Gerlandy Leão

 

 

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Na frente do Cruzeiro no centro do único cemitério público da cidade, depois de se benzer acendeu a vela e a deixou queimando perdida entre tantas outras que procurava iluminar o caminho das almas até chegar ao céu. Aquele não era um lugar agradável para uma criança, com tantas pessoas chorando, velas pingando, sepulturas abandonadas, cachorros perebentos e muro caído. Melhor seria está em casa assistindo algo na TV ou mesmo brincando na rua com os demais coleguinhas. Mas ela precisa estar ali e cumprir o combinado. Só tinha 11 anos, mas sabia que deveria cumprir as promessas feitas. Segurando a coroa de flores esperava a vela terminar de queimar até última gota de parafina.

 

 

A menina apresentou o trabalho na escola para a disciplina de Artes no tempo em que esta ainda acompanhava as datas comemorativas e feriados nacionais. Devia homenagear os mortos em finados e suas flores feitas com papel crepon se destacaram por terem sido feitas com muito cuidado e por exibir um bom acabamento.

 

Uma vizinha risonha, varria a calçada quando a viu chegar com as flores em suas mãos, agradando-se muito pediu para aprender. “- Vou fazer uma coroa dessas flores para catatumba da minha mãe, me ensina?”. Apesar da senhora não oferecer nada pela ajuda a menina gostou da idéia, afinal de contas ela fazia as cocadas mais gostosas do mundo, assim poderia quem sabe se tivesse sorte, comer uma todo dia gratuitamente.

 

 

Dona Francisquinha era uma viúva que vivia sozinha com seu papagaio há muitos anos. Vez ou outra recebia a visita da filha e dos netos. Era aquela senhora amada e odiada ao mesmo tempo pelas crianças da rua. Amada por ter as melhores goiabeiras da região, pelos bombons e roupas que doava, pelas historinhas que contava, pelo abraço macio depois da simulação de uma palmada e pelo cheiro doce que exalava. “- Ela cheira a cocada e goiabada”, diziam as crianças. Mas odiada exatamente por não deixar as crianças “roubarem” as goiabas. Só quando tivessem maduras, mas meninos não esperam e organizavam a subida nas árvores escondidos dos olhos dela. Quando eram surpreendidos eram denunciados aos pais. “- Essa velha fofoqueira” e esqueciam do cheiro de doce. Mas ela sempre conseguia uma trégua, criança, diferentemente de adulto, não guarda rancor por muito tempo.

 

 

No primeiro dia de confecção das flores, Dona Francisquinha brigou porque ela não fez o sinal da cruz diante da imagem de Nossa Senhora pendurada na parede da sala. “-Meu Deus, aonde chegaremos? Minha filha você ainda é pagã?” perguntou à menina recebendo como resposta apenas uma mexida de ombros da e a boca torta como se não entendesse o que dizia. A garota mostrava empenho em ensinar a arte que criara, “dobre o papel assim, corta aqui, enrole assim”. Como imaginara, todo dia tinha um doce, mas tinha também uma mensagem nova.

 

 

Uma vez reclamou porque ela estava descalça, chamando atenção que aquilo deixaria seus pés feios e os rapazes jamais se interessariam por alguém de pés tão relaxados. “ – Por falar em rapazes” prosseguia, “- Já está na hora de deixar de andar com tantos meninos brincando pela rua ou pelos campos. Parece mais um macho do que uma menina”. Reclamava com as roupas que vestia. “- Minha filha você tem que se civilizar. Já ta na hora de usar um corpete”. Ela ouvia com atenção e sem silêncio enquanto apertava a pétala de uma flor.

 

 

Em poucos dias foi percebendo que a senhora só cuidava da casa e não mostrava nenhum interesse em aprender. “-Vai fazendo aí minha filha, vou ver aqui o feijão” ou “-Vou só varrer a casa”, ou então “-Olha! ta serenando, vou tirar a roupa do sol”. E a garota se irritou, só falou para a mãe que não ia mais. A velha tava fingindo que desejava aprender, mas ela queria era trabalho de graça e que fizesse a coroa para todos os parentes falecidos dela. A mãe perguntou pelos agrados que a senhora fazia e ela dizia, “- não paga mamãe, não paga”.

