Sobrenatural


Gerlandy Leão

figueirabf.jpgPobre figueira! condenada ao corte, condenada a ser lançada ao fogo simplesmente porque os homens do Homem da Galiléia não encontraram frutos para alimentarem-se. Que ninguém coma de ti nenhum fruto”, foi amaldiçoada pelo líder do grupo. Dia seguinte foi verificada novamente por aqueles homens na esperança de encontrarem algo e, tudo o que viram foi uma árvore seca até a raiz, “árvore sem frutos não merece viver”. Revoltados com a falta de consideração daquela figueira indelicada e inconseqüente, desembainharam suas espadas para desmembrá-la.

Enquanto perdia cada resto de folha, cada galho, cada membro do seu corpo sentia o seu desaparecimento sobre a face da terra. Deveria mesmo pagar por ter se recusado a ceder um fruto? Por ser uma época de colheita e diferente das demais árvores que possuíam fartos galhos, aquela parecia estéril, inútil e desnecessária. Mas a verdade só ela sabia.

 

Até algumas semanas antes, ela retirava um sorriso de uma criança ao ceder o último figo que possuía em seu corpo. Depois de alimentada voltou para  correr com seus demais amigos. O fruto oferecido era raquitíco, desprovido de todas vitaminas necessárias, mas mantinha o seu sabor, sendo resultado de um esforço “sobrebotânico”.


Tudo começou na estiagem, quando não era possível encontrar uma “fruta vivente”. Aquela árvore que era ingênua e imatura não aceitava esperar tanto. Não compreendia o tempo exato, desconhecendo as estações do ano.


Recebeu a visita de uma menina que depois de sondar por entre todas as folhas, saiu cabisbaixo concluindo “aqui também não tem nenhum”. E a figueira endendera o que ela procurava decidindo que a próxima vez seria diferente e contrariando a natureza das demais árvores que descansavam e poupavam energia para ser utilizada no momento adequado, ela ousava desafiar. Formou os pendúculos e logo em seguida vieram o cálice, a corola, o androceu e o gineceu. Pronto, estava florida e bela, aguardando mais um momento para trasnformá-las em frutos a serem distribuídos àquela garotinha.


Foi quando apareceu outra criança que apenas queria brincar por seus galhos, no entanto percebeu as flores e animou-se, pois entendera que em alguns dias teria do que alimentar-se. Era melhor ficar quieta e visitar a sua árvore sem que ninguém a seguisse ou mesmo a percebesse. Até aí a inexperiente figueira se sentia capaz de alimentar mais uma pessoa com a pouca reserva que possuía.


Inicou a sua polinização contando apenas com a sua ajuda. O seu movimento provocou uma pequena brisa suficietnte para que o grão de pólen atingisse o estigma da flor. Suas raízes secundárias passaram a buscar por água e sais minerais, que através de muito esforço os enviavam pelas demais partes do tronco até chegar à folha obrigando que todo o alimento recebido através da fotossíntese fosse direcionado para o rápido processo de fecundação. Apesar das dificuldades, os primeiros resultados começaram a surgir.


Ainda repousava ao sentir um menininho retirando uma parte de seu corpo para construir uma armadilha e assim alimentar-se com o pequeno mamífero que pretendia capturar. Mas, indagou-se “para que caçar?”, poderia colher o que mais gostava. E não contentou-se, precisava avisar a todos que possuía uma belíssima figueira, a única útil dentre tantas naquela região. Com o tempo não tinha que alimentar uma, mas várias crianças famintas.


Houve turnos em que alguém poderia se deitar por horas curtindo suas sombras e deliciar-se com os figos que desapareciam e perdiam qualidade a cada dia. Mas continuava tentando produzir, até não conseguir mais, caindo em sono profundo devido ao estresse. Exatamente, as árvores da antiguidade também eram capazes de estressarem.


Depois do último fruto colhido, não viu mais ninguém, a não ser quando foi despertado pela multidão, “mas que diabos este povo faz por aqui?”. Conseguiu vizualizar que era a única árvore vazia em toda região. Não podia ser ouvida, para explicar que não era tão inútil como parecia ser. E onde estariam aquelas crianças que alimentara durante toda a estiagem? elas bem poderiam ser testemunhas, mas não haviam nem mesmo levado um copo dágua ou um fertilizante, portanto não poderia esperar tanto como uma defesa em público.


Agora estava seca e era condenada sem direito a julgamento. O castigo seria sumir da face da terra sem deixar nenhum vestígio. Era amaldiçoada a ser esquecida devido a sua inutilidade. Sabia, seus frutos foram poucos, mas foram o seu melhor, na ausência deles poderia oferecer sombra, na ausência das folhas poderia ser algum móvel, mas se sua madeira fosse fraca ainda poderia aquecer alguma família com a sua lenha, só não seria justo desaparecer do planeta como uma inválida.


Estava seca, não morta e agora queimava e em pouco tempo seria apenas cinzas. Indignava-se por ter se doado tanto e sabia que a culpa era daquelas parasitas em forma humana. Ah, como arrependera-se de oferecer ajuda àqueles monstros ingratos. A esta altura o último a acender o fogo já ia distante, deixando-a solitária, queimando deitada no chão. Elevou o olhar e avistou uma de suas usuárias observando-a trazendo consigo uma cumbuca.


