a um robô programado para fazer tarefas diárias assim fui por muito tempo executando orações todo dia e praticamente o dia todo. Não havia um dia sequer que minhas orações fossem esquecidas de serem realizadas e não se tratava apenas de simples palavras, Deus me ajude, obrigado meu Deus ou me salve. Realizava todo um ritual diariamente mantendo a marca nos joelhos que orgulhosamente chamávamos o sinal da ovelha. De manhã cedo ao despertar me ajoelhava e pedia a ele que não deixasse que tivesse uma cobra embaixo da minha cama. Para depois voltar do banheiro limpa e pura para me ajoelhar verdadeiramente com aquelas palavras pesadas admitindo que vinha,

por meio destas reconhecer que somos lixos diante da tua magnitude e soberania e que não somos merecedores de nada. Para depois agradecer pelo pão, pela vida, pelos céus, pela terra e tudo que neles há, e principalmente pela salvação e por ter enviado o filho amado para morrer na cruz por mim e então pedir que não faltasse o pão aos órfãos e viúvas e que protegesse as autoridades e minha casa.

Sabedora de que se tratava de um pedágio para um bom dia, porque quebrar isso seria como ser um computador sem antivírus, logo ele não tinha obrigação de nos proteger, não deixava de cumprir esse ritual. Sei que isso não foi fácil, digamos que fiquei nervosa, com medo e esperando a qualquer momento acontecer algo de mau comigo. Passei pela primeira prova. Algumas pessoas que o leram viram apenas: Saia da linha e estarás ferrado! (para não falar a outra palavra com F),

Essa experiência não me tirou da igreja imediatamente, mas apenas me abriu novos horizontes. A partir daí, a pequeninos passos, fui compreendendo outras coisas ao ponto de um dia perguntar aos céus se eles não se cansavam de tanta bajulação. Pensei em mim e que me irritaria se ouvisse uma pessoa me agradecendo todos os dias por um presente que dei no dia do nascimento. Ou se a mesma ficasse se humilhando para mim, ou mesmo se todo dia me pedisse para eu dar algo que eu já vou dar mesmo, (sim porque é assim que aprendemos, ele vai nos dar, mesmo assim devemos clamar e pedir).

Além da literatura ouvir algumas palavras hereges em certos filmes me deixou balançada. As palavras proferidas pelo magnífico Al Pacino em Advogado do Diabo sobre Deus me pertubou bastante: “Ele fica mijando de tanto rir! Ele é um sacana, um sádico!”. Tentava levar na esportiva, mas não dava. Dogma e suas bincadeiras com as regras, colaborou também bastante com o que penso hoje. Laranja mecânica e a sensação do que a instituição fizera comigo me deixava maluca, mas dentre tantos importantes Matrix me deu uma chance de saber que eu podia optar realmente entre a ignorância e o conhecimento. Bendito Platão e seu mito da caverna. Vivia analisando sobre isso no meu quarto, conversando comigo sobre minha transformação.

E assim foi durante muito tempo. Fui evangélica durante muitos anos e respeitei durante todo o tempo que fui seguidora. Não fui tentada pelos desejos carnais, mas sim pela necessidade de conhecimentos, com uma mudança de dentro para fora. Pouco a pouco fui rompendo tentando não escandalizar ao grupo de pessoas tão queridas que conheci e conheço, pessoas maravilhosas que apesar de nossas diferenças e de muitas vezes não respeitarem minha decisão, continuam amadas por mim.

A vida fora da igreja não foi fácil, muitos ainda duvidaram da minha saída pensando se tratar de empolgação, apesar de eu nunca ter afirmado não ser mais. Não é fácil dizer sou uma ex evangélica, as pessoas não te dão crédito. Sempre acham que você apenas está afastada, que um dia retornará e que está apenas aproveitando um pouco a vida, ou que vocÊ foi fraca, que não enfrentou seus problemas, que deveria ter mais fé, que deveria esperar no senhor e blá blá blá. Ignoram o teu conhecimento e que você não é uma empolgada para sair “para farra” ou para “passar batom nos lábios”, mas que há algo mais forte que é a sua mente.

Tentei por muito tempo, conter minha vontade de mostrar “meus desejos” para não relacionarem minhas ações à uma evangélica incompleta. E isto nunca me ocorreu. O tempo que vivi foi com paixão, e quando as dúvidas começaram a me assolar, pouco a pouco fui me desvinculando. Só agora consegui retirar a capa que me expresso sem medo. Mesmo assim ainda passo por situações curiosas.

Muitos ainda me vêem como evangélica. No meu bairro ainda sou chamada por Irmã. Se alguém quiser me encontrar por lá não pergunte por meu nome, procure pela Irmã mais velha, filha do Irmão motorista. Sim, porque evangélico não tem nome.

