Gerlandy Leão

Não é fácil ser linda. A natureza me deu mais do que eu poderia administrar. Desde cedo me destaquei do grupo, todas se espelhavam em mim para tentar parecer comigo ou apenas desejavam-me.

Trago uma beleza exótica, difícil de ser encontrada nas demais de minha espécie. Sempre tive orgulho de ver como os machos olhavam minha rebanada de calda, mas com o tempo fui me cansando de tantos elogios. De repente senti-me incomodada com tantos parando para me ver de perto. Minha família sempre fazia muito esforço e sempre trabalhamos muito para receber como recompensa apenas uma folha que dividíamos entre todos familiares. Eu com toda minha beleza, tinha de me submeter a trabalhos cansativos e que me desgastavam. Eu tão bela e delicada em meio a um monte de bárbaros, resolvi tomar uma decisão, deixar minha prole… Adeus papai… adeus mamãe.

 

Bati asas rumo à procura de algo melhor. Bater asas não, afinal ainda não sou uma borboleta. Busquei um lugar mais apropriado para meu talento e prometi retornar assim que me tornasse uma borboleta e participasse do concurso “Barbolindas”. Creio não ter me apresentado, mas sou uma espécie de lagarta, que ainda não encontrei meu nome na lista da taxonomia criada pelos humanos. Vocês bem percebem que nem só de beleza vive uma futura borboleta, mas adquiri conhecimentos ao conversar com outros insetos. Nunca vi um livro de perto, porque os humanos têm medo de nós e nós temos medo deles nos machucarem, mas alguns colegas não tão temidos por humanos faziam o favor de correr pelas páginas e depois transmitiam a mim. Das formigas além de informações passávamos horas debatendo sobre o que aprendíamos ou algum outro assunto interessante. Já minhas amigas traças sempre me davam trabalho, porque adoravam se alimentar das páginas, mas ao meu pedido elas decoravam tudo o que estava escrito antes de cada refeição. O problema era que se esquecessem algo, seria impossível recuperar o conteúdo, o bom é que elas eram boas decorebas e eu sempre aprendi rápido.

 

O concurso “Barbolindas” é o meu alvo. Lá eles medem não apenas a beleza, mas também o conhecimento das borboletas. Recebemos como prêmio uma árvore de folhas frescas suculentas, ou seja, a garantia de alimento para a minha quarta geração. É uma herança e tanto para meus filhos que ainda nem nasceram. Por este sonho resolvi me afastar destes sugadores e exploradores. Com muita firmeza segui com meus movimentos sinuosos de cabeça para baixo – corpo para cima- rabo para baixo, numa velocidade de 1/5 km por hora. Não sei contar, mas meu amigo Cururu transformou essa medida para mim. Cururu é um sapo legal, eu não sou besta, embora saiba que anfíbios comam borboletas, aproveitei minha fase de lagarta para sensibilizá-lo, assim quando precisar ele não irá me devorar.

 

Quantas folhas desconhecidas no meu caminho que eu almejava saborear, mas nem uma folha, em cada árvore para fazer uma coleção, eu podia recolher. Todas as árvores no meu caminho tinham um dono nem um tanto hospitaleiros, recusando-se a dar-me abrigo. Ai quantas saudades senti de casa, mas não desisti até que finalmente a encontrei, exatamente como via em meus sonhos. Lá estava ela na medida certa, nem tão alta, nem tão baixa. Um atrativo como um Oásis no meio do deserto, com galhos longos e fortes, recheados de folhas, flores e frutos, um convite para o pecado da gula. Eu já havia visto uma dela em uma página de livro que encontrei no lixo. Eu vi muitas árvores, dentre elas a aceroleira, que agora era muito mais atrativa que o desenho no papel. O melhor de tudo é que ela não tinha uma viva alma habitando seus galhos, eu soube sobre alma em uma conversa sobre um livro chamado Bíblia que muitos temem.