Revoltare-se ao imaginar como aquela criança teria coragem de sulgar seu último resquício de vida? como aquela criança ainda tinha esperança de encontrar alguma fruta? como poderia ser tão insensível sem se compadecer? Por que ela não se colocava no seu lugar? E tomada de ódio movimentava-se até conseguir lançar uma brasa nas vestes da pequena que logo foi tomada pelo fogo. A criança resolveu desistir da ideia que a levara até ali, em vez de salvar o pouco que havia da figueira, num ato de egoísmo, emborcou a vazia de água sobre si.

 

inspiração: São Marcos 11: 12-20. a história daquela figueira sempre me impressionou. Sempre achei injustiça a figueira da bíblia ser amaldiçoada fora do tempo. Achei legal contar minha visão e me baseei em umas conversas.

Dedicação: A você que também tem se sentido seco. Eu gostaria de despejar minhas águas em suas raízes, mas acho que não cheguei a tempo.

Imagem: http://www.popa.com.br/imagens/11-04/cisnes/FigueiraBF.jpg

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Gerlandy Leão

 

 

 

Sentado no chão vestindo apenas uma bermuda vermelha, o menino dispensava atenção na construção de sua pipa. Poucas coisas o desconcentravam, como às vezes o catarro escorrendo pelas narinas que ele nem perdia tempo a não ser fungando para dentro, ou às vezes retirando da face o cabelo liso cortado em forma de cuia. Cola, papel seda, linha, tesoura e talos espalhados ao seu redor, eram os únicos que faziam companhia.

Pouco a pouco seu objeto ganhava forma. Ele orgulhava-se de possuir algo tão belo, tão simples, mas seu. Prometera todo cuidado à sua querida pipa, feita com tanto amor e carinho. Ele tinha outras, mas essa era especial. Agora que aprendera a confeccionar, seria fácil fazer outras, mesmo assim esta era importante e merecia a atenção devida.

 

Correu para mostrar sua querida aos coleguinhas, mas cada um tinha a sua também. O máximo que conseguiram expressar, foi “eu também tenho uma” ou então “ que legal”. No fundo eles duvidavam que ela fosse capaz de funcionar. Mas ele não estava interessado na opinião dos colegas, o que importava era o vento querê-la. Agora só faltava ele mostrar ao Sr. Vento e saber se este estava disposto dá vida à sua amada.

 

Correu para um lugar um pouco isolado e distante de outras pipas, não que fosse egoísta, mas apesar de saber da beleza de seu objeto sabia que as demais eram muito mais bonitas, muito mais interessantes. O menininho muito animado iniciou as tentativas de vôo sozinho mesmo, o que deu um pouco mais de trabalho. Quando a Srta. Pipa se elevou ele foi tomado de uma grande alegria quase não acreditava, realmente funcionava. Os olhos brilhavam, e ele sorria para os lados desejando que todos que duvidaram na possibilidade desta em vagar pelo ar, estivessem ali para ver como o vento se agradara da mesma. Por toda a tarde ele deu corda e mais corda para ela voar pelo céu com o Sr. Vento. Embora ele quisesse mostrar o feito a todos sabia que a presença dos demais moleques poderia fazer mal, pois estes competiriam pelo mesmo espaço ou tentariam boicotar seu vôo uma vez que provara que a pipa resistiria.

 

No fim da tarde voltou para casa muito satisfeito com o que tinha visto. No dia seguinte retornou e depois de muita dificuldade conseguiu fazer a pipa voar novamente. Mas via que estava mais difícil. Não teve a mesma liberdade do dia anterior, mas via a mesma percorrer, subir e descer. Isto não diminuiria a sua alegria. Sabia que o vôo não era tão livre como o dia anterior, mesmo assim achava belo. Por alguns dias ficou assim, Sr. Vento às vezes com intensidade outras vezes não. Ele começou a observar um pouco mais no que ocorria. Percebia que quando Sr. Vento não aparecia com tanta freqüência a Sra. Pipa tentava se aproximar dele com um esforço absoluto, mesmo correndo risco de qualquer dia desabar. Ela pedia mais corda e o menininho assim fazia que apesar de preocupado não podia impedir a volúpia da Srta. Pipa.

 

Certo dia lá estava ele no mesmo lugar, e já avistava algumas crianças acompanhadas de seu brinquedo, competindo também pela atenção do Sr. Vento e o menino louco de vontade para ver o vôo não se intimidou embora tivesse medo de que não funcionasse. Com tantas pipas competindo pelo mesmo espaço o menininho imaginou não visualizar a navegação no céu de sua propriedade. As correntes de ar apareçam e lá foi subindo a Srta. Um pouco pesada, mas subiu muito rápido para que ninguém chegasse a perceber sua presença no campo. Divertiu-se e quando ele sorria com aquela sensação o vento cessou bruscamente. Estava distante demais quando percebeu que sua querida caía. Correu para tentar protegê-la, mas ela se despencou no chão.

O menininho a pegou carinhosamente, percebendo algumas feridas na mesma e o Sr. Vento passando por perto chamando a atenção para mais algumas tentativas. O menino continuava parado olhando para ela enquanto, o vento insistia, jogando seus cabelos para frente e para trás, chamando a atenção do garoto. “Agora não Sr. Vento”. Ele fora educado sabia que o vento não tinha culpa, ele era inconstante, tinha tanto o que fazer. No fundo o garotinho estava triste porque se sentia culpado, por ter dado tanta corda, por ter permitido tanta liberdade. Deixou o local e foi chorar na porta de casa.