Uma vez um senhor chegou lá em casa perguntando: é aqui que mora o Irmão? – É sim. Respondi. Aí ele pediu que o chamasse. Então perguntei-lhe: o meu pai, o meu irmão ou o meu tio? E ele respondeu-me: o que vende remédio. E eu prossegui: ah, então é o Irmão vizinho que mora aqui ao lado. Não é piada, garanto.

E quando ando com minha irmã, são os comentários. A irmãzinha e a irmãzona. E se minha mãe estiver junta é a Irmã, mãe das irmãs ou ao contrário, as irmãs filhas da Irmã.

Outro dia estava em uma festinha com vestimenta totalmente contrária à adotada pela igreja, ou seja, bermuda, blusinha, brinco e ainda estava dançando. Uma garota perguntou se eu era evangélica. Foi uma pergunta absurda, mesmo assim lhe indaguei o por quê da pergunra. Ela confirmou: “por causa do seu jeito”. Jeito? Que jeito minha gente? Outra vez um rapaz me disse, conheço evangélico só pelo olhar, você é crente? Tal foi o meu susto, pois falou do meu olhar, logo do meu olhar que não é nada inocente, aí vem alguém e me afirma que tenho um olhar de crente.

Aí lembro de um professor que eu adorava conversar e, às vezes aborrecido, soltava um “Porra” para mim e dizia: Teu defeito é que tu ainda é muito cristã. Outro amigo me cobrava que eu me impusesse mais, porque eu era muito humilde, porque aceitava tudo o que me diziam. Por muitas vezes brigou comigo devido as minhas citações bíblicas, ignorando que toda a minha formação tinha sido baseada na bíblia, ignorando toda a minha herança “cultural” – Calma gente! não é assim. Outro se incomoda porque “guardo as coisas para mim”. Dentre muitas outras provocações que ouvi e ouço, só tenho uma resposta para ambos: ocorre comigo algo parecido com o apóstolo Pedro.

Na noite do julgamento de Jesus, Pedro foi indagado três vezes por três pessoas diferentes. Embora negasse, ninguém acreditava, porque ele tinha o jeito e o olhar de seguidor, ele tinha todos os aspectos de seguidor. Pedro não conseguia negar o que era. Mesmo naquela noite tendo cometido algo considerado tão criminoso quanto os que chibataram seu mestre, mesmo ele realmente questionando até que ponto poderia aceitar um deus ser crucificado, mesmo ele querendo desistir daquilo que acreditava, ele não conseguiu negar completamente. As palavras não expressavam o que ele tinha enraizado em seu comportamento e seu jeito de agir. Por outro lado os demais discípulos do mestre se aborreceram com sua atitude de negar. De um lado para alguns as palavras não eram necessárias, já que seu comportamento dizia o contrário e do outro uma simples palavra tinha um poder muito grande.

Pedro, coitado de Pedro.

Pedro, a pedra a qual Jesus disse que faria alicerce de sua igreja, estava numa pior porque se preocupava com o que os outros pensavam. Imagino que ele deve ter sofrido muito sem decidir qual lado da força seguir.

Acho que passei pelo mesmo ou com algo parecido com o ocorrido com Pedro. Sempre preocupada com o resultado de minhas palavras com medo de mostrar exatamente o que acreditava, cheguei a atuar cenas patéticas, de tirar peças de roupa, ou maquiagem, quando via alguém da igreja, ou mesmo pôr aquela calça (considerada uma peça proibida no meio evangélico que eu freqüentava) para que meus demais amigos não debochassem de mim. Isso durou muito tempo, e muitos me cobraram uma atitude, para que eu não fosse hipócrita, sem entender que muitas vezes a hipocrisia é necessária para o equilíbrio da sociedade.

Fiquei por muito tempo preocupada qual resposta dar a ambos os lados, mas isto mudou, graças a mim. Hoje me sinto mais segura e sem medo de ser ou crucificada por romanos, ou desprezada pelos amigos cristãos. Não sou São Pedro e nem preciso mais provar para ninguém o que quero ou o que não quero, ainda bem, eu é que não queria ter um monte de gente me seguindo.

inspiração: So um desabafo mesmo. Há cinco meses estava saindo para o serviço e na porta de casa abaixei a cabeça e comecei a orar. A priori fiquei assustada com meu gesto, mas depois vi como ainda estou acostumada a ser robozinho, mas devagar chego lá.
dedicado: a todos que conseguiram fazer uma leitura além, em especial a você por ter me emprestado aquele livro.

Gerlandy Leão

figueirabf.jpgPobre figueira! condenada ao corte, condenada a ser lançada ao fogo simplesmente porque os homens do Homem da Galiléia não encontraram frutos para alimentarem-se. Que ninguém coma de ti nenhum fruto”, foi amaldiçoada pelo líder do grupo. Dia seguinte foi verificada novamente por aqueles homens na esperança de encontrarem algo e, tudo o que viram foi uma árvore seca até a raiz, “árvore sem frutos não merece viver”. Revoltados com a falta de consideração daquela figueira indelicada e inconseqüente, desembainharam suas espadas para desmembrá-la.