 

Apoderei-me então do território, pois finalmente encontrara o lugar onde eu gostaria de passar o resto dos meus dias. Logo me esqueci do concurso, não precisaria ganhar nenhum prêmio, eu já havia encontrando o bem mais precioso.

Resolvi aprender direito onde se localizava meu paraíso para depois buscar as demais lagartinhas da minha numerosa família. Já me preparava para pegar estrada quando fui avistada por um grupinho de crianças que me olhou apavorado, uma delas tentou me pegar, mas deve ter se arrependido ao ter contato comigo. Lembro-me dela correndo aos berros, tentei correr dali, mas minhas perninhas não me ajudavam muito.

 

Quando me espantei estava na minha frente uma adulta. Eu já os havia visto de longe, mas nunca tinha sido percebido por um deles. Eu tremi ao pensar com o que faria comigo. Papai sempre nos contava a história de como nosso tataravô sofreu quando foi avistado por um humano. Uma seringa enfiada no seu corpo e a retirada de todo o líquido de seu corpo, para depois ser esvaziada em um cachorro que passava próximo. Meu tataravô, não agonizou muito, mas conta-se que o pobre cão gritava muito e se esfregava no chão, talvez tentando acabar a sua dor.

 

Agora eu estava frente ao inimigo oficial de todos reinos animal, plantae, fungi, monera, protista. O inimigo numero 1 dos seres vivos, um ser humano. Cururu conversava comigo que se sentia mal por ter que comer outro ser vivo, mas eu comentei-lhe sobre a nossa importância para a cadeia alimentar, pior eram os outros que matavam aos outros sem nenhum motivo, a não ser por diversão. “Lembre-se dos humanos” explicava “eles nem se alimentam da carne um do outro, mesmo assim se destroem”. Acho que eu o consolei. Mas continuando, lá estava ela que mostrou mais cuidado. Mesmo assim eu consegui feri-la, me empurrou para dentro de algo que descobri mais tarde que se tratava de um de um copo descartável e uma tampa que impediu-me de fugir.

 

Fui enclausurada, sem nenhuma luz para ver num recipiente que não me permitia me movimentar muito. Embora eu nunca tenha sido de andar muito por dia, mas eu queria pelo menos a ilusão da liberdade. Não preciso ir, mas se quisesse ir que eu fosse. Pouco a pouco a carcereira vem aqui para me ver ou me mostrar para alguém. Eu consigo entender muitas palavras. Ela tem admiração por mim, é mais uma que me acha bela. A princípio pensei que estivesse aqui por ter invadido território particular, mas começo a entender que minha diferença me fez refém e o pior sem resgate. Agora eu só lembro de minha árvore, meus amigos, minha família, deveria não ter saído de lá, ou não ter desistido do sonho no caminho.

 

Mas agora na escuridão e na companhia dessa única folha que jogaram aqui eu espero um dia de liberdade. Estou com a esperança de que serei livre. Não consigo contar o tempo aqui dentro, por isso não sei quando, mas ouvi uma discussão. Creio que tem gente interessada em me libertar. É minha grande chance. Não tenho nutrientes suficientes, mas vou entrar em processo de metamorfose, pode dá certo. Assim que voltarem já serei uma borboleta e poderei fugir. Então procurarei me isolar mais do que já estou. Sabe dona Aranha eu agradeço todo o esforço em tentar me tirar daqui, mas agora eu só vou precisar de um pouco de sorte e deste seu favor, que transcreva minha narração. Eu aqui dentro e a senhora aí fora, talvez eu nunca veja o seu rosto, mas eu agradeço pela companhia durante esse tempo, se eu não acordar como uma borboleta, a senhora tem toda permissão para falar minha história, senão pode deixar que eu mesma aguardo ser ouvida. Boa noite, e quem sabe até mais ver.

Inspiração: a mesma dessa história https://gerlandy.wordpress.com/2007/07/14/chucrute/

Imagem: folhas de acerola. http://flickr.com/photos/7797920@N04/472801128/in/photostream/

Comentários: https://gerlandy.wordpress.com/2007/09/12/por-folhas-apetitosas/

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