 

Chorou como a criança que era. A mãe estranhou e o indagou se realmente aquela pobre pipa já havia alçado vôo algum dia. “Do jeito que era, parecia um pouco pesada. Talvez ele só tivesse a sensação e o desejo da mesma servir para algo, mas talvez nunca funcionara” . Como não? O pequenino chateara-se, ninguém nunca havia visto, mas ele tinha certeza que funcionava, inclusive o Sr. Vento que deu muito apoio, apesar de ser desengonçada e estranha. A mãe lhe aconselhou consertar a mesma. Foi exatamente o que fez. Mas avisou que guardaria a querida pipa. Ela era muito preciosa para se arriscar tanto assim, talvez encontrasse um local com ventilação mais apropriada. É certo que teria mais cuidado. Linha agora, só com vento. A mãe lhe fala novamente que a função da pipa é voar, se ela não servisse para isso então não serviria para guardar. “Se o vento a rejeitava é porque não servia, se não servia deveria ser descartada”. Sabia que a pipa tinha sido feito para voar, mas ele não a destruiria por isso, se ela não servisse para subir ao céu ele a conservaria mesmo assim para si.

 

Ele nunca deixou de gostar do Sr. Vento, só concordara nunca mais entregar a Srta. Pipa. Sabia que poderia desfrutar de outros benefícios dele, mas a pipa não. A pipa continuaria protegida.

Algum tempo depois foi sondado pelo Vento novamente, temeroso que era, mesmo assim resolveu desfrutar daquela cena bela, pois não esquecera os sorrisos. “Você foi feita para voar, mas calma, não vou te jogar”. Agora sabia que precisava só de um pouco mais de atenção. Voa, voa… só tentava não se deslumbrar tanto e atentar a qualquer mudança na corrente de ar.

 

 

Inspiração: Escrevi ontem à noite. Acho que foi o conto mais rápido que eu fiz. Parece doidice, mas falo de sentimentos. Andei lembrando dos meus sentimentos, que devem está como essa pipa. Linha, só com vento. Para descrever o menino lembrei do meu irmão quando era criança. Quando eu escrevia lembrava dele envolvido com seus brinquedos.

 

Dedicado: A todos que seguram a corda. A todos que têm medo de amar.

Imagem: http://flickr.com/photos/9620382@N07/791725652/

* O título da historia seria O vento e a pipa, mas hoje quando eu procurava uma imagem encontrei essa http://flickr.com/photos/flaviogermano/351092393/ . Adorei a descrição, exatamente como pensei.

 

Gerlandy Leão 

Não é fácil ser linda. A natureza me deu mais do que eu poderia administrar. Desde cedo me destaquei do grupo, todas se espelhavam em mim para tentar parecer comigo ou apenas desejavam-me.

Trago uma beleza exótica, difícil de ser encontrada nas demais de minha espécie. Sempre tive orgulho de ver como os machos olhavam minha rebanada de calda, mas com o tempo fui me cansando de tantos elogios. De repente senti-me incomodada com tantos parando para me ver de perto. Minha família sempre fazia muito esforço e sempre trabalhamos muito para receber como recompensa apenas uma folha que dividíamos entre todos familiares. Eu com toda minha beleza, tinha de me submeter a trabalhos cansativos e que me desgastavam. Eu tão bela e delicada em meio a um monte de bárbaros, resolvi tomar uma decisão, deixar minha prole… Adeus papai… adeus mamãe.

 

Bati asas rumo à procura de algo melhor. Bater asas não, afinal ainda não sou uma borboleta. Busquei um lugar mais apropriado para meu talento e prometi retornar assim que me tornasse uma borboleta e participasse do concurso “Barbolindas”. Creio não ter me apresentado, mas sou uma espécie de lagarta, que ainda não encontrei meu nome na lista da taxonomia criada pelos humanos. Vocês bem percebem que nem só de beleza vive uma futura borboleta, mas adquiri conhecimentos ao conversar com outros insetos. Nunca vi um livro de perto, porque os humanos têm medo de nós e nós temos medo deles nos machucarem, mas alguns colegas não tão temidos por humanos faziam o favor de correr pelas páginas e depois transmitiam a mim. Das formigas além de informações passávamos horas debatendo sobre o que aprendíamos ou algum outro assunto interessante. Já minhas amigas traças sempre me davam trabalho, porque adoravam se alimentar das páginas, mas ao meu pedido elas decoravam tudo o que estava escrito antes de cada refeição. O problema era que se esquecessem algo, seria impossível recuperar o conteúdo, o bom é que elas eram boas decorebas e eu sempre aprendi rápido.

 

O concurso “Barbolindas” é o meu alvo. Lá eles medem não apenas a beleza, mas também o conhecimento das borboletas. Recebemos como prêmio uma árvore de folhas frescas suculentas, ou seja, a garantia de alimento para a minha quarta geração. É uma herança e tanto para meus filhos que ainda nem nasceram. Por este sonho resolvi me afastar destes sugadores e exploradores. Com muita firmeza segui com meus movimentos sinuosos de cabeça para baixo – corpo para cima- rabo para baixo, numa velocidade de 1/5 km por hora. Não sei contar, mas meu amigo Cururu transformou essa medida para mim. Cururu é um sapo legal, eu não sou besta, embora saiba que anfíbios comam borboletas, aproveitei minha fase de lagarta para sensibilizá-lo, assim quando precisar ele não irá me devorar.