Enquanto perdia cada resto de folha, cada galho, cada membro do seu corpo sentia o seu desaparecimento sobre a face da terra. Deveria mesmo pagar por ter se recusado a ceder um fruto? Por ser uma época de colheita e diferente das demais árvores que possuíam fartos galhos, aquela parecia estéril, inútil e desnecessária. Mas a verdade só ela sabia.

 

Até algumas semanas antes, ela retirava um sorriso de uma criança ao ceder o último figo que possuía em seu corpo. Depois de alimentada voltou para  correr com seus demais amigos. O fruto oferecido era raquitíco, desprovido de todas vitaminas necessárias, mas mantinha o seu sabor, sendo resultado de um esforço “sobrebotânico”.


Tudo começou na estiagem, quando não era possível encontrar uma “fruta vivente”. Aquela árvore que era ingênua e imatura não aceitava esperar tanto. Não compreendia o tempo exato, desconhecendo as estações do ano.


Recebeu a visita de uma menina que depois de sondar por entre todas as folhas, saiu cabisbaixo concluindo “aqui também não tem nenhum”. E a figueira endendera o que ela procurava decidindo que a próxima vez seria diferente e contrariando a natureza das demais árvores que descansavam e poupavam energia para ser utilizada no momento adequado, ela ousava desafiar. Formou os pendúculos e logo em seguida vieram o cálice, a corola, o androceu e o gineceu. Pronto, estava florida e bela, aguardando mais um momento para trasnformá-las em frutos a serem distribuídos àquela garotinha.


Foi quando apareceu outra criança que apenas queria brincar por seus galhos, no entanto percebeu as flores e animou-se, pois entendera que em alguns dias teria do que alimentar-se. Era melhor ficar quieta e visitar a sua árvore sem que ninguém a seguisse ou mesmo a percebesse. Até aí a inexperiente figueira se sentia capaz de alimentar mais uma pessoa com a pouca reserva que possuía.


Inicou a sua polinização contando apenas com a sua ajuda. O seu movimento provocou uma pequena brisa suficietnte para que o grão de pólen atingisse o estigma da flor. Suas raízes secundárias passaram a buscar por água e sais minerais, que através de muito esforço os enviavam pelas demais partes do tronco até chegar à folha obrigando que todo o alimento recebido através da fotossíntese fosse direcionado para o rápido processo de fecundação. Apesar das dificuldades, os primeiros resultados começaram a surgir.


Ainda repousava ao sentir um menininho retirando uma parte de seu corpo para construir uma armadilha e assim alimentar-se com o pequeno mamífero que pretendia capturar. Mas, indagou-se “para que caçar?”, poderia colher o que mais gostava. E não contentou-se, precisava avisar a todos que possuía uma belíssima figueira, a única útil dentre tantas naquela região. Com o tempo não tinha que alimentar uma, mas várias crianças famintas.


Houve turnos em que alguém poderia se deitar por horas curtindo suas sombras e deliciar-se com os figos que desapareciam e perdiam qualidade a cada dia. Mas continuava tentando produzir, até não conseguir mais, caindo em sono profundo devido ao estresse. Exatamente, as árvores da antiguidade também eram capazes de estressarem.


Depois do último fruto colhido, não viu mais ninguém, a não ser quando foi despertado pela multidão, “mas que diabos este povo faz por aqui?”. Conseguiu vizualizar que era a única árvore vazia em toda região. Não podia ser ouvida, para explicar que não era tão inútil como parecia ser. E onde estariam aquelas crianças que alimentara durante toda a estiagem? elas bem poderiam ser testemunhas, mas não haviam nem mesmo levado um copo dágua ou um fertilizante, portanto não poderia esperar tanto como uma defesa em público.


Agora estava seca e era condenada sem direito a julgamento. O castigo seria sumir da face da terra sem deixar nenhum vestígio. Era amaldiçoada a ser esquecida devido a sua inutilidade. Sabia, seus frutos foram poucos, mas foram o seu melhor, na ausência deles poderia oferecer sombra, na ausência das folhas poderia ser algum móvel, mas se sua madeira fosse fraca ainda poderia aquecer alguma família com a sua lenha, só não seria justo desaparecer do planeta como uma inválida.


Estava seca, não morta e agora queimava e em pouco tempo seria apenas cinzas. Indignava-se por ter se doado tanto e sabia que a culpa era daquelas parasitas em forma humana. Ah, como arrependera-se de oferecer ajuda àqueles monstros ingratos. A esta altura o último a acender o fogo já ia distante, deixando-a solitária, queimando deitada no chão. Elevou o olhar e avistou uma de suas usuárias observando-a trazendo consigo uma cumbuca.


