Gerlandy Leão

 

 

Sentado no chão vestindo apenas uma bermuda vermelha, o menino dispensava atenção na construção de sua pipa. Poucas coisas o desconcentravam, como às vezes o catarro escorrendo pelas narinas que ele nem perdia tempo a não ser fungando para dentro, ou às vezes retirando da face o cabelo liso cortado em forma de cuia. Cola, papel seda, linha, tesoura e talos espalhados ao seu redor, eram os únicos que faziam companhia.

Pouco a pouco seu objeto ganhava forma. Ele orgulhava-se de possuir algo tão belo, tão simples, mas seu. Prometera todo cuidado à sua querida pipa, feita com tanto amor e carinho. Ele tinha outras, mas essa era especial. Agora que aprendera a confeccionar, seria fácil fazer outras, mesmo assim esta era importante e merecia a atenção devida.

 

Correu para mostrar sua querida aos coleguinhas, mas cada um tinha a sua também. O máximo que conseguiram expressar, foi “eu também tenho uma” ou então “ que legal”. No fundo eles duvidavam que ela fosse capaz de funcionar. Mas ele não estava interessado na opinião dos colegas, o que importava era o vento querê-la. Agora só faltava ele mostrar ao Sr. Vento e saber se este estava disposto dá vida à sua amada.

 

Correu para um lugar um pouco isolado e distante de outras pipas, não que fosse egoísta, mas apesar de saber da beleza de seu objeto sabia que as demais eram muito mais bonitas, muito mais interessantes. O menininho muito animado iniciou as tentativas de vôo sozinho mesmo, o que deu um pouco mais de trabalho. Quando a Srta. Pipa se elevou ele foi tomado de uma grande alegria quase não acreditava, realmente funcionava. Os olhos brilhavam, e ele sorria para os lados desejando que todos que duvidaram na possibilidade desta em vagar pelo ar, estivessem ali para ver como o vento se agradara da mesma. Por toda a tarde ele deu corda e mais corda para ela voar pelo céu com o Sr. Vento. Embora ele quisesse mostrar o feito a todos sabia que a presença dos demais moleques poderia fazer mal, pois estes competiriam pelo mesmo espaço ou tentariam boicotar seu vôo uma vez que provara que a pipa resistiria.

 

No fim da tarde voltou para casa muito satisfeito com o que tinha visto. No dia seguinte retornou e depois de muita dificuldade conseguiu fazer a pipa voar novamente. Mas via que estava mais difícil. Não teve a mesma liberdade do dia anterior, mas via a mesma percorrer, subir e descer. Isto não diminuiria a sua alegria. Sabia que o vôo não era tão livre como o dia anterior, mesmo assim achava belo. Por alguns dias ficou assim, Sr. Vento às vezes com intensidade outras vezes não. Ele começou a observar um pouco mais no que ocorria. Percebia que quando Sr. Vento não aparecia com tanta freqüência a Sra. Pipa tentava se aproximar dele com um esforço absoluto, mesmo correndo risco de qualquer dia desabar. Ela pedia mais corda e o menininho assim fazia que apesar de preocupado não podia impedir a volúpia da Srta. Pipa.

 

Certo dia lá estava ele no mesmo lugar, e já avistava algumas crianças acompanhadas de seu brinquedo, competindo também pela atenção do Sr. Vento e o menino louco de vontade para ver o vôo não se intimidou embora tivesse medo de que não funcionasse. Com tantas pipas competindo pelo mesmo espaço o menininho imaginou não visualizar a navegação no céu de sua propriedade. As correntes de ar apareçam e lá foi subindo a Srta. Um pouco pesada, mas subiu muito rápido para que ninguém chegasse a perceber sua presença no campo. Divertiu-se e quando ele sorria com aquela sensação o vento cessou bruscamente. Estava distante demais quando percebeu que sua querida caía. Correu para tentar protegê-la, mas ela se despencou no chão.

O menininho a pegou carinhosamente, percebendo algumas feridas na mesma e o Sr. Vento passando por perto chamando a atenção para mais algumas tentativas. O menino continuava parado olhando para ela enquanto, o vento insistia, jogando seus cabelos para frente e para trás, chamando a atenção do garoto. “Agora não Sr. Vento”. Ele fora educado sabia que o vento não tinha culpa, ele era inconstante, tinha tanto o que fazer. No fundo o garotinho estava triste porque se sentia culpado, por ter dado tanta corda, por ter permitido tanta liberdade. Deixou o local e foi chorar na porta de casa.

 

Chorou como a criança que era. A mãe estranhou e o indagou se realmente aquela pobre pipa já havia alçado vôo algum dia. “Do jeito que era, parecia um pouco pesada. Talvez ele só tivesse a sensação e o desejo da mesma servir para algo, mas talvez nunca funcionara” . Como não? O pequenino chateara-se, ninguém nunca havia visto, mas ele tinha certeza que funcionava, inclusive o Sr. Vento que deu muito apoio, apesar de ser desengonçada e estranha. A mãe lhe aconselhou consertar a mesma. Foi exatamente o que fez. Mas avisou que guardaria a querida pipa. Ela era muito preciosa para se arriscar tanto assim, talvez encontrasse um local com ventilação mais apropriada. É certo que teria mais cuidado. Linha agora, só com vento. A mãe lhe fala novamente que a função da pipa é voar, se ela não servisse para isso então não serviria para guardar. “Se o vento a rejeitava é porque não servia, se não servia deveria ser descartada”. Sabia que a pipa tinha sido feito para voar, mas ele não a destruiria por isso, se ela não servisse para subir ao céu ele a conservaria mesmo assim para si.

 

Ele nunca deixou de gostar do Sr. Vento, só concordara nunca mais entregar a Srta. Pipa. Sabia que poderia desfrutar de outros benefícios dele, mas a pipa não. A pipa continuaria protegida.

Algum tempo depois foi sondado pelo Vento novamente, temeroso que era, mesmo assim resolveu desfrutar daquela cena bela, pois não esquecera os sorrisos. “Você foi feita para voar, mas calma, não vou te jogar”. Agora sabia que precisava só de um pouco mais de atenção. Voa, voa… só tentava não se deslumbrar tanto e atentar a qualquer mudança na corrente de ar.

 

 

Inspiração: Escrevi ontem à noite. Acho que foi o conto mais rápido que eu fiz. Parece doidice, mas falo de sentimentos. Andei lembrando dos meus sentimentos, que devem está como essa pipa. Linha, só com vento. Para descrever o menino lembrei do meu irmão quando era criança. Quando eu escrevia lembrava dele envolvido com seus brinquedos.

 

Dedicado: A todos que seguram a corda. A todos que têm medo de amar.

Imagem: http://flickr.com/photos/9620382@N07/791725652/

* O título da historia seria O vento e a pipa, mas hoje quando eu procurava uma imagem encontrei essa http://flickr.com/photos/flaviogermano/351092393/ . Adorei a descrição, exatamente como pensei.

Comentários: https://gerlandy.wordpress.com/2007/09/13/sem-vento-nao-ha-pipa/

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3 Respostas to “Sem vento não há pipa”

  1. jabutinha Says:

    essa historia é muito grande, não tenho paciencia para ler… ta arrange uma historia menor fui

  2. ésiim Says:

    éé muiito grandão, pirental

  3. eu Says:

    ah num sei néh eu li tudo mas achei cumprida encurtyah ela tah muito interessante]

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