 

Quantas folhas desconhecidas no meu caminho que eu almejava saborear, mas nem uma folha, em cada árvore para fazer uma coleção, eu podia recolher. Todas as árvores no meu caminho tinham um dono nem um tanto hospitaleiros, recusando-se a dar-me abrigo. Ai quantas saudades senti de casa, mas não desisti até que finalmente a encontrei, exatamente como via em meus sonhos. Lá estava ela na medida certa, nem tão alta, nem tão baixa. Um atrativo como um Oásis no meio do deserto, com galhos longos e fortes, recheados de folhas, flores e frutos, um convite para o pecado da gula. Eu já havia visto uma dela em uma página de livro que encontrei no lixo. Eu vi muitas árvores, dentre elas a aceroleira, que agora era muito mais atrativa que o desenho no papel. O melhor de tudo é que ela não tinha uma viva alma habitando seus galhos, eu soube sobre alma em uma conversa sobre um livro chamado Bíblia que muitos temem.

 

Apoderei-me então do território, pois finalmente encontrara o lugar onde eu gostaria de passar o resto dos meus dias. Logo me esqueci do concurso, não precisaria ganhar nenhum prêmio, eu já havia encontrando o bem mais precioso.

Resolvi aprender direito onde se localizava meu paraíso para depois buscar as demais lagartinhas da minha numerosa família. Já me preparava para pegar estrada quando fui avistada por um grupinho de crianças que me olhou apavorado, uma delas tentou me pegar, mas deve ter se arrependido ao ter contato comigo. Lembro-me dela correndo aos berros, tentei correr dali, mas minhas perninhas não me ajudavam muito.

 

Quando me espantei estava na minha frente uma adulta. Eu já os havia visto de longe, mas nunca tinha sido percebido por um deles. Eu tremi ao pensar com o que faria comigo. Papai sempre nos contava a história de como nosso tataravô sofreu quando foi avistado por um humano. Uma seringa enfiada no seu corpo e a retirada de todo o líquido de seu corpo, para depois ser esvaziada em um cachorro que passava próximo. Meu tataravô, não agonizou muito, mas conta-se que o pobre cão gritava muito e se esfregava no chão, talvez tentando acabar a sua dor.

 

Agora eu estava frente ao inimigo oficial de todos reinos animal, plantae, fungi, monera, protista. O inimigo numero 1 dos seres vivos, um ser humano. Cururu conversava comigo que se sentia mal por ter que comer outro ser vivo, mas eu comentei-lhe sobre a nossa importância para a cadeia alimentar, pior eram os outros que matavam aos outros sem nenhum motivo, a não ser por diversão. “Lembre-se dos humanos” explicava “eles nem se alimentam da carne um do outro, mesmo assim se destroem”. Acho que eu o consolei. Mas continuando, lá estava ela que mostrou mais cuidado. Mesmo assim eu consegui feri-la, me empurrou para dentro de algo que descobri mais tarde que se tratava de um de um copo descartável e uma tampa que impediu-me de fugir.

 

Fui enclausurada, sem nenhuma luz para ver num recipiente que não me permitia me movimentar muito. Embora eu nunca tenha sido de andar muito por dia, mas eu queria pelo menos a ilusão da liberdade. Não preciso ir, mas se quisesse ir que eu fosse. Pouco a pouco a carcereira vem aqui para me ver ou me mostrar para alguém. Eu consigo entender muitas palavras. Ela tem admiração por mim, é mais uma que me acha bela. A princípio pensei que estivesse aqui por ter invadido território particular, mas começo a entender que minha diferença me fez refém e o pior sem resgate. Agora eu só lembro de minha árvore, meus amigos, minha família, deveria não ter saído de lá, ou não ter desistido do sonho no caminho.

 

Mas agora na escuridão e na companhia dessa única folha que jogaram aqui eu espero um dia de liberdade. Estou com a esperança de que serei livre. Não consigo contar o tempo aqui dentro, por isso não sei quando, mas ouvi uma discussão. Creio que tem gente interessada em me libertar. É minha grande chance. Não tenho nutrientes suficientes, mas vou entrar em processo de metamorfose, pode dá certo. Assim que voltarem já serei uma borboleta e poderei fugir. Então procurarei me isolar mais do que já estou. Sabe dona Aranha eu agradeço todo o esforço em tentar me tirar daqui, mas agora eu só vou precisar de um pouco de sorte e deste seu favor, que transcreva minha narração. Eu aqui dentro e a senhora aí fora, talvez eu nunca veja o seu rosto, mas eu agradeço pela companhia durante esse tempo, se eu não acordar como uma borboleta, a senhora tem toda permissão para falar minha história, senão pode deixar que eu mesma aguardo ser ouvida. Boa noite, e quem sabe até mais ver.

Inspiração: a mesma dessa história https://gerlandy.wordpress.com/2007/07/14/chucrute/

Imagem: folhas de acerola. http://flickr.com/photos/7797920@N04/472801128/in/photostream/

Gerlandy Leão

O Adeus

 

 

 

Aquele olhar é a mais bela lembrança que eu tenho do meu amante Incubus. Vencida a insônia finalmente nos reencontrávamos em mais um sonho que se mostrou no meu sono mais longo desde que o conheci. Aproximou-se de mim com passos lentos e olhar firme meio desconfiado e abraçou-me tão forte. Parecíamos dois loucos de saudade que não se viam há muito tempo. Algo havia mudado, na verdade a cada encontro apresentávamos algo diferente e agora eu apresentava a minha paixão camufalda em uma mera vontade de tê-lo.