Revoltare-se ao imaginar como aquela criança teria coragem de sulgar seu último resquício de vida? como aquela criança ainda tinha esperança de encontrar alguma fruta? como poderia ser tão insensível sem se compadecer? Por que ela não se colocava no seu lugar? E tomada de ódio movimentava-se até conseguir lançar uma brasa nas vestes da pequena que logo foi tomada pelo fogo. A criança resolveu desistir da ideia que a levara até ali, em vez de salvar o pouco que havia da figueira, num ato de egoísmo, emborcou a vazia de água sobre si.

 

inspiração: São Marcos 11: 12-20. a história daquela figueira sempre me impressionou. Sempre achei injustiça a figueira da bíblia ser amaldiçoada fora do tempo. Achei legal contar minha visão e me baseei em umas conversas.

Dedicação: A você que também tem se sentido seco. Eu gostaria de despejar minhas águas em suas raízes, mas acho que não cheguei a tempo.

Imagem: http://www.popa.com.br/imagens/11-04/cisnes/FigueiraBF.jpg

Gerlandy Leão

 

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Na frente do Cruzeiro no centro do único cemitério público da cidade, depois de se benzer acendeu a vela e a deixou queimando perdida entre tantas outras que procurava iluminar o caminho das almas até chegar ao céu. Aquele não era um lugar agradável para uma criança, com tantas pessoas chorando, velas pingando, sepulturas abandonadas, cachorros perebentos e muro caído. Melhor seria está em casa assistindo algo na TV ou mesmo brincando na rua com os demais coleguinhas. Mas ela precisa estar ali e cumprir o combinado. Só tinha 11 anos, mas sabia que deveria cumprir as promessas feitas. Segurando a coroa de flores esperava a vela terminar de queimar até última gota de parafina.

 

 

A menina apresentou o trabalho na escola para a disciplina de Artes no tempo em que esta ainda acompanhava as datas comemorativas e feriados nacionais. Devia homenagear os mortos em finados e suas flores feitas com papel crepon se destacaram por terem sido feitas com muito cuidado e por exibir um bom acabamento.

 

Uma vizinha risonha, varria a calçada quando a viu chegar com as flores em suas mãos, agradando-se muito pediu para aprender. “- Vou fazer uma coroa dessas flores para catatumba da minha mãe, me ensina?”. Apesar da senhora não oferecer nada pela ajuda a menina gostou da idéia, afinal de contas ela fazia as cocadas mais gostosas do mundo, assim poderia quem sabe se tivesse sorte, comer uma todo dia gratuitamente.

 

 

Dona Francisquinha era uma viúva que vivia sozinha com seu papagaio há muitos anos. Vez ou outra recebia a visita da filha e dos netos. Era aquela senhora amada e odiada ao mesmo tempo pelas crianças da rua. Amada por ter as melhores goiabeiras da região, pelos bombons e roupas que doava, pelas historinhas que contava, pelo abraço macio depois da simulação de uma palmada e pelo cheiro doce que exalava. “- Ela cheira a cocada e goiabada”, diziam as crianças. Mas odiada exatamente por não deixar as crianças “roubarem” as goiabas. Só quando tivessem maduras, mas meninos não esperam e organizavam a subida nas árvores escondidos dos olhos dela. Quando eram surpreendidos eram denunciados aos pais. “- Essa velha fofoqueira” e esqueciam do cheiro de doce. Mas ela sempre conseguia uma trégua, criança, diferentemente de adulto, não guarda rancor por muito tempo.

 

 

No primeiro dia de confecção das flores, Dona Francisquinha brigou porque ela não fez o sinal da cruz diante da imagem de Nossa Senhora pendurada na parede da sala. “-Meu Deus, aonde chegaremos? Minha filha você ainda é pagã?” perguntou à menina recebendo como resposta apenas uma mexida de ombros da e a boca torta como se não entendesse o que dizia. A garota mostrava empenho em ensinar a arte que criara, “dobre o papel assim, corta aqui, enrole assim”. Como imaginara, todo dia tinha um doce, mas tinha também uma mensagem nova.

 

 

Uma vez reclamou porque ela estava descalça, chamando atenção que aquilo deixaria seus pés feios e os rapazes jamais se interessariam por alguém de pés tão relaxados. “ – Por falar em rapazes” prosseguia, “- Já está na hora de deixar de andar com tantos meninos brincando pela rua ou pelos campos. Parece mais um macho do que uma menina”. Reclamava com as roupas que vestia. “- Minha filha você tem que se civilizar. Já ta na hora de usar um corpete”. Ela ouvia com atenção e sem silêncio enquanto apertava a pétala de uma flor.

 

 

Em poucos dias foi percebendo que a senhora só cuidava da casa e não mostrava nenhum interesse em aprender. “-Vai fazendo aí minha filha, vou ver aqui o feijão” ou “-Vou só varrer a casa”, ou então “-Olha! ta serenando, vou tirar a roupa do sol”. E a garota se irritou, só falou para a mãe que não ia mais. A velha tava fingindo que desejava aprender, mas ela queria era trabalho de graça e que fizesse a coroa para todos os parentes falecidos dela. A mãe perguntou pelos agrados que a senhora fazia e ela dizia, “- não paga mamãe, não paga”.