 

 

Deixou de ir. A casa de Dona Francisquinha estava repleta de papel recortado, mas ela simplesmente deixou de ir sem explicar o motivo. Até pensou em dizer: “- A senhora não quer aprender, só quer me explorar”, mas não recebeu nenhuma pergunta. No sábado a noite, a velhinha passou na casa dela e entregou-lhe um rosário. E fingiu que não percebera sua ausência e a convidou para tomar café da manhã no domingo, pois tinha uma surpresa. Café da manhã na sua casa era irrecusável, já podia imaginar a fartura da mesa.

 

 

De manhã cedo estava à porta e foi recepcionada pelo sorriso da senhora. Depois de se deliciar com as guloseimas juntamente com os netos de Dona Francisquinha que a visitavam naquele domingo, foi chamada ao quarto e recebeu um embrulho que continha um vestido. Não era uma cor que a agradava muito, mas presentes sempre eram bem vindos. Depois de vesti-lo viu pelo espelho que estava bonita. Agora só faltava amarrar o cabelo e calçar a sandália. “- Está linda. Ta parecendo uma mocinha de verdade”. Aproveitando o ensejo, convidou a garota para passear e mostrar a roupa nova pelas redondezas. De novo aproveitando o caminho, a levou à igreja. E durante o caminho falou sobre os santos, sobre os evangelistas, sobre como os bárbaros foram civilizados pela Santa Igreja Católica, sobre o céu, sobre o inferno.

 

 

A menina continuava calada ouvindo atentamente a velhinha que se mostrava empolgada em ter quem a escutasse. Repentinamente lembrou-se de perguntar por que os mortos precisavam de flores já que não podiam ver “- É claro que podiam”. E recomeçou a falar sobre céu, que as flores agradavam aos mortos porque embelezava e dava paz e que os hereges acreditavam que podiam dá até comida aos mortos, mas isso era errado, o certo era oferecer flores e acender velas às pessoas que amamos, pois mesmo que os vivos não pudessem vê-los eles se agradavam muito. “- Por isso preciso de suas flores, agora entende?”.

 

 

Encorajada novamente a menina percebeu a sua missão e resolveu voltar com a velhinha para sua casa e terminar o trabalho que começara. Ao chegar em casa admiraram-se com as flores e demais papeis amassados e jogados no saco de lixo pela filha que aproveitava a visita para fazer faxina. Depois de reclamações a filha pergunta o que a mãe queria com aquela porcaria, pois seu pai, sua avó, seus tios, mereciam homenagens mais belas. “- Por que não compramos as flores?” A velhinha dizia que elas estavam muito caras. A filha insistia que tinha dinheiro, mas ela preferia não. A filha continuava “- por que não leva as flores do seu jardim”, e a mãe explicava que não era justo matar para oferecer aos mortos. O jardim já estava tão belo e ela teve tanto trabalho para vê-lo daquele jeito, que continuasse assim. E o papel era sem graça, já estava morto, já havia matado uma árvore e ganhava vida através da forma que recebia das mãos da garota. Por isso ela havia amado tanto as flores de crepon.

 

 

Recomeçaram o trabalho apesar do desperdício de vários dias de trabalho que foram para a lata de lixo. E prosseguiram, menina modelando as pétalas, a velhinha com outros afazeres, mas sempre contando alguma história, ou dando alguma sugestão para sua vida. Um dia a menina encontrou dona Francisquinha chorando na cama e lhe perguntou o que tinha. Ela disse que não era nada, só estava com medo de não dar tempo terminar as coroas, pois o dia dos finados estava próximo. Se não terminasse ia ter que arrancar as flores do jardim. A menina prometeu que terminaria tudo a tempo e que iria ao cemitério decorar o lar dos mortos juntamente com ela. A velhinha a abraçou com seu cheiro doce e a avisou que tanto a morte como a vida deveria ser valorizada e respeitada.