 

Meus sentimentos não impediram de perceber que meu Incubus começava a eleger uma nova personagem especial para suas viagens noturnas. Sentia que em breve teria de dividir a atenção dele com outra e em pouco tempo já não seria mais tão especial. Ah! porque me deixara apaixonar por este demônio? Ele havia sido tão gentil me permitindo viver e eu só teria que me divertir, só deveria aceitá-lo como um Incubus, superior e com desejos além de mim. Mas não me incomodava ser a última amante, só temia ser a última amada.

 

Naquele reencontro sentia que ao movimentar mais um passo talvez seria meu último passeio, pois uma nova entrega seria forte para meu coração e este provavelmente não resistiria por muito tempo. Por isso, pela primeira vez lhe disse não, mesmo olhando sua emoção mediante minha recusa, mesmo lutando contra minha vontade de dizer sim, tentando evitar que o amasse mais ainda. Retornou depois para mim apenas como uma visita a alguém querida. Lá estava ele tão gostoso e irresistível , impossível fora confirmar o não. Eu amaldiçoei aquele sentimento mas ele me rendeu um delicioso sabor.

 

O seu corpo deitado sobre o meu encontrou o encaixe perfeito aumentando minha certeza de que havíamos sido feitos um para o outro.  Que sintonia! Mesmo que tudo se mostrasse contrário ali era o nosso momento e eu era a mulher mais amada do mundo. Com minhas pernas o empurrava para mais dentro de mim e minhas mãos deslizavam por suas costas procurando encontrar firmeza. Eu consegui elevar o quadril para mais perto dele em um movimento rotatório ordenando-lhe que apenas obedecesse ao meu comando. Este foi se tornando mais intenso e preciso e fui sentindo, fui alcançando, fui chegando até explodir de prazer. Fitando bem no fundo dos seus olhos expressei mistura de lágrimas de alegria e sorriso de satisfação, não querendo que ele saísse de dentro de mim, desejando que repousasse ali do jeito que estava me olhando e segurando minhas mãos. Eu tentava relaxar meu corpo e acalmar o tremor das pernas e segurar meu leve e bobo sorriso que pelo menos impediu-me de dizer-lhe: Te amo. Seria melhor assim, eu tinha um propósito de evitar o crescimento deste sentimento, mas a belíssima experiência me fizera ainda mais refém.

 

Tudo era tão bonito e mágico numa reunião de selvageria e civilização. Hora ele me colocava de costas sussurrando loucuras ao meu ouvido, hora ele cobria-me de frente falando apenas com seu olhar. Ele mostrava força e eu delicadeza, ele era um demônio e eu ser humano, ele era carne e eu alma, ele era a fera e eu a ferida, ele era Incubus e eu menina. Mas não me deixava expor, eu estava feliz demais e só queria pelo menos mais um segundo ao seu lado.

 

Meu demônio deu-me atenção, cuidado, carinho que a cada gesto seu fazia-me apaixonar-me mais pela sua forma de falar, por suas histórias, por seu sorriso e tudo que vinha dele. Ele era uma metamorfose que apresentava-se às vezes sobrenatural depois como um simples homem assim como eu.

 

Os nossos planos de nos vermos em todos sonhos começara a ser ofuscado pela dúvida de sua visita. Fui surpreendida pela frase dita de jeito tão simplório “quando possível, nós nos teríamos”. Como quando possível? Até ali nós fazíamos estes momentos, não esperávamos milagres, mas agora ele planejava visita a outros sonhos enquanto minhas noites ficariam defasadas pela sua ausência.

 

Tomei a decisão de dizer-lhe que não o esperaria mais, melhor seria passar minhas noites sem aguardá-lo ou mesmo esperando por uma mera coincidência. Eu já o amava muito para pedir-lhe algo como ficar comigo. Ele amava a sua liberdade e eu precisava colocar-me no meu lugar. Não queria que tivesse de ser desleal comigo, por isso tomei aquela decisão. Sei que ele estava confuso, não sabia até mesmo se queria continuar como Incubus, tentando optar, assim como o Superman em um dos seus episódios, abrir mão de seus poderes para deleitar-se com sua amada. Mas Superman sabia o que queria ao escolher a sua amada Louis Lane, quanto ao meu Incubus…

 

Agora meu demônio, depois de compreender minha decisão, me levava de volta para o meu mundoe me deixou deitada com os sintomas de suas vítimas. É certo que não ele mas nosso amor a ele nos enfraquece e e esgota toda nossa energia e vitalidade. Eu chorava devido aquele vazio em mim e toda a saudade me sentindo como a mocinha que depois de tantas aventuras ao lado de King Kong é deixada em local para sua própria proteção, mas entende que o perigo ao seu lado devolve mais cores à sua vida, mesmo assim o adeus era necessário. Eu fiquei no meu mundo enquanto ele retornava ao su, agora mais desconhecido para mim.

 

De fato, sei que fui especial e creio que onde quer que esteja ele jamais me esquecerá e nem eu a ele. Estou de volta à vida, aos meus papéis, às minhas canetas, meus óculos e minha escrivaninha e celebro a vida e como forma de agradecimento eu registro esta bela aventura que vivi.

Gerlandy Leão

Insônia

 

 

O último encontro com meu demônio amante me dera a certeza de que teríamos muitos sonhos juntos. Para isto bastava eu favorecer o nosso encontro perfeito que seria através do meu adormecer, algo bem simples pensava eu. Mas para nós nada fora fácil, pois desde o início pulamos alguns muros que nos impedia assim como Montecquio e Capuleto. Cada um de nós tinha uma vida adversa. Ele- um Incubus- em seu mundo, com sua missão, em suas companhias enquanto eu era apenas um ser humano que tão facilmente se amedrontava. Ele deveria cumprir o seu dever ao me possuir só uma vez, afinal este era o desafio, assim que realizado não tinha porque repeti-lo. Mas me deixara viva e me ensinara a pedir e clamar por ele só talvez não imaginasse que eu clamaria tanto.