 

 

Deixou de ir. A casa de Dona Francisquinha estava repleta de papel recortado, mas ela simplesmente deixou de ir sem explicar o motivo. Até pensou em dizer: “- A senhora não quer aprender, só quer me explorar”, mas não recebeu nenhuma pergunta. No sábado a noite, a velhinha passou na casa dela e entregou-lhe um rosário. E fingiu que não percebera sua ausência e a convidou para tomar café da manhã no domingo, pois tinha uma surpresa. Café da manhã na sua casa era irrecusável, já podia imaginar a fartura da mesa.

 

 

De manhã cedo estava à porta e foi recepcionada pelo sorriso da senhora. Depois de se deliciar com as guloseimas juntamente com os netos de Dona Francisquinha que a visitavam naquele domingo, foi chamada ao quarto e recebeu um embrulho que continha um vestido. Não era uma cor que a agradava muito, mas presentes sempre eram bem vindos. Depois de vesti-lo viu pelo espelho que estava bonita. Agora só faltava amarrar o cabelo e calçar a sandália. “- Está linda. Ta parecendo uma mocinha de verdade”. Aproveitando o ensejo, convidou a garota para passear e mostrar a roupa nova pelas redondezas. De novo aproveitando o caminho, a levou à igreja. E durante o caminho falou sobre os santos, sobre os evangelistas, sobre como os bárbaros foram civilizados pela Santa Igreja Católica, sobre o céu, sobre o inferno.

 

 

A menina continuava calada ouvindo atentamente a velhinha que se mostrava empolgada em ter quem a escutasse. Repentinamente lembrou-se de perguntar por que os mortos precisavam de flores já que não podiam ver “- É claro que podiam”. E recomeçou a falar sobre céu, que as flores agradavam aos mortos porque embelezava e dava paz e que os hereges acreditavam que podiam dá até comida aos mortos, mas isso era errado, o certo era oferecer flores e acender velas às pessoas que amamos, pois mesmo que os vivos não pudessem vê-los eles se agradavam muito. “- Por isso preciso de suas flores, agora entende?”.

 

 

Encorajada novamente a menina percebeu a sua missão e resolveu voltar com a velhinha para sua casa e terminar o trabalho que começara. Ao chegar em casa admiraram-se com as flores e demais papeis amassados e jogados no saco de lixo pela filha que aproveitava a visita para fazer faxina. Depois de reclamações a filha pergunta o que a mãe queria com aquela porcaria, pois seu pai, sua avó, seus tios, mereciam homenagens mais belas. “- Por que não compramos as flores?” A velhinha dizia que elas estavam muito caras. A filha insistia que tinha dinheiro, mas ela preferia não. A filha continuava “- por que não leva as flores do seu jardim”, e a mãe explicava que não era justo matar para oferecer aos mortos. O jardim já estava tão belo e ela teve tanto trabalho para vê-lo daquele jeito, que continuasse assim. E o papel era sem graça, já estava morto, já havia matado uma árvore e ganhava vida através da forma que recebia das mãos da garota. Por isso ela havia amado tanto as flores de crepon.

 

 

Recomeçaram o trabalho apesar do desperdício de vários dias de trabalho que foram para a lata de lixo. E prosseguiram, menina modelando as pétalas, a velhinha com outros afazeres, mas sempre contando alguma história, ou dando alguma sugestão para sua vida. Um dia a menina encontrou dona Francisquinha chorando na cama e lhe perguntou o que tinha. Ela disse que não era nada, só estava com medo de não dar tempo terminar as coroas, pois o dia dos finados estava próximo. Se não terminasse ia ter que arrancar as flores do jardim. A menina prometeu que terminaria tudo a tempo e que iria ao cemitério decorar o lar dos mortos juntamente com ela. A velhinha a abraçou com seu cheiro doce e a avisou que tanto a morte como a vida deveria ser valorizada e respeitada.

 

 

No dia seguinte a garota foi acordada pela mãe, “- Filha, como Dona Francisquinha diria para alguém que uma pessoa morreu?”. Ela pensou, mas disse que provavelmente ela diria que havia dormido o sono profundo, ou descansado, ou ido ao encontro de Nossa senhora… “- Pois foi isso filha. Dona Francisquinha foi ao encontro de Nossa Senhora”. Além do susto, veio aquela sensação do que sentir, do que fazer. Era a primeira pessoa próxima que via morrer. Sabia que sentiria muita falta, mas pensava por que ela se afeiçoara tanto e nos últimos dias se intensificara mais.