 

 

No dia seguinte a garota foi acordada pela mãe, “- Filha, como Dona Francisquinha diria para alguém que uma pessoa morreu?”. Ela pensou, mas disse que provavelmente ela diria que havia dormido o sono profundo, ou descansado, ou ido ao encontro de Nossa senhora… “- Pois foi isso filha. Dona Francisquinha foi ao encontro de Nossa Senhora”. Além do susto, veio aquela sensação do que sentir, do que fazer. Era a primeira pessoa próxima que via morrer. Sabia que sentiria muita falta, mas pensava por que ela se afeiçoara tanto e nos últimos dias se intensificara mais.

 

 

Então era isso. Dona Francisquinha sabia que estava morrendo e tudo que queria era uma companhia. Por traz da história das lindas flores, havia muita coisa. Ela queria deixar seu ensinamento sobre morte para alguém, queria valorizar aquele trabalho que fazia, mesmo sendo tão sem graça. Agora ela olhava as flores de papel e não via nenhuma beleza, a não ser pelas próprias palavras de Dona Francisquinha de que se tratava em dar vida a algo morto. De fato ela queria a coroa para si. Por mais que falasse que acreditava que os mortos podiam ver, na verdade queria estar viva para ver como alguém se dedicaria a algo para ela. No fundo a velhinha duvidava de tudo o que aprendera durante a vida sobre a morte. Ela não queria ver quando morta, queria ver agora. A menina sabia que a velhinha morrera acreditando que ela cumpriria a promessa e valorizaria o que havia feito em vida ao entender que vale muito mais do que homenagens póstumas. E agora a velhinha sabia que a filha talvez em cima da hora compraria algumas flores anualmente, já que ela tinha dinheiro.

 

 

Algumas pessoas apareceram no velório, outras foram ao cemitério e a menina não se desgarrou de sua coroa. Ficou de longe visualizando as homenagens enquanto aguardava a vela queimar no Cruzeiro. Depois que todos saíram da sepultuta aproximou-se e deitou a coroa de papel em meio a tantas rosas e outras flores belas. E entendeu que a velhinha não era um jesuíta a civilizando, mas uma pessoa que dizia: Acredite duvidando.

 

 

 

 

Inspiração: Ainda estou movida pelo sentimento mórbido do início do mês de novembro. Juntei características de três velhinhas que conheci.

 


 

Nomes: Só tem um mesmo. Como já falei e falarei, quando necessário citar nomes utilizarei nome de avós e/ou bisavós paternos ou maternos para não correr risco de parecer coincidência, ou porque meu repertório de criatividade para nome é fraco mesmo.

comentários: https://gerlandy.wordpress.com/2007/11/09/flores-de-crepon/

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4 Respostas to “Flores de Crepon”

  1. Rosana Says:

    Gostaria se pudesse me dar umas dicas para um aniversario de minha sobrinha de 15 anos, vamos fazer havainos sabe , e gostaria de moldes de flores de crepon e se tiver outra ideia agradeço muito obrigada abraços

  2. Gislaine Says:

    Gostaria se pudesse me dar umas dicas para um chá de senhoras,queria idéias de flores de crepon e se tiver outra ideia agradeço muito obrigada abraços

  3. rose Says:

    Gostaria se pudesse me dar umas dicas para um chá de senhoras,queria idéias de flores de crepon e se tiver outra ideia agradeço muito obrigada abraços

  4. ANA ANGELICA DE FREITAS Says:

    Gostaria de puder ver sim, moldes de flores com papel crepom.
    Preciso enfeitar um altar dos deuses. Tudo sobre a ìndia, e isso sim seria o máximo.
    Vou aguardar moldes de flores com papel crepom.
    Um abraço.

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