 

Aquilo que seria tão simples tornou-se empecilho. Minha ansiedade impediu-me de dormir. Por tantas vezes eu girei na cama inquieta falando “feche os olhos, feche os olhos” … Mas só alcançava poucos segundos que me pertubavam ainda mais. A cada fechar e abrir de olhos eu via o meu demônio tentando se aproximar. Ah! maldita insônia que me tirava sempre de sua presença. Num vai e vem de cochilos eu o encontrava. Uma vez estávamos deitados distanciados por cerca de sete palmos um do outro. Mudos apenas nos olhávamos, levantei-me e tentei pegar em sua mão, mas acordei. Não aceitava aquilo e sabia que precisava adormecer urgentemente pois cada contato frustrado me enchia de mais vontade.

 

Fechei os olhos e encontrei o seu olhar…

Fechei os olhos e lhe expus meus anseios…

Fechei os olhos e meu demônio me respondia “Agora quem ficou doido para devorar-te foi eu, invadir no meio da noite seu quarto e tê-la para mim em toda sua volúpia. Ah! queria está aí. Teu Incubus quer possuir-te inteira”

 

Em um novo fechar de olhos lá estava ele me esperando, não perdi muito tempo e provei imediatamente dos seus beijos. Sabendo da leveza do meu sono coloquei sua mão entre minhas pernas, tentando extrair o máximo daquele momento. Fui surpreendida novamente quando já começava a entrar em êxtase e a ausência de sono interrompeu-nos. Deitada eu tentava de qualquer forma dormir. Minha inquietação incomodava até minha companheira de quarto que me perguntava o que acontecera comigo. Obviamente não adiantaria falar sobre um ser que ela jamais acreditaria existir.

 

Meu Incubus devia pensar que agia assim propositalmetne. Ele comunicou-me em um dos meus breves retornos “Ah! isso é maldade! que maldade! Agora estou louco, não paro de pensar, te quero hoje, agora, já”. Disposta a fazer o que fosse preciso, senti mais uma oportunidade chegando ao perceber o meu corpo relaxando leventemente. Frente a frente com meu amante ficamos nos olhando por um bom tempo, sei que ele não acreditava que ainda conseguiríamos algo, por isso o peguei de surpresa quando parti para cima dele puxando-o pela sua mão e o empurrando-o contra a parede. Com uma fome inexplicável e sem precisar me despir, beijava-o enquanto roçava o meu sexo ao dele. Fiz com que me pressionasse com a face na parede enquanto beijava-me as costas e arrancarra-me as roupas de baixo. A minha preocupação em acordar não me deixava ficar por muito tempo na mesma posição, virei-me então e o puxei para dentro de mim, só a sua mão sobre a minha boca impedia o soar do meu gemido. Eu queria provar mais do seu sabor até que desci implorando que ele derramasse sobre mim o seu gozo. De fato ele chegou a me ouvir mas paralelo a isto despertei-me mais uma vez. Na minha cama, blasfemava e clamava por meu Incubus, pois embora satisfeita não estava saciada.

 

Pós este episódio a insônia reinou por alguns dias, mas me deu uma trégua de poucas horas. Pareci participar de várias baterias de uma gincana, em uma tremenda correria para alcançar minha adorável criatura. Enfim atraí o sono mas teria de pular algumas barreiras e me vi como triatleta vencendo provas, galgando degraus. Driblei todas dificuldades para esperá-lo parecendo um noivo no altar que aguarda ansioso e perturba-se com o atraso da noiva.

 

Quando apareceu, encontrou-me com uma expressão que alternava alegria e exaustão, fruto das frustrantes experiências, da insônia e das etapas cumpridas para chegar até ele. Vários pensamentos fundidos me encheram de nervosismo. Expus-lhe o meu temor de não conseguir manter-me sonolenta por muito tempo e não queria mais iniciar algo com o perigo de ser abortado, como nas últimas vezes, antes que pudesse experimentar novamente aquela sensação deliciosa que ele me permitira na noite do meu sono profundo.

 

Acalmou-me e indagou-me se ainda o queria. Minha afirmativa foi suficiente para nos entregarmos mais uma vez à nossa vontade. Pela primeira vez senti que jogávamos de igual para igual e em minutos não havia nem sombra de temor, pudor ou qualquer sensação que me fizesse travar. Eu era dele por completo e ele me servia obedecendo a todas minhas vontades. Tudo belo entre nós, tivemos nosso momento interrompido mais uma vez, porém desta vez, embora rápido conseguimos o que almejávamos.

 

A experiência tinha sido maravilhosa mas começava a sentir algo. A dor da despedida já era externada a ele por lágrimas. Mesmo sabendo do reencontro na noite seguida, sabia que o hiato de uma parte do dia era suficiente para deixar um vazio dentro de mim. Agora eu o desejava não só com o corpo, mas sobretudo com o coração. Não queria apenas os minutos permitidos por um breve dormitar e sim a sua entrega. É certo que a agora eu havia sido saciada mas não estava mais satisfeita.

 

Enfim, descobri a cura para a minha insônia. Para dormir precisaria apenas parar de querer dormir, só precisaria dá espaço para as coisas agirem naturalmente sem preocupações e assim seguirem ao meu favor. Deveria abrir mão da ansiedade e conformar-me com as noites que não tivesse sua presença… infelizmente eu não estava preparada, havia me apaixonado.