 

 

Então era isso. Dona Francisquinha sabia que estava morrendo e tudo que queria era uma companhia. Por traz da história das lindas flores, havia muita coisa. Ela queria deixar seu ensinamento sobre morte para alguém, queria valorizar aquele trabalho que fazia, mesmo sendo tão sem graça. Agora ela olhava as flores de papel e não via nenhuma beleza, a não ser pelas próprias palavras de Dona Francisquinha de que se tratava em dar vida a algo morto. De fato ela queria a coroa para si. Por mais que falasse que acreditava que os mortos podiam ver, na verdade queria estar viva para ver como alguém se dedicaria a algo para ela. No fundo a velhinha duvidava de tudo o que aprendera durante a vida sobre a morte. Ela não queria ver quando morta, queria ver agora. A menina sabia que a velhinha morrera acreditando que ela cumpriria a promessa e valorizaria o que havia feito em vida ao entender que vale muito mais do que homenagens póstumas. E agora a velhinha sabia que a filha talvez em cima da hora compraria algumas flores anualmente, já que ela tinha dinheiro.

 

 

Algumas pessoas apareceram no velório, outras foram ao cemitério e a menina não se desgarrou de sua coroa. Ficou de longe visualizando as homenagens enquanto aguardava a vela queimar no Cruzeiro. Depois que todos saíram da sepultuta aproximou-se e deitou a coroa de papel em meio a tantas rosas e outras flores belas. E entendeu que a velhinha não era um jesuíta a civilizando, mas uma pessoa que dizia: Acredite duvidando.

 

 

 

 

Inspiração: Ainda estou movida pelo sentimento mórbido do início do mês de novembro. Juntei características de três velhinhas que conheci.

 


 

Nomes: Só tem um mesmo. Como já falei e falarei, quando necessário citar nomes utilizarei nome de avós e/ou bisavós paternos ou maternos para não correr risco de parecer coincidência, ou porque meu repertório de criatividade para nome é fraco mesmo.

Gerlandy Leão

 

 

 

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A publicidade foi certeira, tenho certeza que todo mundo concordando ou não deve ter se interessado em participar daquela palestra. “Maria, a maior educadora da história” era o tema da ministração da palestra por aquele autor da área de “administração de auto-ajuda”. Boa estratégia, utilizam nomes de pessoas muito admiradas, adoradas, idolatradas, veneradas e tudo de ada, da História para ganhar o povo.

 

 

Detalhe, a palestra não seria apresentada em uma igreja cristã, e sim em uma universidade, isso mesmo, era um evento científico e o público seria a “cabeça pensante da sociedade” (embora fosse aquelas famosas caça-níqueis). Entendi, observando a que público se dirigia, que se tratava de: eduque seu filho e/ou seus alunos como Maria educou Jesus de Nazaré. Agora para tristeza de todos não assisti a mesma, então não posso tecer nenhum comentário ok? Errado. Tenho certeza que minhas previsões sobre as falas dele seriam apresentadas certeiras. O imagino vestido em sua roupa formal, segurando um microfone sem fio, de vez em quando ajeitando a gravata ou os óculos, com seu sorriso cativante. Aí se vira para a apresentação em Power point, projetada pelo Data show, aponta com aquela canetinha vermelha alguma citação, e mostra alguma figura de Maria segurando Jesus.

 

 

Enquanto mostra a relação da mãe com o filho ele vai convencendo a platéia que maravilhada anota todas as suas observações, inclusive seus suspiros, concordando: para termos um mundo melhor devemos seguir os exemplos da educação mariana. Pronto, todos os educadores presentes no recinto sairão convencidos que devem cuidar de um messias que veio ao mundo para salvar a humanidade. E os problemas que assolam nosso querido planeta Terra desaparecerão num passe de mágica.

 

 

Sinceramente nessa história toda só concordo que Jesus surgiu por causa de Maria. Ela é, como eu posso dizer de modo simplório, “muito massa”. Não é à toa que aplicou a maior migué da humanidade. Maria criou Jesus como um deus, ele cresceu ouvindo da sua relevância para salvação da humanidade dentre outras coisas. Ouviu tanta coisa de Maria que acredito até a própria já se convencia da veracidade. As coisas pouco a pouco foram dando certo. Aos 12 anos Jesus desapareceu em Jerusalém por cerca de 2 dias. A cidade estava em festa e ele simplesmente evaporou. José e Maria ficaram loucos da vida procurando o menino por tudo quanto foi lugar. Foi encontrado muito tempo depois no templo falando com doutores da lei.