Gerlandy Leão

O Sonho

Dede

 

 

Depois de alguma espera adormeci pesadamente e sonhei. Aspirei a vontade de reencontrar meu amante que não demorou cumprir sua promessa de ter-me. Desta vez não veio me ver mas o poder que tinha sobre mim levou-me até ele. Creio que um encantamento me fez voar ao seu mundo desconhecido por mim. Essa foi uma experiência única e solitária consolada pela certeza do prêmio final. Parecia ter utilizado algo como um pó mágico saído dos contos de fadas que me dera o poder de ser elevada às alturas. Apesar deste momento fantástico, minha viagem foi desacompanhada, é como se Peter Pan em vez de se aventurar apenas tivesse mandado me buscar para morar consigo na Terra do Nunca.

 

Não hesitei, apenas obedeci… não ao demônio mas ao meu próprio apetite. Apesar do desejo senti medo pois ao chegar ao seu mundo me vi abandonada e esquecida por meu Incubus. Afinal o que estava fazendo? Sozinha, fiquei girando procurando por ele, desistindo e tentando acordar e voltar para o conforto do meu querido e real quarto, mas não conseguia. Parecia que o encanto havia me jogado em sono profundo impedindo-me de recuar do objetivo que mais almejava durante tantos sonhos.

 

Lá estava eu em terra firme, refém da ausência do meu Incubus. Até quando me deixaria esperando? Mas ele apareceu com um misto de homem, demônio e deus. Tive receio porque ele era demais para mim. Pensei que pudesse voltar atrás todavia assim como em um pesadelo eu não tinha mais controle e não pude despertar. Não sei como, mas num piscar de olhos estávamos em um espaço tão maravilhoso que mediante a energia dos nossos desejos dava uma beleza única resultando num local suficiente e perfeito para nós que em equivalência ao mundo real não seria apenas cinco mas dez estrelas.

 

Creio que recebi dose extra de encanto ao perceber que estava a dois palmos de altura do chão, onde meus pés tentavam alcançar mas não conseguiam. Minha respiração ficava a cada segundo mais ofegante e meu coração a ponto de explodir. De fato eu estava hipnotizada e sei que se pudesse ver meu rosto certamente me depararia com uma expressão de susto que se transformava em satisfação pouco a pouco. Sentia seu toque e aguardava sempre mais. Seu poder sobre mim era tamanho que eu não precisava expor o que sentia ou precisava, ele simplesmente me lia.

 

Foi quando finalmente ele deitou meu corpo que simplesmente obedecia à sua superiodade, afinal ele era um Incubus e eu uma mera mortal. Apesar de nossas diferenças e do seu poder ele estava ali para me servir. Sabedor dos meus desejos ingênuos, tomou o meu corpo e me fez cair em tentação ao me deitar, me despir, me tocar, me enlouquecer.

 

Meu Incubus não deixou escapar uma parte do meu corpo a ser visitava por sua boca quente. Eu gemia e enlouquecia a cada segundo, agora torcendo para que nunca mais acordasse. Ele provou de meu sabor de uma forma feroz e ao mesmo tempo delicada que só tinha a ação de segurá-lo com minhas mãos puxando-o entre minhas pernas para que não me deixasse enquanto não morresse. Sentia que eu tentava inverter as coisas, agora eu queria drenar suas energias. Eu era uma mistura de tranquilidade e loucura mantendo-me viva, sabedora da minha resistência. Num instante senti que ele era uma parte de mim e eu era parte dele e como em uma dança o movimento formava o nosso sincronismo que parecia se eternizar. De modo firme pegava em meu quadril e puxava para si não deixando espaço para uma fulga caso pretendesse .

 

Repentinamente ele me mostrou o que perturba tantas vítimas. Ele me fez alcançar o prazer máximo quando bruscamente fui elevada ao céu em milésimos de segundo, percorrendo uma distância extema. O retorno violento e prazeroso ao inferno me deixou em transe, mas ao voltar a mim em vez de morrer e pedir socorro eu pedia por mais. Me transformei em uma criancinha pedindo para brincar em um brinquedo perigoso, ignorando ou na verdade desconhecendo a ameça deste ato para o coração.

 

Ah! meu coração. Este não aguentaria por muito tempo. Despertei violentamente, sentindo-me sugada para meu mundo real, até as dores de enfado do meu corpo eu sentia como se tivesse realmente vivido. Voltei a mim ainda na metade da noite, mas eu não conseguia mais cerrar os olhos. Durante o resto da madrugada minha companhia fora apenas as lembranças, eu só procurava acalmar minhas pernas, meu coração, minha mente. Na minha cama a sua mensagem me dava consolo… “Perfeita! perfeita! você é simplesmente perfeita. Tudo foi maravilhoso, especial. Você é especial, minha melhor surpresa”.

 

Meu Incubus me fez morrer e me fez voltar. Eu não sobreviveria a uma mudança tão drástica não fosse pela sua companhia. Me sentia eleita e sabia que se estava viva era porque não seria apenas por um sonho, pois o que ocorrera entre nós provava que não nos distanciaríamos tão cedo. Eu me sentia especial, muito especial.

 

Inspiração: explicada no texto anterior

Gerlandy Leão

 

 

Definições

Dede... rotada

Dede

 

 

 

 

Ah! Incubus.

Essa história sobrenatural me ocorreu há muito tempo, registrá-la é de fato um milagre, pois as vítimas deste ser não resitem muito tempo depois de um encontro.