 

 

 

Quando Maria chegou e foi tentar dá-lhe uma bronca por ter saído sem avisar e ainda a deixar nervosa (claro, toda mãe em sã consciência ficaria preocupada, pensando que o filho teria sido seqüestrado) foi ela que recebeu uma resposta mal criada. “Mulher, que tenho eu contigo. Não sabe que estou na casa do meu pai”. Ela ficou caladinha. Em vez de darem atenção para essa indelicadeza, as pessoas preferem olhar para a cena em que ele dava aula para doutores. Ora, não é bem assim. Não é que o menino soubesse mais do que aqueles homens, mas eles se admiram com aquela conversa. De onde esse garoto tirou essa história de filho de Deus? De onde ele veio. É certo que era muito inteligente, estava sendo criado o tempo todo para falar isso. Maria estava sempre lhe dando as tarefas. Apesar de admirarem a inteligência, em momento algum eles o viram como Messias ou quiseram segui-lo. Vejam como Maria colaborou para que o menino pudesse pôr em prática seus conhecimentos.

 

 

Outra marca de Maria na vida de Jesus foi na apresentação de seu primeiro milagre descrito em João 2:1-11. Acho aquela cena estranha, mas interessantíssima. Maria começa a botar pressão no filho: “olha o vinho acabou”. E ele lá na festa olhando não sei o que, e lá vinha ela novamente. “Meu filho o vinho acabou”. E ele nem se mexe. “Jesuuuus, O vinho acabou!!!” E ele mui delicadamente, como daquela vez no templo, responde: Mulher, que tenho eu contigo? Ainda não é chegada a minha hora”. Mas insistia com ele e ainda falou aos discípulos: “fazei tudo quanto ele vos disser”. E mandou o pessoal preparar o recinto, claro, tratava-se de um espetáculo. Como uma fiel assistente de palco que deixa tudo no ponto para o mágico levar a fama, aquela mulher ordenou que eles seguissem, mas na verdade ela mandou foi um aviso para Jesus: de hoje não escapa. Já tem 30 anos que tenho te preparado para este momento e você quer ficar só aí? Já teve o tempo que te dei desde seu aniversário de 12 anos. Agora é hora de mostrar serviço, tenho falado para todo mundo quem é você e você vai provar é agora. Essa é grande chance. Jesus, mesmo tendo sido duro com ela há poucos segundos, resolveu obedecer. Ele nunca sabia o que fazer sem o cuidado de sua mãe.

 

 

Uma das coisas que mais me chama atenção é por que aquele milagre besta? Transformar água em vinho? A própria bíblia fala para não gastar dinheiro naquilo que não é pão. E por que se embriagavam? E por que estaria Maria e Jesus preocupados em alimentá-los, ou melhor embriaga-los? Seria milagre dar bebida ao povo para se divertir? Então por que hoje é tão condenado? E tem outra, este me parecia ser um milagre bem fácil. Creio que até eu conseguiria, isso porque, se observarmos a festa estava no fim, a galera já estava doidona, então não conseguiriam distinguir que vinho era e de onde viera. Querem ingerir qualquer coisa desde que não tenha que voltar logo para casa. O povo queria continuar bebendo, o jeito que estavam tão loucos se dessem água só com algum produto alcoólico despejado dentro eles não diferenciariam… Hum que interessante!! Algo despejado nos vasos de água? Não teria sido isso então, um Alakazam Alakazum e vupt… eis que os olhos ébrios não visualizariam algo caindo dentro dos vasos. Por favor, não me crucifiquem, foi só uma hipótese. Mas eu não estava lá para duvidar, embora vocês também não estivessem para acreditar. Então estamos empate. Depois do primeiro milagre foi fácil aparecer os outros, a fé e a Consciência coletiva se encarregaram de dar resultados.


Comparando Maria com outra mãe

 

 

Eu bem disse que Maria é a grande responsável pelo surgimento de Jesus. Será que aquele palestrante falou sobre a presença dela nos milagres, ou como ela o influenciou? Queria ter um pouco mais de tempo, para estudar minuciosamente cada detalhe e procurá-la por todas passagens bíblicas, mas creio que isto ficará mais para frente melhor seguir em diante antes que eu perca a minha idéia central. Estou me inspirando, acho que vou preparar uma palestra, pena que não terei tanto público como aquele guru.

 

Além de Maria, encontramos uma personagem interessante na história que merece destaque, Olímpia mãe de Alexandre – o grande, e nem por isso ela é considerada santa, óbvio, ela não era cristã. Sim, os méritos não são apenas de Filipe – o pai, ou da bela educação que recebeu de Aristóteles (que educação viu?). Mas, sobretudo a insistência de sua mãe numa tarefa que ele tinha que cumprir. O pouco que estudei sobre Alexandre foi em forma de fichamento para passar no vestibular, sobre suas conquistas mesmo assim ensaio algumas falas mesmo sabendo que apesar de inúmeros estudos sua vida pessoal ainda bem misteriosa.