 

Incubus do verbo incubare significa “deitar-se sobre”. Em resumo, são demônios machos que visitam mulheres mortais e têm sexo com elas durante a noite. As pessoas relatavam visitas durante a madrugada por essas criaturas que as seduziam durante o sono. Estas só davam conta de sua presença quando o ato sexual já estava em andamento ou ao acordar utilizando o demônio como culpado pelo aflorar de sua libido. O Incubus foi apresentado pela igreja como ser maligno que significava pecado devendo, portanto ser evitado. Sua aparição viria em forma de sonho ruim ou pesadelo onde ele drenava a energia da mulher para se alimentar, e na maioria das vezes deixava a vítima morta ou então viva, mas em condições muito frágeis.

 

 

Parecida mais uma história para assustar, este personagem me despertou o interesse por algum tempo, mas era impossível para mim tê-lo próximo um dia e principalmente ser escolhida sua vítima. Sabia da sua existência, mas me sentia afastada do Incubus pelo menos por dois motivos, primeiramente porque eu não acreditava em todo seu poder, mas caso estivesse frente a frente com ele saberia me defender. Acreditava que poderia exorcizá-lo apenas medindo forças. Tal foi o meu engano quando percebi já estava no meu quarto ansiosa por sua visita.

 

Lembro quando raramente via a sua imagem e me chamava atenção por ser diferente de todos que eu tinha visto. Apesar disso não conseguia defini-lo ou caracteriza-lo fisicamente e tão pouco ele me atraia pois eu havia bloqueado qualquer contato com alguém principalmente com um demônio. Sua aproximação se deu por meio de palavra. Eu lia seus sinais em todo lugar que ia, e nossas simples frases tornaram-se em expressões exatas. Eu ficava assustada e inquieta com a sua aproximação e não conseguia entender como pouco a pouco senti-me seduzida por saber mais dele e por querer um minuto de sua atenção. Com o tempo ele não parecia mais uma ameaça ou um ser destinado a sugar minha energia e vitalidade, ao contrário, tinha em mim uma defensora obstinada a sempre falar bem dele mesmo o conhecendo tão pouco.

 

Certo dia ele surpreendeu-me com seu modo direto de se expor. Depois de me pedir desculpas declarou-me o que pretendia fazer comigo detalhadamente. Respondi de modo educado com um sorriso meio temeroso, meio admirado que ele estava absorvido. Não alimentei nenhuma esperança a ele mas não pude deixar de alimentar algo em mim. Ora, tal atrevimento não teria passado impune se ele não tivesse se aproximado de uma forma ímpar a despertar-me curiosidade.

 

Fui tomada por um forte desejo de encontrá-lo e passei a sair à sua procura por todas as noites. Fazia de tudo para estar alerta. Havia me despido de todas as minhas defesas e almejava por um momento com ele. Foram noites e noites solitárias e nenhum encontro com Incubus, nem em palavras e nem fisicamente. Parecia que quanto mais eu o queria mais impossível ficava encontrá-lo.

 

Tentei manter-me acordada bravamente como sentinela porém uma noite não resisti e fui apanhada por um sono e caí na cama. Mal fechei meus olhos fui surpreendida pelo meu Incubus à porta do meu quarto com seu delicioso sorriso e olhar tocando em meu joelho para que eu despertasse. Tal foi minha alegria, parecia não acreditar no que via e o puxei para mim. Eu o queria muito e arrisquei demonstrar isto. Percebi que utilizava a estratégia errada, pois não precisaria ir atrás desta criatura, ele viria até mim e eu teria apenas de adormecer para que ele atacasse em meus sonhos.

 

Ah! este demônio levou-me do meu recinto. Percebi como se deixasse uma outra de mim deitada e dormindo. Eu deixaria alguém limitada para o segui sem medo. Desci por umas escadas até as profundezas, enquanto o seguia minha vontade aumentava juntamente com minha coragem. Sentia-me pronta para deleitar-me com este demônio que agora parecia inofensivo, mas ao mesmo tempo faminto. Finalmente parecia termos encontrado o ambiente favorável para nosso suave prazer. Depois de olhos nos olhos e boca na boa, fomos surpreendidos pelos primeiros raios solares do dia que o enfraquecem. Eu teria de voltar urgentemente para dentro de mim e ele deveria retornar ao seu hábitat.

 

Contrariada retornei ao meu quarto e forma de ser humano. Despertei-me rapidamente e sentada na minha cama sentia pulsar forte o meu coração. Havia sido só um sonho e resultado de tantas informações sobre este ser ou me ocorrera uma experiência sobrenatural? Realmente eu deveria ter ficado exausta de tanta curiosidade, mas era hora de interromper essa viagem. De fato ele não existia.

 

Minha incredulidade só durou até o café da manhã, quando eu o pressenti tão próximo. Não me restou dúvidas quando percebi que verdadeiramente ele me escolhera, me queria e não desistiria enquanto não me tivesse. Agora a lembrança do seu cheiro, seu olhar, seu toque, sua voz me deu certeza da sua existência. A mim só restava aguardá-lo. Sabia que o dia não estava tão longe.

 

Inspiração: Sonhos, literatura, filmes, músicas, diálogos, a realidade e a ficção que fundidos viraram meu texto. Há quem acredite em ETs, há quem acredite em pedaço de gesso. Todo muito acredita em algo esquisito, eu acredito em Incubus.

Imagem: Agradeço a Hilderlande que tão gentilmente aceitou ser personagem da minha história.