 

 

Assisti a um filme importante (para variar um pouco) e achei muita semelhança com a história de Jesus. Não é aquele com a Jolie, o Farrel e o Kilmer, e sim de 1956, estrelado por Richard Burton. Belíssima história me chama atenção desde o início quando a mãe fala que ele é filho dos seus deuses, e os profetas alimentam isso falando sobre profecias e que ele será vitorioso, que vai ter grandes conquistas. Claro esse lance de filho de outro pai desperta o ciúme de Filipe que ao contrário de José não acreditava no mesmo deus dela. Bem, não preciso me ater ao filme, não preciso narrá-lo, mas cito alguns momentos interessantes. Percebe-se que ela está sempre presente na vida do filho algumas vezes até o usando para atacar ao marido. Sei que Alexandre cresce sabendo que tem um propósito, se sentindo um deus que terá algo grandioso na vida. Durante todas as suas conquistas, que todos nós sabemos não foram poucas, vai se convencendo cada vez mais de sua missão na terra e que não é um ser humano comum como os demais.

O ponto máximo do filme para mim é quando ele está morrendo, e sabedor da morte vira-se a uma pessoa querida e lhe pede para queimar seu corpo e jogar as cinzas no mar para que ninguém o encontre e assim, acreditem que realmente se tratava de um deus. Pede à pessoa que leve essa mensagem a todas as pessoas, pois acreditava veementemente que o tempo se encarregaria de convencer ao mundo da sua divindade. Coincidência importante: ele também faleceu aos 33 anos. A História se encarrega de mostrar porque não ele, mas Jesus que imortalizado. Talvez eu discorra sobre isso um outro momento.

 

E a educação?

É impossível não fazer comparações, apesar de mundos diferentes, formas diferentes de conquistas e berços extremos, Jesus e Alexandre receberam a mesma educação de suas mães. Ambos tinham mães que os davam um pai superior, portanto cresceram sabendo, buscando e vivendo conforme esses ensinamentos. Qualquer conquista tinha sido presente do pai.

 

Deixando de apontar comparações parte-se para o proposto. Só comecei a discorrer sobre o presente assunto porque me perguntei: é Maria a maior educadora da História? e Queremos mesmo criar milhares de Jesus? Não concordo que ela seja, até porque como já mostrei antes dela já havia um nome que utilizou o mesmo método. Logo ela não foi a única. Creio até ter havido outras que tentaram, mas digamos que os filhos não chegaram a ir tão longe mesmo pensando serem filhos de deuses.

 

Outra coisa que acho perigosa é utilizar este método (considerado de Maria) como algo a ser adotado. Aí você me diz, mas ela valorizou as competências do filho, eu digo, não. Ela fazia pelo filho. Ela dizia que este tinha uma responsabilidade, mas era ela a secretária que administrava tudo, organizava, fazia contatos e se esforçava ao máximo para que tudo saísse correto. Mas ela o expôs tanto o deixando vulnerável aos inimigos, ao ponto de mesmo inocente, sem a presença da mãe, não saber se defender, pois não sabia colocar suas idéias. Apenas aceitou todas as calúnias, todas as acusações injustas entendendo como a “vontade de deus”. Mesmo assim sentiu medo e tenho certeza que lá no fundo acreditava que seria poupado, portanto preferia pensar que ele faça segundo sua vontade, do que responder às indagações do júri. Nos últimos suspiros, segundo a Bíblia, já sem nenhum jeito de salvação apenas indaga: Deus, por que me desamparaste? Se fosse eu dizendo isso, todos pensariam que eu estava blasfemando, mas deixemos isso de lado.

 

 

Acredito que esta superproteção juntamente com a historia de falar para filhos e/ou alunos que um mundo será melhor através de ações sobrenaturais não cai bem. A pessoa vai crescer sempre esperando um resultado dos céus e aceitando-os como deus quer. Ou seja, esta é a minha missão. Vou viver melhor em um outro mundo, sem crime, sem pobreza, sem maldade, enquanto isso, a pessoa não aprende a se defender e mesmo a ajudar ao outro. Naquela época as pessoas estavam angustiadas e clamavam por mudanças radicais que livrasse aquele povo oprimido, em vez disso ele falava de um lugar no céu onde as ruas seriam de ouro e cristal e não haveria fome, dor, morte… Equivale a hoje um amigo com fome me pedir algo para comer e eu lhe dizer, por que quer esse pão que perece? Um dia você terá um banquete que nunca cessará.

Não sou pesquisadora da área da educação, mas tenho algumas leituras, ou melhor, observações que me levam a crer que devemos educar não nos preparando para uma vida no porvir, mas sabendo lidar com os problemas aqui onde aprendemos e devemos ter tempo e procurar um meio de corrigir os erros por aqui mesmo.

 

Inspiração: A palestra, dia da padroeira do Brasil, dia dos professores. Publiquei logo antes que terminasse o mês e Não tento convencer ninguém da verdade ou mesmo da divindade. A leitura é livre para os que acreditam ou não.

Já estava com o texto pronto quando encontrei um dia nesse em uma livraria o livro: Maria, a maior educadora da história. As palestras geram isso. Quando tiver oportunidade, procurarei ler para comprovar minhas hipóteses.

Imagem: http://pasteol.br.tripod.com/maria_e_jesus.gif